17 de janeiro de 2018

John Frusciante em outra dimensão (VPRO) - Abril de 1994


Entrevista dada por John Frusciante a Bram Van Splunteren da VPRO em 1994, num momento em que ele, em um período de dependência química, conta sobre sua incrível história de vida e sobre sua saida do Red Hot Chili Peppers.



Entrevistador: Como você está?
John
: Bem...Como em outra dimensão.


EO que?
J
: Como em outra dimensão...Dando uma entrevista.


EAh, sim. Com certeza (risos). Bem, a câmera já está rodando e nós gostaríamos de dizer "olá", e perguntar o que você está fazendo.
J: Bom.

EBeleza. Você tem escrito algumas músicas?
J: Desde que eu tinha nove anos. A primeira vez eu tava muito bravo com um garoto, foi na última vez que eu fiz algum esporte, baseball. E eu achava aquele garoto um grande idiota. E num campo afastado eu escrevi como ele tinha que morrer. Fui para casa e enchi 45 minutos de música na fita. E desde então, eu tenho escrito músicas, especialmente nos últimos tempos. E gasto um caderno em duas semanas. E eu escrevo tudo: roteiros de filmes, idéias...Só o que está se passando pela minha cabeça: Matemáticas, todas essas coisas.

EVocê lembra o que a sua primeira música fala sobre aquele cara?
J: Não. Só sei que o nome era Fuck You To José.

EMas você não era capaz de tocar né?
J: Todas as minhas músicas eram tocadas assim: (Faz acorde com um dedo). Mas eu mudei e ficou assim: (Faz pestana). Mas eu não tinha idéia de que porra eu estava fazendo.
Mas eu comprei um single, de uns caras que pulavam do palco no público dando cambalhota no ar. Havia 5 músicas, era a banda de punk rock de LA, Mad Society, que tinha o vocal de 9 anos. Mas single nunca importa. Essas músicas estão voando no universo.

E: Você gostava de tocar mais o que você escrevia?
J: Claro. Eu ia a shows...E escrevo mais músicas desde que eu tinha 14 anos até agora. Você quer que eu toque uma delas?

EBeleza.

(John toca a música)

EManeira.
J: Obrigado.

E: Então, você se importa de dizer como foi o momento que você deixou os Chili Peppers?
J: Não.

E: Por que você deixou a banda?
J: Porque...Houve muitos motivos. Antes de tudo, eles já sabiam que eu ia sair desde um ano antes. Na primeira turnê americana, eu estava andando num parque com Flea depois de uns 2 meses viajando. Me senti mal e eu chamei minha namorada, mas as regras da banda era de não levar nossas namoradas nas turnês porquê a gente ficava mais com elas do que com a banda. Eu ficava feliz quando subia no palco e olhava pra Flea, para Chad, ou olhava para os meus amplificadores, ou ouvia o som que eu estava tocando. Mas também ficava triste. Então eu falei com Flea de sair depois daquela turnê. Quando estávamos no parque, ele disse: "Mas o que você gosta na banda?". Eu disse: "Não, nada. Não tem nada que eu goste na banda.” Ele disse: "Nada?", e eu disse: "Nada, exceto o fato de tocar com você, porque eu amo você. Esse é o único motivo de eu estar na banda, porque eu adoro tocar com você." Foi quando ele disse: "Cara, se você não está feliz, não deve continuar na banda."
Mas ele disse aquilo e eu esqueci, sabe? E um ano depois, eu realmente saí. E eles ficaram surpresos quando eu saí, mas eles já sabiam que eu ia sair, sabe?
Mas era como se fôssemos casados. Se alguém quisesse sair, aquilo ficava na sua cabeça o tempo todo. Eu achei divertido Flea estar tranquilo sobre aquilo.
E...Já tá bom? Ou quer que eu diga mais?

E: Você acha que é o suficiente?
J: Você tem mais perguntas? Eu posso falar coisas legais, xingar as pessoas, mas...(risos)

E: Não, a menos que você queira. (risos)
J: Não, acho que é o suficiente.

E: Mas você não é popular?
J: Não, essa é a primeira vez que falo com a imprensa depois desse tempo todo.

J: Quando eu entrei na banda, eu não podia imaginar que com o passar do tempo ela seria outra coisa, mundial, sabe? Eu os via como grandes estrelas, eles estavam num mar que eu nunca tinha entrado antes. Eles eram tão grandes como o Aerosmith, ou algo assim. Aquilo foi um choque. Mas eu não fiquei triste. Eu fiquei feliz. Eu não esperava que fôssemos mais populares do que já éramos.
Mas o verdadeiro choque foi quando eu vi que o nosso álbum, as músicas que eu e Flea criamos por alguns meses estavam nas lojas e que as pessoas já podiam comprar. Que iriam ouvir as músicas que nós fizemos. Aquilo nunca tinha chegado até mim, falando sério. Aquilo realmente nunca tinha se passado pela minha cabeça...Que as pessoas do mundo todo iriam comprar o disco.
Primeiro eu pensei: “O país todo”.Depois eu pensei: “Jesus, no mundo todo!”. Eu falei isso para Flea de cinco maneiras diferentes e ele disse: “Yeah! Yeah!”.
E eu falei: “Ooh...”

J: Ele me ajudou a me localizar na dimensão da música. Era energia, e não o fato de tocar música para as pessoas...Palavras ou coisas para divertir as pessoas.

J: Eu sempre os ouvia falando em gravar um disco, sabe?

E: Você deve ter tocado muito espiritualmente.
J
: Sim, era uma coisa divertida. Eu ouvia fantasmas no local enquanto estávamos gravando e quando as pessoas iam ouvir o disco comigo eu falava: “Aí, você ouviu os fantasmas? Ouve!” E Flea dizia: “John, ninguém aqui está ouvindo. Só nós.”


E: Eu me lembro de ver você em Amsterdan. Você estava realmente feliz.
J
: Eu não estava totalmente feliz, cara.


E: Não?
J
: Não. Não totalmente.


E: Por que não?
J
: Porque eu não queria falar com a imprensa. Eu queria ir embora no meio da turnê, mas Flea disse que eu tinha que ficar. Porque, normalmente, ele teria falado com o Anthony, mas eu tive que falar com o Anthony. Eu tava, sei lá, perdendo minha cabeça.

Eu acho que se você falar dessas coisas, você acaba pegando uma diarréia delas, sabe? Você só estraga o que você está falando. E acho que essa diarréia expele toda essa arte que é realmente importante para mim. E eu estava sendo mais um rockstar.
E Anthony não podia mais se sentir animado, porque eu estava muito sério, estava muito irritado com aquelas coisas de imprensa e de rockstar. Então ele não conseguir ser ele mesmo, aquele jeito “porra-louca”. Era uma péssima combinação. Ele estava muito assustado para falar alguma coisa, como ele sempre fez. Era horrível.

E: Ele deve ter tentado compensar essa...
J
: Não, ele estava me imitando. Ele me imitava, porque se eu falasse sobre Van Gogh, ele dizia: “Põe seu pau pra fora e mostra pra minha mãe.” Essas coisas não dão certo.


J: Se você é um músico, você se torna uma pessoa legal, você se torna um bom “nada”. Você começa a entender muito bem o que é ser um zero...Ou você é um zero mau, um pedaço de merda. E se você é um rockstar, não tem nada a ver com ninguém. É mais um.

E: Como foi quando você ouviu que Kurt Cobain tinha morrido? (Death)
J
: Pai? (Dad)


E: Morte (Death)
J
: Ah ta. Bom, eu chorei não sei porque. Eu não gosto da música dele ou algo assim. Foi horrível, sabe? Sobre a filha dele, eu...Eu não quero falar sobre isso. Eu não acho que ele tinha motivos. Eu não entendo por que ele não quis ver a sua filha crescer, sabe? Não sei como ele não ficou animado com isso para só pensar em si próprio. Eu já disse pra você: As pessoas pensam em si próprias demais, sabe? Acho que se preocupam demais com as suas famas. Elas apenas pensam em si mesmas. Não importa quem você é, se é um rockstar, se é um zelador, se pensa em si mesmo o tempo todo, você vai se dar mal. Assim você se tornar um zero.

Com um bebê você pode ser feliz. O pai e a mãe podem se amar. Você pode contar piadas pra quem você ama. Você pode ensinar que todo mundo é idiota, sabe? Muita gente sabe o quão intenso é isso, o quão lindo é isso.
O meu álbum todo é dedicado a Clara. E eu continuo com isso.

E: Filha de Flea?
J
: É. Ela é a pessoa mais esperta que eu conheci. Sério.


Flea: Ela gosta de beijar o Ernie. É o primeiro namorado dela. Foi presente de aniversário do John.

E: Além de Kurt Cobain...Nós vimos a morte de River Phoenix, Hillel Slovak antes...Há uma coisa autodestrutiva nas pessoas desse ramo.
J
: Todo mundo morre. Eu não acho que eu corro risco. O caso de River foi algo que acho que foi melhor por ele estar fazendo algo que não gostava. Seu nascimento foi pior que sua morte. Porque ele não gostava dessa vida, desse lugar e agora ele tá em um lugar melhor. Eu não acho que a morte seja ruim. Eu não me importo se eu morrer agora. Mas eu não sou autodestrutivo, eu amo a vida.

O que separa os meninos dos homens... É quando você vê quem olha interiormente e quem não olha. Alguns se tornam bons músicos, outros não. Porque uns podem separar o futuro do passado. E um está aqui agora. Animado. E calmo... E triste, mas foda-se.
Algumas pessoas dizem: “Ah, ele vai morrer”.

Narrador: O ator River Phoenix, astro de Stand By Me, Running On Empty e My Own Private Idaho era amigo dos Chili Peppers e de John Frusciante.

River Phoenix
: Eu moro no subúrbio desse país. No sentido de amor e estilo de vida. Isso não tem nada a ver com trabalho ou consumo. Só o que você necessita. Minimalista. É por isso que eu tenho uma visão diferente.


Entrevistador: Foi rápido.
R
: O problema é que eu acredito muito nos índios americanos, que viveram nesta terra antes de nós. Eles acreditam que uma foto pode pegar a sua alma. Eu tenho medo de morrer.


E: Tem medo da câmera?
R
: É muito assustadora. Porque quando eu to gravando um filme, eu nunca olho pra câmera.


E: Isso é engraçado.
R
: Eu to com medo, mas eu consigo aguentar. Mas eu to com medo. Mas eu consigo ficar na Holanda...Pílulas, cerveja, chopps.

Os negócios sempre vão te pagar pelo seu melhor. E agora eu faço o meu melhor do jeito que eu quero. Se eu ficar conhecido no festival de Veneza ou Tijuana ou França ou Holanda, ou algo assim, os críticos vão começar a as pessoas vão acreditar e você pode pegar carona nisso. Eu também sou alavancado pelas empresas de cinema dos EUA. Isso é legal.

E: É?
R
: É. Eu fico pronto para sua porra de câmera.


Entrevistador: Nos diga alguma coisa sobre essa autodestruição. Eu fiquei um tempo conversando com Bob Forrest depois de um show na Holanda, e ele já passou por toda a fama, celebridade e sobreviveu. Ele era louco...
J
: É, eu sei bem. Ele que arrumava minhas roupas.


E: Ele arrumava suas roupas?
J
: Na turnê.


(Thelonious Monster)

Bob Forrest: Eu tambem vou morrer em breve.

Entrevistador: Sério?
B
: Sim.


E: Você dizia: “Quem tem medo da morte?” Você não?
B
: Não. Não realmente.


E: Você disse tambem que as pessoas deveriam dar o dinheiro delas.
B
: É, eu sei lá, elas pagam muitos impostos e não podem fazer nada.

Vamos ser verdadeiros rockeiros agora. Como Paul McCartney. Eu prefiro morrer a ser Paul McCartney. Ou Phil Collins. Então, eu estou apenas...Soa como algo ridículo, como tentar ser Jim Morrison. Tá bom eu vou te dizer.
Quando eu era criança, eu li um livro, Ladies And Gentleman, Lenny Bruce. Com 13 anos de idade ele usou heroína. Isso era o que eu queria, porque ele era meu ídolo. E aí eu descobri Keith Richards, Gram Parsons, toda essa cultura da América com 12 anos. Eu devorei tudo. Eu não tinha pais ou ninguém para perguntar as coisas. Então Lenny Bruce, Gram Parsons e Keith Richards se tornaram meus heróis. Eu queria viver assim. Não era porque eu queria beber ou me drogar...Era porque era o jeito de eu ficar de pé, sabe? O jeito de eu formar minhas idéias.
Uau, onde isto está indo? (risos)

E: Você só está confessando.
John
: Beleza, agora eu vou falar um pouco com a alma: Eu sou um drogado e eu adoro injetar. Eu sou muito autodestrutivo, sabe? É o bastante? (risos)


E: Não sei. É verdade?
J
: É.


E: Aquilo é o Black Book do David Bowie? Você lê?
J
: Sim, eu vejo todas as imagens. Eu sempre gosto de ver as fotos do Bowie.

Quando eu tinha 17 anos eu comprava cocaína todos os dias, mas eu era muito pobre e nem sempre tinha dinheiro. Então nos dias que eu não tinha dinheiro pra comprar drogas, eu tava sempre lendo a biografia do Bowie. Então eu via no índice escrito “cocaína” e então eu lia. Era como se eu tivesse cheirado.
Mas é, eu fico vendo as imagens. Ele com Iggy Pop. Essa é engraçada.

E: Por que você cheira cocaína?
J
: Porque é ótimo. Porque me faz me sentir ótimo. Eu começo a ficar frio.

Bowie fez o seu melhor trabalho quando ele tinha cheirado. E por causa desse sentimento e essa imagem do rock ‘n’ roll. Bisexualidade e drogas eram as duas coisas que eu associava ao rock. Essa era a imagem que eu tinha do rock até uns 9 ou 10 anos, quando eu conheci o punk rock. Esse era o mundo todo que eu sentia em mim. Na minha escola não existia rock ‘n’ roll. Só em mim. Isso era parte do meu dia-a-dia e me dava razão para viver. Fazia-me sentir que eu tinha um lugar e que as pessoas passavam pela mesma coisa que eu passei.
Até os 17 anos eu nunca tinha usado drogas. Eu fui pra Hollywood e ficava treinando guitarra 15 horas por dia, o que fiz por 5 anos. Eu queria viver e cheirar cocaína todo dia. Comprava de uns caras mexicanos arrumados e de calças rosas. E eu ficava falando “Ah, esses caras mexicanos são legais!” Eram totalmente estranhos pra mim.

E: Você nunca se perguntou sobre essas drogas...Por que pessoas como você, como outras, como muitas outras, hoje em dia tem que se drogar e mudar?
J
: A cada segundo você muda. Todas as coisas mudam você. Tudo que você come muda você.


E: Sim, mas eu digo de forma extrema.
J
: Eu não acho. Uma mãe gritando com você é uma coisa extrema. Se uma pessoa te da um chute, ela tá provando sua masculinidade. Isso te muda.


E: Isso é sobre seus pais?
J
: Não. Não necessariamente. Digo todos os pais. Eles cometem erros. Não se pode cuidar do desenvolvimento da sexualidade dos filhos, a maneira de pensar, a forma de memorizar as coisas na escola. Eu descobri o quão inteligente é isso para viajar, sabe? Você usa a maior parte do seu cérebro na parte subconsciente. Todas as coisas intensas que você tem que fazer nesta vida e nas outras vidas estão em jogo. Aprender com sua cabeça não é inteligente, um macaco tambem pode. E as drogas ajudam nisso.

A primeira vez que eu realmente viajei numa música foi ouvindo Kiss. Eu fui para um mundo mágico. E as drogas foram juntas. Eu não vejo como uma coisa pesada que te altera. Se você cheirar uma linha de cocaína, você não vai dizer: “Ah meu Deus, eu estou horrível, eu fiz uma coisa que eu não devia fazer. Você está bem?” Comigo é muito bom.

E: Beleza. Agora você usou heroína. O que você diz? É bastante pesado.
J
: As pessoas falam. Não sei o que significa. Não a vejo como algo ruim.


E: O que significa pra você?
J
: Eu ficar em contato com a pureza e não deixar minha alma ser suja pela feiúra do mundo.


E: Será que você não está destruindo seu corpo?
J
: Eu não estou destruindo meu corpo. Eu me sinto ótimo. Eu mudei meu jeito de viver. Eu comecei a correr e coisas assim. Eu estou ótimo. Eu tenho energia toda hora. Eu toco música toda hora...Descobrindo meu cérebro. Aumentou o meu interesse por todo tipo de arte e eu sou uma pessoa melhor. Estou me tornando uma pessoa melhor.


E: Você não quer parar?
J
: Não. Mesmo que o vício não existisse, eu teria que fazer do jeito que eu estou fazendo.


Narrador: John lançou neste ano seu primeiro álbum solo.

John
: Eu fiz o meu álbum porque existem poucas músicas boas por aí. Não adianta meus amigos me convencerem, não existe música boa hoje em dia. Os jovens encontram música boa hoje em dia, mas eles aceitam algo que não tem a mesma vibração como Da Vinci. Boa música, como Jane's Addiction ou Jimi Hendrix, coisas desse calibre... Possuem o mesmo efeito de Da Vinci na minha cabeça. Há uma coisa em comum com todos esses artistas de todos os tempos. E nenhuma banda de hoje realmente tem isso. E essa música tem, ouça.


Narrador: Foi feito um filme sobre a vida de John chamado Stuff. É o que você vai ver agora.

John
: Este é o filme sobre a casa que eu morava antes. Tudo que aparece no vídeo foi queimado. O filme foi feito por Gibby Haynes de Butthole Surfers, e Johhny Depp, um ator jovem muito bom. E parte das filmagens foi feita por John Frusciante e Timothy Leary. E ele se chama Stuff. Aí está ele.





Fonte: VPRO - Abril de 1994

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