24 de fevereiro de 2018

O episódio do Saturday Night Live por Anthony Kiedis



Em 22 de fevereiro de 1992, o Red Hot Chili Peppers participou do programa americano ultra-famoso Saturday Night Live para divulgar seu novo disco Blood Sugar Sex Magik, do ano anterior. O que era para ser apenas mais uma apresentação na televisão acabou se tornando uma das mais clássicas performances da história da banda. E tudo por causa de uma pessoa: John Frusciante.




Os Peppers tocariam duas músicas: "Stone Cold Bush" e "Under the Bridge". Em ambas, aconteceram problemas: na primeira, Anthony rola no chão e acerta um chute aparentemente sem motivo em John e na segunda John inventa uma introdução deixando Anthony totalmente perdido, além de não cantar sua parte vocal da música, apenas dando berros no lugar. John Frusciante já estava saturado de tudo que envolvia a rotina da banda e tocava sem nenhum cuidado, além de estar constantemente drogado. Ele sairia do RHCP em dois meses, mas antes de sair, deixou duas performances marcadas em sua carreira e na carreira da banda.




Anthony Kiedis dá grande ênfase a esse momento em sua autobiografia Scar Tissue. Confira abaixo o que o vocalista relata sobre esse dia, após deixar claro que sua relação com John estava completamente insuportável:

"Interrompemos nossa turnê européia para voar para New York no fim de fevereiro para participarmos do programa Saturday Night Live, o que foi um desastre do começo ao fim. Nem cinco minutos que estávamos lá e John já estava brigando com o staff. O supervisor musical, um cara que estava lá há anos, deu um leve esporro em John. John deu as costas e disse para Louie “Se esse cara falar mais uma palavra pra mim, eu não faço essa porra de show”. Eu já estava apreensivo porque íriamos tocar “Under the Bridge” como segunda música, e era sempre um desafio para eu cantar. Eu era totalmente dependente de John na música por causa da deixa, e quando fizemos o ensaio de camarim, ele estava tocando uma coisa diferente, fora do tom, num tempo diferente, basicamente reinventando a música apenas para si mesmo e mais ninguém. Eu fiquei desorientado. Falamos com ele para esquecer aquilo ainda no camarim, mas não tinha conversa com ele. Ele encontrou Toni e foi para outra sala.




Mas ele ficou no camarim tempo bastante para se sentir puto quando Madonna apareceu para nos visitar. Ela estaria em um dos quadros naquela noite, então apareceu para dizer olá. Eu já a conhecia por anos e anos, desde o seu clipe de “Holiday”, quando ela me queria para participar se eu aceitasse mudar meu corte de cabelo (o que eu não aceitei). Por todo o tempo que ela ficou lá, sem perceber, ela ignorou John e ele ficou louco, irado por ela não ter dado a ele nenhum amor e nenhuma atenção.

O programa começou e tocamos nossa primeira música, “Stone Cold Bush”, um rock rápido. Foi tudo bem. Então quando voltamos para tocar “Under the Bridge”, eu ouvi alguém dizer que John tinha usado heroína durante o programa, mas ele deveria estar em outro planeta, porque começou a tocar uma merda que eu nunca tinha ouvido antes. Eu não tinha nem idéia de que música ele estava tocando ou em que tom ele estava. Ele parecia estar num mundo diferente. Até hoje, John nega que estava tocando fora do tom. De acordo com ele, ele estava experimentando o jeito que faria se estivéssemos ensaiando a música. Bem, não estávamos. Estávamos na TV ao vivo na frente de milhões de pessoas e aquilo foi uma tortura. Comecei a cantar no tom que eu achava que era o certo, mesmo que ele estivesse tocando em outro. Senti que estava sendo esfaqueado pelas costas, me matando na frente de toda a América enquanto aquele cara estava num canto, no meio da sombra, tocando um experimento dissonante fora do tom. Achei que ele estava fazendo aquilo de propósito, só para foder comigo.




Tocamos a música e soou como quatros caras diferentes tocando quatro músicas diferentes. Nessa época eu estava saindo com Sofia Coppola, mais uma das minhas intermináveis tentativas de relacionamento naquele período da minha vida. Ela era de longe a garota mais legal com quem eu tinha saído, especialmente no período pós-Carmen, e disse a ela para não perder a apresentação. Chegou a hora e eu estava lá naquela porra morrendo. Quando uma coisa assim acontece, é como se um cara perdesse um pênalti no fim do jogo: a única chance dessa dor ir embora é o cara jogar outro jogo e ter outra chance de acertar um pênalti.

Essa dor continuou por um bom tempo, pois voltamos para a Europa e o comportamento de John ficava cada vez mais errático. Quando era hora de seus solos, ele tirava o cabo da guitarra e fazia um barulho escroto, aí plugava de volta e, se ele se sentisse bem, tocava o refrão. O fato irônico sobre o Saturday Night Live foi que, uma semana depois da nossa apresentação, nosso disco estourou. Talvez fosse coincidência, mas talvez as pessoas ouviram algo naquela performance caótica que os tocou."


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