25 de outubro de 2017

John Frusciante caminha por cima da ponte - 1995


Quando John Frusciante deixou o Red Hot Chili Peppers no meio da turnê mundial do Blood Sugar Sex Magic, o maior álbum até então, a maioria das pessoas achou que ele estava louco. Eles talvez estivessem certos, mas é da cabeça de lunáticos que algumas das maiores obras de arte nascem.

Após sair da banda no Japão, Frusciante retornou para sua casa em Los Angeles e se trancou sozinho longe do mundo, sem fazer absolutamente nada no período de um mês. Então ele pegou sua guitarra novamente e começou a gravar em um gravador de 4-faixas, trabalhando músicas que ele havia começado anos antes. Ele também ficou obsecado em pintar durante esse período, poderia passar literalmente semanas fazendo isso, dormindo todo santo dia em frente à tela.

As gravações completas desse período foram recentemente lançadas pela American Recordings como Niandra LaDes and Usually Just A T-Shirt. As 24 gravações caseiras desse álbum oferecem um vislumbre pessoal pela mente desse gênio perturbado.

Eu não sei muito sobre seu passado. Você já esteve em alguma banda antes do Chili Peppers?
Não, eu tinha apenas 18 anos quando entrei.

Por que você deixou o Chili Peppers?
Bem, era simplesmente impossível para mim ficar na banda por mais tempo. Chegou ao ponto onde, apesar deles precisarem de mim na banda, eu sentir que era forçado a sair.Não por nenhum membro ou empresário em particular, mas apenas a direção que estava tomando.

Você provavelmente não ficaria muito confortável fazendo algo como o Woodstock, então.
Exatamente, ou a turnê com os Stones.

Você continua convivendo com eles?
Com Flea. Meu ábum é dedicado à sua filha Clara. Ela tem 6 anos de idade e é a pessoa mais esperta que já conheci. Eu e ela temos um monte de colaborações em pinturas. Nós amamos fazer isso juntos.

O que você pode dizer sobre a gravação desse novo álbum?
Eu fiz em casa num gravador 4-faixas, que é um dos meus passatempos favoritos desde os 14 anos quando eu ganhei meu primeiro 4-track. Eu constumava colocar 2 gravadores um do lado do outro e fazer gravações de trás para frente entre eles.

Quando você estava gravando, pensava em lançá-lo, afinal?
Na verdade não. Isso seria totalmente contra todas as razões para gravá-lo. Foi gravado para ser uma coisa totalmente não-comercial, algo para ser separado de todas as táticas de composição da banda. Por causa disso, apesar da origem de toda a música ser um lugar de amor entre eu e Flea, e do ar, de um lugar desconhecido, sempre terminava no mesmo arranjo de verso-refrão-verso-refrão-solo-verso-solo ou qualquer coisa. E esse não é o jeito que o ar fala comigo, então não é o jeito que a música fala comigo também. Com essa música, nenhuma demorou mais que algumas horas para gravar, mas foi tudo gravado num período de 3 anos.

Ter isso pra consumo público te deixa nervoso?
Não. Eu não piro mais com esse tipo de coisa. Eu costumava. Para mim, qualquer música boa sendo lançada para os garotos hoje em dia é bom porque não há mais muito disso ao redor. E há uma vibração específica que eu substituí pela palavra "bom". Mas há uma vibração específica que essa música tem em comum com várias outras coisas, não só música, mas com todas as formas de arte, que as pessoas que estão fazendo música hoje simplesmente não tem. E esse álbum tem essa vibração e eu acho que é algo que realmente pode fazer a diferença para a vida de alguém nesse mundo. Pode fazer eles sentirem que tem um lugar no mundo, ou não tem nenhum lugar.

Porque é gravado em casa é mais puro que uma gravação de estúdio?
Bem, eu não tenho problemas com estúdios. Quer eu grave em casa ou num estúdio, eu gravo de uma só vez. Eu não volto e coloco "over dub" ou arrumo coisas, então não é muito diferente.

Tem alguns efeitos bem loucos no seu álbum, especialmente na canção "Running Away Into You". Como você fez isso num 4-track?
As únicas faixas que tem nessa são uma para guitarra e outra para o vocal. Os sons são só um eco nos vocais enquanto eu mexo nos botões de controle enquanto canto. Então eu simplesmente fiz isso enquanto cantava em um só take.

Por que você decidiu fazer um cover da canção "Big Takeover" do Bad Brains?
Era só uma coisa que eu andava pensando. Ás vezes eu caminho cantando músicas punks para mim mesmo, mas como se elas fossem músicas regulares, não músicas punks, sabe, diminuindo avelocidade e fazendo uma melodia em vez de só gritá-las. E então me veio a idéia de gravá-la como se fosse uma balada do Led Zeppelin, com mandolins e essas coisas.

Eu ouvi um rumor de que River Phoenix aparecia em algum lugar nesse disco, é verdade?
Ele estava no cassette antecipado. Talvez ele apareça numa futura impressão, mas não está na cópia que saiu agora.

Então há mais músicas de onde essas vieram?
Sim. Tem muito mais.

Vai lançá-las logo?
Bem, isso depende da gravadora. Mas primeiro nós temos que achar quem vai lançar o álbum do Three Amoebas. Os Three Amoebas são eu, Flea e Stephen Perkins, e nós gravamos um monte de músicas. Eu tenho que ver se como cara de uma gravadora se eu posso ir e masterizar. Então é só matéria de pegar as melhores e lançá-las

Mas não há planos ainda...
Bem, estão surgindo. Eu só não sei se vai ser com o Rick Rubin ou com a Warner Bros.

Oh, entendo. Você pode falar um pouco sobre o filme que você fez para o novo álbum com Johnny Depp e Gibby Haynes?
Bom, Gibby é meu amigo faz um tempo e trouxe Johnny Depp até aqui uma noite que eu ainda estava num período de intensa concentração na pintura e ele cometeu o erro de sentar perto de mim e me dizer que o frasco de tinta que eu tinha estava morto porque a superfície havia endurecido. Então quando ele disse "essa tinta está morta" eu agarrei um bocado de tinta e joguei nele. Mas mesmo que eu tenha ficado incomodado com ele, a coisa foi levado no bom humor. E mesmo ele estando na minha casa, ele ficou sentado do meu lado por meia hora antes que eu percebesse. E ninguém pode sentar perto de mim enquanto eu pinto, mas a vibração não estava ficando no meu caminho, então eu percebi que ele era uma pessoa bem legal. E nós três ficamos sentados a noite toda escutando a minha música e eles realmente gostaram. Eles meio que me forçaram a externaliza-la.

Mas eles ficaram assustados pelo jeito que a minha casa estava, tinha tinta por tudo, então eles quiseram filmar. Mas diferente de pessoas que tem idéias no meio de uma sessão noturna, eles vieram 3 dias depois com uma equipe e filmaram e editaram. Acabou ficando um pequeno filme legal.Mas eu e minha namorada íamos fazer por nossa conta para combinar com a música, algo para a MTv e para ser lançado em videotape.

Você tem trabalhado muito com artes visuais ultimamente?
Apenas desenhado ultimamente. Eu tenho escrito algumas idéias para filmes.

Então qual é o seu maior projeto no momento?
Montando algo com outros músicos e fazendo alguns shows.

Você vai fazer alguma turnê nacional?
Não, apenas tocando em lugares que eu gosto de tocar.

Vai tocar algo do novo álbum?
Provavelmente vou fazer o "método Frusciante" que é não tocar nada ao vivo que não tenha sido gravado. Eu tenho tanta música que eu nunca gravei que eu adoraria tocar.

Você tem alguma promessa de Ano novo?
Uh, eu nem sabia que era ano novo... então eu acho que não.



Tradução: Jonas Mayn
Fonte: Rockinfreakapotamus (RHCP fanclub zine) por Brian Bruxvoort. - 1995

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