25 de julho de 2018

Frusciante fala sobre as origens e as inspirações de clássicos dos Chili Peppers


Em manuscrito excluído de Greatest Hits, John Frusciante conta as origens e as inspirações de alguns clássicos do Red Hot Chili Peppers ("Under The Bridge", "Give It Away", "Californication", "Soul To Squeeze", "Otherside", "Higher Ground", "Suck My Kisse" e "By The Way"). Esse manuscrito já foi exposto como parte da coleção New Inductees, no Rock & Roll Hall Of Fame, entre março de 2012 e fevereiro de 2013 - e atualmente está à venda pela Record Mecca por 4.500 doláres.

"Minha primeira lembrança sobre Under the Bridge é de Anthony no final de um ensaio cantando ela pra nós, tendo sido encorajado por Rick. Me pareceu ser uma canção muito triste sobre não ter amigos. Eu fiquei bem tristonho no caminho de volta pra casa. Alguns dias depois, eu fui até a casa dele e nós fizemos alguns acordes e construímos a melodia sobre eles. A introdução foi inspirada pela semelhança entre "Cohesion" do Minutemen e "Andy Warhol" do David Bowie. A ideia de um acorde maior com sétima soando em algum lugar e a bateria continuando foi algo que eu roubei de uma canção chamada "Rip-Off" que é do T-Rex. E a ideia do refrão começando com uma pausa dos instrumentos no começo do compasso veio de "In Every Dream Home a Nightmare" de Joe Jackson. Como os versos me pareceram ser tristes, eu escolhi tocar acordes maiores. Se me lembro corretamente, a progressão do final da música onde o primeiro acorde é maior seguido do mesmo acorde, só que menor, seguido por outros acordes foi uma ideia que roubei de mim mesmo. Rick Rubin, que na época era o nosso novo produtor, tinha me dito que a sua parte favorita do álbum Mother's Milk era o final de Knock Me Down, onde o primeiro acorde é maior, depois menor, seguido de outros acordes, então pensei em usar essa técnica novamente para escrever outra parte que o Rick gostasse. Quando eu fui embora da casa do Anthony naquele dia eu senti que tínhamos feito algo muito bom.

Give It Away surgiu de uma jam enquanto Anthony estava sentado na cadeira do outro lado da sala onde ele ficava escrevendo em seus cadernos e cantando para si mesmo. Eu nunca esquecerei da maneira como ele se levantou, como se estivesse hipnotizado, depois caminhou até nós bem devagar, como se fosse um sonâmbulo e quando ele chegou ao microfone, ele começou a falar "Give it away, give it away, give it away now". Isso nos fez sorrir, foi muito bom.

A ideia da guitarra tocar a tônica, depois a quarte e daí descer cromaticamente até a terça menor veio de "Sweat Loaf" do Butthole Surfers, que foi tirada de "Sweet Leaf" do Black Sabbath. É por isso que no final da música, eu começo a tocar Sweet Leaf. Na minha cabeça, a piada era que Anthony estava cantando "entregue", então no fim da música, eu entrego a fonte daquele riff de guitarra, Sweet Leaf. Atualmente em shows, nós terminamos nosso repertório com a banda inteira tocando aquela poderosa progressão.

Californication foi outra que Anthony tinha cantado pra mim e que coube à mim encontrar os acordes e formar a melodia sobre eles. Fazer isso é como observar uma foto de um homem que está parado numa cidade, mas com a cidade cortada fora da foto e lhe pedirem pra descobrir em qual cidade ele está. Diferente de Under the Bridge, dessa vez eu demorei meses para decodificar o código. Antes mesmo de começarmos a ensaiar, nós estávamos sentados no Farmers Market esperando nosso café da manhã e eu lhe perguntei se ele tinha alguma ideia para novas canções. Ele me disse que quando estava na Tailândia, ele tinha pensando numa ideia para uma canção chamada Californication, tendo sido inspirado pelos aspectos culturais da Califórnia que apareciam em outras partes do mundo. Alguns dias depois, ele cantou pra mim, mas na época eu estava tão sem prática como compositor que eu não pude automaticamente encontrar os acordes perfeitos. Na verdade, essa música existiu por um tempo de forma completamente diferente, emocionalmente falando. Eu nunca fiquei satisfeito com essa versão, não parecia que eu tinha encontrado a coisa perfeita. Então uma noite, eu estava deitado no chão da minha sala escutando Carnage Visors do The Cure, que é uma canção de 30 minutos para se desligar as luzes e ficar viajando, e com cerca de 15 minutos de música eu apertei o botão de pausa e a estrofe, pré-refrão e refrão de Californication como nós a conhecemos hoje simplesmente surgiram.

(Na página anterior: Um dia eu pedi ao Anthony para escrever as letras para que eu pudesse tê-las em casa caso eu tivesse uma nova ideia para a música.)

Eu a levei para o estúdio de gravação no dia seguinte, onde Flea compôs aquela linda progressão de acordes do solo de guitarra na hora. Isso aconteceu cerca de 9 meses depois do dia em que Anthony me mostrou a ideia pela primeira vez. Então ela foi a primeira música a ser começada e a última a ser terminada para aquele álbum.

Minha primeira memória de Soul to Squeeze é da cozinha de um avião saindo do Japão em direção a Europa em janeiro de 1990.  Anthony tinha feito a letra e estava cantando-a com a melodia da estrofe de "Who Says a Dance Band" ("Who Says a Funk Band Can't Play Rock") do Funkadelic. Eu (parte muito bagunçada) ... progressão de acordes... trabalhar com aquela melodia e transformá-la em algo novo que fosse virtualmente diferente de "Who Says a Dance Band".

Alguns dias depois, durante uma passagem de som em Londres, eu escutei Flea tocando a linha de baixo que agora conhecemos como a ponte de Soul to Squeeze. Eu achei aquilo incrível, então aprendi rapidamente e mostrei pra ele uns 8 meses depois quando montamos a música com o grupo todo. No estúdio, eu toquei o slide da guitarra usando um vidro de pimenta vazio.

Other Side começou na garagem do Flea em The Castle onde muito do álbum Californication foi escrito. Chad estava dando uma pausa na bateria e tocando bongô. Flea estava tocando em lá menor e eu estava pensando no que Peter Hook toca em Elegia do New Order, onde a música é em lá menor mas ele toca como se fosse em mi menor. Então eu fiz isso naquela seção que agora conhecemos como o refrão de Other Side. Na época, era apenas uma jam e acabamos esquecendo disso. Então, alguns meses depois, Anthony nos mostrou uma fita cassette daquilo e nos perguntou se estávamos interessados em transformar aquilo numa canção, e nós estávamos.

--Minha primeira lembrança sobre Higher Ground é da primeira vez--

A primeira vez que eu fiz uma jam com Flea, nós estávamos com DH Peligro em sua garagem, e Flea estava dizendo que ele achava uma ótima ideia fazer uma versão heavy metal de Higher Ground do Stevie Wonder, e nós tentamos fazer essa versão naquele dia.

O refrão de Suck My Kiss foi inspirado em AC/DC.

Minha lembrança de By The Way é de chegar num dos raros ensaios noturnos, porque Flea e Anthony estavam numa premiação do Soul Train naquele dia. Nós chamamos BTW de Soul Train por muito tempo. Eu estava saindo pra ir dançar em boates de drum & bass/jungle uma ou duas vezes por semana, então quando eu cheguei e ouvi aquele groove intenso do baixo e da bateria, eu fiquei dançando por um tempo. Só depois eu pensei em pegar minha guitarra para acompanhá-los. Pra mim, dançar era o que aquele groove estava pedindo. A maneira como eu toco guitarra nas estrofes é principalmente inspirada no gênio estílistico de Mathew Ashman do BowWowWow, que é o meu estilo de guitarra favorito. A introdução e o breakdown são inspirados em algo que Ian e Joe fazem muito no Fugazi, onde o baixo faz uma note e a guitarra outra nota. A combinação das duas cria um contraponto que sugere um acorde, e juntos, o baixo e a guitarra fazem vários desse tipo. Flea e eu tínhamos feito algo semelhante em Parallel Universe e fizemos aqui denovo, mas de uma maneira que as vezes a guitarra toque mais baixo que o baixo e vice versa, o que dificulta pra identificar o que é o baixo e o que é a guitarra. Isso cria um entrelaçamento no som que eu amo. Além disso, nós não tínhamos ideia de quais acordes nós estávamos fazendo (e ainda não sabemos, é divertido não saber de vez em quando) e ficamos chocados ao descobrir um dia que a melodia vocal do Anthony do refrão também funciona com a introdução, por coincidência."


Tradução: Pedro Tavares

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