23 de março de 2017

Picasso Frusciante - Junho de 2002


Entrevista de John Frusciante à Guitar Magazine da Alemanha em junho de 2002, onde ele fala da evolução da sua guitarra dentro do Red Hot Chili Peppers, como é compreender o estilo de alguns dos seus guitarristas favoritos para o desenvolvimento do seu trabalho e a importância das linhas de baixo do Flea, para que suas melodias realmente façam sentido dentro de algumas músicas.


Rico tanto em melodia quanto em harmonia, e com um toque forte, o guitarrista do Chili Peppers pode ser de novo avaliado pelo próprio trabalho solo. O guitarrista-Picasso John Frusciante nos mostra onde achar a mágica tocando com Flea e nos conta porque o novo album "By The Way" é uma continuação de "Californication" - e porque esta sonoridade continua acerca da banda.

Um deles foi convidado: A fim de promover o próximo multi-platinado dos Chili Peppers, sua gravadora veio com algo especial: um show ao ar livre no estacionamento do Saturn Mall, em Hamburgo. Enquanto as luzes da noite pairam sobre os telhados da cidade e uma suave brisa de verão está rondando, os quatro californianos sobem ao palco que foi construído especialmente para esta ocasião. Eles ligam os seus instrumentos e acenam tranquilamente para o outro antes de mandar um mix de músicas de seu novo álbum e sucessos como "Scar Tissue", "Give It Away", "I Could Have Lied" ou "Californication" na noite. Mesmo sendo este um promo-show e, apesar da abundância de nerds, foi o que chamam de "showcase", que é para muitos fãs e alguns arruaceiros. Houve muita interação entre os membros da banda, erros de interpretação de fãs malucos e muitas músicas maravilhosas.

Na manhã seguinte ao show, John se apresenta para a entrevista no Hyatt Hotel de cabelo úmido, pois estava nadado na piscina, e seus olhos brilham quando vê o pequeno Amp Vox Cambridge 15 e a Fender Strato que preparamos para ele. Ele rapidamente pede algum lanche e café, e senta próximo da guitarra.

Vendo vocês no palco na última noite, é sempre fascinante ver a interação e o quanto de química você possui com Flea.
"Ouvir os outros tocando é sempre uma regra importante para nós. É legal nos concentrarmos nos dedos dos outros, e ver eles tocando uma coisa totalmente diferente de você. A coisa mais importante disso é você sub-conscientemente ir para a mesma direção, não importa o que estiver fazendo."

Você já disse que além de achar seu próprio estilo de tocar, você achou a melhor maneira de tocar junto com o baixo do Flea.
"Quando eu entrei para banda, gravando o Mother's Milk, os produtores me empurraram ao estilo funk-metal com riffs mais pesados. Aquilo não vinha do meu coração, no entanto, isto hoje me parece bom. Embora eu não tenha orgulho do álbum, é provavelmente nosso álbum mais influenciador, muita gente pulou ouvindo ele. Em alguns casos, nos simultaneamente botamos 5 guitarras sujas e um solo extra encaixado ao baixo. Quando a turnê acabou, começamos a trabalhar no Blood Sugar Sex Magik, e eu decidi, conscientemente, que iria me direcionar a tocar na direção de Flea, deixando meu som mais limpo e usando a distorção apenas para solos. Queria que eles ficassem minimalistas e mais espaciais, criando mais amplitude no som. Os guitarristas que considerei como exemplos foram Matthew Asham (Bow Wow Wow), que sempre tá tocando com um baixista ativo, e Andy Summers (The Police). Eu me considero cada vez mais um assistente de Flea e Chad. Este jeito de tocar que descobri é o que eu sou realmente bom. E o mais impressionante: Desde que "recuei", a criatividade simplesmente aflorou automaticamente me pondo para frente e de um modo mais profundo. Flea também se tornou mais simples, delicado e útil de tocar junto. De alguma maneira, todos fluíram nesta direção na banda. Ao mesmo tempo, eu não sei em que direção estaremos indo. Eu apenas deixo as coisas fluírem."

De algum modo, vocês dois tocam ritmos/melodias perfeitamente sincronizados e unidos. Como eles surgem?
"Eu gosto de mostrar oposições. Eu lembro de um bom exercício que fazíamos na era do Blood Sugar Sex Magik, para tocar junto: enquanto Flea tocava um funk complexo e sincopado, eu tentava preencher os buracos com acordes ou qualquer tipo de som entre o som do baixo de Flea. É muito importante criar novos ritmos. Se alguém toca algo e você quer entrar na jam, você tem que tentar um novo ritmo, criando algo totalmente novo. Algumas vezes, tocamos harmonias que se encaixam, outras vezes não.

Na introdução de "By The Way", nós tocamos o mesmo ritmo, só que com notas diferentes. Isso cria um som duplo, que faz um novo acorde. Não tem ensaio nisso. Nós apenas olhamos pra cara do outro e pensamos no Fugazi tocando o mesmo ritmo, mas com baixo e guitarra tocando notas diferentes."

Todas as musicas surgem assim, de improvisações?
"A maioria. Algumas vezes eu trago a parte completa de guitarra da musica e aí cada um vai adicionando sua parte. Nós fizemos isso em "Venice Queen", "Cabron" e "I Could Die For You". Coisas como arranjos, amplitudes, entre outras, são desenvolvidas por todos nós. "This is the Place" e "Don't Forget Me" eram jams que se tornaram músicas. Durante as jams, Flea fica repetindo a mesma linha de baixo por cerca de uma hora e eu fico criando várias melodias a partir do que ele está tocando. Flea adora esses grooves hipnóticos. Aí eu começo a tocar uma melodia atrás da outra, fazendo com que a linha de baixo de Flea fique totalmente diferente aos ouvidos. Fica parecendo que ele nem está tocando a mesma linha de baixo toda hora, mas está."

Qual é o papel de Anthony Kiedis escrevendo as músicas?"Geralmente desenvolvemos músicas como uma banda, outras vezes gravamos nossas jam sessions. Anthony entra, escolhe uma fita e um mês depois ele volta dizendo "Este groove é foda, a gente podia escrever uma musica com ele". Nós escrevemos coisas e se ele dançar no estúdio enquanto estamos tocando, a coisa tá indo bem."

Quando você leva idéias próprias aos ensaios, elas são influenciadas por outros guitarristas. Quem dos seus heróis foram responsáveis desta vez?"Eu não consigo pensar nisso dessa vez. As músicas do Blood Sugar Sex Magik eram mais fáceis de se pensar nisso. Quando gravei "Breaking the Girl" eu ouvia muito Led Zeppelin, especialmente a música "Friends" e toquei com uma viola 12 cordas nela. Foi dessa musica que veio a idéia. E eu peguei os acordes do refrão do livro de Duke Ellington. Eu tentei aprender uma música que tinha no livro e usei três acordes dela, que tinha uns 50. Baseado nesses três acordes e mais algumas coisinhas, eu escrevi a nossa música. "Give it Away" tem elementos de "Sweet Leaf" do Black Sabbath. Antigamente você poderia me perguntar sobre cada partezinha de guitarra e eu te falaria cada detalhe da criação...Hoje não é mais assim. De qualquer forma, eu pensei em vários guitarristas e tentei fazer um paralelo do estilo de tocar deles no meu trabalho."

Como o riff de "Can't Stop" surgiu?
"Foi influenciado por Ricky Wilson, guitarrista dos B-52. Ele morreu em 1985, e é um dos meus heróis. Tocou as notas D e G ao mesmo tempo na guitarra, as tornando duas coisas diferentes. É um modo simples de dar a impressão de usar duas guitarras. É o contrario do que tentei em "Can't Stop". As notas graves se movem pra frente-trás enquanto as agudas se intercalam."

Você pode ouvir as duas guitarras de "Venice Queen", certo?
"Sim, claramente!"

Em Don't Forget Me, Flea, toca os acordes básicos enquanto você faz um legato lick na sua White Falcon.
"Não, eu só usei minha Gretsch ontem. A guitarra que mais usei no By The Way foi a minha Strato 62'. A primeira eu só usei em Tear. Mas este lick foi bem considerado, pois Anthony cantando sobre e o meu delay me ajudou a desenvolver um grande efeito de fundo, usado em toda musica, dando mais tempo ao lick. Nos 70 você poderia utilizar como um solo, mas eu usei para colorir toda a estrofe."

Você usou uma Marshal, um amp para guitarra/baixo ao mesmo tempo...
"Sim, fiz isto todo o tempo em estúdio. E uso também um reverb da Fender dos anos 50."

Isso soa vintage!
"Eu adoro vintages, especialmente guitarras. O pessoal da Fender me perguntou se eu gostaria de ter minha própria signature. Eu me senti muito honrado mas eu recusei. Essas guitarras antigas são perfeitas. Fiquei preocupado em não poder usá-las mais."

Isso pode ser porque você está tocando mais solos hoje em dia?
"Acho que sim. Não é a proposta, mas cada vez mais solos e melodias aparecem."

O estilo do seu solo, depende mais da melodia do que da técnica."Esta é a razão pela qual eu posso tirar tanto disso. Nos ensaios, eu conscientemente tentei tocar pequenos Blues o quanto eu podia. Depois de ter saído da banda, não toquei mais e fiquei totalmente enferrujado. Blues funciona em qualquer situação. Eu realmente queria uma outra abordagem: na turnê do Californication, tentei aprender como transferir o estilo dos anos 80 com sintetizadores e melodias para a guitarra, tipo Kraftwerk. Dos anos 70 eu encontrei melodias especiais e estilosas, que se encaixavam no Blues. Eu tinha achado um novo som, algo como Depeche Mode, o que me deu uma nova perspectiva. No palco, continuei tocando meus antigos riffs a lá Jimmy Page, porque era minha raíz, e era exatamente o que as musicas pediam. Muitas de nossas músicas são baseadas no estilo Funk-Blues. Em algumas noites eu tentava encaixar minhas melodias estilo Kraftwerk nas musicas antigas, mas nunca ficava perfeito. Mas quando começamos a criar novo material, eu quis botar minhas novas idéias, mas sem destruir o estilo dos antigos riffs. Eu não queria tocar me sentindo um guitarrista mais, mas queria desenvolver alguma coisa que não me fizesse sentir como um guitarrista tocando um solo normalmente. Isso foi influenciado por guitarristas de Surf Music como Duane Eddy, ou The Shadows, dos anos 60. Mas eu não prestei muita atenção quando tocavam seus solos. Eu estava mais interessado nas melodias em que eles faziam durante as músicas.

Um dos poucos guitarristas de quem eu sempre ouvi os solos foi George Harrison. Eram sempre maravilhosas e inteligentes melodias. Ele sempre manteve as mudanças de acordes no fundo da sua mente e tocava de uma forma extremamente talentosa e bonita. Antes deste álbum, eu prestei muita atenção em George Harrison, porque eu queria entender o que ele fazia e como ele fazia nestes acordes. Eu não queria apenas aprender técnicas de outras pessoas ao ouvir seus trabalhos. Eu queria pensar porque alguém escolhe exatamente as notas que toca. E isto significava que eu teria que ouvir o baixo e entender o fundamento disto, em contraposição aos seus efeitos."

Você fala de cores quando fala de tocar guitarra. Como você se preocupa com as cores das músicas?
"Pensar em cores ao invés de sequências mecânicas nos trastes é algo que origina meu amor pela pintura."

Você pintou durante a sua longa pausa?"Eu comecei a pintar enquanto trabalhava no Blood Sugar Sex Magik. Simplesmente pelo prazer de pintar, e eu me imaginava usando uma guitarra como pincel. Estas são cores invisíveis e emoções com formas cujas vibrações se adaptam ao seu estilo. Minha pausa, no entanto, foi em uma esfera diferente. Quando decidi me viciar em heroína, me senti melhor e minhas depressões sumiram. Eu queria deixar a vida fluir e ser responsável pelo meu próprio bem-estar. Eu não queria me preocupar com o que o mundo externo pensava de mim. Eu estive invisível por anos e adorei isto, porque agora sou um ser humano mais "rico". Eu queria aumentar meu amor pela pintura e entender as pinturas melhor. Eu admiro pintores pelos seus jeitos de expressar o seu próprio interior. Em algum momento, eu percebi que fazia o mesmo com a minha guitarra."

Como você transfere a idéia de pintar na música?"É algo difícil de descrever. Talvez darei um exemplo simples: Quando o seu guitarrista base toca algo pesado e rápido, você também sola rápido e forte. Isto não vai despertar nenhum sentimento especial na sua cabeça. Mas se você tocar algo simples e espacial, verá um sentimento crescente, diferente do que aconteceu enquanto ouvia a linha de baixo pela primeira vez. Talvez, é sobre este jeito de por as coisas lado a lado, este tipo de harmonia que quero dizer quando falo de cores. Se você olhar um quadro de colagem de Max Ernst, verá diferente texturas próximas umas das outras. Estes aspectos podem ser aplicados na música. Coisas como você ver um fundo totalmente claro e a imagem principal borrada. Isso significa que, na música, as coisas não precisam ser todas diretas toda hora para que funcione. Os elementos individuais podem ser totalmente diferentes uns dos outros, mas ainda assim podem causar harmonia."

Você sempre diz que nos Peppers, você depende de cada um. Você poderia dar um exemplo de você e Flea tocando junto?
"
Isto é dificil. Se ele estivesse aqui, poderia lhe mostrar que as coisas que eu toco não fazem sentido sem o baixo. Vamos ver."

[John toca "Don't Forget Me"]

Vocês parecem que estão trocando papéis.
"Ah sim. Isto é muito importante, quando você toca com outra pessoa. Se o outro tem uma idéia, você não deveria adicionar algo á esta idéia. Você deveria tocar algo oposto ao que ele pensou. Eu acho que Flea e eu tentamos tirar lucro de qualquer coisa que tocamos, e isto funciona muito bem. Mesmo se eu tentar discordar musicalmente com ele, as coisas se misturam de forma perfeita e o desacordo deixa isto mais colorido."

Se uma pessoa comum tentar tocar suas músicas em um quarto de ensaio, vai perceber o quão difícil é isso."Talvez. Mas esse não é o ponto. Como adolescente, subestimei totalmente o que uma banda precisaria de mim. Tentava lembrar de toda a complexidade das coisas complicadas de Frank Zappa. Quando entrei para a banda, tinha muita técnica sob a minha manga. Mesmo pensando que eu poderia dominar todos os ritmos mais complicados, nunca tinha ouvido nem o principio do "puxa-e-empurra" e isto preocupou a banda como um todo. Nenhuma revista de guitarra que eu lia na época falava disso. Então eu entrava no estúdio e os produtores sempre falavam: "John, você esta forçando demais, precisa de mais suavidade" ou "John, você tá suave demais, precisa tocar mais forte". Os bateristas devem sacar isso ouvindo Ian Paice e Ringo Starr.

Todo mundo que toca com outro vai estar nesta situação. Nós teremos que nos mover para o groove, mesmo estando no ritmo certo, tocando na frente ou atras. A batida básica continua a mesma. Isto depende se você puxa ou empurra. Se você administra isso como uma banda, você terá um groove sólido, como por exemplo "The Song Remais the Same", do Led Zeppelin. Toda base de "Don't Forget Me" também é puxada, e o refrão é empurrado. Eu consigo me lembrar de quando estava no estudio com eles pela primeira vez ensaiando "Fire", "Purple Haze" ou "Foxy Lady" do Hendrix, ou "Jeff's Blues" do Yardbirds. Nenhum de nós empurramos na mesma hora. Eu puxei, empurrei e isto ocorreu alternadamente com os demais. (risos)"



O Estúdio do Artista


Tudo é Marshall: Tanto ao vivo como em estúdio, John conta com uma combinação de cabeçotes de baixo e guitarra elétrica. Na turnê Californication é onde um cabeçote de baixo de 200 watts chamado Major (chamado modelo 1978), construído entre '67 e '74, assim como um cabeçote de guitarra Jubilee 25/55. Quando estava gravando esse mesmo álbum, ele usou, como ele mesmo diz, um cabeçote de baixo do mesmo modelo e um de guitarra de '65. Tudo Marshall.

Tudo é Fender: John é um fanático por Strats. Na maioria das vezes ele está cercado por uma '62, algumas raras vezes ele é visto com uma '55, várias Teles, uma Jaguar ou até uma Gretsch White Falcon. Sua guitarra para prática e viagens é uma Mustang. Para violões ele conta com um Martin, embora seja possível escutar um Taylor nas canções com som mais espanhol no álbum.

O próprio John descreve seu amor por Fenders dessa maneira: Se você está buscando um som completamente heavy metal ou punk, não é necessariamente uma Fender que você procura. Mas no que me diz respeito, eu quase não toco powerchords e então eu não preciso desse som de guitarra de rock. Eu dou ênfase ao aspecto espacial quando estou tocando, na maioria das vezes com um som limpo. Limpa do jeito que é, uma Fender pode abrir diversos mundos. Me parece que uma Les Paul não contém uma variedade tão grande quanto a de uma Strat limpa ou uma Tele. Você pode tirar tantos sentimentos dela, tantas cores diferentes. Eu amo esse detalhe e a esparsidade desse som fino e limpo com um forte ataque e agressividade.
-Lars Thielke


Tradução: Felipe e João Faria - Universo Frusciante
Fonte: Telepatia Tonal - Junho de 2002

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