3 de setembro de 2017

Voodoo Chili: a divindade dos Chili Peppers - Março de 2009


O futuro do Red Hot Chili Peppers pode ser incerto, mas isso não significa que o guitarrista John Frusciante vai sentar e se lamentar – como indica seu mais recente e focado lançamento da carreira solo até então, The Empyrean. Desde o final da década de 80, poucos guitarristas introduziram as maravilhas do mundo funk aos roqueiros como fez John Frusciante, do Red Hot Chili Peppers. Mas há muito mais no guitarrista do que o estilo furioso – como mostraram seus discos da carreira solo, imprevisíveis e variados, ao longo dos últimos anos. Pela primeira vez em muito tempo, Frusciante está focado apenas em atividades que não incluem os Chili Peppers, e seu primeiro lançamento pós-Stadium Arcadium conta com contribuições de Flea, do multi - instrumentalista Josh Klinghoffer, das bandas The New Dimension Singers e Sonus Quarter, além de um dos heróis da guitarra de John, Johnny Marr.


Como The Empyrean se diferencia de seus trabalhos anteriores como artista solo?


"Se você juntar todas as datas em que trabalhamos nesse disco, dá um mês e meio ou dois meses no total, mas ele foi feito num período de mais de um ano. Em termos de mixagem, eu aprendi toda a parte de engenharia musical durante esse disco. Foi a primeira vez em que tudo estava sob minha responsabilidade, que chegou ao ponto em que senti que estava colocando a mesma energia na gravação e na mixagem que coloco na composição das letras, na guitarra, ou na hora de cantar."

Quem toca no álbum e como foi tocar com outros músicos?

"Eu já me acostumei, quando gravo música, ao fato de que estou fazendo isso sozinho. Não tem ninguém ao meu redor, exceto meu amigo que arruma o equipamento. Eu apreciei a dádiva de poder trabalhar com pessoas apenas pelo fato de fazê-lo. Com o teclado de Josh, eu meio que baseei o som do álbum em torno de como ele toca órgão e piano elétrico, e em como Flea toca baixo. Eu guiei e instrui um pouco as pessoas – pedia a elas para fazerem tal nota no baixo ou colocarem um bumbo na bateria – mas o mais importante é que as pessoas com quem trabalho entendem muito bem de onde vem a música que faço, então não preciso dizer a elas o que fazer. Com o quarteto de cordas foi igual – o pessoal com quem o Josh estava em turnê, com Gnarls Barkley, estávamos todos ouvindo as mesmas músicas clássicas. Então sem nenhuma instrução, eles fizeram as partes de corda. Em um caso fizemos duas versões de uma música – uma que era só com cordas e um par de elementos, porque a música já estava mixada quando eles fizeram a parte das cordas. Eu retomei algumas músicas já feitas – as músicas Enough Of Me e One More Of Me. É nítido ver como a energia ganha forma – mesmo nas mãos de outras pessoas. Como no refrão, eu disse para eles o que cantar e como cantar. Eles me surpreenderam – o som das vozes e o prazer de poder EQ (equalizar) vozes tão intensas como as vozes deles. Foi uma ótima experiência para mim, mixar tudo isso."

The Empyrean é um álbum conceitual, você se importaria de contar a narrativa?


"Eu nunca havia escrito letras que fossem tão específicas para mim. Mas é tão pessoal, num nível em que não me interessa falar sobre para a imprensa, porque iria contra os princípios em que o álbum esta baseado. E eu tenho muito respeito por estes princípios para simplesmente usá-los como material que se vende. Mas basicamente, há coisas no álbum que tem a ver com a busca que a nossa natureza humana nos leva a fazer. Nós desejamos coisas que estão além do nosso alcance. E na busca por chegar lá, crescemos, mudamos, e nos abrimos – como pessoas. Mas nesse processo de crescimento, ás vezes é necessário desistir, ou mesmo experimentar um tipo de ‘morte’ – seja uma morte realmente física ou um tipo de morte que vem com o desistir, da qual você renasce.

Então, o álbum, liricamente, vai para um lado e outro entre uma mistura de insanidade até pensamentos que gradualmente chegam a uma clareza, e depois volta para a insanidade, e gradualmente vai para a clareza. Acontece a mesma coisa musicalmente, o álbum começa nessas profundezas obscuras e então vai ascendendo, subindo cada vez mais. Quando chega ao topo, cai, continua se elevando, chega a outro topo, cai novamente. O fim do álbum é mais alto no tom e na energia do que em qualquer outa parte. Eu tentei fazer o álbum passar a sensação de que ele se eleva. É por isso que a última música não tem bateria e baixo, porque isso contribui para a sensação de flutuar em relação ao resto do álbum. Eu só posso falar do conceito de maneira abstrata. Há coisas nas letras para alguém que esta num momento particular de seu caminho, e tenho certeza que essa pessoa será capaz de aproveitar algo disso, ou alguém com um certo tipo de experiência de vida que talvez tenha semelhanças com a minha experiência, de alguma forma. Mas eu não sinto as coisas dessa natureza – quando se trata dessas coisas ou da jornada interna de alguém – eu não sinto que isso é o tipo de coisa que alguém deve falar para outra pessoa, seja qual for a clareza que você tenha sobre sua própria experiência pessoal. Eu acho que nas letras eu fui o mais claro possível que poderia ser. Tudo fica distorcido em entrevistas, então o que eu disse é tudo que consigo dizer."

Que guitarras e amplificadores você usou nesse álbum?

"Basicamente os mesmo que uso com o Chili Peppers –Marshall Major, Marshall Jubilee, ‘62 Strat, ‘57 Strat. É a primeira vez que uso as mesmas coisas que uso com a banda no meu trabalho solo. Mas na verdade, esse equipamento tem mais a ver comigo do que qualquer outro que tenha usado, então eu conclui que deveria parar de jogar e usar o que eu sei. Eu também usei um amplificador Fender Bassman para a guitarra."

Que efeitos você usou?

"Aquele pedal Boss Turbo Distortion, Electro-Harmonix English Muffin. Boss Chorus Ensemble, pedal Ibanez Wah Wah – novamente, são as mesmas coisas que uso na banda. E acho que um Maestro Fuzz-Rite, mas usei um monte de coisa de sintetizador modular. Eu colocava as coisas em fitas, e depois as executava com o sintetizador modular, basicamente usando isso como uma unidade de efeitos. Então a maioria dos efeitos não vem de guitarras – os tons iniciais de guitarra foram feitos usando as coisas que já mencionei, mas os tratei extensivamente com o sintetizador modular. Também usei equipamentos muito legais para tratar as musicas: o EMT 250 Reverb, Plate Reverb, Eventide Primetime – reverbs antigos digitais – o EMT 250 foi um dos primeiros reverbs a ser fabricado, e ele se destaca no disco."

E cordas?

"D'Addario 0.010s."

Você segue alguma rotina específica?


"Eu estava em turnê durante a maior parte das gravações deste álbum, então eu praticava constantemente. Desde que eu era criança, minha forma central de praticar é aprendendo coisas de álbuns – eu faço isso desde que tinha 12 anos. Meu estilo é praticamente embasado no desenvolvimento de um vocabulário baseado na maneira como as diferentes combinações de notas e ritmos cruzam com diferentes notas (e como isso) me faz sentir. Eu aprendo coisas dos discos para tentar ganhar um entendimento melhor sobre o porquê a musica que estou escutando me faz sentir o que sinto.

Eu tenho uma coleção de discos enorme, eu posso ouvir e tocar junto com praticamente todos eles. Chega ao ponto em que se eu sei uma música, eu sei tocá-la. Na verdade não preciso aprender algo a não ser que seja realmente complicado, solos improvisados de 10 minutos. Ou se é algo cheio de fórmulas de compasso estranhas – esses são os tipos de coisas que não ficam na memória da mesma maneira que as coisas que tem muita repetição ficam. Mesmo quando adolescente, eu podia tocar todas as músicas de Frank Zappa. Mas nesse momento, meu gosto passou por tantas fases diferentes e seguiu diferentes direções – eu tenho um grande repertório de músicas que sei como tocar.

Eu amo estudar música, e eu amo como, ao aprender coisas de outras pessoas, você consegue ter uma ideia do que elas estavam pensando, ou porque elas escolheram as notas que escolheram, porque está de certa forma relacionada à parte do teclado ou do baixo. E amo ver o jeito como não penso na parte da guitarra como sendo uma entidade em si mesma, que acho que foi meu erro durante minha adolescência. Sempre que aprendo uma parte de guitarra, eu sempre penso na relação dessa parte com a parte do baixo ou com as outras partes entrelaçadas. Acho que ampliei meu jeito de ver a maneira de tocar guitarra em relação aos outros instrumentos, e não só aprender a parte da guitarra, e pensar, ‘é, está é a parte da guitarra’. Não é só a parte da guitarra ao menos que você entenda a relação dela com a bateria, o baixo, os vocais e o teclado.

Um exemplo simples poderia ser uma nota, mas é uma nota muito diferente se você está tocando E no nono traste da corda G se C# está no baixo, do que se D está no baixo. Eu achava que uma nota era uma nota, mas elas expressam sentimentos completamente diferentes e gostos completamente diferentes dependendo de onde elas estão no compasso.

Eu sei que parece básico, mas eu realmente estudei músicas complicadas na minha adolescência e ainda sim não pensava sobre isso – no quão significante uma nota pode ser se colocada no lugar certo, e se está no campo harmônico certo. Acho que provavelmente é uma concepção errada entre as pessoas mais novas."

Você tem mais algum conselho para outros guitarristas?


"Muita gente acredita que tocar bem guitarra é se basear em como a guitarra se destaca na música, e acho que não é uma maneira boa de julgar. Se você escutar um disco de Marvin Gaye, Funkadelic, John Lennon ou Peter Gabriel – onde a guitarra contribui mais para a estrutura toda – não é ‘menos’ guitarra do que Jimi Hendrix, onde a guitarra se sobressai na música. Não é menos musical, não é menos bonito, não é menos emocionante. Só porque algo se destaca não significa que é melhor. Há tantas coisas boas feitas com a guitarra mais simples, e acho que muitas vezes os guitarristas estão mais interessados em quem toca mais rápido, quem parece mais legal, quem se veste melhor, quem tem o maior cabelo, ou qualquer coisa assim. Às vezes, pessoas sem rosto – que você nem sabe o nome – fazem parte da criação de músicas muito bonitas, junto com outras pessoas, e é importante desenvolver um conhecimento abrangente dessa forma de tocar a guitarra tanto quanto tocar um solo. Quando eu era adolescente, aprendi muito rápido a fazer solos. Mas tem certas coisas sobre se mover entre os acordes, ou ser capaz de tocar melodias que são baseadas entre acordes, que eu não tinha claro na minha cabeça porque eu só me preocupava em tocar coisas que ninguém mais conseguia, ou algo que fosse muito difícil de tocar. Eu acho que na maior parte do tempo, pessoas que não tocam guitarra ouvem a música em termos do som, da emoção e do sentimento que ela traz – elas não estão preocupadas com quão bem a guitarra se destaca na música ou o que esta acontecendo no instrumento tocado. Pra mim não importa nem um pouco o que está acontecendo no instrumento. O que importa é o som resultante e o jeito como se equilibra com o ritmo, a melodia e os acordes que estão sendo tocados nos outros instrumentos. Acho importante que a guitarra não seja um instrumento usado para demonstrar que uma pessoa é melhor do que outra ou para mostrar que você pratica certa quantidade de tempo. É um instrumento para se expressar e um instrumento para tocar com outros seres humanos.

Também é um instrumento que pode ajudar você a ter mais clareza sobre as coisas que as pessoas do passado fizeram. Eu não acompanho o que os guitarristas estão fazendo hoje em dia, mas a sensação que me dá quando vou a uma loja de discos é que um tipo de doença mental ainda está correndo solta, no que diz respeito às pessoas falando que um cara é melhor do que o outro. Na verdade, ninguém é melhor que ninguém, para mim. As pessoas deveriam encarar a guitarra como mais uma ferramenta disponível para fazer música – uma entre muitas.

É bom focar em aprender todos os tipos de instrumentos, com todos os tipos diferentes de funções, e aplicá-los ao conhecimento da guitarra, e usá-los para expandir o conhecimento do seu instrumento. Não deveria importar se você está aprendendo as diferentes partes de corda de uma obra de Beethoven, um solo de Jimi Hendrix, ou o ritmo de uma música de John Lennon. São apenas linguagens e palavras diferentes.

Quando entrei no Chili Peppers, mesmo estando muito avançado na guitarra, eu não tinha desenvolvido um vocabulário das músicas mais simples que eu gostava. Então, quando me encontrava numa situação em que o objetivo era a habilidade de construir uma música com outras pessoas ao invés de se mostrar, eu não sabia o que fazer! Eu não tinha nada para acrescentar, porque a maioria das músicas simples que eu gostava, eu não tinha me importado em aprender a tocar por pensar que era muito fácil. É importante escutar uma variedade de músicas, e estudar a guitarra em situações variadas e não apenas quando a música se destaca na sua cabeça."

Qual é o status atual do Red Hot Chili Peppers?

"Hiato indefinido. Nenhum plano de fazer algo – nada mesmo."

Então você fará uma turnê do seu álbum solo?


"Nesse momento estou muito envolvido em fazer música para pensar em sair em turnê. Passei quatro anos e meio em turnê nos últimos 10 anos. Por um lado, eu adoraria fazer, é um jeito legal de se conectar com as pessoas. Mas no caso desse disco, eu não gostaria de aparecer num palco com um violão como eu costumava fazer. Eu ia querer ensaiar por uns dois meses junto com uma banda, e depois sair em turnê por mais uns dois meses. Quatro meses distante me parece inconcebível para o que ando fazendo aqui. Não vou dizer que não haverá nenhum show, mas nesse momento, não consigo imaginar. Gravar, escrever e tocar – é onde minha alma precisa estar então é isso que farei."


John conhece Johnny


O herói de John, Johnny Marr, toca no The Empyrean

“Isso foi muito divertido, ver ele trazendo novas ideias, porque eu estudei tanto como ele toca. Eu achava que seu estilo de ziguezaguear pelos acordes era baseado na compreensão técnica da harmonia, mas na verdade é baseado na sua intuição e alma. Ele toca na música Central e Enough Of Me. Só tivemos uma noite com ele. Eu toquei para ele algumas músicas incompletas e ele disse: quero tocar nessa, quero tocar naquela. Sem pensar muito sobre, ele simplesmente tocou a guitarra.”


Funkadelic


John explica a origem da abrasadora música de abertura do álbum, Before The Beginning

“Eu e alguns amigos saíamos nos finais de semana, e tivemos algumas noites já pela madrugada – tipo 5:00 da manhã – em que estávamos lá, deitados, ouvindo [Funkadelic's] Maggot Brain. Meu amigo nunca tinha escutado, e ele me fez colocar o CD para repetir, para ele poder ouvir várias vezes. Então eu acordei de uma noite como essa, e eu tinha acabado de gravar After The Ending, que parecia como um tipo diferente de final para o disco. Pensei que deveria fazer o mesmo para o começo...”


Tradução: Paula Buckvieser
Fonte: Guitarist - Março de 2009

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