1 de outubro de 2017

Sacanas e selvagens - Março de 1992


A bordo de seu melhor disco, os reis do funk-metal se afirmam como superbanda sem deixar de lado a esculhambação

"É como fazer amor com uma mulher", diz Anthony Kiedis, o vocalista da banda punk/funk californiana prototípica, o Red Hot Chili Peppers. Anthony pode estar sem camisa. O pôr-do-sol caindo por detrás da janela da casa de três andares onde ele mora pode estar emprestando um tom sensual de rosa ao placar na montanha que soletra em branco H-O-L-L-Y-W-O-O-D, poucos passos adiante. Mas o paralelo sexual que ele começa a traçar (sem trocadilhos, pô!) não implica uma dissertação explícita. Na verdade, Kiedis está falando de discos.

"Com o primeiro foi como se você estivesse beijando a mulher, acariciando o cabelo dela", Anthony começa, referindo-se ao início da discografia da banda. "No segundo álbum talvez você já esteja passando as mãos nos peitos dela. No terceiro pode estar acariciando os órgãos genitais dela. No quarto disco ela já está com o maior tesão e finalmente você dá a ela o leite, o Mother´s Milk". Ou seja, no ano passado o mundo estava pronto para ser devidamente carcado pelos Peppers.

O que não aconteceu. Mother´s Milk foi o best-seller da carreira da banda - seiscentas mil cópias vendidas -, a MTV deu trela e exposição para o clip de "Higher Ground", os Peppers mudaram de clubinhos apertados para teatros com cinco, seis mil lugares. Mas não havia motivação. A banda estava broxa. O broto proverbial, depois de tantos prolegômenos, tantas carícias e promessas úmidas ao pé do ouvido, teve que voltar para casa sem ter chegado aos finalmentes.

Anthony atribui o coitus interruptus à antiga gravadora da banda, a EMI. "Nunca nos demos bem lá", Kiedis explica. "Com a exceção de algumas poucas pessoas do departamento de divulgação de rádio, não havia o mínimo de entendimento entre nós e a companhia. Eles ouviam nossa música e faziam uma cara confusa, estonteada, e diziam ´desculpe, mas não sabemos o que vamos fazer com esse disco´.

E nós: ´mas essa é a coisa mais preciosa do mundo para nós, estamos desbravando novos caminhos, estamos fazendo música que precisa ser ouvida e que o mundo quer, porque o mundo precisa de uma alternativa à mediocridade do mainstream’... mas a EMI é a mediocridade do mainstream."

Anthony está apenas aquecendo as turbinas. "Não nos agradavam os métodos deles. Às vezes eram bisbilhoteiros demais, a ponto de querer se meter na composição das músicas, o que é repugnante! Uma gravadora querendo ensinar ao artista como deve editar uma canção!"

A banda não pensou duas vezes quando chegou a hora de renovar o contrato com a EMI: mudou de gravadora. Após reuniões com representantes da Virgin (Janet Jackson, Paula Abdul, Keith Richards), da Sony (Michael Jackson, Rolling Stones) e da Geffen (Guns N´Roses), os Peppers defectaram para a Warner Brothers, lar da banda alternativa mais popular do mundo, o R.E.M.

"Nós queríamos uma potência apoiando nossa retaguarda", diz Anthony, "uma companhia forte, com distribuição mundial, que nos desse confiança. No fundo, sabíamos que o disco (que iríamos fazer na nova gravadora) seria tão forte, lindo, colorido e potente que não podíamos correr o risco de alguém deixar cair a bola."

Blood Sugar Sex Magik, o primeiro álbum dos Peppers na Warner, reflete um sentimento de lua-de-mel entre banda e gravadora. Com a provável exceção do genial Freaky Styley - o segundo álbum da banda, uma colaboração faiscante entre os Peppers e o funkmeister George Clinton lançada em 1985 -, esta é a primeira vez que os pimentas ardem para valer em disco, se esparramando por generosas dezessete faixas urdidas com funk virulento ("The Power Of Equality", "Suck My Kiss" e a canção-título), filosofia ("Give It Away", "The Righteous And The Wicked"), muita sacanagem ("Funky Monks"), mellotron ("Sir Psycho Sexy") e - cu-ru-zes! - ha-morr ("Breaking The Girl", levada no violão, e "I Could Have Lied").

O mais variado de todos os álbuns da banda, Blood Sugar Sex Magik também consegue soar mais cru e selvagem do que toda a discografia anterior dos Peppers.
"Uma das vantagens de trabalhar com a Warner depois de todos esses anos na EMI é que agora tivemos todo o tempo do mundo para compor e um orçamento muito maior." Produzido por Rick Rubin - o dono da gravadora Def American, que antes deu ao mundo os Beastie Boys e o Run-DMC -, o novo álhum foi gravado numa mansão incrustada nas colinas de Hollywood, para onde os Pepper mudaram-se enquanto trabalhavam.

"Rick queria nos contratar para a Def American, mas, embora não estivéssemos interessados em assinar com a companhia dele, queríamos trabalhar com ele. Rick nos pareceu uma escolha natural: ele é daqui, de Hollywood, tem uma formação supervariada, com experiências em diversos formatos (de música), sente-se à vontade com punk rock, rap, rock e funk, e tem uma cabeça aberta. Pareceu um cara sábio: tantos outros, antes dele, chegaram com o maior ego e tentaram mudar o som da banda; ele não. Nos deixou na nossa, bem relaxados."

A casa onde o disco foi gravado é classificada por Kiedis como "uma das mordomias de Warner, um dos luxos. Esse som, com essa coloração, não foi feito para ser tocado no ambiente estéril de um estúdio. Num estúdio esse som se acanharia: você entra (no estúdio) e se depara com secretárias, funcionários andando para lá e para cá... então achamos essa casa, construída em 1918 - o que é tempo à beça para Hollywood -, e construímos um estúdio dentro dela. Chamamos uns técnicos canadenses especializados em instalar estúdios em lugares obscuros. A biblioteca da casa virou a sala dos controles, com o console de gravação e mixagem. Montamos a bateria, as guitarras e o baixo num enorme salão de baile e, do lado, erguemos um compartimento de vidro, de onde eu fazia as vozes-guia. Mais tarde gravamos os vocais para valer comigo deitado em meu quarto de dormir."

Quarto de dormir? "Nos mudamos para a casa durante as gravações", prossegue Anthony. "A casa é enorme! Tínhamos cozinheiro até, porque não queríamos sair dali e ser perturbados com trânsito, poluição, gente demais na rua. E não havia a pressão de ter que começar a gravar a tal hora porque o ´taxímetro´ do estúdio ia começar a rodar. E era acolhedor, com tapetes antigos enormes, centenas de velas. Foi muito low-tech, muito low-tech."

O ambiente de campo de férias rendeu dividendos: em sete semanas de "acampamento" os Peppers gravaram 25 canções. "Todo o tempo que passamos juntos criou entre nós uma forte telepatia. Não precisávamos mais falar para saber o que o outro estava pensando em tocar."

Das novas canções, algumas surpreenderão os já convertidos ao estilo energético dos Peppers. Embora desde Uplift Mofo Party a banda já flertasse com elementos musicais mais "dóceis" e, de certa forma, pescados nos anos 60 ou em tradições diferentes do som urbano de L.A. - citaras, mellotrons -, é em Blood Sugar Sex Magir que essas investigações alcançam sua total fruição - o riff de baixo de "Come Together", dos Beatles, usado em "Give It Away", metais de Nova Orleans em "Apache Rose Peacock" - Kiedis não acha que os fãs se assustarão com a nova cara dos Peppers.

"Tanta gente tem sua própria expectativa de como a banda deve ou não soar", diz Anthony, "gente que nos acha os heróis punk do funk-rock da década, ou coisa assim. Mas nenhum de nós na banda tem uma noção pré-concebida de como os Peppers devem ou não soar. O que nos interessa é a honestidade de tocar algo que nos pareça enxuto e funky. E se der vontade de compor um negócio completamente lento e sentimental, bastante vulnerável e revelador, com violão, tudo bem. Porque a filosofia dos Red Hot Chili Peppers é não ter medo de não se conformar aos pré-conceitos dos outros."

Toca o telefone e Anthony atende, se desculpando por ter que dar atenção à chamada. Todos os dias, religiosamente, os Peppers ensaiam num estúdio do Vale de San Fernando, no outro lado da montanha que abraça os fundos da casa de Anthony. Falar ao telefone no cair da tarde é a única chance que o vocalista tem de se comunicar com o resto do mundo.

"We rocked", diz Kiedis ao telefone, enquanto seu visitante investiga os detalhes das três enormes pinturas em volta da mesa de bilhar que enfeita a sala principal da casa, todas mostrando mulheres nuas. Kiedis está visivelmente excitado com a proximidade de uma excursão. Com seus ensaios diários os Peppers estão se preparando para uma turnê que culminará com os dois maiores shows que a banda já realizou: um, no Sports Arena, o ginásio de Los Angeles onde toca o primeiro escalão do pop, de Bruce Springsteen a Madonna. Outro, como atração principal do show de réveilon no Cow Palace de San Francisco, onde cabem dezessete mil pessoas.

Só não pergunte a Anthony sobre as meias. "Acho que os fãs de verdade não se deixam distrair por detalhes menores", sentencia Kiedis, com toda a seriedade do mundo. Ele se refere a artigos em revista e reportagens em jornais que dão destaque, única e exclusivamente, ao costume dos Peppers terminarem os shows nus em pêlo, apenas com meias enormes adornando a genitália.

"Quem se preocupa, ou se distrai com isso, é a mídia, porque (os jornalistas) estão sempre procurando um gancho. Tudo bem, nós ficamos nus e nos divertimos, é cool. Mas se você acha que isso é tudo o que fazemos, não está entendendo nada. E quanta gente não entende: nas entrevistas, ninguém nunca quer falar da profundidade das letras de nossas músicas, da soulfulness dos instrumentistas, do amor e da amizade entre os integrantes da banda, da qualidade pioneira de um som que nunca se ouviu antes. Só querem escrever sobre ´esses caras ridículos que botam meias sobre os perus´.

Dá vontade de gritar: ´Alô! Alô! Estamos fazendo música aqui, e vocês só se preocupam com as meias?´"

J. E. R.

ANTHONY KIEDIS, 28 Vocal e letras
Co-fundador do grupo, amigo de infância de Flea. "Éramos os únicos caras no colegial que não tinham cabelo comprido nem gostavam de Led Zeppelin." Consumidor insaciável de drogas de todos os tipos, largou tudo depois que o guitarrista original da banda morreu. Trabalhou como ator em Caçadores de Emoção (Point Break, 91) e My Own Private Idaho (91).

CHAD SMITH, 31 Bateria
Sem nunca ter tocado em uma banda conhecida, este veterano de Michigan entrou para os Peppers após um único teste. Substitui Jack Irons, de Uplift (que substituiu Cliff Martinez, baterista dos dois primeiros discos).

FLEA, 28 Baixo
Ex-baixista de uma das mais importantes bandas do punk americano, o Fear. Considerado um dos mais influentes baixistas de sua geração, combina à perfeição o baixo funk com o peso do rock. Também toca trompete. Também trabalhou em My Own Private Idaho. Ídolo máximo: Jimi Hendrix.

JOHN FRUSCIANTE, 21 Guitarra
Um menino-prodígio, estreou nos Peppers aos 19 anos, após uma passagem pelo Thelonious Monster. Substituiu Hillel Slovak, que foi substituído no primeiro LP por Jack Sherman.

» A história, disco por disco
O fã brasileiro dos Peppers - existem muitos - infelizmente não tem muito material disponível. Freaky Styley, The Uplift Mofo Party Plan e Mother´s Milk foram lançados aqui, mas estão fora de catálogo. E os dois home videos, a coletânea de clips Positive Mental Octopus e o ao vivo Psychedelic Sex ainda não saíram por aqui.

THE RED HOT CHILI PEPPERS (Enigma-EMI) 1984
Apresentando a fórmula peppers: funk rock ótimo para festas, sexy, avacalhado, inocentemente politizado. Problema: a produção de Andy Gill, ex-Gang Of Four, impõe uma sonoridade pós-punk que não combina com a banda. Outro problema: Hillel Slovak, guitarrista fundador da banda, não toca neste disco. Voltará para o próximo. Hit: "True Men Don´t Kill Coyotes".


FREAKY STYLEY (EMI) 1985
Produzido pelo legendário George Clinton - líder do Parliament/Funkadelic, criador do funk psicodélico e doido de pedra -, Freaky... é praticamente um disco de dance music. Ao estilo dos peppers, claro: cheio de ataque e sacanagem. Hit: "Catholic School Girls Rule".

THE UPLIFT MOFO PARTY PLAN (EMI) 1987
É o disco em que o grupo deu uma virada para o metal: mais guitarras, batidas simples e pesadas. Só o baixo de Flea é que continua com um pé no jazz-funk. A influência do hiphop se aprofunda, inclusive nos vocais - que agora incluem muito mais raps - e na postura de palco. Hit: "Fight Like A Brave".

THE ABBEY ROAD EP (EMI) 1988
Picadinho de várias velharias: "True Men Don´t Kill Coyotes" (do disco de estréia), "Catholic School Girls Rule", "Hollywood" e "Backwoods", e o lado B do single "Fight Like a Brave", "Fire".

MOTHER´S MILK (EMI) 1989
Novamente produzida por Michael Beinhorn, o mesmo de Uplift..., a banda encontra seu estilo definitivo em faixas como "Knock Me Down", "Highway To Venus" e na cover de "Fire", de Hendrix. Mas como álbum é irregular, graças à entrada de dois novos integrantes: o baterista Chad Smith e o jovem guitarrista John Frusciante, que substitui Hillel Slovak, morto por overdose em junho de 88. Hit: a cover de Stevie Wonder, "Higher Ground", que se torna single mais vendido.


10 fatos sobre Blood Sugar Sex Magik:
- É o primeiro disco pela Warner. Eles escolheram a gravadora porque:
a) ela não se meteu no processo criativo;
b) o chefão da Warner Mo Ostin foi quem descobriu e contratou Jimi Hendrix;
c) ela pagou mais, é claro.
- A mansão angelena em que foi gravado o disco é onde os Beatles tomaram LSD pela primeira vez.
- A banda inteira ficou morando nessa casa durante as gravações, junto com seu produtor Rick Rubin.
- A casa é mal-assombrada. Pelo menos John Frusciante jura que viu o fantasma de uma mulher.
- O disco é dedicado a Mike Watt, guitarrista do FIREHOSE e ex-integrante dos Minutemen. Ele era amigão de Kiedis e Flea desde a adolescência.
- Pela primeira vez um produtor participa do processo de composição dos Chili Peppers.
- É a primeira vez, também, que os Peppers mantêm a mesma formação por dois discos seguidos.
- Este é o álbum dos RHCP que chegou mais alto na parada americana, o 14º lugar.
- Na tour de lançamento do disco, os Red Hot Chili Peppers excursionaram pelos EUA com Nirvana e Smashing Pumpkins abrindo.
- A dobradinha deve se repetir na edição 92 do festival Lollapalloza, que acontece em julho nos EUA. Outros grupos que devem participar são Soundgarden e Cramps. A tour vai aquecer os Peppers para a gravação de um novo disco, que deve sair no final deste ano.


Fonte: BIZZ - Março de 1992

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