15 de março de 2017

Frusciante vem ao festival com novo disco-solo - Janeiro de 2001



Entrevista de John Frusciante ao Jornal Estadão, pouco antes da passagem dos Red Hot Chili Peppers pelo Brasil para o Rock In Rio III e o lançamento do álbum solo To Record Only Water For Ten Days de Frusciante - publicada em 07 de Janeiro de 2001.

Aos 29 anos, reincorporado ao grupo californiano Red Hot Chili Peppers há dois anos, após afastar-se por abusos com heroína, o guitarrista John Frusciante voltou com a corda toda. No dia 13 de fevereiro, chega às lojas To Record Only Water For Ten Days (Warner Music), o terceiro disco-solo de Frusciante. Que é um petardo.

Frusciante apresenta-se pela primeira vez no Rio de Janeiro, no Rock in Rio III, com sua banda, no último dia do festival. "Ouvi alguns discos gravados durante o Rock in Rio, como o do Duran Duran, de que gosto muito", contou o músico.

O guitarrista toca todos os instrumentos no seu disco-solo, misturando sua guitarra orgânica com drum machines e programadores e criando uma energética mistura. Leia a seguir entrevista concedida por Frusciante ao Grupo Estado na sexta-feira, por telefone.

É verdade que vocês pretendem voltar aos estúdios para gravar um novo disco logo após o final do Rock In Rio?
"Vamos voltar ao estúdio, mas para pesquisar, não para gravar. Trabalharemos cerca de cinco dias por semana, burilando sons, pesquisando batidas e riffs."

Vocês foram indicados para dois prêmios Grammy. Você acha que esse é o melhor disco dos Peppers?
"Sim, para mim é. Californication é uma das minhas melhores canções. E o disco me fez sentir como se nunca tivesse saído do grupo. É um disco fresco e original e é o meu favorito. Sei que há muitos fãs que preferem Sex and Magik, de que eu também gosto muito, mas esse disco adquiriu grande significado para mim."

Você pôs um bocado de drum machines e programadores no seu novo disco-solo. Está interessado na música eletrônica?
"Sim, em todo tipo de música eletrônica, nos últimos três anos. Quando estávamos pesquisando para fazer Californication, ouvi muito Ramones, muito punk rock. Então, quando cheguei em casa, passei a ouvir outras coisas, como Björk, Tricky, Depeche Mode, Kraftwerk."

Tricky está vindo para o Rock in Rio também.
"Quem? Tricky no Rock in Rio? (Risos). Ele é muito meu amigo."

Haverá uma tenda aqui só para a música eletrônica.
"Ah, bom, agora entendi! Sabe que gravei uma música com ele, que vai sair no próximo disco do Tricky? É algo bem divertido."

Eu acho que há também muito de rock progressivo no seu disco. Estou muito errado?
"Não, não está errado. Sempre ouvi muito Peter Gabriel e o King Crimson era uma das minhas bandas preferidas dos anos 80. Há muitas similaridades, mas não acho que seja consciente. E também há muitas diferenças. A música do Genesis é cheia de cor e eu não acho que minha música seja muito colorida. É algo que é grande parte do que eu sou, mas não sei dizer quanto disso há na minha música, não é tão simples. Peter Gabriel é um cara que funciona, de certa forma, como um guia."

Em seus discos-solo, você demonstra bastante melancolia e senso de tragédia. Pessoalmente, você é um sujeito melancólico?
"Sou muito feliz. Gosto de estar sozinho e sou bastante sério, e gosto de um clima melancólico, um pouco dark. Isso acentuou-se quando eu tive problemas com a heroína, estava muito ativo e muito confuso ao mesmo tempo. Foi uma época difícil. Algumas pessoas não conseguem jogar o jogo do star system e eu queria gastar mais tempo comigo mesmo. Aquilo me forçava a dedicar todo o tempo à arte. Quando me afastei do grupo, trabalhei muito no sentido de desenvolver meu espírito, de tornar-me hábil para ver dentro da minha própria mente. Antigamente, eu ficava em chamas após cada noite no palco. Aprendi a lidar com isso. Vi que a música é um dos arquétipos mais primitivos do mundo, cria um monte de sentimentos distintos em diferentes pessoas. Então, eu agora me sinto à vontade para continuar fazendo isso. Não me preocupo mais com o negócio da música, com indústria, mas comigo mesmo. Com a minha guitarra, de certo modo, eu falo com as pessoas. É com esse diálogo que eu tenho de me preocupar de agora em diante."


Fonte: Jornal Estadão, Caderno2 - 07 de Janeiro de 2001

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