26 de fevereiro de 2017

John Frusciante em “The Heart is a Drum Machine”

Depoimento completo de John Frusciante ao "The Heart is a Drum Machine", um documentário de 2008 de Christopher Pomerenke, que faz a pergunta: "O que é música?". Frusciante dá uma verdadeira aula de 45 minutos falando sobre sua percepção do que é música, sobre a mídia, a quarta dimensão e a sua vida.

Vídeo legendado:



Transcrição do depoimento:

Obrigado de novo, John, por se juntar a nós e participar desse filme. Falamos mais cedo, na casa, sobre os tipos de criatividade da natureza e a sua vontade de imaginar e criar coisas. Talvez você possa falar sobre isso.

"Eu penso que, sabe, a força que nos criou se expressa sozinha através da nossa existência. Não acho que uma ideia musical começa no seu cérebro, acho que começa num lugar antes disso, um lugar que não temos nenhum contato direto. Acho que cada coisa que fazemos, cada coisa que criamos é a natureza se expressando do mesmo modo que uma flor desabrocha ou uma árvore nasce do chão, é a natureza se expressando. Você poderia dizer que a árvore expressa a si mesma pelo jeito que os galhos se mexem, mas é a força que comanda a natureza que nós não...a árvore é a aparência visível, a coisa visível que aparece para nossos cinco sentidos. Mas não acho que essa seja a fonte do motivo de tudo se perpetuar a todo momento, sabe? Música é algo inefável, acho que palavras não podem dizer nada bom para nos dar um verdadeiro entendimento dela. Somos capazes de fazer contato com essa corrente, a força criativa do universo, a fonte, Deus, ou do que você quiser chamar isso. Somos capazes, de certa forma, de nos conectarmos com a inteligência disso quando aprendemos uma linguagem musical, aprendemos um instrumento musical, como identificar um som e um sentimento e como gradualmente expressar esse sentimento através de um instrumento, e assim...o mais...acho que...não é apenas...tipo, nós... a ideia de alguém se considerar responsável por uma música é ridícula. Estamos apenas atuando dentro das leis da natureza, que nos dá as possibilidades que exploramos com a inteligência que recebemos. Você tem... algo como os espectros de frequências de baixo para cima, é assim que trabalhamos com isso, isso está aqui, mesmo que nós não estejamos. Isso existe como parte da estrutura da realidade física. Nossos cérebros aprendem a interagir com isso quando aprendemos um instrumento...ou quando você usa sua voz de uma certa maneira. Mas as possibilidades estão se apresentando nesse tipo de forma invisível e silenciosa, elas apenas estão aí, sabe? O som, as leis da acústica são o que são, os espectros de frequência são o que são, a escala de doze notas até a oitava era algo esperando para ser descoberto, mas já era uma possibilidade matemática antes de...Qual é o nome dele? Pet... Pet...Ah, merda. Você lembra o nome dele?"

Pitágoras.

"Pitágoras! Pitágoras pensou isso e então...Sabe, eu acredito nessas coisas. Bob Moog disse em um documentário que “não é sobre inventar algo, aquilo que estava esperando para ser inventado”. É assim com qualquer tipo de música. Acho que é uma grande mentira que começou a perpetuar desde que a fábrica de estrelas em Hollywood começou...a fábrica de estrelas em Hollywood perpetua uma mentira que é que a imagem é tudo. Que a pessoa, que a coisa responsável por um grande ator, ou um grande músico é apenas fruto do mercado da música. Eles colocaram isso na cabeça das pessoas, que a imagem física da pessoa e o nome da pessoa são responsáveis pela criação do que eles fazem. E isso não é o que cria isso. O que cria isso é a imaginação e o que torna possível para uma pessoa estar no lugar certo e na hora certa em suas vidas para criar o que criam. Tem a ver com uma estrutura bem complexa da mente, da alma e do sistema nervoso, tudo, todas essas coisas desconhecidas que se instalam no subconsciente, que pode estar estruturado tanto por coisas terríveis quanto por boas, sabe? Uma pessoa pode ser nada mais do que abusada e colocada pra baixo em sua vida inteira, e por qualquer razão, sua vontade de viver, seu amor pela música, seus sentimentos por música e todas as merdas que aconteceram, tudo se combina para fazer a perfeição, sabe? Digo, por exemplo, alguém como Jimi Hendrix, que tinha uma vida muito difícil enquanto crescia, entretanto foi exatamente isso que o fez a pessoa capaz de fazer aquela linda e perfeita música que ele fez. Ou algum tipo de desvantagem, como Beethoven ser surdo. Coisas que parecem ser desvantajosas, de alguma maneira na rede complexa da inteligência do universo, acabam apontando para a perfeição. Realmente não acho que alguém faria essas coisas com uma vida perfeita. Essas são coisas que não podem ser explicadas, ninguém entende como...sabe...por que isso resulta nisso, mas não é por causa da imagem de Jimi Hendrix, não é porque ele dançava do jeito que dançava, ou porque a porra do nome dele era Jimi Hendrix, sabe? Essas coisas não tem sentido. O jeito que o mercado usa esses meios de comunicação perpetuou essa ideia de que o importante é que ele é “o maior guitarrista de todos os tempos!” ou “Jimi Hendrix, ali está sua foto, é ele!”. A única foto verdadeira dele é a música dele, sabe? A única coisa que deveríamos colocar num pedestal é o trabalho da imaginação de alguém e a própria imaginação deveria ser cuidada pelas pessoas que tem a responsabilidade de levar a música de alguém para um público, sabe? É a verdadeira estrela de tudo. Não acho que o ser humano é a estrela, não acho que um nome é a estrela, acho que a imaginação é a estrela, apenas porque é algo que você não pode embrulhar, algo que você não pode tirar uma foto, não é uma coisa que você pode medir: “é a número 1”, “vendeu tanto...”, “esse tanto de gente adora”, “esse tanto de gente veio ver”. Você não pode...Não há jeito de quantificar a imaginação e não há jeito de vendê-la diretamente.

É tudo o que é...Quando comecei, eu realmente pensava nesse “eu” e sobre o que esperar. Depois de anos metido no meu quarto treinando o tempo todo. Eu pensava que eu era eu e que eu estava esperando ser bom, e só. Entrei numa banda que, na época, era minha banda favorita, e então...não era o mesmo tipo de desenvolvimento musical que você pode ter ao seguir uma intuição, seguir os seus interesses, sua imaginação e, de repente, se topar com alguma coisa que realmente parece ser o que fazer. No meu caso, eu entrei na banda e, basicamente, estava numa pressão tremenda de ser querido, de ser bom, e aos poucos fui percebendo que todos esses tipos de preocupações realmente atrapalham o processo criativo e realmente os sufoca. Quanto mais eu saia da linha...quanto mais eu parava de acreditar que era eu ali fazendo aquilo, mas quanto mais eu começava a permitir a força que estava me fazendo sentir o que eu sentia, de ser a coisa que carregava a coisa toda, e comandava a coisa toda, descobri que a música apenas estava ali. Não foi algo que teve que ser forçado, não tive que me pressionar para fazer, apenas senti que algo estava acontecendo. E... sabe? Infelizmente eu já estava fora de mim por me desanimar com tanta pressão por alguns anos, mas na época que eu estava fazendo isso, eu realmente não entendia o que eu estava sentindo, o que eu sentia eu não podia articular tão bem naquela época como hoje, mas acabei tendo esse sentimento bem distinto de que a imagem não era a coisa e que não eram as pessoas os responsáveis por fazer isso e, de alguma forma, fazendo parte do mundo que eu me encontrava naquela época, eu estava interrompendo o fluxo da criatividade, que estava gradualmente...eu estava gradualmente perdendo contato com esse sentimento que eu tinha, então eu acabava indo para bem longe em outra direção e muitas vezes gastando meu tempo pintando por cinco anos, com nenhum pensamento sobre que os produtos da minha imaginação valeriam algo para qualquer pessoa. Foi uma coisa muito saudável para se fazer naquele tempo.

Então, sim, quando estou me apresentando, digo...Você tem... É um pouco estranho. Gosto mais de gravar do que tocar ao vivo porque você realmente... fecha seus olhos, especialmente gravando sozinho. Você fica sozinho com as forças da música, não tem nenhuma outra distração, não há possibilidades de seu cérebro ir para outro lugar. Se você é uma pessoa física de pé na frente de pessoas, você recebe certas descargas...Com sorte, é a transmissão de energia entre o performer e o público, o público e o performer, o que eu gosto muito. Adoro ver o rosto das pessoas sorrindo, adoro ver, sabe, o brilho nos olhos das pessoas, essas coisas...É tipo...o que me faz adorar, sabe?"

Isso te pressiona?

"Mas, sabe, eu gosto de estar no palco e fechar meus olhos. Aos poucos começo a parar de me preocupar em entreter o público de alguma forma, porque descobri que essas coisas se tornam um vício, em pensar no que você tem que fazer para animar as pessoas, pular, essas coisas, você começa a fazer porque sente, mas eventualmente, como qualquer vício, você apenas começa a fazer e...comecei a perceber aos poucos que apenas não importa. A transferência importante está no que você sente por dentro com o público e em eles responderem com entusiasmo, ou no seu sentimento ser forte o bastante ou o deles ser forte o bastante. Isso vai te levar para um nível um pouco mais alto. Você vai poder tocar mais rápido no palco do que tocaria se estivesse sozinho num quarto, você vai se encontrar colocando energia que...é um pouco mais intensa do que se fosse no estúdio. Não necessariamente melhor, mas é apenas energia humana pulando do mesmo jeito de quando as pessoas fazem sexo, ou o que seja. Mais do que tudo, tem sido importante para mim estar pensando em música e nas forças que fazem as pessoas se sentirem do jeito que se sentem, o que faz eu me sentir de tal jeito, e não pensar que isso é só...sabe? Eu não acho que o performer deveria se julgar sua performance se cometeu um erro ou perdeu o tempo num solo, se a bateria deu errado...são coisas estúpidas para se pensar, é estúpido ficar se julgando depois de uma coisa já ter acontecido, é como se arrepender do passado, não faz sentido, já passou. A melhor coisa a se fazer é viver o momento, se preocupar com o próximo passo, não realmente “se preocupar”, mas pensar no próximo passo. Quando estou tocando, geralmente eu estou entre viver o momento e prever as coisas antes delas acontecerem. Um músico, gradualmente, é capaz de estar em um ponto da canção e, digamos, dois compassos antes, antecipar como o quarto compasso do ciclo vai ser, antecipar como seria se você colocasse uma nota, digamos, entre a décima e a décima sexta nota da escala, sabe? Você não precisa usar símbolos, números, nem nada na sua cabeça, a menos que sejam equivalentes ao sentimento musical. Tudo que você tem que fazer é mentalizar o sentimento musical. Eu costumava fazer essa forma de meditação. Você tenta imaginar o sentimento do aço, você tenta manter uma forma na sua mente, como um círculo vermelho. Você o mantém lá e tenta não fazê-lo mudar de forma, de tamanho, etc. Enquanto você faz essas coisas todo dia, você tenta imaginar o cheiro de chocolate e manter esse cheiro na sua mente, sabe? “O cheiro de chocolate”. O sabor do chocolate. Você tenta manter todas essas coisas na sua cabeça, e eu percebi que eu estava fazendo isso o tempo todo com música. Eu podia imaginar um ritmo que eu faria na guitarra, digamos, quatro compassos antes do tempo, e Flea estaria prevendo a mesma coisa, então tocaríamos na mesma hora. Algo está nos oferecendo estas coisas. Se seu cérebro está aberto para você desenvolver essas relações corretas com as leis da música e com seu instrumento, você vai ver que há algo te esperando, sabe? Realmente acho que essa ideia de “Oh Deus, como eu posso ser um guitarrista? Eu nunca vou ser um Eric Clapton”, essas coisas, essas ideias de que as pessoas são figuras intimidantes, como um grande deus, é realmente...isso interrompe...além do fato das pessoas estarem se julgando com um tipo de critério que tem algo a ver com esse tipo de figuras intimidantes de deuses, é como se fosse...uma criança tem essa relação com essa força criativa. Sim, os pais gradualmente sufocam essa conexão com a força criativa e gradualmente vão esfregando suas caras no chão, assim como seus professores, seu sistema escolar...tudo trabalha contra isso, mas a força criativa, a natureza trabalha contra eles, ela está aí para você a qualquer momento. Você precisa apenas estar pronto para não se julgar e estar aberto para o que vier para você e ficar bem com isso, pois é apenas o universo se expressando. Não é...nada que se espera de você, sabe? Você precisa apenas estar ali para aquilo. Às vezes, para você conseguir ficar ali, leva anos de desinteresse, ou anos apenas de amor pela música, ou por nenhum motivo. Por algum motivo a música produz esses sentimentos em você, tocar um instrumento também produz, e você segue a luz. Meus anos de treinamento não foram muito emocionais. Eu passei a maior parte do tempo treinando escalas, aprendendo músicas instrumentais do Frank Zappa, tentando tocar as músicas mais complicadas que eu podia. Isso criou um...O jeito que minha inteligência foi capaz de se conectar com a natureza da música, com os sentimentos que a música provoca em mim, acabaram fazendo eu ser capaz de formar um pensamento musical na minha cabeça e ser capaz de trazê-lo ao mundo físico através do meu instrumento. Me lembro de ser um garotinho e ficar ouvindo música na minha cabeça o tempo todo, mesmo tendo 7 anos. Eu não tinha ideia de como eu as produzia, de como tirá-las dali, apenas ouvia. Apenas depois de anos tocando um instrumento apenas por amar tocar que você começa a aprender acordes, intervalos, referências musicais ao escutar as músicas de outras pessoas, e gradualmente o que você tem na cabeça começa a sair. Não há nada intimidante nesse processo, apenas o fato de você ter que gastar um tempo para desenvolver uma relação com seu instrumento. Acho que as pessoas não deveriam se sentir tão ameaçadas por essa ideia de serem grandiosas, pois as únicas pessoas que tem direito de dizer o que é grandioso ou não são pessoas como Stravinsky, Bartok...Eles tem o critério certo para julgar música, mas eles sabiam desde o início de que era algo inefável, eles não estavam tentando descrevê-la. Eles falavam de seus critérios baseados em uma forma teórica, da mesma maneira que músicos de jazz discutiriam sobre. A ideia da música começar a ser julgada pela sensação que uma estrela gera na mente das pessoas é o que confunde tudo, sabe? Acho que as pessoas deveriam voltar a ver a música pelo o que ela realmente é e não por essas coisas, não pelas pessoas que a tocam, ou pelas...pelas várias maneiras em que ela é vendida. Uma definição interessante de música que escutei foi que...uma descrição interessante é que...é....som...é um ponto entre o som e a inteligência humana. É o encontro dessas duas coisas. O som por si só não é música, por mais que John Cage tenha amado o som do trânsito de New York ou por mais que alguém goste do som de pássaros cantando, não é música até ser organizado pelos pensamentos humanos. E o fato do som entrar nos nossos ouvidos e se transformar em formas e em correntes elétricas em nossos cérebros, isso se traduz num...isso se transforma em um sentimento musical. O fato da música estar constantemente se tornando uma coisa e outra é uma dessas coisas que acontecem e não sabemos o por que. Cientistas podem explicar o que está acontecendo, mas não podem explicar porque está acontecendo.

Uma boa descrição do que música é...que escutei... é o som sendo organizado pela mente humana, ou pela inteligência humana. A ideia de que...por mais que possamos ouvir coisas que pareçam musicais em sons de trânsito ou no som dos pássaros cantando não é realmente música até que se organize pela inteligência humana. O fato do som poder começar como um movimento físico como tocar uma corda que vibra, e essa corda se transformar em eletricidade que passa por um meio para chegar a um cabo e que depois sai por um alto-falante e se torna uma forma de ar, e então pelo jeito que as moléculas de ar se movem acontecer uma pressão no microfone e se transformar novamente em corrente elétrica para se tornar um som numa fita e então ser outra forma de ar para entrar nos ouvidos das pessoas e passar a ser ar novamente para ser uma corrente elétrica de novo no cérebro das pessoas, este é apenas um processo de algo que não entendemos. Podemos descrevê-lo e podemos controlá-lo, mas não temos ideia do motivo de acontecer. Os cientistas podem explicar o que está passando e podemos entender quais são as leis que fazem acontecer, que estão afetando o que está acontecendo, mas não entendemos por que acontece. O processo que acabei de falar é equivalente à ideia de reencarnação, de uma pessoa se tornando algo mais. E é o que realmente acontece, nada realmente morre. De qualquer modo, mesmo numa canção, o fato de ouvir apenas um único momento de agora e de uma série de momentos que nunca vão acontecer de novo além de agora...cada momento em uma música, de certa maneira, está morrendo e se tornando outra coisa, enquanto tudo acompanha. É basicamente a ideia da reencarnação se movendo pelo curso da forma de uma canção, ou algo assim. Uma parte se torna outra parte, então volta a ser outra parte, e gradualmente constrói e cresce e...sabe? Por que isso é possível? Por que a realidade não é como sonhos onde de repente você está em um lugar e então, sem nenhuma razão aparente ou sem nada a ver com sua vontade, você vai para outro lugar? O fato da realidade ser assim também ninguém consegue explicar. Então ficar satisfeito com algum tipo de explicação sobre o que está acontecendo em vez de por que está acontecendo é ingênuo. Gente que se satisfaz com isso, com esse tipo de explicação, creio que estão ignorando metade do que está acontecendo, porque uma metade acontece e outra metade é algo fazendo aquilo acontecer. Creio que, às vezes, coisas que não entendemos dão medo. A morte é assustadora, pois não a entendemos. Creio que colocamos muitas coisas que não entendemos nessa categoria porque muitos de nós tememos a morte, mas...Esse é o processo que estamos vivendo e essas leis da natureza que fazem todas essas coisas, a perpetuação da realidade, o fato do ontem não morrer e se manter como uma lembrança, de colocarmos algo em uma estante hoje e ela estar lá amanhã. O fato desse tipo de consistência percorrer pelas coisas, o fato de haver uma permanência da matéria também é algo que deveríamos ficar felizes de ser dessa maneira. Poderia ser de várias outras formas, podemos ver isso em nossos sonhos, em como a realidade poderia ser difícil de segurar em nossas mãos. Felizmente recebemos essa dádiva de sermos capazes de praticar algo e crescermos e nos familiarizarmos com essas leis, as leis da música e as leis da natureza, e gradualmente sermos capazes de criar algo da mesma maneira que o sol nos criou. O sol, de alguma maneira, nos ensinou essa lição no fato de se revolver, de fazer a mesma coisa todos os dias. Está nos dizendo que se você faz as mesmas coisas todos os dias, você pode construir, construir e as coisas vão crescer como resultado de você ter feito isso. Todo mundo sabe disso. Todos buscam emprego, etc. Creio que buscam emprego porque querem ganhar dinheiro, mas é assim que a natureza trabalha. Ela trabalha em círculos, trabalha em ciclos. Se você ignora esses ciclos, se apenas fica sentado por aí sem fazer nada o tempo todo, ou se não segue o interesse que tem por dentro que te faz fazer as coisas, sua vida gradualmente vai perdendo sentido até que você fique velho. Ou se você faz uma coisa que não tem vontade, sua vida também vai perdendo sentido até você ficar velho. Mas quanto mais você explora o fato de manter uma leitura ou manter uma prática de algum instrumento ou manter um estudo das leis da ciência, você gradualmente vai crescendo de uma forma interna que nem sempre pode ser medida, mas que sempre vai acontecer dentro de você e que sempre te dará uma fascinação pelo lugar que você está, o que você é e por quê está aqui. Acredito que ir fazendo isso até uma idade avançada pode ser um privilégio. Pode ser uma forma de ir mais e mais além de se preocupar com a representação externa do que você é e de estar preocupado com o que você é por fora, assim você pode gradualmente enriquecer o que você é internamente. Creio que qualquer música, de qualquer valor, que foi feita por gente que estava muito interessada no processo interno de sua alma e sua mente tomando lugar enquanto escreviam música, suas emoções...Sempre tem sido gente que estava interessada com o processo do que elas fazem e que não estavam interessadas no resultado externo do que iam fazer. É quando deixam essa esfera. Também acredito que quanto mais, mesmo para um grande músico, se fica preocupado com como será quando se deixar essa esfera é quando você tem menos contato com o que acontece dentro de você, pois você começa a ver a música de acordo com a reação que ela provoca, em oposição do que ela naturalmente é, que é algo que toma lugar dentro de você e que você foi presenteado com a habilidade de percebê-la e manifestá-la. Então sempre senti isso fortemente. Escutar o que sua imaginação dita. Se sua imaginação...Sabe, sou o tipo de pessoa que muda, de gostar de um tipo de música para outro tipo de música. Passo um período de três anos obcecado por um tipo de música e três anos depois mal consigo imaginar por que eu estava escutando aquilo. Eu estava em um lugar totalmente diferente porque apenas era aonde minha imaginação tinha me levado. Gradualmente a ideia de escutar algo deixa de ser legal e gradualmente a ideia de escutar outra coisa começa a ser mais legal. É porque estou julgando música baseado em suas qualidades. Obviamente, se uma pessoa julga uma música pela sua popularidade ou algo assim, ela tende a focar seus interesses apenas em coisas populares e todos seus gostos musicais vão estar ligados a modelos que o público determina como “o melhor”. Acho que esse tipo de coisa pode fazer a imaginação de uma pessoa, que deveria estar mudando de uma coisa para outra, ter uma ideia fixa do que é bom, sabe? A mente naturalmente deveria mudar de uma coisa a outra, pois essa é a natureza da mente. Salta de um pensamento a outro o tempo todo, não temos controle sobre isso. Mas, não vou entrar nisso. É a natureza de tudo, na realidade, mudar de algo a outro, nossas mentes fazem isso o tempo todo. Não há razão de uma pessoa não poder mudar completamente seus interesses de uma forma musical a outra, ou mudar sua ideia do que um grande guitarrista é, ou sobre o que a música deveria ser. É tudo muito natural. Deixar que as ideias do que a sociedade te diz: “esse é um grande guitarrista, ele é o número 1, ninguém é melhor do que ele”...o que isso acaba fazendo é fixar uma ideia sobre algo, e as pessoas nunca deveriam ter uma ideia fixa sobre nada. Eu passo por fases em que estudo guitarristas que não eram muito bons na prática e não tinham muita técnica, mas suas ideias eram muito fortes e a emoção que colocavam no que faziam era muito forte, eram tão únicos e originais que eles, nesse período de tempo, me pareciam melhores do que alguém como Jeff Beck ou Jimi Hendrix, gente que eu também considero como os maiores. Mas não consigo ver alguém como Bernard Sumner do Joy Division como se tivesse sido menos que Jimi Hendrix foi. A meu ver são a mesma coisa, depende do meu humor, depende do período da minha vida. Vejo um extremamente relevante na minha vida e vejo outro que não está tendo relevância. E depois eles trocam de lugar. Fico muito feliz de que essa seja a maneira que o cérebro funciona e que essa seja a natureza da música. Penso que só o indivíduo pode ter para si o que é bom e o que vale a pena. Essas ideias que são perpetuadas que nos enganam para pensarmos que há uma espécie de critério para essas coisas são ridículas. É apenas o que te faz se sentir do jeito que você se sente. E só você sabe disso. Às vezes você precisa limpar um pouco sua cabeça e deixar de se importar com o que seus amigos consideram maneiro ou algo assim para realmente escutar seu subconsciente, ouvir seus próprios sentimentos e decidir por você mesmo o que te faz se sentir bem.

Eu disse que odiava música, mas não odiava. Eu odiava os garotos com quem eu a associava. Então, quando saíram coisas como Depeche Mode, eu pensei que eu não gostava deles, Duran Duran e essas coisas...Mas eu sabia, no fundo, que eu gostava do som daquilo. Mas na época que surgiu não tinha nenhuma possibilidade de eu admitir para mim mesmo que eu gostava daquilo porque eu estava preocupado com a aparência externa do que ia significar eu gostar daquilo e criar uma identidade fixa de mim, como o tipo de cara que estava metido naquele tipo de música. Obviamente, estou mais envolvido hoje do que aquela época, mas...coisas como King Crimson, Genesis e Yes, coisas como essa eram o que eu mais me relacionava, o que eu sentia que me dava mais identidade. Mas quanto mais eu ouvia coisas como Depeche Mode e Duran Duran, era...sabe? Eu me lembro de gostar quando ouvia, só não queria admitir para mim mesmo. Se fosse sobre manter um segredo para as pessoas seria uma coisa, mas não admitir para mim mesmo...Me lembro de gravar uma música do Depeche Mode no rádio e quando eu percebia que era eles, eu parava de gravar. Adoro como isso soa, eu deveria ter me deixado levar. Não deveria ter me preocupado com o que as pessoas que eu andava não gostavam e com o que eu não gostava, sabe? É uma forma tonta de pensar. Creio que eu fazia o contrário. A maioria gostava de coisas que todo mundo gostava. De qualquer modo, acho que ocorre uma injustiça com as coisas que você gosta, porque você gosta por um motivo. Se algo soa bem para você é por causa de algo. Mesmo se você não entende de início, às vezes tem uma partezinha do seu cérebro que diz: “Há algo saudável, algo interessante aqui”. Às vezes é importante fazer isso. Eu fiz isso com o jazz. Cresci envolto de música clássica, então não tinha ouvidos para o jazz do jeito que muita gente tem quando é jovem, mas eu sabia que havia algo ali para mim. Então assim que aprendia coisas com a minha guitarra, eu gradualmente desenvolvia os receptores do meu cérebro, os receptores emocionais do meu cérebro que se relacionavam com os tipos de sentimentos, sons, acordes e melodias que estavam naquele tipo de música. Há tantas forças trabalhando contra as pessoas para levar uma ideia fixa do que elas devem gostar, que você às vezes precisa se colocar nos trilhos para se dar conta do que você realmente gosta. Acabou que eu realmente amei jazz, significa muito para mim, mas essas portas foram abertas em minha cabeça. Como eu disse, os receptores precisaram ser despertados. Realmente acho que é importante prestar atenção à natureza na forma que seu cérebro se relaciona com a música. Escutar cada coisinha que te dita como conseguir mais de toda a abundante e linda música que há no mundo. Há uma quantidade incrível de música ótima, é realmente inacreditável que tenha saído tanto resultado de nós. Há tanta música quanto comida saindo do solo, plantas crescendo do solo, etc. Está aí para quem quiser e se você põe energia nisso, creio que é muito pouco inteligente comprar o que quer que te enfiem goela abaixo. É importante procurar coisas e encontrar coisas por você mesmo. Você vai descobrir que algo está te guiando, falando as coisas que você precisa escutar. Quanto mais você faz isso, mais próximo dessa força você estará. A natureza quer que vejam essas lindas frutas, que comam essas lindas frutas, comam seus vegetais, olhem suas árvores, sintam seu vento. A natureza quer que escutem a música que resulta disso. Não há motivos para pensar que os feitos do homem são algo a parte da natureza. É tudo uma coisa só. É a natureza, o que existe. Uma coisa.

Tive a impressão que...falei com uma psicóloga uma vez e ela falou sobre meus gatos, que eles gostavam do barulho que eu faço. Ela também disse que eles não tem a mesma percepção de tempo que nós temos. Isso me levou a fazer algumas perguntas, porque a música é tão...está tão intrinsecamente ligada ao tempo, é o som sendo estruturado pelo tempo, que, com a percepção deles, eles não escutariam a música com a mesma organização que ouvimos. É engraçado como numa música você apenas segue seus sentimentos, você toca algo que é bom na forma que você faz, mas se uma nota está fora, está em um lugar diferente, soa totalmente errado. Parece que não seguiu uma linha coerente de pensamento. É bem específico por quê uma nota soa bem seguindo a outra e, novamente, é algo que você aprende seguindo sua intuição. É algo que nunca foi diretamente explicado ou entendido, mas tem a ver com nosso cérebro. Nós percebemos o tempo da forma que percebemos porque é devido a como nosso cérebro está distribuído, o jeito que ele opera e o nosso sistema nervoso. Não é tanto o tempo indo definitivamente nessa velocidade, é totalmente possível para outra espécie estar experimentando tudo a uma velocidade completamente diferente. Para mim até as moscas devem experimentar isso em uma velocidade drasticamente diferente. São muito ligadas para terem cérebros tão pequenos. Então, pensei que meus gatos estavam ouvindo um tempo que acelera e desacelera ou algo assim o tempo todo e o que escutamos aqui como uma organização musical em um fio coerente de pensamento, diretamente não soa nada coerente para eles. Mas ao mesmo tempo, parecem responder à música. Meus gatos adoram quando escuto música com eles mais do que tudo. Acredito que seja porque sentem sensações que sentimos enquanto estamos escutando. Creio que os gatos escutam e sentem o que sentimos e, pelo que me disseram, seus pensamentos são mais de imagens, eles não pensam em palavras. Você pode transferir as imagens da sua mente para o seu animal. Penso que podem sentir o que eu sinto da mesma maneira que, novamente, como o sexo, quando duas pessoas gradualmente provocam o mesmo sentimento um ao outro. E quando as pessoas vão a um show. Com o poder da música, o público em geral está sentindo a mesma coisa mais ou menos. Isso é alterado pela personalidade de alguém ou a capacidade de sentir de alguém, mas basicamente todos sentem o que os demais sentem. Acho que é isso que acontece quando alguém realmente ama seu animal e seu cachorro vem correndo quando te escuta tocar piano. Creio que eles gostam de piano, porque é quando esse membro da família sente o que ele sente, acho que eles gostam dessa corrente de energia que flui. Acho que eles ouvem o som, mas não experimentam da mesma maneira que experimentamos, mas penso que ainda assim eles ainda experimentam e o resultado é o mesmo sentimento ou um muito parecido. É assim que relaciono as duas coisas.

Uma das coisas mais bonitas que penso da música ao vivo é o fato de que por um período de tempo que as pessoas estão em tal lugar, assumindo que toda a gente que compareceu está lá porque gosta, é que a música gera o mesmo sentimento em todos. Todos estão sentindo a mesma coisa. Basicamente todos estão se sentindo bem ao mesmo tempo. Todos tiram seus pensamentos diários sobre a vida da cabeça, todas suas preocupações. Já não estão em suas mentes. O poder da música está unindo todas as suas consciências em uma única coisa. Literalmente estão funcionando como um só organismo e todos estão sentindo mais ou menos as mesmas coisas. Não é diferente quando as pessoas fazem sexo e gradualmente causam o mesmo sentimento um ao outro. Em qualquer evento isso acontece, num evento de esporte, etc. Todos estão conectados com as coisas que estão acontecendo e as emoções que aquilo os provoca. Isso une as pessoas de um jeito que, em suas vidas diárias...sabe? É parte da tragédia da existência. Estamos todos sozinhos aqui. Não há como escapar disso. Você está dentro do seu corpo, queira você ou não. Então ser capaz de sentir o que está em você e o que está em todos que o rodeiam, creio que seja sua habilidade de experimentar realmente a verdade do que realmente está acontecendo, que é tudo uma coisa só."

Agradecimento: Felipe Marcarini - Universo Frusciante

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