2 de março de 2017

Hot hot hot hot hot

Capricho (09/04/2000)


Os californianos do Red Hot Chili Peppers viram o fim passar bem perto. Superaram os problemas e hoje, depois de 17 anos juntos, ainda fazem rock de primeira.



Californication, disco do Red Hot Chili Peppers lançado em junho passado, vendeu mais de 250 mil cópias no Brasil e emplacou três hits: Scar Tissue, Around the World e Otherside. Nada mal para um grupo que quase acabou. Em 1996, depois de dez meses de turnê do disco One Hot Minute, a banda teve uma estafa. As brigas começaram e o vocalista Anthony Kiedis voltou a se fundar na heroína.

A carreira do Red Hot sempre teve altos e baixos. Em 1983, Kiedis e o baixista Flea se juntaram a mais dois amigos e fizeram o show de estréia da banda. O primeiro quitarrista, Hillel Slovak, morreu de overdose em 1987, e o baterista, Jack Irons, foi tocar no Pearl Jam. John Frusciante, guitarrista que entrou em 1989, saiu depois de uma briga, três anos mais tarde. A volta dele, em 1998, foi o pontapé que faltava para mais um recomeço. Em entrevista dada à gravadora Warner, que a CAPRICHO publica com exclusividade, os red hot falam sobre carreira e drogas.

Como você está se sentindo de volta à banda?

John Frusciante – "Estou muito feliz. Por que minha vida está assim: eu não preciso pensar em mais nada além de fazer música. Então, fico concentrado na música o dia todo, não vivo com ninguém, não sou responsável por ninguém, visito as pessoas que eu amo quando eu quero, e a maioria do tempo fico sozinho, lendo livros ou tocando guitarra."

É importante todos serem amigos, ou é até mais produtivo quando rolam as brigas?

Flea – "As brigas podem ser produtivas, sei lá. Às vezes, estar na banda é difícil por causa das viagens, das coisas que você faz além de tocar música, que é melhor. Se você puder viver dentro do grupo com amizade, melhor, senão vira um inferno. Para a gente é muito importante dar apoio um ao outro, mas não tínhamos essa consciência até o John voltar. Agora é muito natural e vai continuar desse jeito. Porque o principal é que nos amamos."

Então vocês são amigos.

Flea – "Eu e Anthony nos tornamos amigos com 15 anos, agora temos 36. E sempre fomos inseparáveis."

Rolou muita coisa chata entre vocês nesses anos todos?

Flea – "Muitas, mas nos últimos anos Anthony mudou, cresceu bastante, se tornou uma pessoa mais amável. Isso é evidente. Coisas chatas que aconteceram não acontecem mais. Eu o respeito muito."

Essas coisas tinham a ver com drogas?

Flea – "Não sei. Acho que tinha a ver com ele atingir ápices na vida. Só depois de todo ápice vem o período em que a pessoa acha o máximo. Mas ele está muito agradável agora."

Ele disse o que o fez mudar de vida?
Flea – "Eu sei que ele ficou lutando com isso por anos."
John Frusciante – "Ele ri de tudo agora, mesmo sabendo que não é engraçado. O Anthony teve muitas coisas trabalhando contra ele, mas ainda buscou dentro dele mesmo o que há de melhor, de mais doce. E tornou isso predominante em sua personalidade."

Quando vocês se encontraram novamente em 1998 e voltaram a tocar juntos, foi como a primeira vez?

John Frusciante – "Rolou uma conexão instantânea, foi maravilhoso. As músicas que escrevemos foram muito criativas e naturais. Não precisamos falar muito no assunto, ficar discutindo. Ficamos somente tocando e nos sentindo bem. Mas definitivamente não foi como se nada tivesse acontecido porque muitas coisas aconteceram e isso faz parte da nossa história. Nós abraçamos a nossa história."

Quando vocês fazem música, tocam o que vem à cabeça?

John Frusciante – "Não há nenhuma regra, mas o que acontece na maioria das vezes é que nos encontramos e começamos a tocar e a fazer barulho. Às vezes, vem o que está no ar, o que sentimos e, quando percebemos, saiu uma música interessante."
Flea – "Isso torna o som do Red Hot diferente do de outras bandas. Escrevemos nossas músicas juntos, como uma banda. Elas não são produto de um só cérebro."

O que significa Californication?

Anthony Kiedis – "Todo mundo está liberado para criar sua própria definição. Para mim, a palavra ilustra o processo de o mundo ser afetado pelo que nasceu e foi criado na Califórnia, seus filmes, músicas, idéias ou a própria ridicularização, os estereótipos."

Muitas das suas letras, principalmente para as pessoas que não tem o inglês como primeira língua, não são muito diretas. Vocês acham que todo mundo entende o que elas querem dizer?

Anthony Kiedis – "A questão é que você não precisa falar nada de inglês, a língua não importa. A vibração que acontece quando você ouve nossa música já é o suficiente. As pessoas no Japão têm o mesmo sentido que os americanos porque o som da palavra é tão importante quanto o significado."

Fonte: Capricho - 09 de abril de 2000

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