22 de setembro de 2017

A volta do filho pródigo - Inicio de 1999



Você acabou de voltar a tocar em shows. Como tem sido?
A turnê está sendo ótima. A cada noite tenho tocado algo diferente. Gosto principalmente do fato de que no palco nos escutamos e tiramos coisas das performances de cada um. Uma banda com uma química boa é a que sabe apreciar cada músico. É ótimo porque apreciamos o fato de que nós temos uma química que nunca alcançaremos com outros músicos. Tocamos o melhor que podemos quando tocamos juntos. Somos os quatros músicos ideais para tocar junto, quer dizer, éramos antes (antes de Frusciante sair em 1992), mas não dávamos o valor suficiente para isso. 


Dave Navarro era um guitarrista ótimo, mas não parecia ser o melhor para o Chili Peppers.
Com certeza. A química dele era com o Jane’s Addiction, porque foi onde ele aprendeu a tocar. Ele entrou no Jane’s Addiction quando ele tinha 17 anos, e o estilo dele era baseado em como o Steven tocava bateria e o Eric tocava baixo, e o jeito que o Perry cantava. Ele desenvolveu o estilo de guitarra adaptando-se em torno disso. Eu entrei no Chili Peppers quando tinha 18, e desenvolvi meu estilo, adaptando-me em ser o melhor guitarrista que poderia, para tocar com o Flea. Para que pudéssemos criar músicas que o Anthony pudesse cantar.


Não apenas seu estilo de tocar é perfeito para o Chili Peppers, mas o tom da sua guitarra se adapta muito bem ao baixo do Flea. Você trabalha muito para ter um som particular?
Na verdade não. É só o tipo de som que eu gosto de atingir. Não tento fazer o som de guitarra heavy metal dos nos 80.  Tento uma abordagem mais simples para o som que quero atingir. Não é só o som perfeito para o baixo do Flea, mas a bateria também tem um certo tipo de som quando a guitarra ocupa menos espaço na sua frequência. Muita gente tenta fazer sons de guitarras estrondosos, e o resultado é que a bateria soa menos. Quanto mais limpo o som da guitarra e quanto mais espaço tiver nas partes da guitarra, mais você escutará o som da bateria, que para mim é uma das melhores partes de uma banda.


Parece que dá para ouvir quase tudo que está acontecendo em cada canção.
Sim, isso tem muito a ver com a forma como compomos as músicas. Cada um vem com a sua parte. Inclusive, hoje me ocorreu que quando compomos as músicas, é como se construíssemos uma casa. O Chad, por exemplo, poderia decidir os perímetros, sabe, quão grande será a casa, e que área da casa o chão vai cobrir. E depois outra pessoa colocará a parede, e outra colocará o telhado, e outra pessoa fará com que o interior da casa seja de determinada forma. E é assim que nossas músicas se formam, com cada pessoa fazendo sua parte para criar o total. Improvisamos bastante, o que já nos separa de uma boa parte das bandas, acho, especialmente se o estilo delas não as conduz ao improviso. Nós improvisamos e somos muito bons nisso. Toda vez que ensaiamos, gravamos pelo menos cinco jams diferentes que poderiam ser ótimas músicas. Normalmente é só o que a gente faz: improvisar, improvisar, e improvisar mais; daí o Anthony começa a dançar durante uma das jams e fala que essa tem que virar uma música, e  aí pensamos como deveria ser a próxima parte. Compor música é muito natural. Não é nada difícil. Como disse, a gente improvisa e a música surge daí. Na verdade a gente faz muito mais música do que deveria para um álbum. Então geralmente a gente deixa pro Anthony decidir quais devem ser terminadas.


Você acha difícil decidir quais músicas devem ser terminadas e quais não devem?
Na verdade não. Tem músicas muito boas que acabam não entrando no disco, mas vocês da Austrália vão ter três músicas a mais que as pessoas de outros países. Tem alguma coisa a ver com impostos – eu acho que vocês se ferram por causa de impostos. Então essas três músicas são extras que finalizamos, mas também temos outras que são muito boas – duas em particular, que o Anthony tem que terminar a letra. A única razão pela qual ele ainda não terminou é porque ele e o Rick (Rubin, o produtor) mostraram para mim e para o Flea uma lista com seis músicas e perguntaram quais eram as mais importantes para nós. Aí nós escolhemos três delas e ele terminou de escrevê-las. Mas as outras três...ainda estão no limbo, sabe. Mas ele vai terminar em algum momento. As músicas que compomos são muito estranhas. Não são como as de ninguém mais. A maioria das pessoas compõe a música, colocam progressões musicais, e talvez um riff, e por aí vai. Mas a nossa...essas cores múltiplas que cada um coloca no instrumento, elas são totalmente independentes das outras partes. A guitarra e o baixo só se relacionam no sentido do sentimento, mas não fazem a mesma coisa, apenas se tecem entre si. Sinto que o senso de ritmo do Flea vem do trompete que ele aprendeu a tocar primeiro, e o jazz foi a música que fez com que ele quisesse ser músico. Mas ainda que ele nunca tenha conscientemente tentado colocar esse conhecimento no baixo, ele só experimentou tocar funk e punk rock e por aí, ainda aparece na música que ele faz. Os tipos de ritmos e melodias que ele toca no baixo – a única pessoa que soou tão enraizado no jazz como o Flea, que atraia uma audiência de rock, foi Jack Bruce, que é meu baixista favorito.


Qual é sua abordagem para melhorar suas habilidades como guitarrista?
Eu pratico o tempo todo, e sei teoria, na verdade penso em música desse jeito, porque penso em música de todas as formas em que posso. Tipo, se estou fazendo a parte do backing vocal de uma música, sei qual o intervalo estou cantando e sei como ele se relaciona com os acordes da canção. Acredito que quando se faz música, você joga com a matéria da qual o infinito é feito. Entender a teoria dos acordes e dos intervalos e das notas e de como a música é composta em um papel podem tornar o uso desses elementos com o infinito maior. Por outro lado, conhecimento tecnológico pode fazer também o entendimento da relação da música com o infinito menor. Para mim faz crescer, mas houve um tempo na minha vida em que fazia com que fosse menor, e quando percebi esse efeito, me esqueci de tudo. Esqueci até que eu sabia ler música, esqueci que um dia soube o nome das notas. E foi quando eu percebi que estava surgindo meu estilo próprio de compor e de tocar guitarra. Então, quando já tinha meu estilo, voltei a pensar nessas coisas, e sinto que fez meu estilo ficar mais mágico. E só fez com que a perspectiva do meu entendimento de como a música é infinita, mais profundo. Quando escuto música, é incrível para mim como há tantas combinações de cores e sons. É realmente ilimitado.


A escolha do equipamento afeta a maneira que você toca?
Com certeza. Eu toco em resposta ao tipo de instrumento que estou usando. Toco de forma diferente em cada guitarra. No disco (Californication) usei mais a Fender Stratocaster de 1956 ou 55’ ou algo assim. Tem um braço maple e é uma guitarra muito boa. Na verdade, quando comprei, um especialista em guitarras que estava comigo insistiu para que os pickups fossem originais, e o pessoal da loja pensou que eram originais, mas depois que terminei de gravar o disco, levei para o cara que arruma os trastes das minhas guitarras e ele disse que os pickups eram Seymour Duncan e que tinham sido feitos para parecerem os originais.  Mas a guitarra soou bem, e foi a que usei na base da maioria. Em algumas músicas usei a Falcon de 1955 que tinha cordas de diâmetro 0.12. Normalmente uso 0.10, mas essa guitarra estava com 0.12. Tem um cara, Rick Wilson, que foi guitarrista do B-52. Ele era um dos meus guitarristas favoritos; embora ele esteja morto agora, ele usava cordas muito finas e ele só usava quatro cordas (as cordas D e G foram removidas). Aí ele inventava essas partes de guitarras que seguiam em duas direções de uma vez, o que era um estilo muito legal e me inspirou muito. Enfim, eu comprei essa guitarra porque é a guitarra com a aparência mais legal que já vi, e gradualmente estou encontrando meu jeito de tocar nela que encaixe com o jeito que o Flea toca. Usei na música 'Californication' e também na 'The Otherside'. Mas definitivamente a melhor maneira para mim de tocar com o Flea é com uma guitarra com 0.10, mas é divertido tentar surgir com um estilo que tem tanto movimento e cores quanto com uma guitarra com cordas 0.12. É muito diferente, porque você não pode fazer o vibrato da maneira que faz na guitarra com 0.10, mas é divertido. Quando você usa 0.12 ou mais, começa a soar como surf music, sabe, Dick Dale e por aí. As notas não soam quase nada, 0.11 são legais – na verdade é o que estou usando nessa guitarra que estou segurando agora, que é uma Fender Mustang que comprei para praticar no meu quarto. Não uso tanto efeitos. Uso um Fuzz Tone, um pedal distortion, um pedal wah wah, e um pedal chorus. No palco consigo fazer vários tipos de sons só com esses quatro itens. Na maioria das vezes eu toco com um tom limpo; é raro eu ligar o pedal distortion – só se eu for fazer um solo, e solar não é uma parte tão importante do meu estilo. A parte mais importante é tocar com textura e com cores diferentes.


Como você pratica?
O que faço é tocar junto com os discos. Minha audição é muito boa, ao ponto de que sei como tocar a parte de guitarra de um álbum sem ter que colocar muita energia em compreendê-la. Se eu escutei suficientemente, eu simplesmente sei como tocar. Eu na maioria das vezes toco junto porque aprofunda meu senso de todas as diferentes cores que posso extrair quando faço música – e todos os dias eu me inspiro por algum grupo novo de músicos. Por exemplo, agora estou pensando em Pete Townshend, há uma semana pensava em Queen, e uma semana antes disso era Eddie Van Halen e assim por diante.


Tem alguém que te inspira constantemente?
Sim, Jimmy Page e Eric Clapton no Cream e Jimi Hendrix. Acho que eles são os melhores guitarristas. Mas eu escuto uma grande variedade de música, tipo, sou muito fã de David Bowie, amo Black Sabbath e Captain Beefheart...tem muita gente mesmo. Amo Butthole Surfers, Cure, Bob Marley, Joy Division...tem pouca música boa que eu não gosto. Nesse momento, tenho ouvido muito John Coltrane e a música que ele fazia nos anos 60, época em que ele entrou numa viagem espiritual.


Como foi a gravação do disco?
Eu não toquei muito a guitarra nos últimos anos, então minhas mãos estavam um pouco fracas. Elas não ficaram extremamente fortes até mais sou menos o fim das gravações. Eu tinha o punho direito bem forte desde o começo, e isso era legal porque era tipo os guitarristas de punk rock – eles tem o punho direito incrivelmente forte por fazer downpicking rápido. Então isso teve um efeito no meu jeito de tocar guitarra durante a gravação. O que foi ótimo porque eu queria aproximar meu jeito de tocar guitarra de um ponto de vista que não fosse de um músico, porque esse é o jeito de tocar guitarra que nunca termina como às vezes acontece se você foca muito no aspecto da técnica. Mas trabalhei duro nas gravações desse álbum. Eu tocava guitarra constantemente enquanto escrevíamos, e enquanto gravávamos, eu ia para casa e tocava por cinco horas depois de uma sessão de gravação de dez horas.


Você tem uma música favorita do Californication?

Ah…Sim…'Right On Time'. Gosto muito dessa porque combina o período de transição em que eu parei de gostar de disco e comecei a gostar de punk. Essa música para mim soa como os dois estilos de música, mas de uma maneira legal e moderna. Quer dizer, não vai lembrar especificamente ninguém do punk ou disco, mas tem a vibe dos dois.


Muitas das canções parecem feitas na medida para tocar quando você esta em turnê.
É curioso você falar isso agora porque o jeito que estou tocando (na turnê) é muito diferente do jeito que toquei no disco. Agora o jeito que toco é mais extravagante e orientado pelo solo. Tenho me mostrado mais. Mas quando fizemos o álbum, não tocava assim nem um pouco. Quando digo extravagante, é extravagante no estilo de Jimmy Page e Pete Townsend do que Jeff Beck. Quer dizer, Jeff Beck sempre foi uma grande inspiração para mim desde que eu era criança, mas em relação ao desenvolvimento do meu estilo, diria que não tem quase nada de parecido com o estilo dele. Antes de gravar, Rick Rubin falava ‘vamos colocar um solo aí’ ou ‘que tal um solo nessa parte’ e eu respondia ‘não quero fazer solos – isso não combina com o que estou tentando fazer nesse disco’. Mas agora, depois da gravação, meus dedos ficaram muito fortes e eu amo fazer solo. Tenho tocado bem diferente ao vivo do que está no disco, o que é divertido. Vamos tocar a maior parte do verão (hemisfério norte) e acho que viremos para Austrália em janeiro do ano que vem.


Tradução: Paula Buckvieser
Fonte: Australian Guitar Magazine (Austrália) - Inicio de 1999

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