8 de dezembro de 2016

Blood Sugar Técnico Magik



BLOOD SUGAR TÉCNICO MAGIK

O técnico de guitarra Dave Lee nunca perde um show dos Chili Peppers. Ele não pode se dar ao luxo, ele é o homem responsável por toda parafernália de John Frusciante.

Em 1988, o baixista Dave Lee usava seu tempo trabalhado com construção (civil). Mas, no momento em que quase perdeu o polegar em um acidente, ele percebeu que era hora de mudar...


E então, Dave, como você começou nisto?

Naquele período, eu tinha um amigo que trabalhava para o RATT como técnico de guitarra, ele sugeriu que eu ingressasse nesta profissão. Ele me escalou para trabalhar com a banda King Diamonds e eu comecei a ajudá-los como o sistema de monitoramento (sonoro). Então, quando demitiram o técnico de contrabaixo, percebi a grande oportunidade.

Quando esta turnê terminou, um outro amigo meu que tinha um estúdio em North Hollywood, me convocou junto ao cara que dirigia o Faith no More. Eles ainda não tinham se decidido. Então, comecei a trabalhar para eles e com o diretor, que também dirigia outras bandas. Então eu o acompanhei pelas mais diversas bandas.

Nesse meio tempo, um cara com quem eu tinha trabalhado começou a trabalhar nos Chili Peppers com o Flea. Dave Navarro não tinha nenhum ajudante na época pois seu técnico estava trabalhando com outra pessoa depois do término do Jane's Addiction. Então ingressei na banda e passei a ajudá-lo por um tempo como seu técnico. Foi então que Dave saiu e John Frusciante voltou e eu permaneci por aqui.

O que você faz quando a turnê termina?

Pelos últimos quatro anos e meio, os Chili Peppers estiveram muito ocupados, tendo eu pouco tempo de descanso. Trabalhei com o John em estúdio também, ajudando em seus discos solos e em shows. Ele fez shows acústicos com o disco To Record Only Water for Ten Days, e John é um cara que adora trabalhar, mantendo-me empregado o tempo todo. Sinto-me abençoado por isto. A atmosfera de trabalho dos Chili é ótima. Eles são muito inteligentes e estão além da classificação de "rockstars".

Como os outros membros dos Chili Peppers se sentem sobre a carreira solo de John?

Sempre estiveram muito ocupados, então ficam felizes por John se manter trabalhando enquanto eles têm um período de descanso.


Quais os tipos de coisas que um técnico faz no dia a dia?

Dave Lee realizando a tripla checagem na afinação da
1963 Fender Telecaster de John.


Muitas vezes, trocando e ajustando cordas. Eu troco as cordas de cada guitarra em cada nova apresentação. As guitarras do John são todas comuns, e eu tenho um método particular de travar as cordas na tarrachas Kluson.

John toca com muita força, então tenho que garantir que as cordas estejam bem esticadas. Não temos muitos problemas, considerando que a maioria de seus equipamentos são antigos. Utilizo três afinadores de guitarra: um Peterson Virtual Strobe, um BOSS TU-12 e também um Korg. A precisão é fundamental, né?

Como é o Setup (configuração de pedais) do John?

Repleto. Alguns guitarristas utilizam poucos pedais. Mas ele usa muitos.
Essa guitarra é uma Gretsch White Falcon de 1955
(avaliada em aproximadamente 17 mil doláres).
John simplesmente não toca com as novas elétricas...

Então, como é um dia típico de trabalho pra você?

Após cada show, vou conversar com o John, e pergunto a ele sobre qualquer coisa em particular que ele tenha notado que necessite mudança ou melhoria. Preparo todos os seus equipamentos e verifico sua afinação durante o dia. A banda não faz passagem de som, talvez apenas uma vez em meses. Apenas instalam os equipamentos e tocam, a menos que surja algum problema acústico que precise ser reparado. Geralmente, não passam o som.

...Mas ele usa um Taylor 314ce acústico, ao vivo. Em todas as guitarras são usadas as correias pretas Levy's e o straplocks da Schaller. Que tipo de corda John usa? Ele usa as D'Addario, .10 mas usa uma .11 na corda E aguda.
Parece que John anda dando as cartas nesses novos discos?

Muito disto vem do fato de as pessoas realmente confiarem na opinião dele. John tem noção do que é uma boa ideia e do que não é, logo confiam nele. Há muitas bandas que não acho que são boas, e é bom ver uma banda que realmente toca, e muito bem.

Qual o setlist atual?

Essa maltratada e espancada é uma 1962
Stratocaster - é a guitarra favorita de John Frusciante
Logicamente ele toca músicas dos seus três últimos discos com os Chili Peppers, mas também há muitos arranjos recentemente. Ele se aventura no estilo similar ao de James Brown. Eles se divertiram muito em Londres, pois todos os grandes ídolos do John estavam lá. Radiohead, Jeff Beck e Jimmy Page estavam lá, o que fez com que John "viajasse" por todos os seus estilos.

Foi muito legal, porque, no meio de um solo, era possível ouvir "The Train Kept a Rollin'", dos Yardbirds, bem como todo tipo de coisa. Geralmente, Flea, John e Chad improvisam entre as canções.

Geralmente, é o Anthony quem define o setlist, então eu acompanho o John através desta sequência para garantir que ele use a guitarra certa em cada música. Por exemplo, em "Soul to Squeeze", ele prefere tocar uma Stratocaster pouco antes de usá-lá, pois ele a toca com força, e precisa confiar que está devidamente afinada.

Temos também que garantir que a música anterior à esta seja tocada com uma Telecaster, para que eu prepare a Stratocaster à tempo. O único momento que surge um problema é quando, subitamente, mudam a ordem prevista e fazem algo inesperado.

Frusciante usa uma 1955 Stratocaster com o braço
em maple para as músicas que necessitam de um timbre
mais brilhante.
Dá medo ver o John tocando seus instrumentos antigos com tanta força, todas as noites?

Fico tentando convencer o John a tocar aquelas réplicas de guitarra que a Fender faz, mas ele gosta da "vida" que os instrumentos antigos têm: a histórias que eles têm e tudo o que já tocaram. Mas Flea tem um baixo daqueles Jaco Pastorius, que é uma réplica. Cada pedacinho dele é igual ao original.

Enviei à Fender Custom Shop (Loja de Personalizações da Fender) algumas fotos da Stratocaster ano 1962 do John, pois há um cara chamado Jake que trabalhou no estúdio conosco, e que queria uma guitarra igual àquela. Então, ele queria que a Fender fizesse uma pra ele. Pra mim, parece um belo modelo a se construir.




DAVE LEE E OS AJUSTES NOS SETUPS DOS O CHILI PEPPERS

Com uma pedaleira como esta John terá uma boa prática
das aulas de dança que ele começou recentemente!

"Todos, exceto Chad, utilizam retorno de som auricular. Assim, todos podem ouvir perfeitamente o que produzem, e eu também. O que ouço é o mesmo que John, podendo assim reparar, de imediato, qualquer problema com o som. Lembro-me no Woodstock (1999), antes de utilizarmos o retorno, que ele não tinha noção da altura do volume do que ele produzia.

Quando começamos a participar de festivais e coisas do tipo, ele queria se movimentar livremente pelo palco, e ele carrega na guitarra um cabo enorme. A partir de um determinado comprimento, começávamos a perder sinal, então recorremos ao sistema de captação sem-fio da Shure.

Quando regressou à banda, John ainda não pulava de um lado para outro no palco, mas, uma vez, ouvi ele dizer que começou a dançar e que começou a tropeçar pelo palco. Portanto, o sistema sem-fio o ajudou e muito na movimentação.

Recentemente, Flea também aderiu à este sistema sem-fio, e tudo funciona muito bem para nós".



Marshall Jubilee 100 (à esquerda)  provido de crunch,
enquanto o 200W Major está no clean power.
AMPLIFICADORES PARA O ROCK

"John utiliza um amplificador Marshall Major de 200W com tubos KT8 e um Silver Jubilee, juntos. Eles são ligados simultaneamente através de um pedal Boss Chorus (Emseble CE-1), onde o sinal entra por um canal (mono), e sai em dois canais de som (estéreo).  Então, dessa forma se o chorus está ligado ou não o sinal fica dividido para os dois cabeçotes. O Silver Jubilee trabalha com um pouco sujo no modo que usamos.

Os cabeçotes do Marshall Major são muito difíceis de se encontrar. Conseguimos encontrar somente três, e conhecemos um cara chamado Mike Hill, que trabalhava na Marshall, e ele nos contou que eles fizeram apenas cerca de 100 destes amplificadores, entre 1969 e 1973. Eles são especiais pois, a 200W, você tem um som bem alto e ainda assim limpo. Basicamente, é como um amplificador para contrabaixo.

John toca muitas coisas que não possuem crunch. Distorções e overdrives vêm do som da guitarra, passando pelos pedais. Se algo der errado, e eu tiver que trocar o cabeçote do Marshall, quando o coloco de volta à operação, é preciso regulá-lo novamente.

Não adianta apenas memorizar a posição dos knobs, pois os auto-falantes são ligados via jumper. Então, a entrada do som precisa a ser devidamente ajustada, ou ficará distorcida, ou nem mesmo audível. É preciso ligá-lo por quatro vezes para encontrar o ponto certo de ajuste. Era o que eu fazia há pouco tempo".


DICAS TÉCNICAS

1// Utilizo baterias em todos os pedais pois, deste modo, eles trabalham de forma mais silenciosa. Testo-as diariamente e, caso estejam com menos de 9.1 volts, jogo-as fora. Tento não jogar as que estão em perfeito estado, para preservar o ambiente. As baterias trabalham bem entre 9.5 e 9.6 volts. Os MXR Micro Amp não usam nem um pouco da bateria [O consumo desse pedal e de 2,5mA];


2// Todo o circuito é cabeado com Monster Cable. Seu som é muito bom;

3// Lubrifico os captadores e a alavanca de ambas as Stratocasters com um produto chamado Guitar Grease. É parecido com um gel. Eu usava teflon, mas esta graxa é bem melhor. John usa muito a alavanca. Se eu não utilizar este produto, John não poderá usar a alavanca como ele a usa.




PALHETANDO



"John utiliza palhetas Jim Dunlop 0.60mm. São alaranjadas. Há uma história divertida com essas palhetas. O cara que as confecciona perguntou se John queria personalizar uma, e John achou graça daquilo, como sé fosse um pequeno fã de uma estrela do rock, entendeu?


Então, quando estávamos na América do Sul, em um aeroporto, e um menino, muito fã da banda, olhou pra mim, e disse: 'Você é Dave Lee, o cara do John.' A história chegou ao cara que fabrica as palhetas, que fez algumas delas pro John".


Veja a matéria completa: Guitarist Magazine - Junho de 2003

Tradução: Osmar D. M. da Silva

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