12 de janeiro de 2018

A volta de John Frusciante aos Red Hot Chili Peppers


Anthony Kiedis descreve em sua autobiografia, Scar Tissue, como John Frusciante salvou o Red Hot Chili Peppers com sua volta para a banda.


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"A essa altura já estávamos em abril [de 1997]. Flea e eu decidimos que simplesmente não estava dando certo - teríamos que despedir Dave [Navarro]. A princípio, Flea falou com ele, mas Dave estava sentido de verdade, então tive que continuar a conversa. Foi horrível, porque ele estava completamente drogado e mesmo que soubesse que não havia meio de a banda funcionar, verbalizar essa realidade deixou-o puto da vida.

- Vão se foder! Vocês não podem fazer isso comigo, seus filhos-da-puta!

- Cara, não existe mais banda - eu disse. - Quando foi a última vez que você apareceu? Você está gravando um disco solo e está ocupado se drogando. Você não está mais envolvido. - Logicamente, Chad [Smith] se manteve impassível, pois gravava o álbum com Dave.




Enquanto isso, Flea enfrentava seu próprio inferno pessoal em questões de saúde, pois tinha mononucleose, além de problemas com a namorada e com a banda. Era como um general com batalhas em muitos fronts. Ele realmente estava mal e, ainda por cima, tentava fazer um álbum solo. Não foi surpresa quando ele decidiu sair.

- Acho que não dá mais - ele eme disse. Eu sabia que isso ia acontecer. Era tão óbvio; a banda não fazia mais nada.

- Eu já sabia - respondi. - Imaginei que você fosse dizer isso. Entendo completamente.

Então Flea soltou a bomba. - A única forma de continuar que consigo imaginar é se John [Frusciante] voltasse para banda.




Fiquei confuso. - Por que diabos John ia querer voltar para a banda e tocar conosco? - perguntei a Flea. - Ele não está nem aí para mim e nunca se preocupou de verdade com a experiência.

- Tenho um pressentimento de que ele pode estar esperando o momento de voltar à cena, uma ressurreição pessoal ao mundo dos vivos - Flea falou.

- Você deve estar louco. John não vai querer tocar na banda. Parece praticamente impossível, mas se não for, estou aberto à ideia.

A primeira vez que revi John foi alguns anos depois de ele deixar a banda. Eu havia escutado todas essas histórias da descida de John ao inferno das drogas e sabia que Johnny Depp e Gibby Haynes, o cantor dos Butthole Surfers, chegaram a fazer um filme documentando as condições desprezíveis em que ele vivia.




Também soube das entrevistas que ele dera exaltando o uso de heroína. Ele chegava a se injetar durante as entrevistas. Eu não tinha interesse em ver essas coisas ou assistir ao filme. Não ouvi seu trabalho solo. Eu não era capaz de celebrar seu estilo de vida porque parecia que ele estava se matando. Sua arte e as músicas que ele compunha eram ótimas, mas para mim não parecia correto tolerar a morte desta pessoa excêntrica. Esse cara foi meu melhor amigo. tanto faz se era um gênio ou um idiota, ele estava apodrecendo e isso não era agradável de ver.

Eu sabia que ele havia começado a pintar há alguns anos, inspirado por Basquiat e Da Vinci, então, quando soube que ele iria expor na Zero Gallery de Melrose, decidi aparecer na véspera do vernissage e dar uma olhada nos quadros. Fui até lá e, para minha surpresa, John estava ali pendurando os próprios quadros. Nós dois nos assustamos. Ele estava alto de coca, tinha o cabelo raspado, olheiras imensas e fumava cigarros Gauloise.

Em vez de dizermos "Vai tomar no cu, eu te odeio, você é um imbecil", ficamos felizes por nos vermos. Suas telas eram perturbadoras, porém belas. Foi estranho, acho que queríamos nos detestar mais do que éramos capazes.




Perguntei se poderia visitá-lo. Ele disse que sim. Então apareci e tentei convencê-lo a lavar os braços. Nosso relacionamento voltava a ser de amor e preocupação, completamente diferente do que todos imaginavam que pudessem ser, considerando nossos problemas do passado. Eu ainda não havia me dado conta do quanto minha forma de se relacionar com ele fora prejudicial antes de ele sair da banda. Nunca entendera que todo o sarcasmo, as piadas, as alfinetadas e brincadeiras de mau gosto realmente o magoavam e tiveram um impacto profundo nele.

Quando John saiu da banda, fiquei ressentido por ele não ser meu amigo e abandonar a nossa camaradagem musical. Mas durante todo o tempo que ele permaneceu fora do grupo, enfrentando suas angústias, rezei por ele constantemente. Nas reuniões de recuperação aprendi que um dos motivos pelos quais os alcoólatras bebem é por guardar ressentimentos Uma das técnicas que eles ensinam para se livrar do ressentimento é rezar para que a pessoa tenha tudo o que você deseja alcançar na sua vida, até que um belo dia você diz: " Não sinto nada ruim por ela".

Esse era um dos motivos pelos quais eu rezava por John. O outro é que eu não queria que ele morresse triste e miserável, então rezava por ele quase todos os dias.




Em janeiro de 1998, Bob Forrest convenceu John a ir a Los Encinos, o mesmo centro de tratamento que recebeu a W. C. Fields. Nessa época John já havia deixado a heroína, mas fumava crack e beia. Fui visitá-lo ali e ele parecia comprometido com sua casa, mas havia algo estranho. Nossas conversas eram raras e equisitas. De vez em quando falávamos sobre as músicas do Nirvana ou os desenhos de Da Vinci.

Eu estava aberto para a possibilidade de John retornar à banda, ainda que me parecesse remota. Depois de sair de Los Encinos no início de fevereiro, ele alugou um pequeno apartamento em Silver Lake. Um dia, em abril, Flea foi até lá e eles sentaram para escutar música. Então Flea lançou a pergunta: - O que você acha de voltar a tocar na banda?

John começou a balbuciar e disse: - Nada no mundo me deixaria mais feliz.




Os dois choraram e se abraçaram por algum tempo. Então Flea viajou ao Camboja, o que deu tempo para que John e eu fizéssemos definitivamente as pazes e conversássemos sobre os problemas que tivemos no passado.

Flea esperava um relatório de nossas extensas deliberações para chegar a um acordo, de toda nossa animosidade reprimida, mas nenhum de nós sentia isso. O problema principal era que John não tinha sequer uma guitarra. Então fomos a Guitar Center e comprei-lhe uma excelente Stratocaster 1962.

John estava entusiasmado com a ideia de voltar à banda, mas também se sentia assustado, porque fazia muito tempo que não tocava. Decidimos que seu retorno seria suave - a única coisa que importava era tocar. Não estávamos nem aí para fechar contratos para gravar, para o fato de que nosso produtor já havia se demitido ou de que a gravadora perdera o interesse por nós. Nada importava. Só queríamos entrar numa garagem e tocar rock juntos.




Flea morava em uma incrível superestrutura mediterrânea em Los Feliz, uma casa antiga famosa porque muitos músicos como Bob Dylan e Lou Reed moravam ali. Nós nos reunimos na garagem de Flea, que havia convertido parte do lugar em um espaço para ensaios. Flea tinha um ar que dizia: "Tudo bem, nada de expectativas. Vamos simplesmente tocar". John tinha um olhar de incerteza, mas plugou sua guitarra e começamos a tocar. E voltamos a ser nós mesmos. Talvez eu fosse o único que pensasse assim, mas a sala se encheu de música celestial, feita sem nenhum propósito a não ser o de ver como soava quando colocávamos nossos instrumentos para funcionar ao mesmo tempo.

Para mim, esse foi o momento definitivo do que seriam os próximos seis anos de nossas vidas. Foi quando eu soube que esse era o verdadeiro caminho, que a mágica estava prestes a acontecer novamente."
Scar Tissue - Anthony Kiedis, págs. 288-291




Transcrição: Raphael Romanelli Andrade de Oliveira

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