2 de julho de 2017

John Frusciante se converte ao Acid House - Maio de 2015

EX-CHILI PEPPER JOHN FRUSCIANTE SE CONVERTE AO ACID HOUSE

O ex-guitarrista do Red Hot Chili Peppers John Frusciante (também conhecido como Trickfinger) não está interessado em se apresentar. Nestes dias, o homem que cativou multidões em enormes estádios com sua guitarra está  feliz criando samples em seu estúdio em Los Angeles com gatos e uma frota de sintetizadores como companhia. Ele já não faz música com a intenção de lançá-la; na verdade, nunca teve a intenção de lançar seu mais recente álbum, um LP de acid house que chegou em abril na Acid Test, subselo da gravadora Absurd.

As notícias do guitarrista dos Chili Peppers fazendo dance music pode ter levantado as sobrancelhas de alguns puristas. Nos anos 80 e início dos anos 90, quando as raves estavam começando em Los Angeles, Frusciante se juntou à banda, gravou Mother’s Milk e Blood Sugar Sex Magik, e saiu pela primeira vez. O que se seguiu foi uma descida bem documentada em vício em heroína. Mas para qualquer pessoa familiarizada com o lançamento solo mais recente de Frusciante, o acid não é muito viajante. Naquele momento, ele ficou sóbrio e voltou à banda para o, hoje clássico, Californication. Ele descobriu synthpop e jungle, e em sua última turnê, há oito anos, ele fugia do tédio entre os shows aprendendo a usar uma Roland TB-303. O resultado foi o LP Trickfinger, cujas jams ao vivo envolvem até 15 máquinas, feitas fora de seu estúdio como um presente de Natal para alguns amigos de Frusciante, eventualmente desembarcando nas mãos de Oliver Bristow da Acid Test.

Frusciante também produziu para um duo de rap filiado ao Wu-Tang Clan, o Black Knights, colaborou com Venetian Snares como Speed Dealer Moms e tocou no novo álbum do Duran Duran, mas computadores e engenharia digital continuam sendo suas fascinações primárias. Numa recente conversa por telefone, Frusciante nos levou para caminharmos entre os álbuns que o converteram a dance music.

Você acabou de lançar um álbum pelo subselo especializado em acid da Absurd, o que é um pouco de mudança de direção para você. Você teve algum contato com raves antigamente?

"Eu não gostava. Antes de eu entrar, a banda [Red Hot Chili Peppers] costumava falar merda sobre drum machines em entrevistas – eles sempre eram comparados aos Beastie Boys, por serem brancos, e por várias batidas que eles faziam na época serem semelhantes à jungle. Eles costumavam tocar um funk muito rápido, um pouco parecido com os produtores de jungle acelerando samples de soul e funk, então eu tinha um ouvido para isso. Eu ouvia batidas de jungle na minha cabeça muito antes desse tipo de música ter sido feita; é uma progressão lógica da batida de “Fire”, do Jimi Hendrix e coisas assim. Mas durante os anos 90, eu estava em um mundo tão diferente que não tive qualquer conhecimento da cultura rave."


Certo. Foi uma época um pouco estranha, no geral.

"Sim, e eu fui um viciado em drogas durante a maior parte do tempo, de qualquer forma. Eu tinha pouca consciência do que estava acontecendo do lado de fora da minha casa e da estranha cultura das drogas que eu convivia, que não se tratavam de ecstasy. Quando eu parei de ser um viciado, comecei a sair para dançar em clubes de jungle e conhecer pessoas que freqüentavam raves. Mas sim, eu meio que perdi os anos 90."


Lembro-me de ouvir você falar sobre seus primeiros encontros com raves e sobre sentir que todos ao seu redor estavam unificados e sob efeito de êxtase.

"Sim, você pode ouvir isso direto dos discos. Você não tem que estar numa boate para imaginar o que é aquilo, que é como o punk era para mim quando eu era um garoto. Quando eu estava no punk, eu tinha 10 ou 11 anos. Eu não tinha idade suficiente para ir aos shows, mas queria muito. Naquela época, em Los Angeles, a violência era grande em shows de punk, o que parecia excitante para mim. Eu não poderia fazer parte dela, então eu só ouvia os álbuns e imaginava a atmosfera em torno da música. Eu ainda sinto isso ao ouvir discos antigos de rave dos anos 90. Esquecemos que uma parte grande da música é o que nossas mentes são capazes de adicionar a ela. A maneira particular que a mente humana cria ou ouve música é metade do que a música é. Música em si não tem qualquer valor completo."



Talvez subestimamos a imaginação.

"O que a imaginação dá à experiência de ouvir é uma coisa grande. Punk, rave e os pioneiros originais do rock 'n' roll: esses períodos da música são muito importantes porque eram pura energia. A atmosfera em torno da música era aparente. Para mim, um monte de música eletrônica que é feita hoje não parece ser feita para a imaginação das pessoas. Eu não ouço muita atmosfera; ouço muita compressão. É uma direção infeliz. Gosto quando a música tem mistério em torno dela. Ainda existem pessoas que fazem música ao redor do mundo que possuem atmosfera e imaginação, elas são obscuras e desconhecidas. Espero que um dia nossa indústria descubra uma maneira de promover este tipo de coisa, em vez de músicas que perfuram nossas cabeças e que nos levam direto para a morte. Foi muito bom para mim como um garoto ouvir punk rock e ter aquela pequena ideia de quem o vocalista do Black Flag era, ou como o vocalista do Germs era. Eu só sabia que eu morava na mesma cidade que eles, eu sabia que eu respirava o mesmo ar que eles. Isso era o suficiente para colocar minha imaginação em chamas."


Diga-me alguns álbuns que você se lembra quando começamos a falar de raves.

"Um é um disco do selo Suburban Bass. O artista é Johnny Jungle, e as faixas são “Killa Sound” e “What’s On Ya Mind”. Ele saiu em 1995. É um desses álbuns que, por mais simples que seja, eu posso ouvir mais e mais e nunca ficar cansado. A produção geral é bem simples: breakbeats organizadas de uma forma realmente inovadora, baixo e samples. A simplicidade e a amplitude, cada pequeno detalhe dos samples e os sons bem suaves que você ouve são realmente maravilhosos para mim. Você não iria nem perceber essas coisas tivesse um monte de sintetizadores sobre ela. É um disco que eu nunca poderia me cansar.

Outro que me vem é do Komakino, Energy Trance EP. Komakino é uma dupla da Alemanha, e novamente, não há muita informação sobre eles. Eu vi um dia em uma loja de discos e comprei porque a capa era bacana e o nome deles era uma referência a uma música do Joy Division. Mas é uma música ótima. Esses caras não tem muita coisa –  o que eu posso dizer é uma 909, uma 808, uma 303, um synth Alpha Juno e um computador. É o oposto de Aphex Twin e Venetian Snares:  não é sofisticado. É o tipo de música estúpida. Mas eles possuem um grande senso de melodia, um sentido básico de harmonia, dos modos Western, modulação, mudança de tom e coisas assim. Encontrei um pouco de techno e trance que eu amo na música deles. Eu comprei tudo o que eles já fizeram e todos os remixes que já fizeram deles. Em um certo momento, eles pararam de produzir, e seus últimos discos não são tão bons, mas quase tudo o que eles fizeram tem um lugar muito especial no meu coração.

O último é do artista Pure White, que também atende por Orca e DJ Crystal, e o disco é chamado 4 AM. Mais uma vez eu não sei nada sobre ele, e, novamente, é apenas um desses álbuns que eu nunca me canso de ouvir. Uma vez eu disse a um amigo que se eu morresse e foi para o céu e esta fosse a única música que tocasse lá, eu estaria bem. É jungle, portanto, as batidas são cortadas de uma forma muito inteligente. Não sei de onde o refrão que ele sampleia é, mas ele parece entender como interagir com ele. Há um grande contraste entre a força da batida e a beleza do refrão, mas a música não soa pop – é bem suja, distorcida. Na música eletrônica, as pessoas tem seguido na direção oposta. Todo mundo quer um som cristalino com finais elevados, bem claros, e fico feliz quando ouço pessoas não tentando fazer ficar tudo perfeito num som."


Como você encontrou esses discos?

"Passei muito tempo viajando pelo mundo e vendo o que as lojas de discos tinham em sua seção de eletrônica, mas ajuda ter amigos que cresceram em torno desse tipo de coisa. Aaron (Funk, também conhecido como Venetian Snares) me deu bilhões e bilhões de MP3s de raves dos anos 90, e por um longo tempo esses MP3s foram a principal coisa que eu ouvia. Era como uma estação de rádio onde eu poderia sempre ver o artista e a faixa, e eu sempre pude encontrar versões em vinil no Discogs. Quando eu costumava dançar em clubes de jungle, eu não tinha amigos que eram DJs ou produtores, por isso gostava de tudo, mas não sabia o que eu estava ouvindo. Eu não queria coletar a música que eu estava dançando porque eu não poderia imaginar aquilo fora de um clube."


Eu tive uma experiência semelhante quando comecei a ouvir música eletrônica. Eu não sabia o que eu estava ouvindo, mas era muito contextual.

"Sim, e uma das coisas bonitas sobre isso é ouvir no tipo de espaço que ela está destinada a ser ouvida: uma sala onde as pessoas estão dançando. Quando eu me tornei amigo de Aaron, em 2008, descobri sobre muito mais coisas do que eu já sabia de ir a lojas de discos. As pessoas que eu encontrei em lojas de discos eram meio esnobes. Eles realmente não queriam ajudar muito. Havia sempre determinados discos em minha coleção que eram diferentes de qualquer outra coisa, e eu pensava: “Meu Deus, eu quero mais música como esta!” Esse foi o meu sentimento na primeira vez que ouvi uma 303. E eu sempre adorei The Prodigy desde quando encontrei o material deles no início em, sei lá, 1999, mas eu não sabia que havia toneladas de música como aquela, ou que eles tinham grandes discos para se ouvir em casa. Você pode reproduzi-los várias vezes como um álbum dos Beatles."


Você se lembra para onde você saía em Los Angeles?

"Havia uma noite em Silver Lake, numa festa chamada de Concrete Jungle, que acontecia em um clube chamado Spaceland. Hoje em dia, Silver Lake é bem hipster, mas naquela época era principalmente uma parte mexicana da cidade. Eu ia para lá toda quinta-feira. Havia alguns outros em torno da cidade na época, mas esse era o meu favorito."


O que aconteceu com ele?

"Eles começaram a combinar jungle e hip-hop, e eu achei aquilo realmente ofensivo. Eu não tinha interesse em dançar hip-hop, as pessoas que começaram a chegar foram fazendo todas aquelas paradas loucas no chão. Quando as pessoas dançam jungle, elas permanecem em seu próprio pequeno mundo, elas não ficam no caminho uma da outra, elas não fazem nada extravagante. Mas quando as pessoas dançam hip-hop, ou elas estão apenas agindo de forma muito maneira ou estão se mostrando. Então eu parei de ir lá, pouco depois o clube fechou. Fui até um dos DJs desse clube recentemente quando os artistas de hip-hop com quem eu trabalho, os Black Knights, estavam fazendo um show. Ele me perguntou por que eu parei de ir lá, e eu disse que era porque tinham levado hip-hop. Ele ficou tipo: “Você não gostou daquilo?”. E eu disse: “Imagino que muita gente não gostou”."


Então, como você fez essa transição e começou a trabalhar com um grupo de hip-hop?

"Essa foi uma escolha realmente consciente. Por cerca de cinco anos, começando com o material de acid que está no disco Trickfinger e indo até por volta de 2012, eu não queria fazer qualquer estilo de música. Meu objetivo era começar a fazer música que era mais experimental e abstrata, e eu tinha que me ensinar alguma coisa no processo de fazê-la. Sempre quis desafiar a mim mesmo e fazer algo que eu não tinha feito antes. Eventualmente caí num pensamento de fazer uma outra forma de rock progressivo, mas em vez de combinar música clássica, rock e jazz e eu iria combinando jungle, synthpop, e o que se pode chamar de IDM (Intelligent Dance Music)."


Sim, eu ia perguntar se você já tentou fazer jungle.

"Há batidas de jungle em meus álbuns Enclosure e PBX Funicular Intaglio Zone. Ambos esses discos tem vários breakbeats, mas também há guitarras e sintetizadores. Eu estava tentando fazer a minha versão do que Black Sabbath ou Depeche Mode soariam com batidas de jungle. Ir mais rápido foi um grande desafio. Por volta de quando eu estava fazendo coisas de acid house, eu programei uma batida de jungle na minha Machinedrum que soou muito bem em 168 bpm. Fiquei muito orgulhoso de mim mesmo – não soava tenso, do modo que as baterias eletrônicas tem uma tendência a soar quando você as acelera.

Durante um período de três anos, eu cheguei a um ponto onde eu poderia montar batidas e fazê-las soarem relaxadas a 250 bpm. Para ser capaz de fazer isso, seu cérebro tem que pensar, literalmente, em todos esses pequenos incrementos nessa velocidade, o que um músico convencional não tem ideia de como fazer. Quando você está tocando uma guitarra rapidamente, você não está pensando na acentuação de cada nota, você está apenas tocando um monte de notas ao lado do outro. Mas quando você está montando batidas, a cabeça tem que estar dentro de cada pequeno beat, você tem que saber o passo que cada beat irá tomar. Além de 250, 260 bpm, eu não acho que é mais possível. Você não pode nem mesmo chamar isso de bpm porque não são quartos de notas mais e seu cérebro começa a fazer truques com você. Isso costumava acontecer comigo em torno de 160, mas aos poucos eu acelerava meu cérebro para ser capaz de fazer batidas muito rápidas, tão rápidas quanto eu não ouvi ninguém fazer.

Combinei isso com diferentes estilos musicais e fiz dois álbuns no estilo synthpop progressivo, e naquele momento senti que não tinha mais nada a dizer naquela direção. Então decidi trabalhar dentro de um gênero específico. Faço música para que eu possa aprender e crescer, mas sempre ajuda a ter os seres humanos em mente. Torna-se um desafio fazer algo que as pessoas gostem. Eu me senti desconectado de meus amigos da música eletrônica uma noite, e estava me dando bem com meus amigos rappers, então decidi começar a fazer hip-hop. Fiz isso por um ano e meio mais ou menos. Fiz três discos."


Ainda está fazendo?

"Não. Pelo último ano e meio, tomei a decisão de parar de fazer música para alguém e parar de ter intenção de lançá-la, o que é o que eu estava fazendo entre 2008 e 2012. Senti que se eu levasse o público em consideração em tudo, eu não estaria crescendo e não estaria aprendendo. Ser um músico eletrônico significou que tive que me encasular por um tempo, então eu tenho um bom material de alguns anos a partir desse período que nunca foi lançado."


Você se vê continuando a trabalhar com acid e máquinas?

"Na minha banda com Aaron Funk, Speed Dealer Moms, fizemos muito acid house em odd-time signatures (compassos ímpares), mas em poucos anos nossa música se transformou em algo mais abstrato. A 303 foi o meu instrumento favorito durante esse período de tempo, mas gradualmente fiquei muito bom na 202, que se tornou meu principal sequenciador. A 202 é uma máquina difícil de programar, e as pessoas costumam fazer coisas repetitivas e simples com ela, mas descobri como fazer da 202 praticamente o mesmo para mim do que é tocar guitarra. Não há limite para o que eu posso ritmicamente agir e pensar. Desde que cresci como um guitarrista, essa se tornou a maneira que eu era mais capaz de me expressar. A 202 e os samples: esses são meus instrumentos favoritos."


Tradução: Felipe Marcarini
Fonte: Electronic Beats - 22 de maio de 2015

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