1 de outubro de 2017

Prince John Santana Kurt Frusciante - Abril de 2006


Vem aí o novo álbum do Red Hot Chili Peppers, Stadium Arcadium. E, com ele, o velho papo que precede todo novo-álbum-do-Red-Hot-Chili-Peppers: a banda está "limpa", se sentindo espiritualmente mais elevada e lançando um disco bem melhor que o anterior.

1. “Estamos limpos. E minha definição de estar limpo é que voltou a vontade de ser uma pessoa melhor. Não que tenhamos vencido nossos demônios. Mas parece que as coisas têm estado sob nosso controle agora”.

2. “Eu me sinto vendo coisas, sentindo coisas, com uma luz que não aparecia para mim há muito tempo. Estou seguro.Seguro para tocar melhor, arriscar mais, fazer as pessoas me deixarem arriscar mais. Digo isso por mim, mas vejo a mesma coisa nos outros da banda. Estamos num bom momento. Estamos nos sentindo muito especiais”.

3. “O disco anterior (By The Way, 2002) fizemos em uma época dark. Eu não conseguia desenvolver toda a concepção de música que eu imaginava que poderia contibuir para resultar em um bom álbum. Eu estava contido. Com este novo disco é diferente. Ele é iluminado. Você consegue ver inspiração nele seja no trabalho de estúdio, nas mixagens, ouvindo as músicas prontas. Ele é cheio de camadas. É Chili Peppers, mas tem a história do rock 'n' roll nele. É o melhor disco da banda, dos que eu participei e posso falar”.

O papo de sempre (mas a pegada é mesmo diferente). As frases acima saíram de entrevista com o guitarrista John Frusciante, que, por seu trabalho no novo CD dos Chili Peppers, pode ser chamado de... "Prince", pela ocasional guitarra disco em uma faixa ou outra. Chamado de John "Santana", pela latinidade viajante em algumas das canções de Stadium Arcadium. Ou de "Kurt" Frusciante, por um certo grunge raivoso ouvido aqui e ali. O som dos Chili Peppers é sempre aquilo: a infalível voz californiana malaca de Anthony Kiedis quando o som é funk metal, docinha quando é balada, o baixo fora do normal dos baixos de Flea, a bateria correta e eficiente de Chad Smith. Mas Frusciante destoa de tudo neste novo CD. É com essa essência do rock que os músicos brincam no clipe Dani California. O primeiro single desse "novo" Chili Peppers não é muito diferente do que eles fizeram nos últimos anos, mas o vídeo coloca os integrantes do grupo em fases distintas do rock: os anos 70 psicodélicos, os anos 90 rasgadamente grunge.

A entrevista ocorreu em fevereiro, no famoooooooso hotel Chateau Marmont, na Sunset Boulevard, em West Hollywood, que sempre abriga as entrevistas dos Chili Peppers e tem longa lista de serviços prestados ao rock. Era o hotel predileto de John Lennon. Jim Morrison caminhou bêbado por seu telhado. John Belushi (ator - mas um dos atores mais "rock 'n' roll") morreu de overdose em um de seus bangalôs. Os Rolling Stones já deixaram muitas "marcas" em seus quartos.

O Marmont é luxuoso, mas Frusciante não parece acreditar muito nisso. Entrou e saiu do quarto "arrumado" para a entrevista algumas vezes, sem olhar para a cara do entrevistador (no caso, eu). Reclamou geral. O cheiro do carpete não estava dando para suportar, segundo ele. Claro, não tinha cheiro nenhum naquele quarto. Na primeira porta que entrou, um subquarto pequeno dentro do bangalô da entrevista, deitou na cama, dispensou a assessora, tirou o tênis e começou a falar. E não parava de falar. “Eu, agora, até acho que podia ter me soltado mais. Arriscado mais com minha guitarra. Mas só o fato dessa vez ninguém ter chegado a mim para dizer “Ei, você tem certeza certeza que o encaminhamento tem de ser assim?", já considero esse um novo Chili Peppers”.

Stadium Arcadium é um disco duplo. Era para ser triplo. triplo não, uma trilogia. Com três álbuns diferentes lançados com seis meses de distância um dos outros. Frusciante explica: “Foi uma idéia do Anthony. De repente, percebemos que tinhamos entrado em estúdio com 38 músicas. Gravamos as 38, mixamos as 38. A essa altura, ele achou que seria legal lançar tudo. Mas só ficamos felizes com o resultado de umas 23. Aí refizemos umas 3 e decidimos lançar em um álbum só, duplo (que acabou com 26 músicas). Sempre defendi essa idéia. As músicas feitas hoje servem para que as pessoas as ouçam hoje. Não daqui a seis meses. Se o Jimi Hendrix lançasse o "Are You Experienced?" em 1997, em vez de 1967, quando compôs, o disco faria algum sentido? Acho que não”.

Naturalmente, para Frusciante, um álbum duplo nem é uma ousadia. Em 2004 ele começou um projeto maluco, lançando seis trabalhos em um tempo mínimo. Começou com Shadows Collide With People, passou por The Will to Death, Automatic Writing, DC EP, Inside of Emptiness, A Shepre in the Heart of Silence, fechando com Curtains (comecinho de 2005). Mais recentemente, ele escreveu algumas faixas para o ainda inédito novo trabalho-solo de Glenn Hughes (ex-Deep Purple), ao lado do companheiro Chad Smith. O trabalho está sendo gravado aos poucos, no estúdio caseiro do baterista. Hughes ainda torce por uma ponta de Frusciante, empunhando a guitarra.

Stadium Arcadium é mais experimental (o que não significa "cabeça") e quebra com o aspecto meloso do disco anterior, que mostrou um Chili Peppers não muito vermelho, nem tão quente, muito menos apimentado. O que não muda - e não deve mudar tão cedo - é a rotina e o tamanho dos shows da banda. Os americanos encabeçam o primeiro dia do festival escocês T in the Park, em julho. Abaixo deles? Franz Ferdinad, Kaiser Chiefs, Paul Weller... Na noite seguinte, a atração principal é o The Who. Um pouco antes, em junho, apresentam-se no Rock in Rio (o de Lisboa, claro). Lá estão na mesma posiçaõ de Roger Waters e Guns N' Roses. “Mas é a América do Sul que tem os fãs mais malucos e empolgados", ressalva o guitarrista. Eles são parte do show”.


Fonte: Revista BIZZ - Abril de 2006.
Texto: Lúcio Ribeiro

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