25 de novembro de 2017

O Chili Pepper John Frusciante é Red Hot outra vez! - Setembro de 1999


“Toda vez que você coloca um disco ou um CD”, explica o guitarrista John Frusciante, “é uma dimensão no tempo; é um pedaço do tempo que se move de uma dimensão a outra. Um momento em 1927, ou uma série de momentos que se acumularam para formar uma canção em 1967, que de repente aparecem em 1999 porque eu apertei um botão. Isso é como morrer e acordar em outro mundo.”

Verdade seja dita, Frusciante, que entrou para o Red Hot Chili Peppers pela primeira vez em 1988, para sair da banda pouco tempo depois no meio da turnê em meados de 1992, quase morreu mesmo, mas ele acordou neste mundo e voltou ao Peppers pronto para retribuir. O que para muitos é a “formação clássica” do Red Hot Chili Peppers - Anthony Kiedis (vocalista), Flea (baixo), Chad Smith (bateria), e John Frusciante (guitarra) - passou o verão de 98 em sessões de jam na garagem de Flea, e no resto do outono e inverno compondo e gravando Californication: um disco inconfundivelmente semelhante ao primeiro grande sucesso de 1991, Blood Sugar Sex Magik.

Se os fãs do Peppers ficaram surpresos em saber que John Frusciante iria tocar novamente ao lado de Flea e companhia, eles não poderiam ter ficado mais surpresos do que o próprio guitarrista, que poucos anos antes seria o último a imaginar que isso aconteceria. De volta a maio de 1992, no meio da turnê do Red Hot Chili Peppers no Japão, e com o Lollapalooza II espreitando no horizonte, Jonh Frusciante de repente resolveu empacotar suas coisas e voltar para casa. E a maior parte dos sete anos seguintes, ele ficaria por Los Angeles. O Peppers passou por uma séria de substituições, Zander Schloss, Arik Marshall, e Jesse Tobias - até finalmente se estabelecer com o guitarrista de estilo etéreo, ex Jane’s Addiction, Dave Navarro, para impulsionar o sucesso seguinte, One Hot Minute.
Frusciante, enquanto isso voltou a focar na sua paixão primordial – continuar na sua busca em capturar as “cores” que giram na sua mente e arrancá-las da sua massiva coleção de guitarras vintage. 

Por um tempo, ele aproveitou o período de isolamento auto infligido, introspecção intensa e criatividade fértil – imortalizado por um par de discos solo inspiradores-porém-assustadores, mas no fim ele foi tomado por uma depressão que literalmente o impediu de fazer o que mais lhe dava prazer: tocar guitarra. John Frusciante pegou a estrada menos viajada e logo se encontrou em um espiral decadente de vícios em drogas que no fim teve um pedágio quase fatal – ironicamente, quase teve o mesmo destino que o guitarrista que ele substitui teve em 1998, o falecido Hillel Slovak. No fim, ele quase perdeu tudo.

Hoje, com seus demônios de lado e um novo disco do Chili Peppers chegando às lojas, um John Frusciante reabilitado e revigorado se encontra mais focado e mais produtivo do que nunca na guitarra. Renovado após uma aula de yoga pela tarde, entre ensaios para a próxima turnê (que inclui uma aparição no Woodstock) com seus colegas do Red Hot, John se encontrou com a Guitar One para nos dar sua perspectiva sobre onde ele esteve, onde está agora, e para onde ele e a banda estão indo.

Quem foi o primeiro a aparecer com a ideia de você substituir Dave Navarro ou na verdade, ter você substituindo seu próprio substituto?
"Eu e o Flea estávamos na minha casa escutando discos, e em algum momento ele me perguntou como eu me sentiria voltando para o Chili Peppers. Começamos a falar sobre isso e nós dois ficamos empolgados. Poucas semanas depois começamos a tocar na garagem dele e foi muito bom de cara. Eu não falava com o Anthony tinha anos, mas quando nos vimos algumas vezes um pouco antes de voltar para a banda, eu senti que, “Essa é uma pessoa com quem realmente posso ter uma amizade”. Nunca me senti à vontade perto dele antes – e terminamos nos tornando muito amigos; agora ele é umas das minhas pessoas favoritas no mundo. E esse era o único jeito que o Flea me aceitaria na banda de novo: se todos nós nos déssemos bem, não se eu e o Anthony nos odiássemos. Eu e o Flea fomos amigos durante todo esse tempo, mas nossos estilos de vida diferentes nos impediu de continuar nossa forte relação musical do jeito que gostaríamos que fosse. Muitas vezes ele ficava muito triste perto de mim."

Depois que você saiu do Chili Peppers você tocou com Flea em algo chamado de Three Amoebas, não é?
"Isso era só eu e o Flea fazendo jams com pessoas; eu e ele e Stephen Perkins [baterista, Janes’s Addiction] costumávamos tocar juntos sempre. Decidimos nos chamar de “Three Amoebas” para escrever nas fitas de jams que gravávamos."

Algum plano de fazer algo com essas gravações?
"Nós queríamos, mas a Warner Bros. não queria lançar. Acho que entendo o porquê. Tipo, são jams longas de meia hora sem parar e não queremos editar. Tocamos muito bem, mas não é algo que uma grande gravadora vai querer lançar."

Você tem alguma opinião sobre o trabalho de Dave Navarro no One Hot Minute enquanto você estava fora?
"Não. Não tenho nenhuma opinião. Nunca escutei."

Você não vai ter que aprender algumas das músicas de One Hot Minute para tocar na próxima turnê?
"Não. Não vamos tocar nada de One Hot Minute e provavelmente também não tocaremos de Mother’s Milk [o primeiro álbum de Frusciante com o Chili Peppers]. Vamos tocar algumas coisas dos primeiros discos em que Hillel tocou e que tem a mesma vibe do que estamos fazendo agora, e algumas músicas da primeira demo do jeito que Hillel tocava, não Jack Sherman [guitarrista do primeiro álbum da banda]."

Você entrou no Peppers em 1988 com 18 anos e imediatamente se tornou uma estrela do rock internacional. Como foi essa experiência?
"Foi divertido. Tivemos bons momentos. Tínhamos um nível de popularidade legal – e eu era meio criança, sabe? Basicamente, nos divertíamos entre a gente e enlouquecemos."

Pode nos contar um pouco do seu estado mental quando você deixou o Chili Peppers em 1992?
"Quando você vive esse estilo de vida em que você faz qualquer coisa que tem vontade de fazer…eu descobri, depois que terminamos a turnê de Mother’s Milk, que o que eu amava fazer era passar meu tempo tocando guitarra o tempo todo. Amava aprender sobre diferentes cores que você pode colocar através do instrumento estudando todos os tipos de guitarristas e investigar bem de perto as diferentes maneiras em que as pessoas usam os instrumentos para obter diferentes tipos de sons. E eu estava gostando muito de juntar diferentes tipos e estilos de tocar a guitarra que eu amava, e estava começando a desenvolver meu próprio estilo de tocar a guitarra. Não fiz nada além disso no período em que compusemos e gravamos Blood Sugar. Quando terminamos de gravar Blood Sugar me senti muito bem. Minha cabeça estava o tempo todo rodando. Me senti muito livre – como se qualquer coisa que eu tocasse saísse de um sentimento bom. Sentia que o tipo de estilo que tinha criado era algo que podia chegar a diferentes lugares. Parecia que não importava o que eu fizesse – se eu me dissesse, “toca mal, toca como se você fosse muito ruim” – soaria sempre bem. Tudo que eu fazia soava bem.

Então tivemos que sair em turnê e me dei conta de que isso ia me foder. Não ajudaria em nada esse estado em que meu cérebro tinha entrado – em que eu me sentia muito bem o tempo todo e estava colocando sentimentos bons no ar. E minha cabeça me dizia para sair da banda, mas eu não conseguia me mexer nesse sentido porque criaria muitos sentimentos tristes entre esses caras de quem eu era muito próximo na época. Mas quando começamos a turnê nos distanciamos e já não nos dávamos bem. Eu e o Anthony nos odiávamos – não nos olhávamos fora dos palcos, não nos falávamos. O Flea ficou muito bravo comigo por não tentar melhorar meu relacionamento com o Anthony, não fazer nada sobre isso, só deixar do jeito que estava. Eu não me importava se não nos falássemos, se não nos olhássemos, porque eu não queria ser amigo dele. O Flea começou a se magoar comigo por isso, e talvez o Anthony também...não sei."

Qual foi a gota d’água durante a turnê de 1992?
"Chegou ao ponto em que...tipo, eu podia meio que fingir que as coisas estavam bem e às vezes falar uma ou duas frases com o Anthony se estivéssemos comendo junto ou algo assim. Mas não ia chegar a lugar nenhum... Tudo que construímos como banda em Blood Sugar foi por água abaixo logo depois. Eu vivi essa vida de só emanar bons sentimentos e depois todos esses sentimentos ruins apareceram, e eu era o centro disso. E como banda no palco já não nos escutávamos uns aos outros - erámos tão sincronizados que não precisávamos nos ouvir para tocar bem. Mas eu estava sendo super espontâneo todas as noites, tocando de maneira diferente a cada noite, mas ninguém estava me ouvindo. As únicas pessoas que percebiam a vibe em que eu estava toda noite era meu técnico de guitarra e uma amiga no público.

Seria impossível tentar gravar outro álbum naquele momento. Bandas fazem isso, mas é aí que elas começam a ser muito ruins. É quando a música já não é tão boa, porque você não está ouvindo pessoas que fazem música porque amam e porque amam tocar juntas, eles só estão tocando porque é algo que dá dinheiro, é algo que dá dinheiro e que eles sabem fazer. Eu não curto isso e não ia continuar fazendo isso. Não sentia nenhuma empolgação com o convívio da banda. Não gostava das pessoas no grupo, não nos fazíamos felizes. Quando deixei a banda - estava pensando em sair tinha quase um ano - tinha chegado ao ponto em que eu tinha me fodido tanto que me sentia vazio por dentro. Me senti destruído, porque tinha me levado a um estado puro, bonito, e deixei a turnê destruir tudo isso. Colocar todas essas coisas bonitas no ar com essas pessoas com quem você originalmente desenvolveu essa forma de se expressar, e depois eles não se importarem com nada disso."

Durante o período em que você esteve ausente da banda, você lançou dois discos solo: Niandra La’Des/Usually Just a T-shirt e Smile from the Streets You Hold. Eu gosto especialmente do primeiro, mas tenho que dizer que o Smile me assustou bastante.
"Smile foi gravado em quatro faixas ao mesmo tempo em que Niandra LaDes foi gravado: enquanto compúnhamos e gravávamos Blood Sugar Sex Magik. Ao mesmo tempo em que desenvolvi um estilo de tocar guitarra que era perfeito para tocar com o Flea, também desenvolvi meu próprio estilo de compor música, escrever letras e tocar guitarra de um jeito nada estrela do rock. Niandra La’Des and Usually Just a T-shirt foram lançados [no mesmo disco] porque eram sólidos, discos conceituais; eram dois tipos completos de sentimentos.  Smile from the Streets You Hold eram sobras que eu tinha de lado dessa mesma época, com exceção de cinco músicas: três que foram gravadas num cassete um pouco antes de serem lançadas - músicas que não queria que estivessem mais disponíveis - e duas músicas em que estou gritando, que foram gravadas em 1994, por aí.  Mas o resto é tudo sobras de músicas.

O disco só foi feito porque eu precisava de dinheiro para drogas. Eu sempre vacilava com dinheiro, esperava a cada seis meses meus cheques dos royalties - gastava tudo em drogas e logo ficava sem dinheiro. E, num desses momentos em que estava sem grana, um cara me ofereceu uma certa quantia de dinheiro em troca de um disco solo. Essa é a única razão pela qual Smile foi feito, então está disperso; está uma bagunça. Tenho alguns amigos que amam mesmo assim e me dizem, "Não tente recuperar." Porque às vezes penso que quero me livrar dele - comprá-lo do cara ou algo assim. Mas não me importo muito. É o que é. É música que gravei. Tenho orgulho de quem fui, tenho orgulho de quem sempre fui."

Soube que você deixou de tocar por um tempo.
"Sim. O que eu expressava na guitarra não tinha valor algum além de eu estar super depressivo. Daí, quando decidi me tornar viciado em heroína, me sentia bem o tempo todo. E queria só dedicar minha vida a ir para dentro de mim e curtir o sentimento de não ser responsável por nada, além de fazer as coisas que me faziam sentir bem - sem nenhuma preocupação sobre como isso parecia para o mundo externo. Passei alguns anos sendo invisível e curtindo isso, e hoje sou uma pessoa mais completa graças a essa experiência. Queria expandir meu entendimento sobre arte e artistas, eu estava contemplando alguns pintores por o que eles expressavam e por suas maneiras de se expressar. E agora percebo que fiz o mesmo com a guitarra. Tenho um olhar sobre ela que é novo e isso me empolga. Me alegra que, quando adolescente, eu estudei todas as hora que podia na prática da guitarra, porque agora posso tirar qualquer cor que queira dela."

Depois de tanto tempo sem tocar, foi difícil voltar a ser hábil?
"Sim. Durante todo o tempo em que gravamos este disco, meus dedos não estavam fortes como costumavam ser. Agora já estão. Provavelmente já estavam, pela quantidade que eu estava tocando, mas eu não estava focado nos guitarristas que tem os dedos fortes. Estava focado nos guitarristas de new wave e punk para o estilo que queria nesse álbum. Pessoas como Matthew Ashman do BowWowWow (que também está no disco Dirk Wears White Socks do Adam and the Ants), Rick Wilson do B-52s, Bernanrd Sumner do New Order e Joy Division, Robert Smith do The Cure, Ian MacKaye e Guy Picciotto do Fugazi, Greg Ginn do Black Flag, Pat Smear do Germs, os caras do Echo and the Bunnymen, Johnny Ramone...pessoas que desenvolveram estilos de guitarra, não de tocar por anos mas por amar a música, e que de repente se deram conta de que não é necessário nenhuma "técnica" para poder expressar algo.  Pessoas que não são ótimos guitarristas tecnicamente, mas eram ótimos guitarristas porque inventaram estilos originais que pertencem a eles. Passei por tanta coisa nos últimos anos que eu queria me aproximar da guitarra - estando nessa banda - a partir dessa perspectiva. Pensei que poderia ser interessante e divertido tomar essa direção ao tocar nesse disco, e foi isso que fiz."

Há algum conceito ou algo assim no título desse álbum, Californication?
"É só uma palavra que o Anthony inventou e depois escreveu a letra - cada linha da música como uma perspectiva diferente da palavra. Anthony escreve de uma certa forma. É sobre a Califórnia porque é onde ele vive, mas também é sobre outras partes do mundo. Todos compõem as músicas juntos, mas só o Anthony escreve as letras."

Quais são as diferenças principais entre Californication e Blood Sugar Sex Magik - o último disco que você gravou com o Peppers?
"Uma das diferenças já te disse, meus dedos estavam mais fortes quando gravamos Blood Sugar. Do meu ponto de vista, essa é a principal diferença. E acho que com Blood Sugar, saímos de estar em turnê do Mother's Milk por alguns anos para acalmar e fazer outro disco. Nesse disco, saímos de não estarmos fazendo nada. Mas, sobre nos darmos bem: a intenção entre nós e o jeito que compusemos, foi mais próximo dessa vez porque sabíamos como tinha sido fazer Blood Sugar. Agora sabemos como compor entre nós muito melhor."

Como se desenvolveram algumas das músicas de Californication?
"Todas de jeitos diferentes. Somos uma banda que compõe junto. Às vezes começa como jam entre a guitarra e a bateria, logo o Flea aparece tocando o baixo e por fim se torna uma música. Também gravávamos um monte de coisa e o Anthony escutava tudo. Então ele tocava para nós as fitas uma semana ou um mês depois de termos gravado e dizia, "Esse ritmo é ótimo. Deveríamos tentar fazer uma música com ele." Porque compomos muita coisa, e se o Anthony começa a dançar pela sala sentimos que é algo bom. É difícil fazer o disco pequeno. Compomos 30 músicas."

Como foi trabalhar com Rick Rubin de novo?
"Fantástico. Adoro tê-lo como produtor porque ele não me fala quase nada sobre a guitarra. Eu faço o que faço. Ele ajuda nos arranjos das músicas. Ele vem nos ensaios e ele é uma pessoa boa para dizer se algo é bom ou não. Nós gravamos esse disco num estúdio regular [Studio Two na Ocean Recording em Los Angeles], mas fizemos meio que do mesmo jeito que em Blood Sugar. Estávamos muito empolgados para gravar músicas; gravamos as bases em uma semana e meia ou algo assim."

Seguindo a tradição de Blood Sugar, parece que a maioria das faixas de Californication foram feitas ai vivo.
"Sim. É a interação, o jeito que compomos. Cada um toca a sua parte separadamente - não temos uma pessoa que compõe a música toda e fala para os outros o que eles devem fazer.  Quer dizer, às vezes você compõe a parte da guitarra e tem uma batida da bateria que está na sua cabeça e que encaixa bem, e não da para separá-los; não dá para evitar. Às vezes o baterista com quem você está tocando pode sentir qual é a batida escutando a parte da guitarra; às vezes você tem que dizer qual é a batida. 
Mas, basicamente temos quatro partes separadas da banda que se entrelaçam para fazer uma música. E se um dos caras não está tocando, então o ritmo dos outros caras vai acabar saindo ruim. Todos tem que ir para frente e para trás para poder se encaixar suavemente um na parte do outro. Todos tem de ouvir todas as partes. Não é como nos Beatles em que um cara compõe os acordes e os vocais, e aí os outros gravam algo para acompanhar. Não há um de nós que é seguido. A parte de qualquer um na cabeça do que escuta pode ser a parte principal, e as outras partes estão lá ajudando. Mas as outras partes podem ser notadas também, se você prestar atenção."

A composição da sua guitarra e amplificador mudaram em algo desde a gravação de Blood Sugar?
"Nesse disco, eu usei um Marshall 65 bem velho. Também usei um cabeçote para baixo de 200-watt que usei em Blood Sugar - eu usei cabeçote de baixo e guitarra ao mesmo tempo; é assim que toco. Eu obtive um som muito bom nesse disco, mas Louie [o braço direito da banda] não quer que eu leve os cabeçotes na turnê porque ele acha que vai quebrar. Quanto às guitarras, usei uma Jaguar 66 em "Around the World,”, em uma das partes de “This Velvet Glove,” e às vezes em outras canções. Usei a Stratocaster 56 na maioria das bases das faixas, e a Stratocaster 62 - a sunbust - em algumas coisas. Também usei a Gretsch White Falcon 55 - é o tipo de guitarra que Matthew Ashman usava no Bow Wow Wow e Malcolm Young costumava usar no AC/DC- em “Californication” e “Otherside.” Tenho cordas .012-gauge nela. Gostaria de fazer mais isso - desenvolver um estilo de guitarra usando cordas mais grossas como essa. É divertido. Também tenho uma Gibson SG 61, e usei a Telecaster em algumas músicas, como “Easily” e “Scar Tissue.” Vincent Gallo [diretor de filmes] me ajudou a encontrar várias dessas guitarras antigas, tipo peças de colecionador.  Ele sabe mais sobre guitarras do que qualquer pessoa que mora em Los Angeles."

Fiquei surpreso que nesse disco não tem sua marca registrada ‘solos de guitarra de trás para frente’.
"Olha, tinha uma música chamada “Phat Dance” com o solo de trás para frente. Mas não está no disco. Essa música será lançada, mas o vocal será mudado sutilmente. Anthony ficou triste com isso. Mas tem bastante guitarra de trás para frente em Niandra La’Des, se é isso que as pessoas querem escutar. Eu teria gostado de ter o solo que fiz em "Phat Dance" nesse disco, mas fui tão a fundo com isso em Niandra La’Des, que não sinto que é algo que devo fazer."

Parece que você é capaz de transformar sempre seus solos de guitarra de trás para frente em sons coerentes, declarações melódicas.  Você pode explicar como você aborda seus ‘solos invertidos’ principais?
"Quando estou tocando de trás para frente, junto com a mudança de acordes, eu só sigo as mudanças dos acordes. Todas as mudanças de acordes que estou fazendo, não importa se eu me enrolar fazendo isso porque vai ser o final do acorde quando você ouvir para frente. As notas que encontrei no fim serão as primeiras que você ouvirá, então sempre vai soar como se estivesse certo com o acorde. Você segue um fluxo e toca com destino aonde soa bem e toca para trás, e vai ter outro tipo de forma quando as pessoas ouvirem para frente."

Tem umas partes legais com o slide em "Scar Tissue".
"Toquei em uma Telecaster com meu amplificador Fender Showman. Meu guitarrista favorito que usa o slide é Snake Finger. A influência dele não fica evidente na canção, mas foi assim que treinei o slide: tocando junto com ele e Jimmy Page. "Soul to Squeeze” [o single do Chili Peppers para trilha de Coneheads, gravada durante as sessões de Blood Sugar] usa o slide também. Era uma Gibson lap-steel, e não toquei com slide, usei um potinho de tempero."

Quando você toca com o slide, você usa a afinação padrão?
"Sim. Faço na afinação padrão porque só estou tocando notas sozinhas. Se você está tentando aprender Robert Johnson e coisas com muitos acordes, você precisa de uma afinação diferente. Mas quando está fazendo solo, não vejo razão para mudar de afinação. Não importa muito como está afinado. Quando gravei “Soul to Squeeze,” não lembro como estava afinado [risadas]. Foi com a afinação que a guitarra estava na hora. Não importa porque só estava tocando notas sozinhas; não dá para ouvir a relação entre uma corda e outra."

Você e o Flea se envolveram num contraponto intenso em “Parallel Universe.” Como isso aconteceu?
"O Flea estava tocando a parte do baixo - não lembro como aconteceu, estávamos improvisando - e acho que ele estava treinando tocar com palheta e achei que silenciaria as cordas como Ian MacKaye faz no Fugazi. Daí achei que seria legal tocar uma harmonia que combinasse com que o Flea estava tocando. Lembro que comecei a terminar diferente: tinha a terceira menor, depois a quarta, e depois fiz a terceira maior, isso inspirou o Flea a fazer aquela parte descendendo para resolver a questão. Estávamos tirando um do outro e pensei que seria legal fazer uma harmonia com ele, com o ritmo e textura daquele jeito. Era uma coisa importante para gente, fazer cada seção com uma nova textura, do jeito que a música eletrônica é - em que você tem cada seção com diferentes formatos e texturas. Fazemos isso nesse disco com nossos instrumentos."

Você descreveu algumas partes em que você tocou usando termos teóricos. Você aprendeu algumas dessas coisas durante o breve momento em que esteve no Guitar Institute of Technology antes de entrar para o Peppers em 1988?
"Não... Estava matriculado lá porque meu pai pagava meu aluguel por conta disso, mas eu nunca fui às aulas, e não aprendi nada. Cheguei lá já sabendo todas as coisas que eles ensinam durante o ano lá. Eu passava o tempo usando cocaína: eu só aparecia lá e ia para casa de amigos para usar cocaína e depois voltava para lá, para o meu pai pensar que eu estava frequentando. Eles não faziam chamada nas aulas, então eu só ia para aparecer por lá. Eu já sabia teoria musical. Penso em música desse jeito, mas só na medida em que se relaciona com as cores do que estou fazendo. Não penso em "teoria" e "cor" como sendo duas coisas separadas. Elas brigam entre si em vários pontos no desenvolvimento da minha musicalidade. Não fazem mais isso. Tipo, quando estava focando na música dos guitarristas de new wave e punk, eu prestava atenção no que eles estavam fazendo tecnicamente. Pensava na teoria por trás das cores do que eles estavam fazendo - porque escolhiam as notas que escolhiam - usando teoria musical. Eu era fascinado por isso. Tenho uma perspectiva teórica que faz com que seja muito interessante. Agora, desde que terminamos o disco, tenho focado no tipo de pessoas (e saxofonistas) "guitar hero" - como Ornette Coleman, John Coltrane, e Eric Dolphy. Consigo tocar todas essas coisas na guitarra. Meus dedos ficaram muito fortes desde que terminamos o disco: tenho focado nas músicas que exigem isso para serem tocadas."

Percebi nas suas entrevistas mais antigas que você enfatiza a importância de deixar de lado a parte técnica na hora de tocar.
"Acho que para mim é importante ver as cores que estou tirando do instrumento e não a parte física dele. Foi uma grande revelação para mim quando vi a música com essa clareza, isso aconteceu quando terminamos a turnê de Mother's Milk. De repente, comecei a ver a música de uma maneira que nunca tinha visto antes. Mas desde então, vi que há uma maneira de focar totalmente no aspecto físico até chegar ao ponto em que a parte espiritual e a parte técnica trabalham juntas e influenciam uma a outra. Essas definições de teoria vieram da análise de algo que veio de um lugar espiritual. Você pode tocar de um jeito em que foca na parte física e ainda assim isso ser uma expressão de quem você é.

Não acho que o propósito da música é te levar a se exibir, não acho que é música quando alguém está se exibindo.  Mas ao mesmo tempo, tem pessoas que focaram no aspecto técnico do que fazem - tentando fazer algo diferente tecnicamente de tudo que há - e acaba sendo uma maneira muito potente de mostrar uma grande variedade de cores. Algumas pessoas hoje em dia acham que não é legal dedicar-se a música do que jeito que as pessoas faziam no começo dos anos 70 - tipo Genesis, King Crimson e Yes- se dedicando a sua arte e fazendo música muito complexa. Eu acho que o que esses grupos fizeram é lindo. Acho legal se dedicar a algo, e acho que ser um bom músico é uma coisa importante. Não acho que tenha nada não legal sobre isso. Algumas pessoas tem uma percepção fodida porque, em algum momento, acho que nos anos 80, as pessoas começaram a igualar ser exibido a ser um bom músico. Steve Hackett tocando no Genesis, ele está muito longe de querer se mostrar. Ele era um bom músico, ele tinha uma grande paleta de cores de onde tirar coisas. Então acho que aprender coisas técnicas pode limitar as pessoas se elas tiverem uma perspectiva da música já limitada.  Música é uma coisa linda."

Quem foram seus primeiros heróis da guitarra?
"Quando eu era bem criança - com sete, oito anos - gostava de Jimmy Page. E tinha o segundo disco do Van Halen, que eu gostava muito, e gostava de Joe Perry. Mas quando ouvia esses guitarristas, não entendia como poderia fazer esses sons na guitarra. Sabia que queria ser guitarrista desde que tenho memória, mas não sabia como fazê-lo. Só sabia que o faria. Mas quando tinha nove anos, descobri o punk - quando ouvi Germs- e tudo começou a fazer sentido: que eu poderia conseguir tocar aquelas músicas. Daquele ponto em diante, a ideia de que eu poderia tocar um dia tão bem quanto Pat Smear se tornou real e mágica e incrível para mim, e ao mesmo tempo possível.  Então foram pessoas como Greg Ginn, Pat Smear, Steve Jones, Joe Strummer e Mick Jones que me inspiraram, num primeiro momento, a começar a tocar. Essas foram as músicas que aprendi, músicas dessas pessoas. Me interessei por Devo, the B-52s, e the Germs quando tinha tipo nove anos, e quando tinha 10, peguei uma guitarra do armário e comecei a tocar. Depois, quando convenci meu pai a me dar uma Stratocaster, comecei com as pessoas que acho que todo mundo que começa a tocar guitarra deveria aprender com elas: Jimmy Page, Jeff Beck, Eric Clapton, e Jimi Hendrix. Para mim, em termos de guitarra no rock, é o mais longe que o tocar guitarra chegou, de certa forma. Para mim, é o que iniciou o vocabulário de como toca uma "estrela do rock" quando toca um solo [risos], o que é um "solo de guitarra", como é a abordagem. Definiu um padrão."

Você está ansioso para tocar no Woodstock nesse verão?
"Estou ansioso por todos os nossos shows, ansioso por cada show em que tocaremos. Não estou mais ansioso pelo Woodsctock do que pelo Hollywood Palladium. Estou ansioso para tocar. Ansioso para a gente se dar bem e tirar o melhor um do outro que podemos nas apresentações da mesma maneira que fazemos quando compomos juntos. Espero que a gente possa crescer constantemente juntos na turnê, da mesma forma que crescemos quando fizemos Blood Sugar e enquanto gravávamos esse disco. E sobre tocar minha guitarra, estou tentando sempre melhorar."

Você imaginou por um segundo que voltaria de novo para o Chili Peppers?
"Não... É a melhor coisa do mundo ter a sua criatividade como única coisa para pensar todos os dias. Quando você faz música com pessoas que se importam com a sua criatividade e respondem do jeito que o Anthony, o Flea e o Chad fazem, é o melhor sentimento do mundo. É uma coisa muito boa quando você está no palco com pessoas que se olham e que prestam atenção umas às outras. Quando você está numa banda que tem química, e faz essas coisas, é algo muito poderoso. É muito divertido quando você tem quatro pessoas com quatro estilos diferentes que, quando tocam juntas, criam coisas maiores que a soma individual. Tenho muito orgulho de estar numa banda assim. E agora sabemos melhor como valorizar cada um. Quando saí da banda, não nos valorizávamos mais. Eu não valorizada eles, eles não me valorizavam. E agora nos valorizamos muito. Nos divertimos muito tocando juntos. Esse último ano foi muito divertido tocar todos os dias."




Toque como um Pepper: riffs selecionados de Mother’s Milk e Blood Sugar Sex Magik

“Good Time Boys”
Não sou fã de como tocava em Mother's Milk... inventei o riff de 'Good Time Boys' no estúdio enquanto fazíamos os overdubs da música.  E o produtor do disco, Michael Beinhorn, me fez tocar repetidamente, 30 vezes para gravar a faixa porque ele queria um som robusto.  Foi bem chato fazer esse disco - nada parecido com o que veio depois. Foi um esforço.

“Breaking the Girl”
Por volta da época em que fizemos ‘Breaking the Girl,’ estava ouvindo Led Zeppelin III- eu gostava muito daquela música ‘Friends’- e estava tocando bastante 12 cordas. Os acordes do refrão saíram do livro de Duke Ellington. Estava tentando aprender uma das músicas, e aprendi tipo três acordes de uma música que tem provavelmente uns 50 acordes, e levei esses três acordes para outro lugar. Quando tocava esses três acordes, escutava aonde o quarto e quinto acorde iriam, e fazia um ciclo que terminava com um acorde diferente cada vez. Começa no Am7,e daí o resto dos acordes, eles tem apenas três notas neles. Às vezes se você está tentando aprender músicas de um livro - especialmente, como nesse caso, se é um livro de voicings para piano - você acaba levando as coisas para outro lado.

“Give It Away”
Tirei a ideia do riff da estrofe em ‘Give It Away’- a ideia de espaçar as notas daquele jeito: fundamental-4ª-maior 3ª - da música 'Sweet Leaf' do Black Sabbath. E meio que toquei o riff de ‘Sweet Leaf’ por segundos no final da música, no overdub de uma faixa. Porque a música chama ‘Give It Away,” pensei que podia deixar claro a origem dela – porque sempre roubávamos coisas, mas normalmente não se termina a música exatamente com o que você roubou [risos]. Mas foi o que fiz aí.



O que está nas entrelinhas de: Scar Tissue

Em setembro de 1991, o disco Blood Sugar Sex Magik do Red Hot Chili Peppers chegou às prateleiras das lojas e subiu nas paradas, ficando no Top 10 da Billboard por mais de um ano por conta de singles como “Give it Away,” “Under the Bridge,” e “Breaking the Girl,” e da guitarra funk e melódica do jovem talentoso John Frusciante. Depois de sete anos longe da banda, Frusciante está de volta e “Scar Tissue,” o primeiro single lançado do disco de 1999, Californication, é para muitos fãs a primeira amostra do estilo diversificado de tocar do guitarrista desde seu trabalho no Blood Sugar. A nova faixa, que compartilha das sutilezas do sucesso anteriormente mencionado “Under the Bridge", apresenta pérolas de guitarras que vão desde os intervalos esparsos de texturas de Frusciante até seu slide comovente.

A intro e as estrofes
Frusciante coloca “Scar Tissue” em movimento com um riff baseado no conceito de intervalos que ele desenvolveu durante as gravações de Blood Sugar. "O estilo que toco na introdução e na estrofe em 'Scar Tissue' é algo que comecei a fazer quando estávamos gravando aquele disco", explica Frusciante. “Eu tinha um violão no meu quarto na casa em que gravamos, mas eu não tinha palheta porque eu queria criar um estilo de dedilhar. Então comecei a fazer isso de tocar uma nota em uma das cordas mais abaixo e a terceira acima numa corda maior - só notas que estão longe uma da outra - e alternar entre elas usando meus dedos da mão direita. Faço muito isso nos meus discos solo, e em 'Scar Tissue' faço uma versão bem simples disso. Provavelmente não teria criado esse estilo se não tivesse ouvido muito o baixo de Eric Avery [de Jane's Addiction] - principalmente o jeito que ele toca em 'Summertime Rolls."

Na maior parte, Frusciante alterna entre três acordes na intro nas estofres, tocando as notas mais baixas e mais altas numa sequência de acordes F-C-Dm do jeito descrito acima. À medida que a música progride, Frusciante pontua cada uma das medidas do riff (sobre o acorde Dm) preenchendo com uma melodia derivada do D do modo dórico.

O Refrão
Durante cada refrão, a textura de intervalo esparsa que Frusciante estabelece na intro e nas estrofes é temporariamente abandonada para dar lugar a um dedilhado organizado entre os acordes F, C, e Dm. Note que a parte do refrão acontece entre diversas durações: uma sequência de quatro pestanas ( primeiro e terceiro refrão) e uma sequência de seis pestanas (segundo, quarto e quinto refrão).

O Slide
Em vários momentos de “Scar Tissue,” John Frusciante lança uma série de partes cheias de alma com usando o slide acompanhado do resto da banda, solando principalmente com a segunda corda da sua Fender Telecaster. Quando toca as partes com slide, Frusciante prefere a afinação padrão porque ele sente que assim pode controlar a melodia melhor – principalmente se estiver tocando notas sozinhas. Antes de começar a usar o slide e cair ao longo da escala do seu violão, sua precisão e entonação se beneficiarão muito se você se familiarizar com os diferentes dedilhados em D dórico à medida que eles ocorrem ao longo da 2ª corda.


Por: Dale Turner
Tradução: Paula Buckvieser
Fonte: Guitar One - Setembro de 1999

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