3 de outubro de 2020

Entrevista de John Frusciante para o RA Exchange - Setembro de 2020 [PT/BR]


John Frusciante esteve no episódio 526 do podcast RA Exchange, da Resident Advisor, no dia 25 de setembro de 2020. Na conversa com Mathews McDermott, Frusciante falou sobre a concepção de seu novo álbum Maya (que será lançado dia 23 de outubro), sobre a sua jornada como um músico de rock na música eletrônica e sobre seu retorno ao Red Hot Chili Peppers.


Tradução completa:

Olá, meu nome é Mathews McDermott e eu sou conselheiro residente sênior de redação. Você está ouvindo RA Exchange, uma série de conversas com os promotores de gravadoras e outras figuras que estão moldando o mundo da música eletrônica e hoje estou aqui com John Frusciante em Hollywood, Califórnia, bem-vindo, John. 

"Obrigado."

É ótimo ter você aqui, estamos aqui porque John anunciou recentemente um novo disco chamado Maya, que será lançado sob selo Planet Mu e dirigido por Aaron Funk conhecido como Venetian Snares. É um disco realmente emocionante que representa uma nova direção em uma carreira cheia de reviravoltas. E estávamos aqui na sala de estar cercados por CDs e você disse que sempre pratica guitarra tocando junto com os CDs e que pratica o tempo todo, mas eu notei que sua capacidade de aprender usar machines por conta própria também é crucial para sua prática de música eletrônica, como Maya foi concebido, conte um pouco sobre a pré-produção.

"O aprendizado sempre foi a parte principal de ser músico, a parte da performance é apenas um subproduto, sempre foi mais sobre praticar do que qualquer outra coisa, as outras partes são extras que acontecem naturalmente.

A prática é a parte mais importante, e na música eletrônica gasto muito tempo organizando meu catálogo para aprender sobre as machines e acabo descobrindo cada vez mais os limites de cada uma delas, pensando em maneiras de combinar um equipamento com outro de forma criativa. Há muita experimentação que acontece entre as faixas, é muito parecido com o que eu faço quando pratico com a guitarra, passo muito tempo programando as drum machines, acho muito divertido programar, já passei dias ou até semanas só para personalizar uma bateria para fazê-la soar única, e é a mesma coisa com todos os tipos de equipamento, você tem que passar muito tempo praticando para realmente conhecê-lo, para que sua mente fique realmente inserida, o mesmo acontece com a pratica na guitarra quando toco junto com os CDs, só que no momento estou morando em um apartamento e não tenho minha coleção comigo, se você estivesse na minha casa, você provavelmente notaria meus álbuns facilmente pois a sala está cheia com aproximadamente 15.000 álbuns.

Gosto de tocar acompanhando com CD de gueto house, dance mania records, é realmente um funk diferente, os tipos de melodias e partes que eles têm nessas músicas e eu acho muito inspirador tocar guitarra junto o CD."


Uma outra coisa que saiu sobre sua música eletrônica recentemente é a ideia de simplificar. Se falarmos de dance mania ou se falarmos de suburban base muitas vezes estes são artistas que não estão trabalhando com estúdios cheios de equipamento e este é o conceito de fazer algo simples, juntando alguns elementos diferentes sendo suficiente para o que você precisa, isso tem influenciado muita gente.

"Sim, Maya tem sido realmente inspirador para a música assim como “he Smiles Because She Presses The Button e tudo que lancei este ano, tento me limitar a algumas machines por pista, como suburban base, muitas dessas pessoas tinham apenas um sampler e um mixador ou talvez um center o que já era muita coisa para alguém naquela época ou uma unidade de efeitos reverb ou echo. Gosto quando as pessoas se esforçam para tirar o máximo de uma machine, eu tenho muitos equipamentos e muitas vezes pensei em colocar a maior parte deles na memória e ver o que acontece, mas em vez disso tento recriar, assim como fiz para este álbum Maya, tento fazer tudo o que posso em um sintetizador DX7, fazer o máximo de melodias possíveis e então talvez escolher um outro sintetizador analógico para fazer qualquer outra coisa que eu não possa fazer no DX7, me forçando a usar muito breakbeats ou usando apenas uma máquina de bateria por música, porque anos atrás passei por um período onde eu tocava 15 machine de bateria diferentes ao mesmo tempo, tirando um som de cada uma delas. 
 
Neste disco, foi muito mais inspirador pegar apenas uma machine de bateria por música e tirar o melhor dela, e com apenas uma machine fazer com que tivesse toda potência saindo dela para realmente ver a potência de uma machine e quais são suas capacidades ao invés de ter apenas um pouco de uma machine específica.

Como ouvinte acho que o som de apenas uma machine é mais excitante do que pegar pequenos tidbits de várias machines ou usar diferentes samplers e diferentes machines de um computador, e era exatamente o que estava fazendo antes, então, eu resolvi fazer uma configuração diferente em She Smiles Because She PressesTthe Button onde são apenas três ou quatro machines e eu não pudesse fazer overdubs com essa configuração. Eu gosto de trabalhar com limitações como essas, quer seja inspirado por Autechre ou dance mania, em contrapartida, ouvimos falar agora de Aphex que tem 10 estúdios em uma única casa, mas não deixa de ser uma ideia interessante, no meu estúdio eu tenho muitos equipamentos em um espaço bem pequeno, então para cada faixa eu tento apenas imaginar: “Eu estou bem, tenho só esses quatro equipamentos então vou fazer uma faixa a partir do nada, com apenas esses elementos”.


Como isso afetou o som de Maya? E como você descreveria o som de “Maya”, especialmente no que diz respeito aos seus outros discos de música eletrônica que, em sua maioria, saíram sob o pseudônimo de Trickfinger, sendo este é o primeiro álbum como John Frusciante desde o álbum de estúdio de 2014. Como você descreveria este álbum caso estivesse conversando com algum colega da música?

"Acho que definitivamente foi feito para ser um pouco inspirado no gênero de jungle de 1991 e 1996, mas não estou tentando recriá-los pois há pessoas excelentes que nos últimos anos que estão recriando o hardcore e o jungle, fazendo algo que está praticamente recriando e adicionando algum elemento e ideias extras que não existiam mas que na maioria das vezes ainda é baseado nesse modelo. Eu realmente gosto muito desse material, mas no meu caso, eu estava ouvindo esse estilo todos os dias quando eu estava fazendo Maya - tem break beat based music -, mas os elementos melódicos foram concebidos para ser apenas minha versão moderna das ideias básicas de jungle onde a bateria vai para um território muito mais abstrato, e foi muito mais moldado do que eles eram tecnicamente possível de na época, com os “sampler” que eles usavam era realmente limitado. Eu uso as machines que eles usavam na época, mas eu as uso mais para o som, faço a maior parte para moldar em um programa de computador onde eu posso fazer isso sem limites, é mais moldado, muitos dos meus amigos me contaram que consideram esse álbum ser jungle. no entanto, outros amigos consideram ser IDM.

Melodicamente sou inspirado por aquele senso de melodia mecânica que as pessoas que nunca aprenderam a tocar guitarra ou as que nunca aprenderam a tocar piano têm, e que estão nas coisas de Old Acid, ou Dance Mania, ou Autec, ou Richard D James - de quem eu sempre fui inspirado e aprendi gradualmente a alterar meu senso de melodia para fazer uma máquina mais melódica para escrever melodias que não poderiam vir de nada além de alguém apertando e girando botões e tirando a melodia dessa maneira, como fazer melodias em machine de bateria de maneiras diferentes. Há certos meios de fazer melodias onde nunca vai sair soando como uma expressiva melodia pop porque você está lutando muito para conseguir ser qualquer tipo de melodia, mas de muitas maneiras aquela sensibilidade pop que eu cresci cultivando e que levou um longo tempo para realmente tirar isso do meu sistema e chegar a um ponto em que eu pudesse fazer o que eu considero ser esse tipo mais frio de machine melodias que funcionam muito bem no contexto de sustentação da bateria em vez de ser o centro da faixa, levou um tempo para eu chegar ao ponto que de ser natural. Sobre aquele álbum I Care Because You Do do Aphex, eu estava muito interessado nele, só que pouco tempo depois ele ficou muito melódico e sofisticado, mais ou menos no mesmo nível do álbum do Richard D James, na progressão que ele estava quando na época do I Care Because You Do, eu realmente gostei das melodias gosto deles por terem aquela machine fria de qualidade, são belos e ao mesmo tempo há uma característica nele que eu descreveria como uma espécie de machine-não expressiva, achei muito inspirador quando estava fazendo este álbum porque é a maneira como eu tentei afunilar meu senso de melodia, Autechre são mestres desse tipo de melodia, acredito que eu tirei muita inspiração de pessoas do IDM quando se trata disso ou seja apenas cortando o beat."


É interessante pois estávamos falando um pouco sobre este disco antes de gravar, e você estava dizendo que muitos DJs estavam por perto como sua companheira Aura T-09 e também sua sócia na gravadora Evar Records, onde eles estavam procurando algo pra tocar, querendo fazer coisas que se encaixam nesse meio como algo que teoricamente poderia ser tocado como uma after party.

"Cerca de um ano antes de fazer Maya, eu estava evitando fazer coisas dançantes, eu estava apenas fazendo coisas abstratas e barulhentas, evitava qualquer coisa que seria atraente para qualquer um, estava somente programando e programando, mas logo após gravar as primeiras faixas que estão em Maya nosso amigo Wheezy começou a vir com mais frequência e nós sentávamos e ouvíamos jungle e discos de drum and bass a noite toda. Ele ficava me apresentando os primórdios do dubstep, ele tocava minhas músicas e de outros amigos como Stephen Francis, Marcy e de excelentes DJs que vinham à cidade para tocar. 

Começou cair a ficha quando eu via que as pessoas estavam gostando do que eu estava fazendo e isso começou a me inspirar, as pessoas estavam djing minhas coisas e isso gradualmente começou a se tornar o contexto no qual eu estava fazendo música mesmo não sendo um DJ. Comecei a viver com Aura T-09 e acompanhei de perto o progresso gradual dela como DJ ao longo dos anos. Tenho aquela ideia que um DJ tem que se garantir, que é uma das coisas principais da habilidade da música é manter a música sempre em movimento, não deixando ela cair, mas é claro que há picos e vales, mas no geral você continua seguindo em frente.

Às vezes estou consciente quando faço uma trilha de como ter um bom final para ser capaz de mixar como uma ideia interessante, mas tendo essa ideia incessante de seguir em frente, é uma forma que enxergo e que não teria sido capaz de pensar assim se eu fosse somente um guitarrista.

Ouvir música com DJs e fazê-los ouvir minha música, definitivamente teve um efeito gradual no que eu estava fazendo como estava fazendo e as considerações que eu dava, como, por exemplo, garantir que muitas músicas tivessem somente bateria e seções onde as músicas tivessem mais intervalos. 
 
Fui descobrindo que esse formato de dance music que eles geralmente têm intros e outros que eram para ser misturados dentro e fora, minha mente se abriu, pois eu tinha ouvido essa música eletrônica por um longo tempo e não havia percebido que essa era o motivo que tantas músicas terminam com um hi-hat, e uma melodia ou um começo com uma linha de baixo e um hi-hat, é tão interessante quanto qualquer tipo de forma clássica especialmente ou música pop, quando você começa a ver como uma parte de uma música tem potencial de interagir com uma parte de outra música, afetou definitivamente a forma que penso quando faço o que faço, especialmente, quando apenas tento fazer música que fosse uma explosão de energia sônica assim como a maioria das dance music que eu amo."


Interessante, como se eu estivesse começando a entender a tensão em seu processo criativo, como se duas forças aparentemente opostas se encontrassem e depois no meio disso você encontrasse um solo criativamente fértil baseado nesse conflito. É uma teoria, mas estou curioso para saber no que você pensa. Por exemplo, digamos que em Maya, você diz coisa do tipo “vou fazer seções só com baterias, minhas melodias vão ser frias e simples e basicamente apoiará as batidas”, mas no passado, junto com certos discos do Aphex, como você também ama Yes, e colaborou com pessoas como Omar Rodriguez-Lopez que estão claramente tentando canalizar essas coisas vinda do rock progressivo e fazer músicas que estão dentro do legado progressivo. Por outro lado, Richard D James tem feito coisas que são extremamente simples e poderiam presumivelmente ser...

"Squarepusher..."

Sim, Sim...

"Eu realmente gosto da maneira que a música dele entra fundo nesse território..."

Então existe esse conceito progressivo e também o de simplificar o máximo possível, parece que há essas duas forças opostas ou paradoxais e ambas te influenciam de maneira quase igual. 

"Muitas vezes na música é mais sobre o que você faz e não o que diz e na maioria das vezes é escolher as coisas que eu quero me deixar ser influenciado no que estou fazendo naquele momento e quais coisas não quero, mas isso não significa que vou conseguir bloqueá-las totalmente e no fim elas também acabam me influenciando. Por exemplo, quando eu estava fazendo Maya, eu praticava guitarra uma vez por semana e eu estava aprendendo nada menos que os solos de Charlie Christian durante o ano inteiro, para pessoas que não sabem quem ele é, basicamente foi a primeira pessoa que estava fazendo solos em uma guitarra elétrica em 1939 até 1941, seu principal período, ver o efeito que a eletricidade tem na guitarra foi da forma que eu olhei para isso. Mas eu não estava procurando fazer melodias ou músicas dessa época, mas, olhar como a primeira pessoa que está abrindo os ouvidos das pessoas para como a eletricidade pode se combinar com um instrumento para fazer novos tipos de melodias e coisas assim. Isso foi o que achei inspirador mas não há nada no álbum que eu diria que foi influenciado por isso, mas tenho certeza de que está lá em algum lugar, os primeiros cinco anos eu estava envolvido com machines como a 202 e a 303, especialmente com a 202, eu estava fazendo melodias muito extravagantes com muitas notas rápidas e estava usando toda a gama da machine e tudo isso e fazendo muita melodias bonitas e complexa, mas eu não faço mais. Eu tento deixá-los menos expressivo. Tem muita coisa que já está no meu sangue, como o blues ou o sentido clássico de melodia que vem do rock progressivo. São coisas que já não são mais parte da minha expressão mas que tenho certeza que estão ali presente, de alguma forma ou de outra."


Pra você, ainda é um disco emocional, apesar de tudo isso?

"Pra mim, o que importa na música definitivamente é o sentimento. Quando eu falo "frio", é porque eu gosto de um sentimento frio, não estou falando de falta de sentimento. Por exemplo, pessoas que só gostam de música pop ou de rock, elas se apegam a tipos específicos de sentimentos e acreditam que estes são os únicos sentimentos. Pra mim, existem vários sentimentos diferentes a se expressar. De várias formas, eu sou uma pessoa fria mas isso não significa que eu não sinta as coisas de forma mais profunda. Então de algum jeito, esses tipos de melodias refletem quem eu sou, de forma que talvez se eu compusesse melodias super expressivas, embora seja algo que eu tenha adquirido uma certa habilidade em fazer, talvez não fosse consistente com quem eu sou, como pessoa."

Por que é um disco de John Frusciante ao invés de um disco do Trickfinger?

"Bem, ao nomear o disco em homenagem a minha gata que eu sabia que estava morrendo, eu senti que colocar o nome John Frusciante parecia o certo a se fazer. E embora não tenha guitarra ou vocais, isto é o que se tornou minha forma natural de se expressar. Eu perdi o interesse em compor canções mais ou menos em 2009, 2010. Eu continuei compondo canções que surgiam de mim por alguns anos, mas em 2011 ou 2012 eu já não estava escrevendo mais nada. Eu passei por algumas fases diferentes, mas fazer música desta forma, gerando ideias com máquinas e samples e etc, é como eu me expresso agora e é quem eu sou. Não havia mais um motivo para se esconder atrás de um apelido. Isso de Trickfinger surgiu porque quando o lançamos, as músicas já tinham uns 7 ou 8 anos de idade, e achei que não deveria lançá-las sob o meu nome. Mas no caso desse álbum, são músicas novas. Eu também chamei músicas que são novas de Trickfinger, mas somente porque esse nome agora é associado à mim fazendo música eletrônica. No momento, não existe separação entre o que são as duas coisas. Eu não irei fazer um disco de rock, um disco onde eu toque guitarra e cante canções, nada do tipo. Eu como um artista de música eletrônica, não importa como me chamem, é o que vocês vão ter (risos)."


Sobre o EP Foregrow, que foi seu último lançamento oficial sob o nome de John Frusciante, lançado em 2016. Ele parece ser um meio termo.

"É, tem uma música com vocais nesse EP, e eu não sei o que falar sobre isso (risos). Aquilo foi gravado nos primeiros anos do meu desenvolvimento. Este álbum veio a existir durante um período em que eu não estava fazendo música nenhuma, ou quase nada. Eu tentei utilizar a técnica que eu tinha desenvolvido e concentrá-la o máximo em formas específicas de trabalhar. Meu pensamento nesse disco era "ok, voltei para onde eu queria estar no meu nível de habilidade de programar máquinas e etc, e irei gravar um disco que soe como algo que eu gostaria de escutar". Acho que nessa época, as gravações que eu fiz são feitas em máquinas eletrônicas, mas recebem influência óbvias de outras coisas além de música eletrônica, como jazz, heavy metal, pop, rap, e toda essa música clássica moderna. Em vários momentos eu combinei várias coisas em uma só. Na época, esta era forma de representação genuína de quem eu era, pois eu não havia me tornado completamente um artista de música eletrônica na minha maneira de pensar. Eu estava tentando fazer, em cada período de tempo, o que era mais natural para mim. Em um certo ponto, isso era fazer música que fosse uma combinação de todos os estilos musicais que me afetaram. E agora, eu cheguei a esse ponto que é como o de alguém que teria crescido fazendo música eletrônica. Eu enxergo o rock e o pop com uma visão de fora, eu olho pra isso e penso "o que posso samplear disso?" (risos), penso em qual desses discos poderiam dar um breakbeat legal. Faz muito tempo que eu não sento e escrevo uma letra, ou componho uma canção de forma convencional, que quando eu escuto uma música desse tipo é como se eu estivesse explorando uma memória. Mas a música que minha mente realmente se aprofunda, que eu me identifico, é um gênero ou outro de música eletrônica."

O que é que há no jungle, especificamente, que funciona tão bem com o seu modo de pensar?

"Pra mim é uma forma bem empolgante de dance music. Nesse período entre 1993 e 1995, as músicas eram tão não-repetitivas, e há tanta experimentação, é um período de muita descoberta, as pessoas não sabiam como aquilo deveria soar, não sabiam como aquilo deveria ser. As pessoas estavam num perpétuo sentimento de descoberta quando estavam fazendo aquilo. Onde tanta música dance é baseada na repetição, que eu acredito que tem seu próprio mérito em relação à habilidade de ser capaz de construir um beat legal de um compasso, uma melodia em um compasso ou em quatro, ou sei lá. Eu definitivamente vejo um grande valor na repetição, mas no jungle, você tem essas baterias que são quase como um baterista fazendo um solo, só que não é chato como um baterista de rock fazendo um solo porque isso mantém o beat guiando a música. É essa estranha combinação de solos de bateria com uma bateria pesada de funk em super hiper velocidade que eu acho infinitamente interessante. Eu tenho meus artistas favoritos de jungle, mas existem tantos outros músicos de jungle por aí além dessas pessoas. Com o rock, na visão de um colecionador, eu sinto que atingi um ponto de conclusão em que pensei "bem, já tenho tudo que é bom". No jungle e hardcore, eu sou um ávido colecionador mas sinto que ainda tenho muito a escutar até conseguir tudo apenas desse pequeno período de tempo entre 1993 e 1995. Tantas coisas boas e originais foram feitas nessa época. Eu acho que, de forma geral, outros estilos de música também passam por essa fase quando se iniciam, quando existe algo muito puro e empolgante naquilo e muitas novas ideias no ar durante esse período. Similar à metade da década de 60 para a guitarra elétrica, ou o final dos anos 50 para o rock and roll."


É interessante. O jornalista musical e escritor Simon Reynolds (ou talvez isso seja um conceito de Brian Eno) tem um conceito de "scenius" versus gênio...

"Ah sim, sobre o ambiente."

Isso. E tudo bem, existem os gênios solitários como Bjork ou alguém assim, que vive numa ilha isolada fazendo coisas malucas e tal. E também existe, por exemplo, o jungle de 1993, onde muitas pessoas estavam fazendo discos indispensáveis e faziam parte da cena, e esses artistas podem ter lançado apenas um disco de 12 polegadas de marca branca. E isso é tudo que você vai escutar dessa pessoa, mas que faz parte de um trabalho maior. Isso é algo que te atrai? Porque isso concorda com esse impulso inicial de descoberta.

"Sim. É algo interessante entre músicos, conforme você vai envelhecendo, essa faísca é o que você vai tentando manter. Seja tirando isso de, por exemplo, o cruzamento entre o garage do Reino Unido com o início do dubstep, quando ainda não o tinham chamado de dubstep... qualquer período que seja, tipo quando juke estava se tornando footwork ou sei lá. Todo período como esse, essa faísca, essa energia que essa música tem, isso é o que você tenta manter conforme envelhece, porque você não quer parecer que está se repetindo, que está fazendo música simplesmente porque é algo confortável. Você quer sentir que está descobrindo algo, que está entrando em um lugar novo, que está se desafiando e tudo isso. Então, esse é o tipo de música que eu acho mais inspirador para se fazer isso. Seja escutando blues americano do início dos anos 20 ou 30, ou footwork, é isso que eu tento trazer, esse é o espírito que eu quero que esteja na minha música."

É interessante trazer uma fala fácil de "scenius" versus gênio, essa ideia de gênio solitário, tipo Mágico de Oz ou algo assim...

"Me desculpe, eu acho que pulei essa parte da pergunta..."


Não, você chegou a falar sobre isso, mas eu fico muito curioso de saber um motivo específico. Acho que em 2015, 2016 e 2017, você falava "eu não tenho público, vou apenas lançar um monte de músicas..." mas obviamente, parece que hoje isso não é o caso. Você está lançando discos. Acho que isso vem do fato que você ainda pratica muito. Acho que a maioria dos produtores lança apenas 10% do que fazem, mas você tem um pensamento de "eu amo esse período onde eu não preciso pensar em como isso vai ser percebido, eu gosto de funcionar nessa zona onde eu não sei se alguém irá escutar isso..."

"Sim, definitivamente é parte do meu progresso ao longo desses 12 anos ou mais, e é algo incomum. Eu gravei mais de 30 horas de música com o Venetian Snares, que principalmente junto com nosso amigo Chris McDonald, eu sei que é a única pessoa entre os meus amigos que faria música comigo sem nenhuma preocupação de como ou se seria lançada ou não. E para muitas pessoas, isso significa que a música está sendo desperdiçada, e para mim era a música mais importante que eu fazia. Tudo que eu lançava eu enxergava como algo secundário, o meu foco principal era em Aaron e eu fazendo vôos diretos entre Winnipeg e Los Angeles e fazendo música juntos, às vezes por duas semanas direto. Isso era o meu principal trabalho, e nós dois nos víamos como estando dentro de uma bolha. Nós saíamos de casa pra comprar mantimentos, comida, cerveja, etc. Nós víamos outras pessoas e nos sentíamos como alienígenas, e todos os outros eram seres humanos normais (risos). Nós tínhamos horários de sono bem malucos. E isso tudo era parte do meu progresso, e além de um disco de 12 polegadas que lançamos, iremos lançar um material pela Evar que estava sendo mantido nos bastidores. Existe uma sensação que eu gosto, ou que nessa época me interessava, que era a de ser como um cientista num laboratório, fazendo música, e estar totalmente separado do resto do mundo e não deixando o resto do mundo te afetar, e principalmente vindo de um contexto de música pop, eu estava muito acostumado à essa ideia de que música é feita para um público, um público específico. Nessa época, em 2008, eu realmente precisava me afastar disso, e Aaron era a única pessoa com quem eu imaginava fazer isso junto, porque a maioria das pessoas deixa guardado o pensamento de "como isso vai ser lançado" em algum lugar na cabeça. Então estávamos fazendo músicas de meia hora e coisas assim, bastante desafiadoras, músicas que não se consegue definir estilisticamente. Estávamos nos esforçando ao extremo. E nós não enxergávamos essa música existindo dentro de um contexto social porque nós não nos apresentávamos, não havia um público, pelo menos não imaginávamos que havia portanto não tentávamos agradá-lo. Então eu diria que esses álbuns que lancei, como o PBX e o Enclosure, foram feitos com esse pensamento de "como seria se alguém estivesse trancado numa masmorra escura, apenas fazendo música, nos anos 50 mas com todo o avanço tecnológico atual, e tivesse referências musicais do futuro ou algo assim (risos), o que essa pessoa faria?". Era assim que eu enxergava esses discos. Eu não estava tentando fazer algo que depois eu apresentaria num palco, ou que eu achasse que agradaria um público de rock ou de música eletrônica, eu realmente só tentei fazer música que fosse totalmente separada da intenção de agradar um público musical. E isso é o que era importante pra mim na época. Nas músicas novas que eu fiz, definitivamente eu tentei fazer algo "bom", com um padrão de qualidade que eu percebo existir dentro do que acho que seria chamado de cena underground de DJ's, que é o ambiente social em que Aura T-09 e eu existimos, então eu tentei fazer música que seja boa à um padrão específico. Eu não havia tentado fazer isso antes desse ano, eu não me lembro de tentar fazer isso talvez desde o The Empyrean ou o Stadium Arcadium, discos que eu fiz há mais de 10 anos onde eu realmente tive a intenção de fazer algo que fosse considerado bom a um padrão de qualidade específico. Dessa vez, é um padrão onde não existe a expectativa de vender milhões de discos (risos), mas é um padrão de qualidade ainda assim."


Você falou um pouco do seu ambiente social com a Aura T-09, com quem você criou um selo, o Evar, que é uma plataforma para novos artistas. Parece que um material do Speed Dealer Moms será lançado. Você também vê isso como uma forma de se envolver mais na carreira e na criatividade dessas pessoas que estão ao seu redor?

"Sim, existem muitos grandes artistas no underground que nem sempre tem a oportunidade de lançar músicas que pertençam à um lado de si mesmo que seja menos baseado em algum estilo específico, porque muitos selos estão procurando por estilos específicos de música. E às vezes os artistas... por exemplo o... eu não sei se devo... Nós temos planos para 7 discos no momento, mas ainda não começamos o processo de lançá-los. Mas pessoas como Limewax, por exemplo: ele é conhecido pelo sei estilo intenso de drum and bass, mas ele também faz ótimas músicas ambiente, ótimas músicas hard techno, músicas IDM estilo Autechre. Ele tem muitos lados, e acho que uma das ideias iniciais que nos motivou a criar a nossa própria gravadora foi a que poderíamos lançar discos de pessoas que possam ser conhecidas por um tipo de coisa, e que possam fazer essa outra coisa que também fazem muito bem mas que ainda não foi lançada nesse estilo porque seus públicos estão em outra área. Nós sentimos que havia espaço para um novo selo, e é a mesma coisa para novos artistas. Nós temos alguns jovens artistas que ainda estão lançando suas carreiras como DJ's e que estão recebendo uma boa resposta por um certo estilo de música, mas que também fazem... por exemplo, uma pessoa está recebendo uma boa resposta do público fazendo uma música techno, mas que também sabe fazer excelentes drum and bass. Isso não é o foco dessa pessoa por enquanto, mas suas músicas são muito boas. E também tem Aura T-09 e eu. Nós temos gostos diferentes, mas que se cruzam bastante, e estamos tentando obter uma certa quantidade de músicas que estejam nessa área onde nossos gostos se encontram. E também existem outras coisas que podem ser mais do meu gosto, e outras que podem ser mais do gosto dela. Mas sim, até agora está parecendo que será um selo bastante único."

Para artistas como você, que se recusam a ser criativamente classificados ou algo assim, encorajarem essa ideia.

"Acho que sim, acho que essa é uma das ideias básicas. Ao mesmo tempo, podemos lançar alguma coisa que seja o trabalho principal de algum artista, algo pelo que ele seja mais conhecido ou algo assim. Não temos limitações sobre o que estamos interessados em lançar além de ser algo que achamos ser bom."


Como se fosse Richard D. James saindo daquele cofre de banco em que ele supostamente viveu e de repente ele dissesse: “É, agora vou sair e vou interagir com as coisas que não eram interessante para mim em 2010 ou 2012”. Talvez isso também tenha a ver com fato de você ter voltando para banda, e as coisas que você disse como: “Os últimos álbuns que fizemos juntos significava muito para as pessoas e isso era importante para mim, como se ressoassem com muitas pessoas, e eu me importo com isso.

"Sim, isso é muito impressionante para mim, e como as músicas que fiz com a banda continuam a significar tanto para as pessoas. Na época que eu estive na banda, você via muitos meios de marketing e de propaganda em todos os lugares que te fazia pensar, eu não sabia diferenciar o que era meu talento e o que era marketing e propaganda, eu não sabia dizer a diferença, para mim, isso parecia fabricado e eu não poderia receber créditos por essa popularidade porque há tantos outros fatores que fazia ser o que é, no entanto, há algo na música que faz as pessoas ainda gostarem de ouvir canções que você fez 30 anos atrás, você não consegue chegar nesse nível só se promovendo, você não compra, ou gasta todo seu dinheiro para fazer isso acontecer, isso é um tipo de transferência de energia de um ser humano para outro para outro humano ou um ser humano ou quatro seres humanos para muitos seres humanos, como se fosse algum tipo de milagre ou algo assim, não é algo que eu possa atribuir ao marketing.

São poucas bandas daquela época, bandas como Jane's Addiction, quando eles estavam tocando, a energia que eu sentia naqueles shows, isso mostrava a magia do ambiente, assim como os Chili Peppers antes de eu entrar para banda, todos sentiam que eles estavam no melhor lugar que poderiam estar, como se fosse algo tão emocionante e mágico, e não há como fazer as pessoas sentirem em retrospecto como foi isso, como era de qualidade que fazia o ar parecer tão denso naqueles ambientes, hoje só o que temos são registros e como eles sobreviveram a isso. No nosso caso, na minha opinião, muito dessa magia da banda havia desaparecido quando eu entrei, contudo, no que diz respeito ao que criamos nos álbuns acabou tendo seu próprio tipo de magia criando sua conexão com o público por um tempo duradouro, impactante e emocionante, e eu levo isso em consideração. 
 
Fazia um bom tempo que eu não escutava as músicas, mas de uns anos pra cá, comecei a ouvir cada uma delas novamente e fui impactado. Ouvi nossas músicas de uma forma diferente, agora, depois de todos esses anos sem ser compositor e a guitarra não sendo a forma de me expressar, eu ouvi as músicas de uma maneira que eu não teria sido capaz se eu estivesse na banda todo esse tempo, apenas ouvi, eu ouvi claramente pela primeira vez, e eu ouvi não como um membro, mas como alguém de fora, e amei cada parte, antes, eu estava tão inserido no que eu estava fazendo que não era capaz de enxergar o que havia de diferente, estranho e incomum nisso, eu pensava que estava fazendo algo muito normal e agora quando as escuto consigo enxergar suas formas estranhas incomuns e excepcionais que não conseguia ver quando eu as estava fazendo.

O fato de que havia uma chance de trabalhar com essas mesmas pessoas que eu tinha algum tipo de magia dada por Deus, foi emocionante, assim como fazer música eletrônica eu tenho tantas maneiras diferentes de criar ideias musicais, perspectiva sobre engenharia que eu não tinha na época. Porque foi só há uns 12 anos que aprendi engenheira musical e existe muita coisa nova para aplicar. Está mais do que provado que trabalhar com eles é realmente interessante e eficiente."


Umas das melhores potencialidades de ser envolvido na música é a ideia de ser capaz de sair de você mesmo e participar de algo, se comprometer com algo que é maior do que você.

"Sim, é um certo tipo de desafio como tentar fazer música que seja específica para um público que vai achar ela boa. Para mim parece que o Rock está morrendo já tem um tempo e agora está dando seu último suspiro. E me parece ser um desafio interessante tentar fazer boa música com algumas ideias que ninguém pensou ainda. Pois da perspectiva das pessoas você pode pensar que quando uma música está morrendo é porque todas a suas possibilidades foram exploradas e exauridas, eu não penso assim sobre qualquer estilo de música. Eu sinto que você ainda poderia sair com uma boa música de blues assim como um grande estilo de rock dos anos 1950. Especialmente no meu ponto de vista eu vejo que há muita coisa que posso fazer com ideias básicas de jungle que soa novo e fresco, e com a banda é a mesma coisa.

Sou um grande colecionador de álbuns de soul de funk e outras coisas dos anos 1960 e 1970 e nós temos nosso próprio meio de nos aproximar desses estilos, é algo que eu só posso fazer com esses caras, como Flea toca baixo combina com meu jeito de tocar, foi o que me fez querer voltar a tocar guitarra. Eu realmente não teria muito interesse se não fosse por isso, pois se eu escrever um conjunto de progressões de acordes, eu consigo ouvir como ele toca baixo, ele tem esse jeito de tocar algo que está escrito, mas também é improvisado ao mesmo tempo que é infinitamente divertido de ouvir nos ensaios, eu não acho que teria isso com algum outro baixista, é só nossos estilos que foram feitos para complementar o estilo um do outro, como se fosse dado por Deus. Eu não espero ter isso com qualquer outro baixista. Então sim, todas essas coisas contribuíram na minha decisão de aceitar o convite para voltar pra banda."


Eu realmente agradeço você comentar sobre a evolução do seu processo criativo e como se relaciona com um estudo rigoroso trancando-se com o intuito de estar em um estado perpétuo de descoberta e também por voltar a interagir mais com os outros.

"Sim, obrigado. Naquela época eu tinha uma necessidade muito forte de tentar bloquear o conceito de público, pois assim eu poderia manter minha criatividade fresca. E então em um certo ponto se continuasse desse jeito teria sido mais um pretexto ao invés encarar como um desafio. Agora eu sou capaz de entender o conceito de ser parte de um grupo."

Muito obrigado John realmente agradeço sua fala.

"Obrigado."




Tradução: Jonathan Paes e Pedro Tavares
Fonte: RA Exchange - 25 de setembro de 2020

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