15 de janeiro de 2018

O incontrolável groove dos Red Hot Chili Peppers - Setembro de 2011



Primeira importante e extensa entrevista concedida pelos Red Hot Chili Peppers após a saída de John Frusciante. A entrevista foi feita pelo jornalista David Fricke, da Revista Rolling Stone, durante os preparativos do primeiro primeiro show da banda, após a entrada de Josh Klinghoffer, que aconteceu secretamente em Big Sur no dia 27 de julho de 2011.

O INCONTROLÁVEL GROOVE DOS RED HOT CHILI PEPPERS
Três décadas e uma dúzia de integrantes depois, Anthony e Flea acabaram de começar a lutar.

SEE IN ENGLISH: http://josh-klinghoffer.org/rolling-stone-1138-september-2011/

Por David Fricke
“Eu estava com medo”, Flea, o baixista do Red Hot Chili Peppers, confessa com um barulho de motor de ônibus ao fundo. “Eu não imaginava continuar com outra pessoa. Parecia que tinha acabado”. É a última semana de julho e Flea está sentado na parte de trás do ônibus, indo de Los Angeles, na Pacific Coast Highway, para Big Sur, para o primeiro show dos Chili Peppers em 4 anos. O show é o primeiro em uma década sem John Frusciante, o brilhante guitarrista dos últimos 15 anos e 5 álbuns, incluindo Blood Sugar Sex Magik de 1991, e o Stadium Arcadium de 2006. Em 2009, Frusciante saiu da banda pela segunda vez, dessa vez definitivamente.


Com cabelo verde turquesa e uma camisa de basquete expondo seu corpo em forma, um museu de tatuagens, Flea explica o modo como ele e Frusciante escreviam músicas: “John chegava com uma ideia e bam, e eu o acompanhava. Ou eu que trazia uma ideia e bam, ele já começava a tocar. Pronto”. Flea também descreve essa amizade como “agradável”, “tensa”, “fraternal” e “combativa”. “É como se sua banda tivesse perdido um membro da família”, ele diz.

Agora eles têm um novo membro. Os Chili Peppers estão prestes a lançar “I’m With You”, o primeiro álbum com o amigo e sucessor de Frusciante, o músico de 31 anos Josh Klinghoffer. Ontem, Flea, Klinghoffer, o baterista Chad Smith e o vocalista Anthony Kiedis, fizeram seu último ensaio antes da turnê, cerca de 24 músicas em um ensaio em Santa Mônica. Amanhã, no Big Sur, os Chili Peppers irão fazer sua estreia com Klinghoffer em um show só para convidados no gramado do Henry Miller Memorial Library. Flea tem uma casa nessa área, e ele quer que a banda inicie sua nova era na frente de amigos e vizinhos.

“Não me sinto pronto”, Kiedis admite algumas horas antes do show. “Nunca estou pronto para o primeiro show de um novo capítulo. Sinto-me preparado apenas o suficiente pra saber, de alguma forma, que posso fazer dar certo”. Os Chili Peppers já são experientes em renascimentos, desde sua formação em 1983. Amigos desde o ensino médio e membros originais, Flea e Kiedis, ambos com 48 anos, sobreviveram ao abuso de drogas, morte – (do guitarrista original Hillel Slovak em 1988 por overdose), e uma dezena de mudanças pessoais, incluindo a primeira saída de John Frusciante da banda em 1992, o curto mandato de Dave Navarro nos anos 90 e a volta de Frusciante em 1998.

Mas quando ele saiu dos Chili Peppers mais uma vez em 2009, perto do fim do hiato de 2 anos de gravações e turnês, “poderia ter sido o fim, com certeza”, diz Smith, 49 anos. “Nós já passamos por isso uma vez, e aqui estamos novamente”. O baterista admite que ele espera que Frusciante mude de ideia, “o que ele já fez antes. Ok, ele está fazendo outras coisas, mas um dia, eu vou atender um telefonema dele: ‘Hey, é o John. Você quer fazer uma jam?”. Smith faz uma imitação afetuosa da voz sussurrada de Frusciante. “Nunca aconteceu”.

Em outubro de 2009, dois meses antes do anúncio público da saída de Frusciante -, Flea, Smith e Kiedis estavam escrevendo com Klinghoffer, nascido em Los Angeles, que já trabalhou com Beck, PJ Harvey e Gnarls Barkley, e que já foi músico de apoio da turnê Stadium Arcadium. Não teve audições e nem outros candidatos. A nova formação escolheu 14 músicas para o novo álbum “I’m With You” em um mês. “Nunca tive a sensação de que estava pronto”, diz Kiedis. “A maior preocupação de Flea, que ele compartilhou comigo, era que ele não queria continuar se não fosse bom como jamais havia sido, no seu melhor”. E ele admite: “Se o Flea saísse, o Chili Peppers acabaria. Eu nem ia considerar tentar”. Sua voz falha, como se ele estivesse imaginando o impossível. “Flea e eu fomos feito para compartilhar essa vida juntos. E é o que está acontecendo”.

No ônibus, Flea fala sobre essa ligação: “Anthony e eu nos mudamos para L.A. na mesma época, com a mesma idade”, no início da adolescência. Flea é de Melbourne, na Austrália. Kiedis é um nativo de Michigan. Os dois vieram de famílias rompidas pelo divórcio, e Flea diz: “a partir da extremidade mais baixa da escala econômica. Sabíamos que ninguém faria nada por nós, se não fizéssemos por conta própria. Percebemos que tínhamos uma magia juntos. Costumávamos nos chamar de “O Monstro de Duas Cabeças”. Erámos mais poderosos juntos do que separados. Poderíamos fazer muitas merdas”.

Esse “monstro” agora, é um par de pais, com vidas pessoais separadas e bem ocupadas. Duas vezes divorciado, Flea tem 2 filhas. Kiedis tem um filho de 3 anos e meio, Everly, que teve com a modelo Heather Christie, eles se separaram em 2008. (Smith, que entrou na banda em 1989, tem 2 filhos com sua esposa Nancy, e 3 filhos de antigos relacionamentos. E Klinghoffer é solteiro). “Nosso senso de tudo, de todas nossas brincadeiras e experiências – não acho que Anthony e eu conseguimos ver a profundidade disso o tempo todo”. “Na semana passada, não estávamos nos dando bem. Tivemos uma discussão ridícula sobre uma merda de vídeo. E é isso, depois que John saiu, eu não queria perder o senso de família, de trabalhar em algo juntos por tanto tempo”.

Com jantar de bife e um copo de vinho no hotel em Big Sur, Klinghoffer – um amável cara de fala mansa, relembra de uma recente conversa por telefone com Frusciante. Os dois se conheceram quando Klinghoffer era adolescente, e tocava nos projetos solos de Frusciante com sua própria intensidade fraternal. “Eu estava falando com ele sobre acordar pela manhã e tocar algo maravilhoso com seus amigos”.

“Era o que eu mais queria na minha vida, ter uma banda de amigos que você confia e ama”, ele diz animado. “Flea e John tinham uma relação especial, eu vi isso por anos. Flea, Chad e Anthony deixar outra pessoa entrar, alguém novo, é incrível para mim”. Frusciante não pôde ser encontrado para comentar. “Acho que ele quer ser livre pra fazer o que quiser”, Flea sugere. “sem a mídia envolvida, por estar em uma banda grande”. No fim de semana antes do show em Big Sur, Smith encontrou com Frusciante em um show do Soundgarden em L.A., “ele parecia bem e feliz”, o baterista diz. Mais tarde, Frusciante lhe mandou um sms: “Fiquei muito feliz em ver você”.

“Eu não sei o que vai acontecer, eu nunca sei, mas no momento a banda é realmente divertida”, Flea declara, com sua voz acelerada. Os Chili Peppers escreveram mais de 50 músicas para o “I’m With You” e já planejam fazer um segundo álbum com Klinghoffer depois que terminarem a turnê. “Só vai mudar e melhorar”, Smith jura alegremente. “A não ser que algo estranho aconteça”.

No canto de uma sala no Dirt Cheap Sound Stage, na tarde do último ensaio dos Chili Peppers, Flea – que estava sem camisa, descalço e com uma calça vermelha, sentou em uma mesa para comer seu lanche vegetariano. Ele fica absolutamente imóvel por um momento, com os olhos fechados e com as mãos voltadas para cima, antes de comer. “Flea faz uma oração antes de suas refeições”, diz a cantora Patti Smith, uma amiga próxima e colaboradora. Em alguns de seus shows nos últimos anos, ele tocou baixo em sua banda. “Estar perto de Flea, é uma experiência holística”, ela diz com carinho, “Ele é cuidadoso com sua comida, ele corre todos os dias”. Patti Smith uma vez viu ele se aquecendo para um show do Chili Peppers, praticando Bach em seu baixo nos bastidores. Quando ela e Flea tocaram juntos, ela diz: “Se estou cansada, e ele está animado, ele olha nos meus olhos para transmitir essa energia. Ele é seu próprio homem. Ele sabe o seu valor. Mas ele tem essa qualidade altruísta, que faz dele um grande músico”.

As orações silenciosas de Flea não tem nenhuma denominação religiosa. “Eu desenvolvi um relacionamento com a minha ideia de o que é Deus”, ele diz. “Enquanto a música me deu liberação, tocar é sobre ficar em contato com algo sagrado, uma energia divina que flui através de mim”. É uma energia invisível. No Dirt Cheap, os Chili Peppers – com um novo membro para essa turnê, o percussionista Mauro Refosco, vão desde o pop ácido de “Monarchy of Roses” e a balada “Meet Me at The Corner”, ambas do novo álbum, até a dança de guerra “Throw Away Your Television”, do By The Way de 2002, e o funk de “Give It Away” do Blood Sugar. Em cada música, Flea telegrafa cada nota e inflexão rítmica com seu corpo curvado para frente e com os ombros sacudindo o tempo todo. E Kiedis faz sua própria versão disso. Sua dança, nas partes instrumentais, é como se fosse um karatê com break, e um sorriso arrogante.

Klinghoffer não é tímido nesse sentido. Muitas vezes ele fica de igual para igual com Flea, cabeças balançando, quase se batendo – e atinge seus poderosos acordes com suas longas pernas afastadas, como uma versão jogador de basquete de Pete Townshend. Mas o jeito de tocar de Klinghoffer, inquieto e textural, é uma mistura melódica de Keith Richards com uma distorção pictórica de Jimi Hendrix, é uma mudança radial dos rifs e solos de Frusciante. “Josh se agarra a uma ideia, trabalha nela”, diz Flea. “É mais sublime e sutil. Nunca tivemos isso antes. Mesmo quando ele fica violento, ele envolve mais do que só ataques”.

“Eu não sou o John”, diz Klinghoffer. “Não é consciente, eu nunca fiz nada para não ser como o John. Mas o que ele fez foi aquela banda, e felizmente, esta é uma nova banda”. Flea diz tanto que após o ensaio “ele me mandou uma mensagem: “Foi ótimo”, Klinghoffer disse depois “Foi muito legal”.

Sammy Hagar, que toca com Chad Smith no Chickenfoot, inveja a lealdade que ele vê no Chili Peppers: “Eu sempre cumprimento Chad por isso”, diz Hagar. “Não é como se eles estivessem esfaqueado o guitarrista pelas costas e colocado ele pra fora”, se referindo aos dramas vividos no Van Halen. “Eles saem, e eles continuam mantendo seu núcleo forte. São boas pessoas que se preocupam com os outros”.

Flea, no entanto, aproveitou a pausa de 2 anos após o Stadium Arcadium, e trabalhou com outros artistas em shows e gravações, e com material solo em seu próprio estúdio na área de Silverlake em L.A. Em 2010, ele tocou baixo com Thom Yorke do Radiohead, no Atoms For Peace. Yorke diz que chamou Flea para esse projeto, “porque ele toca baixo como se fosse um instrumento de chumbo. Mas pensei, ‘porque ele iria querer fazer isso? ‘. Ele disse que gostou da ideia de se envolver, mas não ser responsável pelo produto final, levar um chute e ir embora”, Yorke ri. “Eu entendo isso completamente”.

Na verdade, Flea é um conjunto complexo de confiança, humildade e anseio, um músico treinado – ele começou no trompete, cujo estilo agressivo no baixo desmente sua noção de serviço. “Eu quero apoiá-los”, ele diz sobre seu trabalho com Yorke e Patti Smith. “As coisas do Thom são tão bonitas. Tipo: ‘deixe eu dar tudo que sou para ele, dar à ele tudo que ele precisa’. Aquela coisa de liberdade que o Thom estava falando – está ficando fora do caminho.” Flea explica: “Quando você tenta controlar a música, você estrangula ela. Eu sei que é uma coisa hippie. Mas estou tentando libertar essa energia, deixá-la ir. Esse é um dom que tenho”.

Flea co-fundou uma escola de música sem fins lucrativos, o Silverlake Conservatory, em 2001. Ele ainda se considera um aluno. No outono de 2008, o baixista se matriculou na Universidade da Califórnia por um ano, para ter aulas de teoria, composição e trompete. Ele não recebeu um diploma formal, mas completou sua lição de casa – em Bach, Haydn e Mozart, entre outros – e fez os exames finais. “Não era pra tocar algum instrumento de acordes, como o trompete, o baixo. Eu queria desvendar alguns mistérios”, ele diz.

“Ele me ligava umas 2 ou 3 vezes em uma tarde, ‘eu tenho uma pergunta sobre a atribuição, sobre esse acorde’”, diz Neal Desby, instrutor de teoria de Flea. “Ele era muito sério, e os outros alunos percebiam isso. Tornou-se uma lição em si, 9:30 da manhã e ele já estava aqui. Ele não precisava fazer isso”. Flea se formou na aula de Desby: “Com um excelente A, ele foi muito bem”.

Perguntado durante esse passeio de ônibus, se ele imagina onde estaria agora sem a música e sua banda, Flea olha para cima, espantado. “É engraçado você dizer isso. Foi o que pensei quando acordei esta manhã”. Ele relembra de uma adolescência cheia de drogas e assaltos à casas, “muita muita muita merda, do tipo que te leva pra cadeia, ou à morte. Anthony e Hillel, meus amigos que eram minha família, nós nos drogávamos juntos. Era nossa comunhão. Mas depois ficou claro, as vidas das pessoas foram arruinadas, não tinha nada bonito nisso”. Flea parou com as drogas, “fiquei limpo sozinho, nunca fui para reabilitação”, nos anos 90, quando tinha 30 anos. Kiedis, que escreveu sobre sua vida de viciado no hit “Under The Bridge” do Blood Sugar, demorou mais. Ele está limpo desde 2000.

“Música e livros me salvaram”, Flea diz. “Ler Kurt Vonnegut aos 13 anos, foi o que me criou, que me deu senso de ética, sobre o que é certo no mundo”. Flea é agora um ávido colecionador de livros. Ele é dono de uma edição britânica de Jane Eyre, de Charlotte Bronte, que ele comprou em Londres em 2004, por uma grande quantidade de dinheiro. Ele assume timidamente. “Não li até os meus 30 anos”, diz ele sobre o livro. “Mas me tocou, a resistência que Jane mantém quando enfrenta situações em que todos perdem a dignidade e a gentileza. Ela passa por um inferno. Ela é abandonada, tratada como lixo. E ela nunca se desvia do que ela ama”. Dê a ela um violão, eu sugiro, e pode ser a história de sua banda. “Eu relaciono com isso”, Flea confessa. “Nem sempre mantive minha dignidade e fui verdadeiro, gentil e coisas assim”. Mesmo assim, ele diz: “é algo a se buscar”.

Joshua Adam Klinghoffer nasceu em Los Angeles no dia 3 de outubro de 1979, o caçula de dois irmãos, filho de Steve e Kathy Klinghoffer. O pai de Josh também está na indústria do entretenimento, ele é técnico de som em filmes e programas de televisão. Josh tinha 9 anos quando seus pais matricularam ele em aulas de bateria. “Ele batucava em qualquer lugar”, Kathy diz. “Enquanto você conversava com ele, ele ficava batucando na mesa da cozinha, na mesa de café, etc”. Josh aprendeu sozinho a tocar guitarra e teclado.

Aos 15 anos, ele disse aos seus pais que iria sair da escola para estudar música por conta própria. “Foi uma guerra por anos”, Josh relembra. “Eu disse: ‘quero aprender com meus próprios métodos’”. Foi um pouco assustador também. Frusciante também largou os estudos para se dedicar à guitarra, tocando obsessivamente em casa, antes de entrar para os Chili Peppers, quando tinha 18 anos, em 1989. “Havia muito de Led Zeppelin e Jimi Hendrix”, Klinghoffer diz sobre seus estudos. “Os Chili Peppers e o Pearl Jam, foram grandes bandas pra mim”.

Klinghoffer conheceu Frusciante através de Bob Forrest, líder da banda Cult de L.A., Thelonious Monster, e amigo de anos dos Chili Peppers. “Josh e John, tudo que fizeram foi viver pelos filmes e músicas”, diz Forrest. Ele relembra de uma viagem à Nova York, onde Forrest e Klinghoffer assinaram um contrato com uma banda que eles tinham na época, o Bicycle Thief. “Conseguimos $10.000 em adiantamento cada um. Josh disse: ‘te vejo depois no hotel’. Ele voltou 8 horas depois com 100 CDs e uma guitarra acústica de 1940. Eu disse: ‘Quanto sobrou de dinheiro?’, ele disse: ‘Ah, não sei. Não muito’”.

Além de trabalhar com Beck e Harvey, ele já fez turnê com Perry Farrel, Sparks, Tricky, The Butthole Surfers, e a banda indie altamente elogiada Warpaint, além de vários álbuns com Frusciante. Forrest aponta uma significante diferença entre os dois guitarristas: “John explodiu ao poder e ao dinheiro muito rápido”, quando ele entrou no Chili Peppers. “Ele nunca teve a experiência de Josh, em tocar com outros músicos”. Steve Klinghoffer fala orgulhosamente do “jeito de atrair as pessoas” de seu filho, “ele se encaixa muito bem”.

No Chili Peppers, ele é tratado – e age – como um parceiro, não um colaborador júnior. Em alguns pontos durante os ensaios para a turnê, Flea e Kiedis consultavam sobre a gravação de um clipe e sobre as músicas das setlists. Mas Klinghoffer também estava lá, ouvindo atentamente e fazendo sugestões. E também recebeu créditos por suas escritas em “I’m With You”. “Josh brilhou como um contribuído”, diz o produtor do álbum, Rick Rubin, que produziu os 6 últimos álbuns do Chili Peppers. “Ele argumentava se as coisas não saíam do jeito que ele queria. Ele lutava pelas coisas em que acreditava”.

Kiedis ouve o que ele chama de “núcleo de Josh, uma gentileza, em suas melodias e movimentos de acordes”. Ele também nota o perfeccionismo.

“Tocamos uma música, e eu penso ‘Porra, isso é muito bom’. Aí eu olho, e ele está mexendo em seus equipamentos. Ele consegue ouvir uma coisinha que não está funcionando em seus pedais. Mas pra mim estava ótimo. Só que ele queria algo mais perfeito”.

Abastecido com seu jantar de bife uma noite antes de sua estreia no Big Sur, Klinghoffer é honesto sobre o que precisa aprender e aprimorar para a turnê com os Chili Peppers: um catálogo de 3 décadas de músicas, os tons de guitarra e vocais nas novas músicas, e o salto para solista principal. “Isso me deixa com medo”, ele confessa. “Começo um solo e penso que estou indo bem. Mas no meio…”, ele ri.

Flea sai em sua defesa: “Ser o guitarrista em uma banda grande, é muita coisa. Com o tempo, ele vai descobrir mais e mais. Mas está tudo lá. Ele só precisa ser ele mesmo”. Flea conta uma história sobre um recente acampamento em sua escola de música, onde ele, Smith, Refosco e Klinghoffer tocaram para os alunos, e fizeram uma sessão de perguntas e respostas, contando como eles se envolveram com música.

“Eu sabia que o Josh não queria falar, então perguntei para ele: Josh, como foi que você começou?, e ele estava tão quieto. Ele disse: Bem, comecei quando eu era pequeno – e os alunos estavam todos ouvindo -, e isso me deixou feliz, ainda me faz feliz. Foi tudo o que ele disse. Mas teve muito peso nessas palavras”.

“Muita coisa mudou”, Kiedis diz na manhã do dia do show no Big Sur, sobre sua vida depois do nascimento de seu filho Everly, em 2007. “Antes era tudo sobre mim. Agora é tudo sobre meu filho. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido comigo”. Kiedis está sentado na sala de estar de uma cabine de antiguidades em propriedade nas montanhas com vista para o Pacífico, onde ele está hospedado com Everly. A casa de Flea fica ali perto. Ele e Kiedis amam surfar nessa área. Road Trippin, do álbum Californication de 1999, foi inspirada em férias de surfe aqui.

“Eu acordo quando ele acorda”, ele diz, descrevendo um dia típico com Everly. “Tomo café da manhã com ele, mas não sou eu que faço. Meu trabalho é contar histórias para ele enquanto ele come. E ele é exigente com isso. Se eu tento contar uma história pequena, ele não gosta. Tem que ser uma completa.”

Quebra-cabeças, leitura, desenhos e esconde-esconde no quintal também fazem parte. Ele não assiste televisão, que é “cheia de comerciais e barulho”, que nem Kiedis diz. Ele e Everly assistem desenhos juntos, e muitos filmes. Mas quando ele entra em uma sala com uma TV ligada, ele não fica nela.

Kiedis, que vive em Malibu, reserva algumas horas por dia para surfar. E diz que sua vida amorosa é praticamente inexistente. E quanto ao casamento, “eu não preciso disso, ser pai solteiro é ouro”.

Um dos mais conhecidos libertinos do rock, parte de uma banda que ficou famosa rapidamente nos anos 80 por aparecer no palco com apenas meias estrategicamente colocadas, Kiedis examina sua própria adolescência, com um pai solteiro em L.A., seu pai, John, um ator agora com 70 anos. “Era como: vou fazer do meu filho, o meu melhor amigo. Nós vamos ser dois adultos enfrentando o mundo juntos”, Kiedis lembra. “Ele me deu conhecimento e introdução a uma cultura que a maioria dos pais não ensinava a seus filhos. Mas é difícil. Você cuidar de seu pai quando ele está fora de controle, o que acontecia muito com meu pai nos anos 70. Com a bebida e o abuso de drogas. Ele estava saindo dos limites, embora não tanto quanto eu, mais tarde. Vou tentar muito não colocar meu filho nessa posição”.

“Eu fui pai antes de todos na banda”, diz Flea. Sua filha mais velha, Clara, musicista e fotógrafa, recentemente se formou na faculdade. “A dedicação de Anthony com seu filho é intensa. E ele parece tão estável. Percebo uma grande tolerância da parte dele, com coisas que antigamente iriam irritá-lo”, Flea sorri. “Definitivamente ele está mais legal comigo”.

Kiedis é uma mistura de modesto e circunspecto quando ele fala sobre suas letras em “I’m With You”. Ele diz que é um compositor estranho.

“Minha vida está diferente agora, me deixe pegar lápis e papel”. Sua esperança sobre o baixo de Flea em “Factory of Faith”, eram “apenas palavras que caíram adiante. Olho agora e vejo que eu estava tendo fé no processo de amor, em enviar a mensagem de que eu estava disponível”.

Mas ele tem uma resposta pronta para a pergunta sobre qual a música mais madura que já escreveu: “Love Trilogy”, do Uplift Mofo Party Plan, de 1987.

Como a maioria de suas letras antigas, “é um pouco louca. Mas o tema mudou – amor pelos amigos, pelos seus familiares, pela vida. Sempre nos sentimos mal interpretados. Sabíamos exatamente quem éramos. Quando éramos estúpidos e fazíamos caretas, tirando sarro de nós mesmo para a imprensa e para todos, só fazia sentido porque acreditávamos na música o tempo todo, desde a primeira música que tocamos. Não consigo imaginar se não tivesse sido assim”, diz Kiedis sobre a banda e o futuro com Klinghoffer.

“Algo estranho poderia acontecer”, ele diz, “Ou não. Hoje temos o show no Henry Miller Library, nosso primeiro show com Josh, ao ar livre…nas montanhas”. Ele sorri: “Ohh yeah”.

O primeiro show dos Chili Peppers em 4 anos teve alguns imprevistos. A energia do lugar caiu algumas vezes durante as primeiras músicas, metade do repertório era de músicas novas (que a plateia não tinha ouvido ainda), e Kiedis estava perdendo sua voz por causa do frio, tendo pedido para Klinghoffer assumir os vocais em algumas partes. Também tinham evidências do renascimento da banda: a dança vigorosa de Kiedis durante Ethiopia (do “I’m With You); Flea suando muito sem camisa, apesar do frio; Klinghoffer muito animado com sua guitarra.

“A última coisa que queremos ser”, diz Chad Smith um dia antes no ônibus, “é uma banda qualquer, fazendo uma turnê de verão, tocando “Under The Bridge” em galpões. E nossas novas músicas? Todo mundo está lá fora tomando uma Coca e comendo um hot dog. Somos muitos sortudos. Temos outra chance”.

No backstage do Big Sur, depois do bis, Flea está muito satisfeito e aliviado. “Toda vez que olho para o Josh, posso dizer – ele está completamente dentro. Essa banda, essa nova versão, está começando”.

“Me senti ótimo”, Klinghoffer anuncia feliz. “Os ensaios foram ótimos, mas nada se compara a tocar para as pessoas. Esse foi meu tipo de show, com a energia acabando, o vocalista perdendo a voz. Eu poderia tocar a noite toda”.

Houve um momento, onde Kiedis foi até Flea, onde ele estava esperando um carro para ir embora. Eles não conversaram sobre o show. Kiedis entregou ao Flea, um relatório do oceano para Big Sur no dia seguinte: boas ondas e ventos fracos durante a tarde, perfeito para o surfe. “Ótimo”, Flea diz. “Que tal às 16:00?”, Kiedis sorri e eles se abraçam antes de irem embora.


Fonte: Revista Rolling Stone (EUA) – Edição 1138 – Setembro de 2011
Tradução: Amanda Olivieri - RHCP BRASIL

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