8 de julho de 2017

Os espíritos que eu chamei: de assombrações, cosmos e vibes - Março de 2001

Depois do imenso sucesso de Californication, o Red Hot Chili Peppers entrou em hiato. E o ex, e agora de novo, guitarrista John Frusciante passou este tempo com as gravações de seu terceiro álbum solo To Record Only Water For Ten Days - um álbum pop feito por um homem cujo passado excessivo deixou cicatrizes, mas que finalmente ama nada mais do que música.

Foi um dos shows mais bizarros do começo do ano, e aconteceu em Hamburgo, em 30 de janeiro no Prinzenbar, um clube pequeno ao lado do Reeperbahn. Jornalistas de todos o tipos queriam ver o famoso guitarrista dos Red Hot Chili Peppers. O homem que tinha deixado a banda no auge de sua carreira devido a problemas com drogas, e que havia se juntado à banda novamente após uma reabilitação demorada e difícil, para gravar Californication com o Red Hot Chili Peppers - o álbum surpreendentemente trouxe todo o sucesso do passado. O que eles fizeram foram canções que não tinham qualquer conceito, executadas por um homem, que parecia matar seus próprios demônios gritando com sua voz.

No dia seguinte, ele está sentado em sua suíte no Park Hyatt Hotel, onde pediu granolas para o café da manhã assim que entrei no quarto. Vi um não-Frusciante fumante e vegetariano. Durante a entrevista ele bebeu dois litros de água com goles apressados. As cicatrizes físicas de seu vício em heroína não podem ser ignoradas, pois não podem sair de sua energia psíquica. Ele responde de forma comedida, mas fica bravo repentinamente e se contradiz frequentemente. No entanto, o que deve continuar a ser a principal impressão, é a de um homem que descobriu recentemente o seu amor pela vida de novo.


Foi divertido ontem à noite?

"Eu achei estranho. No início eu não me senti tão bem, porque as reações não eram tão eufóricas. Depois de algum tempo, percebi que esta era provavelmente a mentalidade das pessoas na Alemanha. Eu apenas fiz o meu melhor e no final foi divertido."


Mesmo que este tenha sido apenas o seu terceiro show solo, o clima reservado não parecia torná-lo inseguro.

"Isso é porque eu tenho bastante experiência em tocar minhas músicas enquanto meus amigos estão ao meu redor e um show com uma plateia desconhecida não difere muito disso, na minha opinião. Além disso, os amigos são honestos e dizem quando você está mal. Se eu consigo parar e entretê-los, então também sou capaz de fazer isso com estranhos. Toquei cada canção que escrevi nos últimos três anos, como se fossem para um dos meus amigos."


Você fez covers de David Bowie, Radiohead e REM no palco.

"Sim, Radiohead, acima de tudo é uma das minhas bandas favoritas. Eu amo o novo álbum, e acho legal quando as pessoas minimizam a guitarra em uma banda de rock, quando também trazem algo a mais do que os elementos comuns. Kid A é futurista, pois é um tipo de música diferente, quase música eletrônica."


Você também é um musico minimalista. Uma característica do Red Hot Chili Peppers é que você não toca mais que o necessário.

"No espaço, eu estou me movendo quando eu toco guitarra, isso não é construído por quaisquer princípios ou influências. Eu não tenho nenhum conhecimento de rock'n'roll ou de blues. Prefiro continuar como um programador. Eu quero colocar cada nota no seu lugar e tento evitar as coisas que são desnecessárias, porque elas roubam o espaço para a atmosfera. Isso não ficaria bom para toda a imagem."


Muitas pessoas certamente vieram ontem porque você toca no Chili Peppers. Será que isso te irrita?

"Não. Eu sou uma pessoa orgulhosa."


Quando você deixou a banda, foi devido a razões que se apresentam novamente agora: a banda é totalmente bem-sucedida, todo mundo quer falar com você e logo após esta entrevista vai haver uma sessão de fotos novamente.

"Todos me descreveram como se eu fosse o anti-estrelismo, mas isso não é verdade. Eu parei naquele momento porque eu tinha que consertar as coisas comigo mesmo. Assim que a gente começou a turnê do Blood Sugar Sex Magik, a minha criatividade estava em seu auge até aquele momento. Eu tinha feito música por dez anos e em seguida senti que eu era capaz de criar coisas maravilhosas. As vozes em minha cabeça me diziam que eu poderia parar e ser feliz, no entanto logo depois que terminamos o álbum, minha criatividade levantou voo para sempre. Mas a decisão de sair em turnê bloqueou essa criatividade. A vida na estrada é maçante e ao mesmo tempo extrovertida. No final, depois de seis meses, aconteceu o que estava prestes a acontecer: eu estava farto o suficiente. Percebi que as vozes tinham me dito a verdade. Eu tive que parar imediatamente. Antes de excursionar, eu me sentia como o melhor guitarrista de todos os tempos, mas, meio ano depois como um amador. Eu odiava meu jeito de tocar. Tudo o que eu precisava era estar comigo mesmo em vez de fazer caretas estúpidas para sessões fotográficas, dando entrevistas superficiais ou pulando no palco. Há certamente algumas bandas por aí que param as coisas quando não querem fazê-las. Mas eu estava cercado por pessoas que estavam com raiva de mim, porque eu não queria fazer essas coisas que eles queriam fazer. Eu fiz todos em minha volta se sentirem infelizes, todos eles me odiavam. Foi uma situação desesperada que não fez nada mais do que me destruir. Principalmente porque eu sabia que eu realmente queria fazer outra coisa. Algo que não foi respeitado pela sociedade ou pela mídia, mas algo que era importante para mim. E isso não funcionou. Hoje eu tenho uma compreensão mais profunda das coisas, que muitas pessoas nunca vão ter. Eu me deixei cair fora desse padrão, sem ter medo de ser um pouco vazio. Isto terminou com o fato de que eu já experimentei várias vidas extras."


Você está falando sério quando diz que tudo tinha sido aprovado durante a pausa da banda? Havia alguns pontos baixos que foram extremos.

"Sim, claro. Eu tentei dominar um estilo de vida que destroi uma pessoa normal. Minha vida era em parte um ciclo vicioso, que não me levava a lugar algum. Eu estava congelado e morto de forma criativa, mas ainda estava ali. Demorou algum tempo até que eu mais uma vez ganhasse uma determinação para mudar de vida e o que a minha música expressa. Então, quando eu voltei para o Red Hot Chili Peppers, eu tocava guitarra todos os dias novamente. Antes disso, não houve um mês em que eu tinha sequer tocado em uma. Minha técnica estava absolutamente baixa, em relação a quando conheci Anthony, Flea e Chad. Eu tenho trabalhado duro desde então. Minha vida certamente me destruiu em todos os aspectos que são relevantes para as pessoas, mas comigo aconteceu uma coisa que de fato importava. Após tudo que fiz, estou me sentindo melhor do que nunca. Comecei completamente de novo. Eu vejo tudo mais claro e vivo numa vida mais saudável. As drogas não são boas para a criatividade. Mas elas me deram a possibilidade de deixar o mundo e me concentrar em arte. Eu vi muitas coisas sobrenaturais durante este tempo."


Foi o que realmente valeu a pena?

"Sim, definitivamente. Eu sou uma pessoa que não se arrepende. Eu estou muito orgulhoso do meu novo álbum, também da última gravação dos Chili Peppers. São melhores do que qualquer coisa que eu esperava fazer. Como devo me arrepender de algo que nunca esperava fazer? O que conta no final é que estou feliz. Eu sempre encontro pessoas que estão insatisfeitas. Eu, pelo contrário, acordo toda manhã e, com a minha cabeça no travesseiro, eu penso: "Ah, ... eu amo minha vida!". No entanto, não posso aconselhar ninguém a usar drogas. Se você quiser perder tudo que é importante para você, então se torne um viciado, mas se você quiser ver este mundo como a pessoa que você é e amá-lo, então não se torne. Se você usar drogas, você vai se tornar nada mais do que um produto químico. Eu tenho amigos que usam drogas. Nenhum deles tem uma vantagem por isso. Eu sou definitivamente uma exceção e isso é porque as vozes me disseram que eu deveria tomar drogas. A maioria das pessoas escorregam nisso por engano - mas não eu. Me foi dito, "sou um viciado!”. E assim eu fiz isso, porque vi um motivo dentro de mim. Foi a mesma coisa quando eu decidi parar de novo. Mas agora vamos falar de outra coisa. Há tantas coisas que eu quero falar um pouco."


Sobre o que você quer falar então?

"Sobre o meu álbum, por exemplo."


É muito mais estruturado do que o anterior. Eu tive meus problemas com o Smile From The Streets You Hold... 

"Eu também. Decidi tirá-lo do mercado."


Suas letras estão mais positivas do que no passado.

"Claro, porque eu sou uma pessoa mais feliz agora. No início, meus álbuns de estreia foram bons, mas foram gradualmente piorando. O segundo álbum foi o pior. Hoje, no To Record, eu sou uma pessoa diferente. Sou alguém que quer criar algo bonito a cada segundo da minha vida. Nos dois discos, na primeira parte eu não compus nada, mas usei fragmentos e improvisei vocais neles. Só agora fiquei mais cuidadoso. Enquanto isso, eu posso ler minhas músicas apenas como letras, sem melodia. Eu ainda sou a mesma pessoa, mas a música não vem do mesmo lugar, como no passado. Sou uma pessoa que morreu e voltou à vida. Tudo o que fiz nos últimos três anos é fresco e novo. Eu me sinto como se eu tivesse nascido só há três anos."


Quando e como você gravou esse álbum?

"Sozinho em minha casa com meu sampler."


Onde você mora?

"Durante as gravações, eu morava em um vilarejo chamado Silverlake, perto de Hollywood, em um hotel. Era um bom lugar. Ela tinha o tamanho perfeito para mim naquele momento. Eu tinha meus discos, meu sampler e meu gravador, uma pequena cozinha e uma TV, onde eu assistia filmes de Andy Warhol. Foi uma moradia simples e adequada naquele momento."


Los Angeles é o seu lar?

"Sim. Eu tenho seis bons amigos lá."


Cidade estranha, ou não?

"Há um monte de lugares que são mais bonitos do que LA, mas quando você cresce lá é difícil viver em outro lugar. Eu não sou uma pessoa que gasta muito tempo com ela. Eu toco guitarra ou vou a um museu ou a uma loja de discos. Eu não tenho que estar no centro de tudo isso. Se eu quiser ir a algum lugar, vou a alguns lugares bonitos: bosques, praias e assim por diante. Mas a maior parte do tempo eu fico em casa sozinho."


Agora você também aparenta querer fazer muitas coisas ao invés de dar uma entrevista.

"Sabe, hoje não é realmente o meu melhor dia. Se dependesse de mim, eu não diria nada a manhã inteira. Há dias que eu gostaria de falar com alguém. Uma vez um cara me deu alguns "caça-palavras" e a noite inteira eu filosofei sobre seus temas. Isso não iria funcionar agora. Sinto como se tivesse sido arremessado em torno de uma máquina de lavar roupas por uma hora."


Se eu tivesse que dizer a alguém agora, o que os Chili Peppers e seu trabalho solo são próximos, gostaria de lhe dizer: onde quer que você tenha tocado ou o que tenha acontecido em torno de vocês, sempre há um momento em que você e Flea se juntam no palco e olham um para os olhos uns do outro e “tocam”.

"Sim, exatamente disso que se trata. Você viu o show em que terminamos com "Search and Destroy"? Flea e eu ficamos no palco. Aquilo foi legal! Chad e Anthony parados, eu desliguei a distorção e nós tocamos cinco à seis minutos sozinhos. Nós deixamos que a corrente de energia do fluxo de ar corresse através de nós. Tudo o que tocamos parecia estar perfeito."


Fonte: Visions (Alemanha) - Março de 2001

Nenhum comentário:

Postar um comentário