9 de março de 2017

JF EFFECTS ENTREVISTA: GEE ROCHA (NX ZERO)


Em outubro de 2014, a equipe da John Frusciante effects entrevistou Gee Rocha da banda NX Zero, um dos maiores nomes da nova geração da guitarra nacional e dono de um talento incrível. Nessa entrevista foram abordados diversos temas, entre eles: os novos trabalhos do NX Zero [que vieram a ser EP Estamos no Começo de Algo Muito Bom, Não Precisa Ter Nome Não - lançado em 18 de novembro de 2014 - e o álbum Norte - lançado em 07 de agosto de 2015], equipamentos utilizados por ele, processo de composição, o cenário musical brasileiro no momento, e é claro, a influência de John Frusciante em sua música.

Entrevista realizada em outubro de 2014:

Gee, em primeiro lugar, obrigado por nos conceder essa entrevista. A página tem um grupo com seus seguidores no WhatsApp e, por diversas vezes, seu nome foi citado pelas pessoas do grupo como um dos maiores destaques no que se refere á guitarra e efeitos no cenário do rock nacional atual. Você se vê como um dos guitarristas com maior destaque atualmente?
"Olha. Primeiramente, fico muito feliz por vocês terem um grupo tanto na internet como no Whats App no tema JOHN FRUSCIANTE e ver que meu nome é citado. Não me vejo ainda como um guitarrista com grande destaque. Mas posso falar abertamente pra vocês que não existe nada mais gostoso do que ser reconhecido pelo seu talento. Busco muito melhorar como guitarrista. Alias, nos últimos 2 anos, isso veio mais presente na minha vida. Hoje tento a cada dia me tornar um guitarrista melhor."

Recentemente foi liberado o novo single do NX Zero, "Uma Gota no Oceano". O que você utilizou para gravar sua parte e alcançar aquele timbre? O delay na introdução gera uma textura maravilhosa! 

"Pow, que boa pergunta. Adoro falar disso. Na musica "Uma Gota no Oceano" Eu usei dois amplificadores ligados simultaneamente, definindo um timbre só entre os dois amplis. Um era o combo Fender Bass Man e o outro era um Orange Dual Terror. Especificamente nessa música, usei um Delay "Nova Delay" da Tc Eletronics com 20% de saída do EFEITO e um Cool Cat da Danelectro. No contexto geral da música, basicamente usei isso o tempo todo da musica. Em algumas partes usei outro "Nova Delay" com 45% de saida de efeito."




Você já foi visto com muitas guitarras, mas de um tempo pra cá parece ter como guitarra principal apenas uma. É uma Fender Telecaster Deluxe '72? O que te levou a manter ela como principal?

Foto: Gee Rocha
"Então. Na minha vida, sempre tive dificuldades pra achar a guitarra e meu timbre, meu amplificador. Enfim, na parte do NX Zero, toquei sempre com uma Gibson SG, por gostar muito do Angus Young. Depois fui para uma Condor, na qual na época ganhava patrocínio, e na época era bom pra mim. Depois pulei pra uma PRS, adorei a PRS, mas tive dificuldades com a pegada dela, que é ótima, mas pra mim não funcionava. Em seguida Gibson Les Paul. Fiquei um tempo na Gibson Les Paul, em especial a Custom e a Classic (amarela) que é very especial. E como o NX Zero toca bastante notas abertas e não  PowerCord ou Bicord, não sei o nome exato, enfim. Na época estava escutando muito Rolling Stones, e pensei, pow, poderia procurar uma Telecaster. E ai fui pra Los Angeles. E meu amigo Duayer estava junto nessa trip, e eu disse pra ele em uma loja de instrumentos musicais, que estava procurando uma Fender Telecaster. E ai, comecei a testar qualquer Fender. E assim fui testando umas Teles. Depois de um tempo, esse meu amigo Duayer me trouxe uma telecaster Deluxe 1974. E ae, foi apaixonante sentir o braço da guitarra. Em seguida, testei no mesmo Orange que uso no meu SET. Resumindo, a guitarra é muito versátil. Pra quem gosta de fazer som porrada, notas abertas, blues, enfim, ela é muito versátil. Sou apaixonado pela guitar. Tirando a parte que ela pesa muitos quilos. Hoje estou numa nova paixão pela guitarra SUHR Stratocaster."


Gee Rocha tocando com a sua Suhr Stratocaster:


Como funciona o processo de criação no NX Zero? São idéias preconcebidas antes de entrarem no estúdio ou elas são criadas através de jams como acontece no Red Hot Chili Peppers?
"Sim, algumas fazemos em Jams. Mas na maioria das vezes, briso uma base num lugar qualquer, depois de um esboço gravado no celular, vou pra casa, gravo uma ideia de como poderia ser a música. Uma breve referência do que ela pode ser. Em seguida o Di escreve uma letra. E depois levamos pro estúdio e mudamos ela toda kkk."

Em "Em Comum", você e Fi alcançaram grandes timbres e que, na minha opinião, foi um amadurecimento completo do som do NX Zero - amadurecimento que já havia começado em "Sete Chaves", em 2009. O que podemos esperar do novo álbum?

"Que legal que amadurecemos nos timbres. Muitas pessoas falam exatamente isso pra nos. Que bom. Depois que o NX Zero estorou nas grandes rádios e Tvs do Brasil, buscamos estudar ainda mais. Talvez pra nos levou muito tempo para uma evolução. Mas com certeza, eu acredito que o disco "Sete Chaves" foi o começo pra entender que poderíamos chegar em outros lugares com timbres diferentes. Depois veio o "Projeto Paralelo" que é um disco com vários Rappers e Djs e nos trouxe outra dimensão de onde poderíamos chegar na parte de composição musical. E em seguida o "Em Comum", que eu acredito que seja uma passagem pra esse Novo Disco. Nesse Novo Disco, que vai sair provavelmente quando estiver pronto rs, estamos tomando todos esses cuidados, tanto nos timbres, nos arranjos, nos riffs e nas letras. Com toda certeza, será o disco mais diferente que o NX Zero  fez."

Certa vez li uma entrevista de Keith Richards onde ele dizia que para não cair na monotonia, ele e Ronnie Wood sempre trocavam suas partes de guitarras nas músicas dos Stones no shows. Como funciona com você e o Fi? Cada um tem seu espaço definido em estúdio e ao vivo ou vocês fazem algum tipo de revezamento?

Fotos: Reprodução/ Instagram / Capricho
"Que demais isso, não sabia que eles fazem isso rs. Demais. Olha, geralmente eu faço o que eu crio na guitarra e o Fi faz o que ele cria. Então levamos isso no show. Mas teve vezes que ou a minha ou a guitarra do Fi, estourou a corda, e um faz o riff do outro rs. Várias vezes o Fi começou "Além de Mim" rs. Acho muito legal o que o Stones fazem. Mas também gosto daquele riff e timbre do guitarrista. Eu como fã do guitarrista, sempre aguardo aquele solo ou riff daquele guitarrista que eu piro. Mas seria demais eu trocar de arranjo com o Fi."

Você poderia nos falar um pouco sobre os pedais e equipamentos em geral que utiliza ao vivo?

"Nessa última "Tour NX Zero - Em Comum" eu usei 3 Nova Delays da Tc Eletronics, 1 Reverb da Tc Eletronics, 1 Cool Cat, 1 OCD (overdrive) + 1 amplificador Orange Rockerverb 100 para Drive e 1 Fender Tone Master para Limpo. Já no novo Set, ainda estudo muitas opções, entre elas ai vai: 1 Tremolo da Tc Eletronics, 1 Phaser 90 da MXR, 1 Cool Cat, 1 Reverb Hall Of Fame da  Tc, 1 Tweed 57 da Wampler, 1 FlashBack da Tc, 3 Nova Delays, 1 Time Line da Strymon + Expression, 1 POG, 1 FullTone Fuzz 70, um reverb Holy Grail, talvez 1 FUZZFACE e talvez 1 Boss Chorus Ensemble CE-1 (O mesmo do John Frusciante, que por ser fã dele, acabei comprando um pra mim pelo Ebay)."


Foto: Gee Rocha

No seu vídeo "z e r o o n z e n a m a d r u g a | SP", postado recentemente no seu canal do YouTube e também no seu Instagram, você alcança o que eu chamaria de "delay perfeito". Ele soa bem orgânico e modulado. Como chegou naquele efeito? O set que aparece nele é bem diferente do que você usa ao vivo.
"Não é muito diferente do que eu usei na ultima tour. Em algumas partes eu usei o Delay FlashBack com 20% de saida de efeito e quando eu queria mais delay, liguei o Delay Nova Delay da TC em cima do Flashback, com mais 40% De saída de efeito. Juntos com tudo isso, coloquei um Reverb Hall Of Fame da Tc, no efeito PLATE, que é um tipo de Reverb que eu adoro. E no fim, liguei acho que o Tweed 57 para um overdrive de leve."



Agora sobre o número de delays [ND-1 Nova Delay da TC Eletronic] em seu setup, é mais comodidade ou necessidade mesmo?

"Eu uso 3 delays pro sujo e agora mais 3 pro limpo. 1 Delay 50% Reverse, 1 Delay 50% em tercina e 1 Delay 20% de saída de efeito. As vezes eu ligo o de 50% + 20% na música "Não é Normal". Enfim, vários guitarristas não gostam disso, porque embola o som. Eu deixo de um jeito confortável pra mim. E outra coisa, a quantidade de efeitos é por conta de ter dois amplificadores, e ai tenho efeitos tanto pro Orange e efeitos pro Fender. Fica de opção pra cada música."

Em 2011, o NX Zero teve o privilégio de tocar na mesma noite que o Red Hot Chili Peppers no Rock in Rio. Como foi isso pra vocês? Você acompanha a banda? O que achou da saída de John Frusciante e a entrada de Josh Klinghoffer?

Red Hot Chili Peppers no Rock in Rio 2011.
"Pois é. Acabei vendo o Flea de perto, que foi demais. E sobre o Josh, pow, eu assisti o show do Red Hot, mas como fã, não foi fácil não comparar. E claramente quem sou eu pra julgar o JOSH, que manda muito bem. Só que eu sou fã do RED HOT com o John Frusciante. Pela questão de identidade da banda. Não só dele, como dos outros integrantes tambémEntão torço pra um dia poder ver o John Frusciante ao vivo com o Red Hot. Nada contra o Josh. Mas por ser fã mesmo."

Nos queríamos saber se John Frusciante exerce algum tipo de influência em suas criações ou no modo como toca.

"Ultimamente sim. Eu conheci muito mais de John Frusciante nos últimos 8 meses. Vendo muitos e muitos vídeos no Youtube. Enfim. Ele é um guitarrista completo e PONTO. Pra mim o melhor. Ele chega em vários tipos de sons de guitarra. Ele pensa na musica de outro jeito. Um verdadeiro POETA. Tenho certeza que vocês podem falar muito melhor do que eu."

Então, você é influenciado por John Frusciante em sua música?

"Como eu disse. Nesse exato momento SIM. E muito, não  em arranjos de guitarra. Mas como pensar no que se diz MÚSICA."

Você tem alguma música, álbum e/ou show preferido na carreira John Frusciante e do Red Hot Chili Peppers?

"Esse video define mais o que é John Frusciante para mim. Vocês já devem ter visto esse vídeo, mas vale a pena recordar:



Sabemos o quão difícil é viver de música nos estilos ligados ao rock no Brasil. Pra você, como é ser um músico de rock no Brasil? E o que acha do atual cenário musical brasileiro? 

"Acho que em 2009 até 2013 o cenário do ROCK tava difícil no MUNDO INTEIRO. Dave Grohl disse isso num VMA, algo do tipo "O ROCK NÃO PODE ACABAR" não lembro exatamente. Mas enfim, acabou que pra quem vivia do cenário do Rock Independente sofreu muito por não ter shows, e  era foda trabalhar com música sendo Independente no Brasil e pra nos que estávamos na radio com varias bandas de Rock, foi piorando os pedidos de tocar rock em rádios do Brasil. Até tinha aquele lance de ter que fazer acústico pra tocar. Enfim, ninguém gostava daquilo. Mas algumas bandas tinham que estar presentes na rádio. Mesmo que poucas. Hoje em 2014, vejo pelo programa SUPERSTAR da Globo. Pow, se você parar pra pensar, de todos os estilos, o Rock foi o que ganhou. Fora isso, tambem temos a volta da Rádio 89 A Rádio Rock, aqui de São Paulo, que fortaleceu muito pra várias outras bandas de Rock tocar na RÁDIO. E o mais legal é ver que todo mundo ouve a Rádio 89 e outras do mesmo seguimento. Ser Rockeiro no Brasil não é fácil. Mas é como uma RELIGIÃO. Fico feliz por fazer parte disso tudo."


Foto: Capricho

No final de setembro vi uma participação sua no show da banda "Dnaipes" tocando "Hoje o Céu Abriu" e fui atrás do som dos caras e curti bastante. Está rolando uma parceria para algo futuro ou foi apenas uma participação especial mesmo?

"Sim. Conheci os caras quando eles vieram aqui em casa gravar um som deles, através de um amigo. E ae, acabei pirando nas composições, nas ideias das letras. E daí pra frente comecei a tentar de qualquer forma interagir com eles na música. Pela sintonia da banda, pelas ideias, tem tudo pra ser uma banda diferenciada no mercado nacional. Torço muito por isso."

Assista a participação de Gee Rocha no show dos Dnaipes - clicando aqui!


Agradecimento especial a Angelina, que tornou essa entrevista possível.


Entrevista feita por:

Raphael Romanelli Andrade de Oliveira
Rodrigo Galafuz

Originalmente postada no Universo Frusciante em 04 de outubro de 2014.

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