18 de julho de 2016

Universalmente falando - Junho de 2003


UNIVERSALLY SPEAKING

A Guitarist vai aos bastidores para encontrar o Chili Pepper John Frusciante, responsável pelo melhor álbum de guitarra deste ano. Venha conosco descobrir: por que ele ainda não consegue ouvir seu disco; como ele reconstruiu seu arsenal de guitarras, logo após sua antiga coleção ser destruída pelo incêndio em sua residência; como ele aproxima a teoria de acordes e como solar; e por que nós o ouviremos muito nos próximos meses.

Além do mais, Ben Bartlett conversa com Dave Lee, técnico de guitarra de John, para saber como é a técnica de seu trabalho. Aprecie sem moderação com a tradução majestosa de Osmar D. M. da Silva, que se disponibilizou a colaborar com o acervo da John Frusciante effects junto ao Universo Frusciante.


“Pra ser sincero, eu demorei muito tempo para
perceber que By The Way estava finalizado”

"STANDING IN LINE TO SEE THE SHOW TONIGHT, AND THERE'S A LIGHT ON HEAVY GLOW" BY THE WAY

São 20 horas da noite, e estamos, em pé, na fila, com os olhos vidrado no único caixa eletrônico da Manchester Evening News Arena. A fila cresce, quase até alcançar toda a área do lobby da arena, contendo os mais diversos tipos de pessoas, perguntando-se se algum dia entrarão ali, quem sabe no Bar.

Esta noite, o lugar está fulgurante pelos amantes de música. Jovens punks com suas correntes barulhentas. Velhos rockeiros com seu couro surrado. Esbeltos New-Wavers com jeans preto como segunda pele. Adolescentes de olhos brilhantes ficando bêbados como numa festa da escola. Executivos de trinta e poucos anos, descolados e na moda. Alto, baixo, negro, branco, loiro, vermelho, fervoroso e tranquilo, todos estão aqui. Isto porque a maior banda de rock do mundo está na cidade e, basicamente, todo lugar é aqui.

Neste momento, o apelo universal pelos Red Hot Chili Peppers é espantoso. Para uma banda que, uma vez famosa, passou a vestir nada mais do que uma meia em seus pênis, tendo sido marginalizada como jagunços sexistas de rap-metal, a sua transformação em campeões de vendas, namoros com modelos famosíssimas, e melhores do mundo, parece inacreditável. Entretanto, basta olhar um pouco a montanha-russa que a carreira dos Red Hot Chili Peppers atravessou nesses 20 anos e logo fica evidente que há um, ou melhor, quem é o responsável por estes altos e baixos.

Quando John Frusciante entrou para a banda, em 1988, eles já estavam em atividade há cinco anos, haviam gravado três álbuns medíocres e mostrando pouca perspectiva de melhora. Evidentemente, Flea tinha um talento incrível e Anthony Kiedis era um líder memorável. Contudo, a inspiração musical, e o foco na melodia, eram mais medíocres ainda.

Entretanto, os efeitos do ingresso de John eram continuamente percebidos, sendo o quarto álbum, Mother’s Milk, acompanhado das primeiras faixas “transmissíveis” na MTV, como "Higher Ground" (de Steve Wonder) e "Knock me Down", levando a banda a um contrato de alto nível com a Warner Bros. Devido a isto, o álbum seguinte, Blood Sugar Sex Magik, de 1991, vendeu milhões de cópias mundo a fora e, no espaço de três anos, Frusciante tornou os Chili Peppers as legítimas estrelas do Rock.

Em 1992, quando a tensão entre ele e Kiedis chegou a um nível insustentável, Frusciante deixou a banda. Sua vida tomou um rumo espiral de descenso pelo isolamento, introspecção e dependência em drogas. Similar a este descenso foi a carreira dos Chili Peppers. Demoraram dois anos, e quatro guitarristas diferentes, até definirem um substituto: Dave Navarro, ex-guitarrista do Jane’s Addiction. Entretanto, o álbum One Hot Minute, de 1995, era uma tosca imitação de seus sucessos anteriores. As coisas nunca foram ruins com Navarro, e sua saída, dois anos depois, pegou a todos de surpresa. Os Chili Peppers haviam chegado ao fundo do poço.

Em 1996, a heroína controlava a vida de John. Sua casa se incendiou, seus dentes apodreceram, seu corpo ficou todo marcado e sua mente era controlada por fantasmas e demônios. A morte bateu à porta. Somente um período numa clínica de reabilitação o salvou da morte certa, e ele saiu “limpo” das drogas em 1997, justamente para ser, de imediato, cortejado por seus ex-colegas de banda, que novamente precisavam de um salvador para resgatá-los das profundezas. John devidamente agradeceu o convite e, bingo, aqui estamos cinco anos e dois álbuns depois com o Chili Peppers de volta ao topo do mundo.

Cai a tarde e estamos nos bastidores, ainda aguardando a chegada de John. Composto de longos corredores brancos, piso rebocado com fitas adesivas luminosas, está o caminho até o palco, demonstrando que a área é sem glamour. Não há tietes esperando, não há bandejas cheias de drogas sendo, generosamente, distribuídas, nem mesmo sinal de modelos famosíssimas. Agora, os Chili Peppers são absolutamente profissionais, livres das drogas, deixando isto evidente.

O baixo Modulus de Flea que é usado no aquecimento é o mesmo
que ele usa no palco, enquanto que John prefere se aquecer com a Jaguar
antes de usar suas Stratos e Teles ao vivo no palco.
Dito isto, não é difícil encontrar seu camarim dentro das áreas em que estão os bastidores de descanso. Primeiro, pelo cheiro. Um inebriante aroma de incenso emana do interior, contrastando com o odor de maconha, típica de camarins da maioria das estrelas de rock. E então, há a iluminação. Uma névoa composta por vermelho e verde forma o ambiente, atmosférico, suave, e relaxante – justamente o contrário do flash gritante de luzes de neon que domina os outros lugares – sendo perfeito para rituais de meditação e alongamentos, que são partes importantes das rotinas de pré-show da banda.

E, para finalizar, unidos do lado de dentro, há o último ajuste, com o aquecimento instrumental de John e Flea, em dois belos trabalhos de luthieria: um contrabaixo Modulus personalizado, e uma Fender Jaguar alaranjada.


"THIS IS THE WAY I WANTED IT TO BE" DOSED

Ao passar por nós, Anthony Kiedis se atenta, olha em nossa direção e se encaminha com hospitalidade. Causando surpresa com sua baixa estatura (algo em torno de 1,70m), ele aparenta ainda ser uma estrela, com seu bronzeado saudável de Los Angeles, nem aparentando ter completado, recentemente, 40 anos de idade. Membros de apoio da banda The Mars Volta se dirigiam em sentido oposto, trajando seus belos e colantes couros pretos. Enfim, com uma hora de atraso, John Frusciante aparece.

Um pouco maior que Anthony, ainda assim mais baixo do que se espera, John nos cumprimenta calorosamente. Fomos avisados de que ele não gosta de ser fotografado. Então, para amenizar o processo, permitimos que ele pegue sua Jaguar, conecte-a a um pequeno amplificador Electro-Harmonix e inicie seu aquecimento mais cedo. Embora, ainda em tempo, assim que ele começa a deslizar pelo braço da guitarra, é possível notar a tensão desaparecendo. Devido a isto, no momento em que nos sentamos para iniciar a entrevista, ele demonstra estar relaxado e pronto para as perguntas.

Obviamente, começamos a falar sobre o enorme sucesso de By The Way, o Álbum de Guitarrista do Ano no ano passado. As linhas principais ultra melódicas e as harmonias vocais luxuriosas de John Frusciante comanda o disco e, considerando que John fez a segunda voz de todas as faixas, ele deve ter treinado muito sua voz.

“Sim, eu tenho um professor (de canto) e isto me ajudou a deixa-la (a voz) muito mais consistente”, ele começa dizendo, respondendo de forma até atrapalhada, muitas vezes deixando pausas aleatórias (e confusas) entre as palavras como se ele estivesse dando, a cada trecho, pensamento enfático.

“Fiz muita vozes no álbum dos Chili Peppers, mas em meu disco solo, acho que elevei meu canto a um patamar muito maior. No álbum dos Chili Peppers, apesar de cantar muito, pra mim, pareço muito comedido, por ter que me ‘enquadrar’ em um determinado plano. Além do mais, eu dupliquei as vozes, por isto não há muita personalidade nisto. Em meu disco não duplico nada. Há harmonias, mas somente duas ou três por vez. Portanto, eu ouço, de fato, a personalidade nas vozes que estão cantando”.

"O Livro Willie Wonka And
The Chocolate Factory traz acordes incríveis"
O disco ao qual John se refere, e que ele se mostra muito interessado em falar, é seu quarto disco solo, que deve ser lançado no ano que vem (2004). Com uma colaboração do talentoso músico Josh Klinghoffer (embora o disco seja lançado com o nome de John Frusciante), o disco contém músicas de John datadas da época de seu último disco solo, até as gravações de By The Way, além de contar com participações notáveis.

John continuou tocando sua Jaguar
Fiesta Red por toda nossa sessão de fotos.

“As músicas mais antigas do disco foram escritas no momento em que eu escrevia as últimas músicas para meu último disco solo,” – explica John – “mas elas, obviamente, precisavam de bateria de verdade, e não elétrica, como as que eu utilizei naquela oportunidade. Mas, para este disco (a ser lançado), Chad (Smith, baterista dos Chili Peppers) tocou a bateria. Josh e eu compusemos as partes de bateria e Chad apenas aplicou seu estilo nelas, como um legítimo baterista, e fez um ótimo trabalho. Flea tocou o baixo em uma música. É sua primeira atuação em um disco meu, e ele fez um trabalho e tanto. Além deles, Omar (Rodriguez-López), do The Mars Volta, tocou slide-guitar em duas músicas”.


Assim como os outros discos solos de John, estes novos discos são mais experimentais do que seu trabalho com os Chili Peppers. Desta vez, vem à tona a atual paixão de John por música eletrônica e sintetização modular. “Há muita música eletrônica experimental neste disco” – afirma John – “porém, acompanhada de boas músicas. Os sintetizadores são muito utilizados de forma sutil – as música são compostas, basicamente, por violão, bateria e baixo, com o complemento de Mellotron, ou sintetizadores e sons eletrônicos aqui e ali. A forma como (o disco) foi gravado tem muito mais vida do que qualquer coisa que já fiz. Toda a gravação foi feita seguindo uma estética. Os microfones que utilizamos são antigos, e boa parte da bateria foi gravada em uma fita 8-Track (Stereo 8), para então ser passada para 24 canais. Todos os esforços foram concentrados para criar sons agradáveis, para que tivessem a mesma vibe e a mesma simpatia que as músicas dos anos 60 e 70. Este é o sentimento que tentamos embutir no disco”.


Na verdade, sua atuação prática em seu trabalho solo, bem como sua crescente confiança em mixagem e engenharia musical, levaram-no a questionar o produtor Rick Rubin sobre o tratamento que este deu ao álbum By The Way – considerando que, neste momento, Rick Rubin acha difícil pensar em um novo álbum para os Chili Peppers.


“Pra ser sincero, demorei muito tempo pra perceber que By The Way estava finalizado”, disse John, exprimindo um misto de frustração e tristeza em seu olhar. “Em meu disco, você perceberá que não há nenhum som muito alto. Pra mim, foi isto que me manteve interessando em continuar sua criação. Não quero que as músicas sejam só de vocais, mas também não sou paranoico ao ponto de desprezar os vocais. Rick (Rubin, produtor dos Chili Peppers) mixa bem os vocais altos e equaliza qualquer coisa que combine com a entonação vocal, de modo que nada fique fora da equalização.



Eu ainda não consigo ouvir nosso último disco por causa disso; as mixagens bagunçam minha mente. Pela primeira vez, Rick foi tão legal que me deu algo pra fazer no processo de mixagem, onde contei a ele sobre a dificuldade de trazer uma harmonia perto da outra, dentre outras coisas. Mas, o melhor, estava por conta dele. Contudo, com o passar do tempo, desenvolvi minhas próprias opiniões em relação à mixagem, tanto que, em meu disco, você verá que ele é diferente dos anteriores, e eu espero que o próximo disco dos Chili Peppers seja mais parecido com o meu.



Finalizar meu disco solo me trouxe paz interior, pois me deixou 100% orgulhoso. Com o By The Way há muitas coisas que eu queria que fossem diferentes, e eu não posso fazer nada, entende? Não me conformo com isto”.



Felizmente, John teve a oportunidade de “fazer as pazes” com diversas faixas (de By The Way) que foram extraídas para singles. “Nós remixamos "Can’t Stop" para o single e gostei demais desta nova versão” afirma John. “Fizemos um remix de "Universally Speaking", pois estão pensando em lançá-la como single, e eu adorei sua nova versão também. Quando temos oportunidades como estas de remixar músicas, eu as deixo como quero. Acho que ainda não tinha redefinido minha habilidade de confiar em meus instintos sobre isto (mixagem). No entanto, eu só estava acostumado a criar as faixas e deixar que o Rick as mixasse, deixando-o trabalhar nelas e me sentindo feliz com isto".


"THROW AWAY YOUR TELEVISION, TAKE THE NOOSE OFF AMBITION" THROW AWAY YOUR TELEVISION



"Meu enfoque agora vai bem mais além que 'tocar guitarra'". Hoje em dia, John Frusciante é um homem completamente imerso na música. Ele a vive, respira-a, alimenta-se dela e dorme com ela. E, além de dormir, ele sonha com a música. Seu conhecimento por música é enciclopédico, e sua sede por isto é insaciável. Leve-o até o assunto de seus recentes artistas favoritos e a gama de estilos e gerações que eles abrangem é impressionante. "Eu estava ouvindo algumas dessas músicas eletrônicas bem abstratas que vêm sendo feitas agora", John vai falando, com um entusiasmo nítido.



"Rose Parlane, Pita, e um cara chamado Fennesz. Ele é um grande guitarrista também, e todos os seus discos são muito bons e totalmente distintos. São musicas abstratas sem nenhuma batida. O compasso musical é muito diferente, e tudo isso soa interessante pra mim. Eu também escuto muito folk, como Joan Baez, Fairport Convention e Steeleye Span, além de músicas como as de King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Mott The Hoople e Slade. Sou 'ligado' no mundo. Tenho apenas a arte que aprecio, e a música que gosto, e, pra mim, este é o mundo".



Tendo algo mais que 2000 até uns 10 anos atrás, John conta que, hoje, ele não tem ideia de quantas unidades tem sua coleção de discos. "Ainda não contei, mas, quem sabe um dia, eu o faça". Com certa demora, e o contínuo fluxo de membros da imprensa, John ainda tem que nos conceder o favor de arranjar tempo para nos contar sobre sua obsessão por LPs ("bolachões"). "Há algumas semanas atrás, quando eu estive na Espanha, uma garota conseguiu as chaves da loja se discos de seu pai e a manteve aberta das 2 às 6 da manhã. Aquilo foi muito divertido", conta ele. "Isto fez com que eu perdesse a noção do tempo e acordasse muito tarde. Meu dia, como um todo, consiste apenas em algumas horas de prática musical, aquecimento da voz e coisas desse tipo".



A aquisição de guitarras trouxe grande dificuldade à John, que perdeu seu arsenal há alguns anos em um incêndio em sua residência, fazendo-o reiniciar sua coleção do zero. A Jaguar que ele posou para a foto desta capa foi a primeira da nova coleção. "Comprei-a em uma loja de guitarras, acho que na Voltage Guitars da Sunset, em 1997. Eu não tinha nenhuma, então consegui um pouco de dinheiro, e esta guitarra foi meu próprio presente de Natal. Aí, quando o pessoal da banda falou comigo sobre voltar, eu falei da minha necessidade por uma Stratocaster. Nisto, Anthony me emprestou um pouco de dinheiro e fomos a Guitar Center, e eu comprei uma com braço de rosewood. É uma ano 1962 e foi usada em quase todas as faixas do By The Way".



A única exceção de destaque foi a faixa "Tear", na qual John usou sua Gretsch White Falcon antiga. Ele obteve esta guitarra em especial com a ajuda de seu grande amigo, ator e músico, Vincent Gallo. "Exato, Vincent encontrou uma dessas pra mim. É uma ano 1957 [Nota JF effects: na verdade se trata de uma 1955], e costumava ser dele, mas acabou a vendendo para alguém que ele teve que comprar de volta. Ele é um grande articulador e negociador, sabe?", conta John, sobre o amigo. "As pessoas o conhecem como ator e diretor, mas sua verdadeira ocupação é como articulador e negociador!", John sorri, enquanto fala. "Ele negociou com o cara e fez drama para ter a guitarra de volta".



Você queria a guitarra por ser bonita? "Não! Eu queria uma dessas pois Mattew Ashman, guitarrista do Bow Wow Wow, usava uma. A dele não era dos anos 1950, era dos 1970, e era por isto que eu queria a guitarra. Naquela época Mattew e Bernard Summer, do New Order, eram os dois guitarristas por quem eu era fascinado".

John usou outras guitarras durante as gravações de By The Way, mas estas faixas não foram para a versão final do disco. "Tínhamos outras músicas de rock que não integraram o disco pois, para distorcê-las, usei uma Gibson SG com um amplificador Marshall, que danificou a distorção", relembra John. "Pra mim, este é o último estágio da distorção de sons. Eu tenho uma bela SG de 1960 - que Vincent Gallo também encontrou pra mim - que tem uma P90 e isto é muito bom. Gravamos também uma faixa de 15 minutos chamada "Strumming in D on J". Literalmente, significa "Strumming in the key of D on the Jaguar" ("Dedilhando na escala de Ré em uma Jaguar"). Espero que possamos a integrar a outro disco, pois é uma bela música de funk".

Observadores minuciosos devem ter se surpreendido ao verem John tocando uma Fender Tornado no videoclipe de "Can't Stop". "Exato. O diretor me pediu para tocar com esta, exatamente por causa de sua cor. Eu não toco guitarras que não sejam dos anos 1960, ou de antes. Fora isto, não toco, mas, neste caso, não vi problemas nisso. Gostei do formato dela. E o diretor queria assim por causa da cor dela e, por ele ser um diretor/ditador, não tive como argumentar".


De Bow Wow Wow a Steeleye Span e Slade,
John possui um gosto musical bastante amplo.

"CAN'T STOP ADDICTED TO THE SHIN DING" CAN'T STOP



Caso você ainda não tenha compreendido, John é um cara muito ocupado. Logo, seus fãs adorarão saber que ele está trabalhando em dois outros projetos que podem ser lançados já ano que vem. O primeiro, é para Vincent Gallo, que pediu para John fazer parte da trilha sonora de seu próximo filme, Brown Bunny, pouco tempo atrás.



"Passei os últimos três anos compondo para este filme. Vincent me deu o roteiro e 'deixou comigo'. Fiz uma mistura de musicais e instrumentais, e eu não sei como tudo isto se encaixará no filme. Provavelmente, terei muita sobra de material que poderá ser útil para eu compor um novo disco. Tem muitas músicas tristes, uma vez que o filme tem uma história triste. Neste momento, Vincent está no meio da edição final do filme, e eu estou muito ansioso para ver como ficou".


O outro projeto é resultado de arranjos recentes de John e Flea em show, uma característica da atual turnê, e mostra a dupla retornando às suas origens musicais. “A partir do momento em que terminamos o By The Way, fui assistir a apresentação de The Mars Volta, que é muito influenciado por King Crimson”, John nos conta. “Então eu passei um período ouvindo as músicas de King Crimson e shows ao vivo do ELP. Isto aconteceu comigo pois, naquela época, essas bandas se superavam ao vivo, fazendo muitas improvisações, e as pessoas adoravam isto. Eles eram as maiores bandas do mundo, e estavam no palco fazendo diversos instrumentais que durariam por 20 minutos. Falei ao Flea, uma vez, que deveríamos fazer arranjos em boa parte do show, então nós fizemos e tudo tem saído muito bem. Este lado improvisador meu e do Flea está, provavelmente, se revelando cada vez mais agora porque estamos fazendo um disco todo instrumental com o Omar, do The Mars Volta. Nós estamos trabalhando nisto durante a turnê, e nos apresentaremos juntos muitas vezes nos próximos meses, então temos estes pequenos ensaios de arranjos depois dos shows.

"Durante a gravação do By The Way, Flea e eu estávamos em momentos diferentes, contrastando entre características diferentes de tempo, e harmonia, e o fato de tocar rápido. Omar (Rodríguez-Lopez) e eu intercalamos muitos trechos de guitarra, bem como Adrian Belew e Robert Fripp fizeram nos anos 1980. Quando Flea começou a tocar baixo, ele era muito inspirado por Allan Holdsworth, e, pra mim, isto era Rock Progressivo, assim como Mahavishnu Orchestra e The Tony Williams Lifetime. Logo, é daí que vem grande parte de nossa inspiração musical".

Sabendo disso, fica difícil dizer em quantos outros projetos John Frusciante se envolverá nos próximos meses. Sua ética profissional é incrível, e seu comportamento atual, bem como a forma como leva sua vida, são de grande aprendizado para todos. "Eu tento sempre aprender algo novo todos os dias. Às vezes, aprendo um solo de Jimmy Page. Outras vezes, músicas do Mingus. Existem dias que me dedico a aprender a trabalhar melhor com meu sintetizador. Mas também têm aqueles dias em que, e dedico a trabalhar bastante na mixagem de algo, bem como aperfeiçoar meu trabalho no estúdio.

Faço de cada dia uma experiência de aprendizado, ao invés de ficar pensando no que é que posso exibir para as pessoas, ou o que provar para o mundo. O aprendizado tem, como produto natural, o seu próprio resultado (o conhecimento), e isto sempre foi a principal coisa desde que comecei a aprender sobre guitarras: ser cada vez melhor".



Essa Jaguar foi a primeira guitarra que John
 comprou depois de todos os seus instrumentos
 terem sido consumidos pelo incêndio na sua casa.
ACO(O)RDOANDO: COMO JOHN FRUSCANTE AMPLIA SEU VOCABULÁRIO DE ACORDES


"Pra mim, os livros são a melhor fonte de aprendizado. Se seu ouvido não esta acostumado a identificar uma 6ª ou uma 9ª, ou qualquer outra escala, não adiantará focar só ouvindo. Comprei diversos tipos de livros de acorde há um tempo atrás. Aprendi muito com o livro de Charles Mingus e com o livro de acordes dos Beatles. Ambos os livros costumam ser interessantíssimos boa parte do tempo. Tenho livros de Burt Bacharach que possuem ótimos acordes. Os livros de Fiddle on the Roof e Willie Wonka And The Chocolate Factory trazem acordes incríveis, algo como nunca visto antes. Eu tento aprender tudo o que posso com livros como estes.

O segredo dos acordes é tocá-los um após o outro. Quando eu era adolescente, eu tinha um livro chamado Chord Chemistry, de Ted Green, mas ele jamais forneceu qualquer sentido ao contexto dos acordes. Existem infindáveis formas de tocar uma 7ª menor. Ao meu ver, todo livro de acordes precisa ser acompanhado de outro livro prático que aplique suas teorias e acordes. Um bom livro que encontrei se chama Grimoire Chord Encyclopedia. O bom disso é que ela tem uma página no fim onde consta o acorde e descreve os intervalos constantes nele. Desse modo, quando você compra seu livro do Charles Mingus ou do Charlie Parker, e começa a ler os acordes, assim que você encontra algum que desconhece os intervalos, você pode consultar em outras fontes.

É muito importante conhecer os acordes na prática. Um acorde de 9ª escala em pestana, passo o dia entre duas canções onde ele é utilizado da mesma forma: "Michelle", dos Beatles, e em uma música de Charles Mingus. A nota raiz era a base da melodia, e a 9ª a cinco casas abaixo do acorde. Então, naquele dia, eu compus uma canção com esta base.

Uma das minhas preferências nos acordes é o fato de poder ser um acorde simples, porém, a nota do seu baixo ser de outro acorde. Por exemplo, um acorde de Lá menor com a nota de baixo de Si. Ou, no caso de uma série de acordes, se você está tocando um Lá menor com a nota de baixo de Mi, e não de Lá, isto faz com que o acorde seja bem diferente (no aspecto criativo)."


SOLOS SIMPLES?

John Frusciante e sua concepção de solos para o By The Way:

"Eu, como guitarrista, quando gravamos um disco, penso demais em como simplificar tudo ao máximo possível. Eu ia tendo as ideias para as melodias baseado no estilo de Kraftwerk. O modo como eu ouvia os sintetizadores criando as melodias melhor que os guitarristas. Michael Rother, da banda Neu!, que também criou ótimos discos de solo, tem um modo de tocar muito influente ao modo como toquei em By The Way, onde cada nota tem sua posição perfeita, escalado e construindo o que a nota anterior iniciou.

E então se usa algumas notas de 16 escalas. Esta é minha ideia para os solos. Muitas vezes, o que o bom guitarrista faz é tocar um grupo de notas em que você ouve a sensação que estas criam, acontecendo de forma muito rápida, assim como Jimmy Page queria fazer. Eu, pura e simplesmente, não queria fazer isto em By The Way".

PONTOS QUENTES

1// Enquanto gravava o By The Way, John ouviu os dois primeiros discos de The Human Leagues, e os discos de Reproduction or Travelogue, à caminho do estúdio;

2// As lendárias sessões de arranjos musicais que Flea e John fizeram no Three Amoebas, infelizmente, não serão lançadas, pois parece que John perdeu as fitas;

3// Os sons acústicos que se ouvem em By The Way foram feitas com um (violão) Taylor, pois Rick Rubin, o produtor do disco, gosta deles. Já John não é muito fã destes, preferindo os Martins;

4// John ainda deseja comprar uma Gibson Les Paul, ano 1959. Porém, ainda não encontrou nenhuma.


BLOOD SUGAR TÉCNICO MAGIK

O técnico de guitarra Dave Lee nunca perde um show dos Chili Peppers. Ele não pode se dar ao luxo, ele é o homem responsável por toda parafernália de John Frusciante.

Em 1988, o baixista Dave Lee usava seu tempo trabalhado com construção (civil). Mas, no momento em que quase perdeu o polegar em um acidente, ele percebeu que era hora de mudar...


E então, Dave, como você começou nisto?

Naquele período, eu tinha um amigo que trabalhava para o RATT como técnico de guitarra, ele sugeriu que eu ingressasse nesta profissão. Ele me escalou para trabalhar com a banda King Diamonds e eu comecei a ajudá-los como o sistema de monitoramento (sonoro). Então, quando demitiram o técnico de contrabaixo, percebi a grande oportunidade.

Quando esta turnê terminou, um outro amigo meu que tinha um estúdio em North Hollywood, me convocou junto ao cara que dirigia o Faith no More. Eles ainda não tinham se decidido. Então, comecei a trabalhar para eles e com o diretor, que também dirigia outras bandas. Então eu o acompanhei pelas mais diversas bandas.

Nesse meio tempo, um cara com quem eu tinha trabalhado começou a trabalhar nos Chili Peppers com o Flea. Dave Navarro não tinha nenhum ajudante na época pois seu técnico estava trabalhando com outra pessoa depois do término do Jane's Addiction. Então ingressei na banda e passei a ajudá-lo por um tempo como seu técnico. Foi então que Dave saiu e John Frusciante voltou e eu permaneci por aqui.

O que você faz quando a turnê termina?

Pelos últimos quatro anos e meio, os Chili Peppers estiveram muito ocupados, tendo eu pouco tempo de descanso. Trabalhei com o John em estúdio também, ajudando em seus discos solos e em shows. Ele fez shows acústicos com o disco To Record Only Water for Ten Days, e John é um cara que adora trabalhar, mantendo-me empregado o tempo todo. Sinto-me abençoado por isto. A atmosfera de trabalho dos Chili é ótima. Eles são muito inteligentes e estão além da classificação de "rockstars".

Como os outros membros dos Chili Peppers se sentem sobre a carreira solo de John?

Sempre estiveram muito ocupados, então ficam felizes por John se manter trabalhando enquanto eles têm um período de descanso.


Quais os tipos de coisas que um técnico faz no dia a dia?

Dave Lee realizando a tripla checagem na afinação da
1963 Fender Telecaster de John.


Muitas vezes, trocando e ajustando cordas. Eu troco as cordas de cada guitarra em cada nova apresentação. As guitarras do John são todas comuns, e eu tenho um método particular de travar as cordas na tarrachas Kluson.

John toca com muita força, então tenho que garantir que as cordas estejam bem esticadas. Não temos muitos problemas, considerando que a maioria de seus equipamentos são antigos. Utilizo três afinadores de guitarra: um Peterson Virtual Strobe, um BOSS TU-12 e também um Korg. A precisão é fundamental, né?

Como é o Setup (configuração de pedais) do John?

Repleto. Alguns guitarristas utilizam poucos pedais. Mas ele usa muitos.
Essa guitarra é uma Gretsch White Falcon de 1955
(avaliada em aproximadamente 17 mil doláres).
John simplesmente não toca com as novas elétricas...

Então, como é um dia típico de trabalho pra você?

Após cada show, vou conversar com o John, e pergunto a ele sobre qualquer coisa em particular que ele tenha notado que necessite mudança ou melhoria. Preparo todos os seus equipamentos e verifico sua afinação durante o dia. A banda não faz passagem de som, talvez apenas uma vez em meses. Apenas instalam os equipamentos e tocam, a menos que surja algum problema acústico que precise ser reparado. Geralmente, não passam o som.

...Mas ele usa um Taylor 314ce acústico, ao vivo. Em todas as guitarras são usadas as correias pretas Levy's e o straplocks da Schaller. Que tipo de corda John usa? Ele usa as D'Addario, .10 mas usa uma .11 na corda E aguda.
Parece que John anda dando as cartas nesses novos discos?

Muito disto vem do fato de as pessoas realmente confiarem na opinião dele. John tem noção do que é uma boa ideia e do que não é, logo confiam nele. Há muitas bandas que não acho que são boas, e é bom ver uma banda que realmente toca, e muito bem.

Qual o setlist atual?

Essa maltratada e espancada é uma 1962
Stratocaster - é a guitarra favorita de John Frusciante
Logicamente ele toca músicas dos seus três últimos discos com os Chili Peppers, mas também há muitos arranjos recentemente. Ele se aventura no estilo similar ao de James Brown. Eles se divertiram muito em Londres, pois todos os grandes ídolos do John estavam lá. Radiohead, Jeff Beck e Jimmy Page estavam lá, o que fez com que John "viajasse" por todos os seus estilos.

Foi muito legal, porque, no meio de um solo, era possível ouvir "The Train Kept a Rollin'", dos Yardbirds, bem como todo tipo de coisa. Geralmente, Flea, John e Chad improvisam entre as canções.

Geralmente, é o Anthony quem define o setlist, então eu acompanho o John através desta sequência para garantir que ele use a guitarra certa em cada música. Por exemplo, em "Soul to Squeeze", ele prefere tocar uma Stratocaster pouco antes de usá-lá, pois ele a toca com força, e precisa confiar que está devidamente afinada.

Temos também que garantir que a música anterior à esta seja tocada com uma Telecaster, para que eu prepare a Stratocaster à tempo. O único momento que surge um problema é quando, subitamente, mudam a ordem prevista e fazem algo inesperado.

Frusciante usa uma 1955 Stratocaster com o braço
em maple para as músicas que necessitam de um timbre
mais brilhante.
Dá medo ver o John tocando seus instrumentos antigos com tanta força, todas as noites?

Fico tentando convencer o John a tocar aquelas réplicas de guitarra que a Fender faz, mas ele gosta da "vida" que os instrumentos antigos têm: a histórias que eles têm e tudo o que já tocaram. Mas Flea tem um baixo daqueles Jaco Pastorius, que é uma réplica. Cada pedacinho dele é igual ao original.

Enviei à Fender Custom Shop (Loja de Personalizações da Fender) algumas fotos da Stratocaster ano 1962 do John, pois há um cara chamado Jake que trabalhou no estúdio conosco, e que queria uma guitarra igual àquela. Então, ele queria que a Fender fizesse uma pra ele. Pra mim, parece um belo modelo a se construir.




DAVE LEE E OS AJUSTES NOS SETUPS DOS O CHILI PEPPERS

Com uma pedaleira como esta John terá uma boa prática
das aulas de dança que ele começou recentemente!

"Todos, exceto Chad, utilizam retorno de som auricular. Assim, todos podem ouvir perfeitamente o que produzem, e eu também. O que ouço é o mesmo que John, podendo assim reparar, de imediato, qualquer problema com o som. Lembro-me no Woodstock (1999), antes de utilizarmos o retorno, que ele não tinha noção da altura do volume do que ele produzia.

Quando começamos a participar de festivais e coisas do tipo, ele queria se movimentar livremente pelo palco, e ele carrega na guitarra um cabo enorme. A partir de um determinado comprimento, começávamos a perder sinal, então recorremos ao sistema de captação sem-fio da Shure.

Quando regressou à banda, John ainda não pulava de um lado para outro no palco, mas, uma vez, ouvi ele dizer que começou a dançar e que começou a tropeçar pelo palco. Portanto, o sistema sem-fio o ajudou e muito na movimentação.

Recentemente, Flea também aderiu à este sistema sem-fio, e tudo funciona muito bem para nós".



Marshall Jubilee 100 (à esquerda)  provido de crunch,
enquanto o 200W Major está no clean power.
AMPLIFICADORES PARA O ROCK

"John utiliza um amplificador Marshall Major de 200W com tubos KT8 e um Silver Jubilee, juntos. Eles são ligados simultaneamente através de um pedal Boss Chorus (Emseble CE-1), onde o sinal entra por um canal (mono), e sai em dois canais de som (estéreo).  Então, dessa forma se o chorus está ligado ou não o sinal fica dividido para os dois cabeçotes. O Silver Jubilee trabalha com um pouco sujo no modo que usamos.

Os cabeçotes do Marshall Major são muito difíceis de se encontrar. Conseguimos encontrar somente três, e conhecemos um cara chamado Mike Hill, que trabalhava na Marshall, e ele nos contou que eles fizeram apenas cerca de 100 destes amplificadores, entre 1969 e 1973. Eles são especiais pois, a 200W, você tem um som bem alto e ainda assim limpo. Basicamente, é como um amplificador para contrabaixo.

John toca muitas coisas que não possuem crunch. Distorções e overdrives vêm do som da guitarra, passando pelos pedais. Se algo der errado, e eu tiver que trocar o cabeçote do Marshall, quando o coloco de volta à operação, é preciso regulá-lo novamente.

Não adianta apenas memorizar a posição dos knobs, pois os auto-falantes são ligados via jumper. Então, a entrada do som precisa a ser devidamente ajustada, ou ficará distorcida, ou nem mesmo audível. É preciso ligá-lo por quatro vezes para encontrar o ponto certo de ajuste. Era o que eu fazia há pouco tempo".


DICAS TÉCNICAS

1// Utilizo baterias em todos os pedais pois, deste modo, eles trabalham de forma mais silenciosa. Testo-as diariamente e, caso estejam com menos de 9.1 volts, jogo-as fora. Tento não jogar as que estão em perfeito estado, para preservar o ambiente. As baterias trabalham bem entre 9.5 e 9.6 volts. Os MXR Micro Amp não usam nem um pouco da bateria [O consumo desse pedal e de 2,5mA];


2// Todo o circuito é cabeado com Monster Cable. Seu som é muito bom;

3// Lubrifico os captadores e a alavanca de ambas as Stratocasters com um produto chamado Guitar Grease. É parecido com um gel. Eu usava teflon, mas esta graxa é bem melhor. John usa muito a alavanca. Se eu não utilizar este produto, John não poderá usar a alavanca como ele a usa.




PALHETANDO



"John utiliza palhetas Jim Dunlop 0.60mm. São alaranjadas. Há uma história divertida com essas palhetas. O cara que as confecciona perguntou se John queria personalizar uma, e John achou graça daquilo, como sé fosse um pequeno fã de uma estrela do rock, entendeu?


Então, quando estávamos na América do Sul, em um aeroporto, e um menino, muito fã da banda, olhou pra mim, e disse: 'Você é Dave Lee, o cara do John.' A história chegou ao cara que fabrica as palhetas, que fez algumas delas pro John".

Artigo assinado por: Phil Ascoot

Tradução: Osmar D. M. da Silva

Um comentário:

  1. Alguma música de John realmente foi parar no filme Brown Bunny? De acordo com a página de soundtracks do filme no IMDb não mostra nenhuma.

    http://www.imdb.com/title/tt0330099/soundtrack?ref_=tt_trv_snd

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