31 de dezembro de 2019

A tradução da entrevista "perdida" de John Frusciante


Entrevista "perdida" de John Frusciante, conduzida por Steven Rosen (SR), no começo de 2004. O áudio da conversa foi publicado no dia 17 de novembro de 2019, até então ele nunca havia sido divulgado, porém, parte dessa conversa foi publicada na Total Guitar (UK) de abril de 2004. A tradução ficou por conta de Eloá Otrenti da Frusciante Brazil.




John Frusciante, o ressuscitado guitarrista dos Red Hot Chili Peppers, e criador de diversos álbuns solo esotéricos, pode ser melhor classificado como um músico minimalista, uma figura anti-guitarra que evita solos longos, solos com mais de doze notas, a aplicação do vibrato de dedo e o uso da barra de tremolo – apesar do seu instrumento principal ser uma Fender Stratocaster 1962. Em seu álbum solo mais recente, Shadows Collide With People, todas essas texturas são aplicadas, ou nenhuma delas se for o caso. Autoproduzido, o álbum conta com John tocando guitarra, teclados, baixo, percussão e cantando. Ele é acompanhado pelo colega de longa data Josh Klinghoffer, um multi instrumentista por si só, que toca esses mesmos instrumentos.

Em uma tarde perfeita no sul da Califórnia, John conversou sobre seu estilo único de tocar e escrever. Sentado em uma varanda do sexto andar do lendário Chateau Marmont – o lugar onde John Belushi deu o último suspiro e Johnny Depp e Hunter S. Thompson chamaram de casa por muitas semanas – Frusciante olhou para as colinas de Hollywood Hills. Tendo suportado sete tipos de inferno físico e mental com vícios e depressão, o músico do Chili Peppers estava tão contente e suave como um bebê com sua mamadeira. O sol estava brilhando e uma brisa suave acariciava delicadamente as folhas nas árvores, John Frusciante tentou explicar John Frusciante. Nem sempre funcionou bem, mas aqui estão aquelas ideias e lembranças.


SR: Qual sua principal motivação para gravar um álbum solo separado do Red Hot Chili Peppers?
Eu não escrevo letras no Red Hot Chili Peppers e eu sou um compositor. O que eu faço no Chili Peppers tem mais a ver com colocar pequenas peças juntas por que estou deixando muito nas mãos de três outras pessoas. Eu me considero um compositor acima de tudo e é por isso que escrevo músicas. No Chili Peppers eu posso escrever uma música inteira mas apenas a parte da guitarra. Eu escrevo letras desde os onze anos e tenho ficado cada vez melhor.  E tem muito mais dessa época, que não está nesse álbum. Tinha aproximadamente catorze musicas que eram conteúdo para a trilha sonora de Brown Bunny, filme de Vicent Gallo e cinco delas foram para o álbum do filme. Tem The Stuff que eu fiz para Brown Bunny, é uma musica muito triste e não deve ter bateria, apenas uma guitarra acústica e poucos overdubs de guitarra elétrica, e o vocal. E as coisas que estavam neste álbum foram feitas para serem produzidas de forma muito elaborada. Ficamos empolgados com álbuns como Violator, de Depeche Mode, onde há um tipo muito extremo de produção.


SR: Você considera a produção desse álbum como extrema?
Estou realmente usando o estúdio como um efeito, em vez de apenas usá-lo para uma representação realista do que parecemos tocar juntos. Estou usando coisas como compressão, eco e reverb de uma maneira muito extrema.

SR: Se olharmos para uma musica como Carvel, a musica de abertura do álbum, como você descreveria o desenvolvimento? Como a sua musica evolui?
A primeira coisa que fizemos foi uma gravação demo da musica; a maioria das músicas nesse álbum foram feitas em cassetes de 8-track. Era onde a maioria das experimentações acontecia, você sabe? Como foi? Eu me lembro eu fiz uma demo sozinho. Gravei a guitarra, Josh fez o overdub da bateria, fiz o baixo no sintetizador e peguei meu Mellotron que tinha alguns emuladores e tentei usar sons que normalmente não usava. Usei um som para a introdução e outros para o verso, usei outro para a terceira sessão – tentei usar um som diferente em cada sessão.  E depois Josh e eu sempre criamos nossas harmonias vocais quando algo ainda está na forma demo. E essa é provavelmente a etapa final disso.


SR: Para as sessões de gravação em estúdio como era essa rotina?
Nesse caso, Josh tinha escrito as partes de partes então basicamente era ele e eu em uma sala, ensinando essas partes para Chad e Josh normalmente tocava baixo e eu guitarra. Em algumas musicas eu deveria tocar baixo então éramos apenas Chad e eu gravando.

SR: O som e sentimento das partes de guitarra rítmica são muito únicos, de onde vem isso? Você pode explicar sua maneira de dedilhar?
É apenas algo que vem de tocar há algum tempo. Quero dizer que posso reconhecer a maioria de meus guitarristas favoritos tocando. Há algo que faz com que os músculos e a pele de duas pessoas e a eletricidade no corpo de um indivíduo não sejam como  de outra pessoa. Você pode ouvir alguém como Jeff Beck tocando uma nota e saberá quem é. Conforme cresço como musico, fico mais confortável em soar como mim mesmo. Eu penso que muitos guitarristas fazem cover de si mesmos  e eu me interessei mais que  minha musica estives em um estado nu.


SR: Fisicamente falando, como você aborda o aspecto rítmico do seu estilo? É uma batida forte, é imprudente?
Definitivamente eu faço os dois; eu definitivamente toco tão forte quanto possível, muitas vezes. Nos últimos anos eu me aproximei de coisas que podem ser tocadas gentilmente, algumas harmonias e coisas que apenas surgem se você toca suavemente. E então quando você toca forte também significa algo.

SR: De certa forma você traz uma abordagem de ritmo acústico para sua execução elétrica. Você concorda com isso?
Eu acho que sim; Toco muito nas duas coisas, mas o que você está falando é como dedilho muito. É difícil dizer se um influencia o outro porque eu não penso muito nisso. No que diz respeito à força do meu pulso direito, isso vem do punk, de tocar todas as batidas de baixo. Punk é o que eu comecei a tocar e é daí que vem todo esse poder. E parte disso vem de ter tocado tanto funk com Flea. Passamos milhares de horas tocando funk juntos e provavelmente é daí que vem muita sutileza e delicadeza no meu pulso direito. É provavelmente o meu principal lugar em que me expresso é tocando guitarra rítmica, mas, ao mesmo tempo, não é algo que eu tenha consciência.


SR: Você se descreveria como um solista no sentido tradicional? Mesmo sua abordagem nos solos tem um elemento rítmico e normalmente não vem apenas de uma escala de blues.
Eu estou mais interessando em fazer coisas texturizadas com a guitarra e tentar encontrar maneiras de tocar interessantes. E para mim, a abordagem de solos de guitarras de estrelas do rock é um beco sem saída. Não vejo muitas pessoas levando isso a lugar algum. E para mim, os guitarristas mais interessantes que tivemos nos últimos vinte anos não foram solistas.

Teve gente como Bernard Summer do Joy Division e New Order, Johnny Marr do The Smiths, Jonny Greenwood no Radiohead e Kurt Cobain no Nirvana... Nenhum deles era solista. Todas essas pessoas fizeram coisas interessantes com o seu som e fazem guitarras interessantes, mas não são chamativas. Para mim esse estilo de guitarra atingiu o auge com Jimmy Page e não acho que ninguém nunca vai superá-lo. Eddie Van Halen, eu pensei que tivesse ido a algum lugar interessante mas novamente eu não acho que foi muito além disso. Eu adoraria se alguém chegasse e tocasse uma guitarra chamativa que me interessasse. Eu penso que as pessoas que levaram isso a uma direção mais interessante são as pessoas que trabalho com sons e caminhos nos quais a guitarra elétrica é transformada em diferentes instrumentos. Se você se limita a guitarra do ponto de vista do blues, é apenas um instrumento. Mas se você olhar para o que Keith Levine fez no Public Image em seus dois primeiros álbuns, é um instrumento diferente para cada musica.

A guitarra é muito versátil. Para mim é o melhor instrumento já inventado. Pode ser tantas coisas e é infinita – o instrumento que Robert Fripp tocou não é o instrumento que Jimi Hendrix tocou, não é o que John McGeoch no Magazine tocou.

As vezes ao vivo, no Chili Peppers eu entro nessa coisa de guitarra chamativa de rockstar, mas é mais por causa da energia de tocar diante do público. Não é algo que me interessa musicalmente, é mais algo que faço mais porque aproveito a interação entre o público e o impacto que é gerada na troca de amor.

E muitas vezes é algo que vai me fazer tocar em um estilo mais blues e chamativa e outras coisas. Se você já me viu tocar ao vivo talvez tenha um vislumbre de mim como guitarrista mas normalmente se estou pensando mais em musica e no que estou interessado quando estou gravando, para mim tocar guitarra deve ser uma declaração sonora textual na musica ou deve ser algo tão melódico e bonito que você cantaria.


SR: O que nos leva à musica seguinte, Second Walk – aquela pequena passagem em overdrive, de onde veio? Você senta e faz as mudanças e chega a um riff ou é algo sem preparação? É a mesma abordagem com os Chilis?
Normalmente é com na primeira tomada. Eu acho que o que acontece muitas vezes no Chili Peppers é que na primeira vez que decidimos fazer um solo em uma musica eu sou contra ter qualquer sessão de solo. Eu não estava nessa. Passo por períodos quando estou gravando que não gosto e quando estamos em turnê quero que todos os solos sejam longos. Em turnê vou lá e solo por dez minutos.

SR: Você mencionou um fator chave em seus solos que é o aspecto melódico – de onde veem aquelas notas escolhidas?
Normalmente eu tento criar uma justaposição entre o que Flea está tocando e o que estou tocando. Eu tento trabalhar com o espaço entre o que estamos fazendo. Eu  penso mais em moldar o espaço que há entre a guitarra e o baixo do que “o que eu posso fazer sobre isso?” Se Flea estiver colocando o mastro aqui [gesticula para o lado com a mão esquerda], eu vou colocar um mastro aqui [gesticula com a mão direita] e, assim, criando essa cor entre nós. As coisas teóricas em que penso, têm mais a ver com criar espaço.


SR: Uma musica como Dosed no ultimo álbum dos Chili Peppers representa esse aspecto de luz e sombra que você está falando?
Essa surgiu quando o resto da banda estava fora durante um intervalo de ensaios, eu estava lá e tinha um pedal Line 6 green loop. Fiz o loop de uma parte da guitarra e depois acrescentei outra parte e outra parte. Eu tinha aquelas três partes de guitarra tocando e tocava sobre elas. E depois quando todos voltaram eu tinha esse belo loop. Na gravação eu toquei cada parte separadamente para que pudéssemos colocar em estéreo.

SR: E sobre a faixa Can’t Stop? O groove é extremamente suave
Sim, meu timing é muito bom. Eu sei que é exatamente isso que eu estava tocando com Chad quando estávamos gravando e geralmente é o que é. Eu geralmente não conserto as coisas. Não há muita edição ou alteração nas minhas faixas [ritmos].

SR: Em seu novo álbum solo, você está pensando nos mesmos termos? Ritmicamente e nos solos?
Eu não penso muito sobre o espaço entre eu e a outra pessoa, penso apenas em embelezar uma música minha. Uma coisa como o solo no final de Omission foi apenas a ideia de ter um grande final e depois ter um solo pequeno, num tom tipo Tom Verlaine. É provavelmente a [Fender] Jaguar.


SR: Shadows Collide With People é temperado com todos os tipos sons de teclado. Usar um teclado traz diferentes elementos para sua música? Em oposição aos Chilis que são simplesmente um trio?
É apenas uma parte de toda minha ideia para esse álbum; eu queria que tivesse muitos sons de teclado e queria centrar em sons atípicos em sequencia. Para nós quando fizemos as demos, essa foi a parte divertida. Achar um som de sintetizador realmente interessante para colorir as musicas. E virtualmente toda a musica tem em seu coração uma guitarra acústica.

Eu escrevo as musicas na guitarra acústica e esse também foi o conceito para esse álbum. Na musica Omission, quando fica rápida no final, eu poderia ter facilmente acrescentado uma guitarra elétrica, teria feito sentido. Mas a ideia era ter a guitarra elétrica faltando e o violão tocando forte e rápido. Parte da ideia dessa musica para esse álbum foi não exagerar em algo com a guitarra elétrica que poderia ser simplesmente expressas com o violão.

SR: Voltando com os Chilis por um momento, com você descreve o ritmo em “Cabron”?
Essa foi inspirada na guitarra de Martin Barre em Aqualung do Jethro Tull. Foi dai que veio aquela musica porque eu tinha aprendido todas as musicas de Aqualung porque ele estava usando o capo todo o tempo no álbum. Eu comecei a escrever algo como aquilo. O fato de acabar soando como algo mexicano tem mais a ver com os vocais de Anthony e a bateria de Chad do que com a parte da guitarra. Se você analisar a parte da guitarra, se aproxima mais de rock progressivo.  É uma guitarra rápida e cheia e foi engraçado Anthony querer construir uma musica em torno disso, porque eu só tinha escrito como uma parte de guitarra.


SR: De certa forma, você equilibra os vocais melódicos e rítmicos de Anthony com suas partes de guitarra? Em um tipo de rotina de chamada e resposta?
Não, os vocais dele respondem à minha guitarra. A guitarra sempre vem antes dos vocais no Chili Peppers de modo que quando você escuta a guitarra e o vocal fazendo a mesma coisa é normalmente por que ele está cantando junto com a guitarra. Por exemplo em “Don’t forget me” minha ideia para o verso era ir e voltar entre um som tipo de maquina e um som fluente. Essa musica é um exemplo de Flea tocando a mesma linha de baixo repetidamente  por quase meia hora enquanto eu toco diferentes partes da guitarra por cima. E aquelas são provavelmente as primeiras partes de guitarra que toquei. Então ele pisou em seu fuzz e eu no wah wah para o refrão. Você deve tentar ouvir a versão ao vivo dessa musica porque na gravação Rick Rubin fez as harmonias mais altas e abaixou a guitarra no refrão. A ideia para o refrão dessa musica era algo overdrive, pesado, além da conta. Nos colocamos uma versão ao vivo como lado B em um single desse álbum e é ali que você pode ouvir a intenção original.

SR: Você pode descrever o que estava fazendo no verso naquela figura em repetição?
Aquele som que você está falando é um eco nas tercinas por toda a musica. Se eu estiver escolhendo semicolcheias - dooga-dooga-dooga-dooga - com o eco das tercinas, soa como doodladoodladoodladoodla...E na verdade a pessoa que eu estava pensando quando cheguei a isso era Daniel Ash; tem uma musica do Bauhaus chamada “Double Dare” eu estava pensando nisso [do álbum in The Flat Field].




SR: Existem vários instrumentais no seu álbum. A guitarra precisa mudar a abordagem quando não há voz para competir?
As musicas instrumentais aqui não tem guitarra. “23 Go Into End” tem uma guitarra mas não sou eu ou Josh [Klinghoffer]. É Omar Rodrigues e ele está tocando guitarra slide. Basicamente passamos o dia todo nos sentimos debaixo da agua compondo essa musica ambiente. Nos inspiramos nos álbuns ambiente de Brian Eno e nos discos de Edgar Froese, Epsilon In Malaysian Pale. “Negative 00 Ghost 27”é um som no qual configurei o sintetizador modular para processar um som de coral de um Mellotron; configurei o som e depois Josh entrou e transformou o Mellotron nesse feedback, uma espécie de som áspero. Eu trouxe Josh e, cinco minutos depois, tínhamos o que você ouve no disco.

SR: E no outro extremo do espectro há uma faixa como "Water", que parece incorporar a abordagem dos anos sessenta, talvez remanescente do período The Kinks ou The Who's Happy Jack?
Josh e eu amamos Kinks e acho que eu estava ouvindo muito o álbum Arthur enquanto estávamos fazendo esse disco. Mas quando eu escrevi essa musica eu estava tentando fazer algo como Talking Heads. E para o outro eu estava tocando para Chad [Smith] uma batida de Aphex Twin na qual a bateria sempre esta fora do tempo e eu tentei faze-lo tocar algo como aquilo, você est[a tocando uma batida bem rápida e fora do tempo.


SR: Como produtor, você consegue sentir quando uma pequena passagem solo está certa? Quando você escolheu as notas certas e o tom complementar perfeito?
Eu nunca tenho duvidas sobre o que é bom ou o que não é bom. Eu sempre tenho muita certeza de mim.

SR: Voltando aos Chilis por um momento, Rick Rubin escuta suas partes de guitarra com os mesmos ouvidos que você? Ele entende o que você está tentando criar?
Bem, eu produzo minha guitarra com os Chilis, Rick não tem nada a ver com ela. Rick cuida mais da bateria e do vocal, e da mixagem; quando se trata da guitarra ele me deixa sozinho e Flea também ele deixa sozinho. Ele pode sugerir coisas ocasionalmente para mim ou Flea; em Warm Tape ele disse que eu poderia fazer algo como George Harrison fez com a guitarra de 12 cordas em algumas musicas dos Beatles.

E funcionou perfeitamente com o que eu estava pensando porque eu já tinha feito um overdub então acabou sendo uma guitarra respondida por uma guitarra de 12 cordas. Então ele joga pequenas ideias no meu caminho mas ele não fala “aquela parte de guitarra não está funcionando”




SR: Tem alguma musica no seu álbum que teria funcionado com os Chili Peppers?
Eu acho que a música “Cut-Out” tem um acorde ou dois em comum com “I Could Die For You”.  Eu tinha usado o acorde em uma das minhas musicas e depois eu pensei, eu deveria usar esse acorde numa musica do Chili Peppers”. As vezes as ideias se cruzam mas em geral, é muito claro para mim quando eu devo escrever a letra de uma musica minha. E quando se trata do Chili Peppers, quando chego a uma parte de guitarra e não sei o que mais onde leva-la, eu não penso no vocal. Penso em algo que é interessante por si só como parte da guitarra. Enquanto nas minhas músicas talvez eu não ache as partes da guitarra tão interessantes, é mais em relação aos vocais e ao que estou imaginando que os sintetizadores estejam fazendo.

SR: Qual foi a semente inicial para as musicas no seu álbum?
Minhas musicas são escritas no momento que são escritas. Se eu tenho uma ideia para uma musica eu sento até terminar...independente se demorar cinco minutos ou três horas. Eu sempre termino ou eu nunca termino. Eu posso entender por que você ficaria confuso se pensasse que minhas músicas foram reunidas em pedaços; é assim que eu faço coisas de Chili Peppers, juntando as coisas em pedaços. Para minhas músicas, eu as concebo naquele momento

SR: Se estivéssemos escrevendo a cartilha sobre como alcançar o tom de guitarra de John Frusciante, como você descreveria isso?
Tocar a guitarra bem forte. Usando as palhetas laranja da Tortex [Jim Dunlop]. E eu uso cordas .010 e se estou tocando a [Gretsch] White Falcon eu uso .012.


SR: Por que o Stratocaster é o instrumento com que você se sente mais confortável?
Bem, eu simplesmente não tinha uma Les Paul; comprei uma recentemente. Agora as principais guitarras que uso são uma Telecaster e a Les Paul; com essas duas você consegue todo tipo de som. A Les Paul é uma 69 mas eu queria que fosse 59. Eu amo a Les Paul que tenho. Mas na minha opinião a maneira como toco tem muito a ver com a Telecaster. E recentemente eu comecei a usar amplificadores Vox e parei de usar Marshalls. Mas ainda soa como de costume. Ah e outra coisa, se estou tocando um acorde de duas notas ou três notas, toco todas as cortas. Eu bloqueio as cordas que não estou usando com a mão esquerda. Com meu polegar ou meus outros dedos. E acho que isso tem muito a ver, porque a maioria das pessoas toca um acorde de duas notas no meio da guitarra e só está escolhendo essas duas notas porque tem medo de tocar as outras cordas.

Digamos que alguém esteja aprendendo a tocar "Can’t Stop" e vai tocar apenas as notas individualmente. Eu estou tocando todas as cordas para cada nota mesmo que eu não esteja tocando duas notas ao mesmo tempo. É uma linha de uma nota só mas eu toco todas as cordas e bloqueio todas as outras com minha mão esquerda. Se eu tocasse uma nota apenas não soaria nada como eu. É muito mais algo de percussão. É muito natural para mim e eu só tomo consciência disso quando mostro alguma musica para alguém.



SR: “The Slaughter” é uma faixa interessante, com Flea e Chad tocando juntos
Sim, ele toca baixo vertical nela. Quando escrevi a musica eu estava tentando usar alguns acordes. Vai de Ab para A e depois esse acorde diminuto, depois para um B e C#m e esse acorde diminuto. E depois um F#m6, E e F#m6. Mas a grande mudança é Am6 para A7.  Eu sempre estou buscando coisas interessantes para fazer; mudar de Am6 para A7 é algo inusitado que não acontece em muitas musicas.

Quando você consegue dar sentido para algo do tipo, quando um acorde estranho faz sentido no contexto da música, é isso que estou sempre buscando. Eu tenho orgulho dessa música porque estou usando certos acordes. Eu sei que não sou o único compositor que usa isso como sua principal razão para escrever musicas. O que é divertido sobre escrever musicas é que e como um pequeno jogo matemático de tentar fazer algo interessante.

Normalmente eu vejo alguém usando um acorde. Vejo Paul McCartney usando um acorde ou John Lennon e eu tento imaginar um jeito de fazer aquele acorde. Mas, às vezes, isso ocorre apenas praticando e aprendendo coisas como as músicas de Charles Mingus, e isso provavelmente veio de alguma coisa de jazz em que eu estava trabalhando. Eu sou fascinado como as pessoas usam acordes de maneiras diferentes e Charles Mingus era definitivamente uma das pessoas que eu estava estudando na época.

SR: E sobre seu vibrato com o dedo? Você nunca falou muito sobre isso. Não se escuta muito de vibrato em suas musicas
É uma decisão consciente; não que eu não possa fazer. Porque sinto que as pessoas exageram. Mais uma vez, sinto que Jimi Hendrix fez isso em todo o seu grau; ninguém fará mais do que isso, ninguém fará melhor do que isso.

Eu me lembro que no solo de “Minor Thing” eu faço um vibrato bem suave. É apenas aquele tipo de som distorcido. É uma cor eu posso usar mas apenas como uma cor, não quero que seja algo que eu dependa. O que consegui ao não fazer vibrato é que encontrei maneiras mais coloridas de organizar notas e equilibrar artisticamente as coisas que estou tocando. As notas tem que falar por si e o ritmo tem que falar por si. Embora você possa criar algumas notas desinteressantes com vibrato e fazê-las parecer interessantes, isso não me parece um desafio. Prefiro encontrar algumas notas que, por si mesmas, sem vibrato, são interessantes. E, como eu disse, se eu me deparar com uma situação em que precisa de vibrato, eu posso fazê-lo. Mas prefiro parecer que não tenho a capacidade de fazê-lo porque acho emocionante quando ouço pessoas que não têm essa capacidade.




SR: Mesmo o uso da barra de tremolo na Stratocaster é limitado
Atualmente é assim mas se me conhecesse quando eu tinha 17 anos você não diria isso. Sim, eu uso principalmente a barra ao vivo para obter feedback. É aí que eu gosto de usá-lo. Acho que é apenas uma daquelas coisas em que tem sido usada de várias maneiras diferentes e acho que quero fazer algo novo. Portanto, geralmente é um uso sutil.

SR: Por fim, Shadowns Collide With People é o reflexo perfeito de você como guitarrista?
Sim, é exatamente o que me propus a criar. Os registros anteriores são todos demos; nenhum deles foi realmente concebido como "Vou gravar". Era mais como se eu tivesse um certo grupo de música, em colaboração com Josh e estávamos sempre cantando harmonias juntos e sabíamos que queríamos fazer um disco com muitas harmonias e muitas partes do teclado e muitas músicas com acordes interessantes.

Mas sem muita guitarra!
Não há muita guitarra tocando e baixo chamativo. A ideia para o disco estava clara em nossas cabeças. Josh é um ótimo guitarrista e sou conhecido por ser um guitarrista, e sabíamos desde o dia anterior de entrar em estúdio. Nós pensamos: “Devemos adicionar solos de guitarra neste álbum?” [Muitas risadas]. E ele disse: "Não é um disco muito orientado para a guitarra". Não era isso que estávamos fazendo nesse disco. Tenho certeza de que um dia faremos um disco com muita guitarra.




Tradução: Eloá Otrenti - Frusciante Brazil

Siga a Frusciante Brazil para ter acesso a informação e a pílulas dessas entrevistas.

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