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12 de abril de 2022

De volta ao Chili Peppers e com um novo plano - Abril de 2022


John Frusciante de volta ao Chili Peppers e com um novo plano

"Eu quero ser a ponte entre Eddie Van Halen & Kurt Cobain!"

Tradução: Amanda Colombo - RHCP Brasil

Após sair do Red Hot Chili Peppers, John Frusciante se manteve em forma tocando solos de jazz e aprendendo progressões de acorde de rock progressivo.

Agora, de volta a banda, ele foi ainda mais a fundo no treino musical e artístico inspirado no blues elétrico e no rock dos anos 50. Além disso, ele está muito feliz em juntar o grupo novamente. “É um sentimento mágico”, diz ele.

No fim das contas foi uma razão simples que levou John Frusciante a voltar para o Red Hot Chili Peppers.

“Eu queria muito esse desafio de trabalhar numa banda democrática”, diz ele, “com pessoas que respeito e tenho uma química. Eu senti que para seguir em frente em espírito e como ser humano, eu precisava aceitar esse desafio. Eu senti que seria bom para mim tentar trabalhar de forma harmoniosa com eles, e não ser o meu ego a me levar adiante, mas ter amor e respeito por eles. Esse era o objetivo: tentar ser parte de um todo.”

Frusciante conversa com a Total Guitar direto de sua casa em Los Angeles, a cidade onde o Red Hot Chili Peppers se formou em 1983. Com o seu cabelo longo solto debaixo de uma touca de lã, barba por fazer, usando óculos tortoise pretos e seu físico magro vestindo uma camiseta larga amarela, o guitarrista tem a mesma aparência de 16 anos atrás, quando  o álbum duplo Stadium Arcadium conquistou a posição número um nos Estados Unidos. Porém, John deixou a banda logo em seguida – essa foi a segunda vez, ele também deixou a banda em 1992, ambas as saídas causadas pelo seu incômodo com as pressões da fama.

Após sua saída em 2009, os Chili Peppers seguiram em frente no lançamento de dois álbuns com outro guitarrista talentoso, Josh Klinghoffer. Enquanto isso, Frusciante foi em busca do seu amor pela música eletrônica e módulos sintetizadores, em um empenho de compor músicas diferentes das quais ele ficou famoso com a banda, e com aspirações totalmente pessoais e não-comerciais.

Então foi uma surpresa quando os Chili Peppers publicaram uma nota na rede social no fim de 2019 anunciando a volta de Frusciante, e com isso, o potencial para um novo álbum – o primeiro com John desde Stadium Arcadium. Os frutos do trabalho deles, Unlimited Love, diante do reencontro com o grande produtor Rick Rubin , apresentando 17 faixas que engloba a gama de influências, de um funk animado ao rock progressivo e punk hardcore. Em suma, a química entre John, o baixista Flea, o baterista Chad Smith e o vocalista Anthony Kiedis ressurgiu intacto, uma formação musical inabalada durante os mais de dez anos de pausa e ainda um surto pandêmico.

Claramente há muito a ser dito e o John está com vontade de conversar, tanto que o papo com a Total Guitar se prolongou além dos 45 minutos alinhados para mais de duas horas. Ele adora falar sobre os assuntos mais profundos – a arte de fazer música, o equipamento que utiliza, a ansiedade de retornar aos palcos. Ele também abre o jogo sobre o motivo de sair da banda mais dez anos atrás, e o que eventualmente o trouxe volta para o seus irmãos de música.

“Eu refleti muito sobre os motivos pelos quais saí da banda da última vez e dos quais eu não tinha cabeça para pensar sobre naquela época” ele disse, “Eu não quero viver nesse mundo de fama e publicidade; eu só quero focar em produzir música eletrônica e fazer música apenas por fazer, sem fazer música para agradar as pessoas ou ficar famoso. E isso era exatamente o que eu precisava naquele momento”

“Mas eu olhei para trás e percebi que em alguns problemas entre eu e os outros membros da banda, eu consegui enxergar o meu lado da coisa mais do que eu conseguia em 2009. E apesar de acreditar que ninguém é culpado quando alguém sai da banda, eu amadureci o suficiente como pessoa para ver o meu lado, ao invés de me fazer de vítima.”

Um novo começo

É difícil estimar o impacto que John Frusciante teve em gerações de guitarristas. Com as suas linhas esparsas e emotivas no álbum de referência dos Chili Peppers de 1991, Blood Sugar Sex Magik, ele apresentou ao jovens guitarristas dos anos 90 uma tênue e empolgante mistura de funk e post-punk. E na sua segunda fase com a banda, um período de 3 álbuns diversificados, expansivos e bem vendidos – Californication, By The Way e Stadium Arcadium – ele manteve texturas audaciosas e solos de guitarra no topo das paradas de rock, numa época em que o pop-punk e o nu-metal dominavam as rádios.

Para essa terceira fase, a banda reunida deu seus primeiros passos na sala de ensaios. Ao invés de começar a compor logo de cara, eles tocaram músicas dos primeiros álbuns dos Chili Peppers – lançados quando John era apenas um fã da banda – na tentativa de se reconectar com a raiz do grupo. Enquanto isso, integrantes da banda sugeriram covers de faixas clássicas – Some Other Guy de Richie Barret, Trash de New York Dolls, Hot Little Mama de Johnny Watson e Waterloo Sunset de The Kinks, todas foram tocadas – o que gerou uma dose nova de energia nos ensaios.

“Eu não queria me sentir pressionado a compor porque isso me deixaria sobrecarregado” se lembra John. “Então durante um mês ou dois, nós estávamos apenas tocando música de outras pessoas e as mais antigas dos Chili Peppers. Foi muito divertido. E felizmente essa animação se manteve conosco durante todo o processo de composição, mesmo após essa fase ser substituída pelos ensaios diários e a empolgação das novas coisas que estávamos criando, ou as jams que estavam virando músicas.”

E acredite, eles criaram muitas músicas. Quando a banda chegou ao estúdio de Rubin, Shangri-la, em 2021, eles tinham 45 faixas prontas mais 3 adicionais escritas durante as sessões. Todas elas foram gravadas, deixando material mais do que suficiente para um novo álbum. “Eu definitivamente sinto que nós guardamos algumas das melhores para um potencial próximo álbum”, brinca John. Mas ele acrescenta que nunca teve intenção de escrever tantas músicas.

“Eu estava pronto para parar quando tínhamos 20 – era o suficiente para mim” ele ri. “Mas uma coisa levou a outra alguém me incentivou a continuar compondo. Então quando nos demos conta, nós tínhamos mais músicas do que algum dia criamos para um único álbum.”

Para a sua parte, John teve que reajustar sua forma de tocar para compor rock novamente. Durante sua selvageria com a música eletrônica, toda vez que tinha uma guitarra no colo estava mais apreciando música do que compondo. Ele aprendeu todos os solos do ícone do jazz, Charlie Christian e se inspirou nas progressões de acorde de álbuns memoráveis dos anos 70 através da lenda do rock progressivo, Genesis. Isso o ajudou a se reconectar com seu amor pelo instrumento.

“Eu desenvolvi um verdadeira relação de fã com os diferentes gêneros do rock, sem que tenha a ver com a minha identidade” explica ele. “Então quando eu voltei a tocar na banda, eu sabia que afetaria minha composição”

Portanto, o guitarrista teve uma visão de onde queria levar suas composições e isso remontou a ele voltar para as raízes do gênero.

Conforme ele explica; “Eu queria focar onde eu enxergava ser o início do rock na história – o rock ‘n’ roll do fim dos anos 50 e o blues elétrico que se originou durante os anos 40 e 50. Eu queria imaginar que fosse um cara surgindo na mesma época dos Beatles, ou Cream ou Jimi Hendrix e poder visualizar; “O que eu teria feito para aprimorar aquela fundação? Eu sinto que como já estou voltando a compor rock, vamos até a raíz dele”

“Eu passei tanto tempo com outros álbuns, focando especialmente no Jimmy Page, Jimi Hendrix e Cream. Ao invés de fazer tudo isso de novo, eu pensei “Vamos focar no Elvis, Clarence Gatemouth Brown, Freddie e Albert King, Buddy Holly, Gene Vincent e Ricky Nelson – e então, ok, como eu vou tentar criar algo além disso?”

Aqueles planos mudariam de forma assim que John começassem a trabalhar com a banda. Para se aquecer antes da gravação todo dia, ele tocava os álbuns clássicos de Jeff Beck, Truth, Blow by Blow e Wired. Mas ele também estava se reemergindo na visão de textura de John McGeoch da Siouxsie and the Banshees, assim como os riffs abrasivos de Greg Ginn do Black Flag. Sua perspectiva se tornou uma consolidação de todas as influências, com uma pequena parcela de ícones da guitarra dos anos 80 para compor o cenário.

“Eu adoro guitarristas como Randy Rhoads e Eddie Van Halen pelo jeito como conseguem fazer o instrumento explodir na mão através de técnicas com a alavanca” ele diz, “Mas eu também gosto muito do jeito que pessoas como Greg Ginn e Kurt Cobain tocam sem ser algo técnico – ainda que hajam muitas técnicas não convencionais ali – mas o foco é definitivamente em algo mais visceral. No fim das contas, enquanto estávamos gravando, meu objetivo era encontrar uma ponte entre esses dois conceitos do instrumento: a ideia de fazer ele explodir com eletricidade da energia humana que vem das cordas. E também utilizando todo o instrumento em termos de tipos de técnicas que, enquanto Eddie Van Halen e Randy Rhoads desenvolveram muito nelas, eu vejo como algo enraizado no que Jeff Beck fez em Blow by Blow e Wired.”

Alongando

Por fim, Unlimited Love se tornou uma destilação dos ícones da guitarra que Frusciante empregou no bombástico Stadium Arcadium, em conjunto com o som ambiente encontrado nos momentos mais experimentais de By The Way, tudo isso enquanto incorporava uma influência punk mais aberta. A ampla gama de sua abordagem se extende do rock alternativo de Black Summer até o acalorado funk de Poster Child e o hardcore feroz de These Are The Ways, que oferece os riffs mais pesados do álbum – apesar do conceito dessa faixa ser muito diferente do monstro do rock em que ela se tornou no álbum.

“Antes de eu compor These Are The Ways, eu estava tocando o álbum Propaganda de Sparks” ele recorda, “Eu estava impressionado em como as progressões de acorde pareciam simples e imaginativas. Mas assim que eu trouxe isso para a banda, nós transformamos em um trabalho pesado onde a bateria vai de Keith Moon ao Black Sabbath e Metallica. O final parece speed metal para mim. Com a força da banda, ela realmente se tornou algo a mais.”

Uma outra abordagem diferente de estilo apareceu em White Braids & Pillow Chair, um acorde de meio tempo que termina em um completo rockabilly excitante. Foi uma das primeiras músicas que John trouxe e uma de suas favoritas pelo jeito que “mistura algumas coisas importantes para mim”, incorporando uma progressão vocal inspirada no tecladista do Genesis, Tony Banks com o final de um estilo do início dos anos 60.

A abordagem mais estrutural de John, em contrapartida, surge gradualmente no groove de Not The One e It’s Only Natural, que combinam o padrão gótico de seis cordas dos anos 80  com técnicas inspiradas por ícones da guitarra. A inspiração prévia no controle de volume impecável de Adrian Belew e Eddie Van Halen veio de encontro com expansivos delays digitais. Esse último apresentando um leve delay reverso – característico dos anos 80 – em seu solo psicodélico, mas a atmosfera simples dos versos fez John se voltar novamente a Jeff Beck como inspiração.

“Parece que tem um eco em It’s Only Natural” diz ele, “Mas eu estou fazendo isso com as minhas mãos. Não é um eco. Sou com minha mão direita sendo apenas intenso, intenso, intenso, suave, suave, suave, suave. Eu estive fazendo muito isso porque em Blow By Blow de Jeff Becks tem uma música chamada Constipated Duck, e eu acho que ele provavelmente tinha um eco na guitarra, mas para tocar com isso você precisa fazer: tocar alto, suave, suave, suave, suave, para ficar em sintonia com a gravação. O Flea teve a ideia de It’s Only Natural no piano. E quando ele foi para o baixo, eu imaginei ser legal se eu tentasse fazer isso como faço em Constipated Duck, mas tornando isso parte da música.”

Velhos Amigos

Enquanto John buscava novas bases em Unlimited Love com sua composição e filosofia técnica, seu estilo instrumental característico viu ele se reunir com ferramentais familiares que ele usou para gravar seu nome no coração de milhares de jovens guitarristas.

“A principal guitarra que toquei foi a minha Stratocaster de 1962, que é a mesma que tive quando voltei para a banda em 1998” diz ele sobre sua guitarra mais usada, e que ainda possui as marcas na madeira, mas agora com um sistema de cancelamento de ruído ILITCH. “Em 1998 eu não tinha dinheiro para uma Stratocaster, eu disse a eles que tudo o que tinha era uma Fender Jaguar e achava que devia ter uma Strat para a banda soar como deveria. Anthony e eu fomos ao Guitar Center e ele me emprestou dinheiro para comprar uma Strat e essa foi a que me chamou a atenção assim que vi na parede. E desde então eu tive muitas outras Strats – todas geralmente da mesma época  – e essa que encontrei naquele dia nunca mais achei outra melhor.”

Outras antigas famosas também fizeram uma aparição: sua Strat de madeira maple de 1955 – das quais seus captadores Seymour Duncans foram recentemente substituidos por outro mais forte e mais adequado, cortesia do criador senior de guitarras Fender, Paul Waller – assim como sua Strat Fiesta vermelha de 1961 e mais uma ou duas Jaguar. Os acústicos – como os da eletro-folk Bastards of Light e a delicada Tangelo – eram todos Martin: dois modelos de mogno 0-15, uma Dreadnought D-28 e uma uma de 12 cordas. Mas houve novas adições ao Chili Peppers também, através de uma Yamaha SG do fim dos anos 70/começo dos anos 80. Esses potentes captadores se tornaram o principal parceiro de John em seu tempo longe da banda, mas se provaram ser as guitarras perfeitas para sobreposições durante os momentos mais pesados do álbum.

Ele explica: “Quando há uma seção pesada com acordes distorcidos e esse tipo de coisa, na maior parte do tempo a Strat era o que eu tocava na faixa demo, mas em conjunto com a Yamaha SG diretamente para a Marshall sem distorção de pedal nem nada disso, só fazendo a distorção no amplificador. Na maior parte do tempo é a Yamaha no alto falante da esquerda, por exemplo, e a Strat Fender através do pedal de distorção na direita. E ainda há toques suaves onde está a SG.”

E se tratando de amplificador, o Marshall Silver Jubilee e backing do guitarrista dos Chili Peppers em seus maiores shows foram tirados do baú e da aposentadoria para a expansão da sonoridade, enquanto que uma Roland Jazz Chorus foi usada em algumas sobreposições. Mas a leitura que John fez no isolamento também o inspirou a buscar uma clássica (Strat de 1962) – que tinha uma conexão inesperada com a banda.

“Eu também tive uma Ampeg B-15” ele revela. “Eu amava o som e a engenharia de Greg Sage do Wipers. Ele tem um dos melhores sons de guitarra já gravados. Ele disse que para ele o B-15 era o melhor amplificador já feito. Então eu comprei um quando gravamos o álbum para ter uma diferença de sonoridade em certos momentos. Quando eu comprei, Flea deu uma olhada e disse ‘Esse é o mesmo amplificador que meu padrasto usava!’ O padrasto dele tocava baixo e contrabaixo e era o que ele usava no contrabaixo. Foi uma coincidência engraçada.”

Mas seria o Marshall que iria estruturar alguns dos pontos mais fortes do álbum, em particular esse feedback visceral e intenso dos solos de The Great Apes e The Heavy Wing.

“O feedback é uma das melhores partes de se fazer música para mim” ele frisa. “A abordagem é sobre o volume, ter os quatro gabinetes dos dois amplificadores ligados ao mesmo tempo e ir descobrindo as diferentes formas de compor, onde o feedback vai ser bom, e ficar andando de lá para cá enquanto toco os solos e recebo os diferentes feedbacks. E sendo extremamento barulhento – tanto que se eu não tivesse meus fones, eu não conseguiria ficar de pé ali. Os fones eram a única coisa impedindo que meus ouvidos estourassem.”

A intensidade significava que enquanto a maioria do ritmo das faixas foi gravada ao vivo no estúdio, John foi forçado a gravar a maioria dos seus solos como sobreposições para evitar que os amplificadores ressoassem muito forte na som da bateria. Mas essas gravações da banda foram de encontro ao som mais profundo e exemplar do guitarrista, fazendo apenas um ajuste significativo na Strat e nos amplificadores em comparação com outros álbuns dos Chili Peppers.

“Os captadores do braço estão em praticamente tudo” ele revela. “Durante um tempo, como em By The Way ou Californication, eu estive usando mais o captador da ponte. Então eu percebi quando estávamos gravando, meu agudo estava em 3 nos dois Marshalls – nos tempos antigos, meu agudo estava sempre em 0.”


Como resultado, o guitarrista ainda está aprendendo com sua pedaleira para os próximos shows dos Chili Peppers e desejando um pedal EQ para equalizar seus agudos nos captadores da ponte e do braço. Naturalmente, o estúdio estava preparado para experimentar diferente efeitos: modular e os racks de estúdio tinham maior uso, em conjunto com pedais mais convencionais.

“Eu definitivamente usei mais delays nesse álbum do que em qualquer outro” diz ele, “Principalmente por eu estar inspirado pela música dos anos 50 – coisas como Gene Vincent ou Elvis, onde na maior parte do tempo, há um eco de delay , não só na guitarra, mas também na bateria, no vocal, no baixo e em tudo. Então eu tive alguns: um MXR analógico, um DeltaLab Effectron II digital. Alguém sugeriu que eu pegasse um desses delay de fita que estão fazendo agora, o Fulltone Tube Tape Echo. Essa é última coisa que você consegue ouvir no álbum no final de Tangelo, quando do nada começa um delay e se transforma em um tipo de feedback e depois é apenas barulho.”

Uma nova descoberta foi o Boss SD-1 Super Overdrive para um som mais estruturado do que agressivo, assim como o MXR Super Badass Variac Fuzz para solos mais complexos e sobreposições substanciais. Mas ainda é uma incógnita quais estarão com eles na estrada e se a pedaleira do John vai alcançar a grandeza de Slane Castle.

“Eu nunca usei muitos” ele ri ao mencionar a quantidade pedaleiras que ele tinha durante o famoso show de 2003. “Na maior parte do tempo, um pedal era para apenas uma música em particular então eu precisava tê-lo ali caso nós tocássemos aquela música. E também porque de um longo período de turnê, às vezes eu fica entediado com o mesmo som toda noite. Eu gosto de ter pedais que estão ali só para eu fazer algo diferente se sentir vontade.”

Around The World”

Claro que haverão muitas oportunidades para John se aperfeiçoar na próxima turnê mundial dos Chili Peppers. Como é esperado, a setlist provavelmente terá os maiores hits dele com a banda, assim como muito material novo. Durante a entrevista com a Total Guitar, a banda estava exclusivamente ensaiando as 48 faixas que compuseram para esse álbum e para um outro futuramente. Enquanto que a chance de ouvir Unlimited Love e outros materiais ainda a serem lançados seja excitante para os fãs, John ressalta o quanto está gostando de revisitar as antigas e acrescentar algumas mudanças improvisadas.

“É muito bom tocar as músicas antigas de novo” ele diz, “ Houve um sentimento mágico quando voltamos nesse material. E você sabe que eu gosto de improvisar no palco, então eu estou ansioso para tocar e criar solos diferentes a cada dia. Existe essa reciprocidade com o público quando a energia dele e a pressão de estar tocando para eles e não ser capaz de começar a música do zero, isso cria algo em você como um músico que não é possível recriar como um simples guitarrista gravando num estúdio sozinho, como eu era no passado.”

“Estou ansioso para tocar sob essa pressão e me deixar levar por qualquer espírito que estiver conosco no momento, e tentar alcançar esse sentimento que é gerado entre a banda e o público” ele pausa, “Sabe…eu não toco para um público há cerca de 12 anos. Então é tão novidade para mim quanto compor rock foi quando eu voltei para a banda.”

Ainda assim, Frusciante mais do que se estabeleceu em seu papel antigo, é como se ele nunca tivesse saído. E apesar de trazer consigo novas técnicas de um ponto de vista de engenharia – citando suas explorações com delay reverso e sobreposição e guitarra modular – é descobrindo essa conexão da música crua e o simples prazer de tocar com músicos que pensam da mesma forma, foi o que manteve as coisas excitantes e frescas. No geral isso define um cenário otimista da terceira fase de John com o Red Hot Chili Peppers.

“Existe uma apreciação dessa química que não posso dizer que tive nos meus últimos momentos com banda da última vez” ele admite, “Uma apreciação do que realmente somos capazes – quando você se acostuma com algo, você geralmente não valoriza.

Em muitos momentos eu estive fazendo música do jeito que eu queria e isso foi ótimo. E eu continuo fazendo isso. Mas pareceu ser uma boa decisão para mim como ser humano tentar tocar com a banda de novo. Mais do que tudo, eu me divirto tocando com eles”.

I Like Dirt



John apresenta um guia dos elementos-chave de sua atual pedaleira, cheia de pedais usados no novo álbum dos Chili, Unlimited Love.

Ibanez WH10 e BOSS CE-1 CHORUS ESEMBLE

“Eu usei muito das mesmas coisas – o mesmo pedal wah wah Ibanez, o antigo. E o mesmo pedal Boss, o Chorus Esemble”

BOSS DS-2 TURBO DISTORTION e SD-1 SUPER OVERDRIVE

“Normalmente eu usaria o DS-2. Mas eu também usei o SD-1 – é menos distorcido. Não é uma distorção extrema, mas te proporciona um som poderoso.”

MXR SUPER BADASS VARIAC FUZZ e CUSTOM BADASS ’78 DISTORTION

“Houve muito uso do MXR no álbum. Me deram um monte de pedais. Eu utilizei bastante o som distorcido deles, não apenas nos solos. E um pedal de distorção deles também.”

MXR REVERBS

“Ele esteve ligado quase o tempo todo nos ensaios – o álbum engloba a reverberação real do estúdio. É uma das coisas que eu agreguei como engenheiro – Eu não acho que era muito consciente do som na sala, mas agora ele é muito importante para mim para me dar um senso de espaço. É bem sutil. É um som bem curto, mas eu gosto de ouvir a guitarra assim. O outro pedal serviu para uma reverberação mais longa.”

MXR DYNA COMP

“Às vezes o Dyna Comp era exatamente o que eu precisava em termos de obter a quantidade exata de sustentação. Eu amo o Dyna Comp desde pequeno. Eu era um grande fã de Adrian Belew quando jovem e ele tinha um desse ligado o tempo todo no ínicio dos anos 80.”

“Realmente não importa quanta técnica você tem”

John Frusciante compartilha suas lições aprendidas ao longo de uma carreira marcante na guitarra – e revela suas dicas de como se tornar o guitarrista que você sempre quis ser…

Nunca pare de se esforçar

Nos primeiros anos com os Chili Peppers, eu não estava exatamente no caminho certo. Eu pensei que poderia ser como o Flea que, naquela época, costumava ensair meia hora por dia, e em alguns dias nem ensaiava. E toda vez que ele pegava o baixo, algo incrível saía disso. E então quando eu entrei na banda, eu pensei “Eu posso ser assim!”. E no fim das conta, eu não posso ser assim – se eu tivesse feito isso, não teria criado nada original, eu não me sentiria bem com o que criei, eu não me divirtiria no palco, eu não conseguiria compor músicas ou alcançar o nível de criatividade dele. Para eu ser igual ao Flea, eu preciso me esforçar vinte vezes mais. Eu preciso tocar música de outras pessoas o tempo todo, eu preciso estar escrevendo mais ideias do que eu compartilho com os outros. Eu preciso lutar para entender coisas que não compreendo, e que talvez nunca vá compreender.

Não mude quem você é

Quando eu tinha 18 anos, e no começo dos meus 19 anos, eu estava tentando impressionar, porque eu conseguia tocar músicas complexas ou porque conseguia ser intenso. Isso nunca mudou, mas eu reconheci bem rápido que eu não poderia confiar na habilidade de ser intenso e na minha técnica – a música não significa nada para as pessoas a menos que você esteja entregando algo de si e se colocando numa posição vulnerável. Não é para tentar mostrar às pessoas “Olhe como eu sou bom!”, mas para entregar às pessoas um pedaço do seu coração. Isso me ocorreu bem na época que iniciamos a turnê do álbum Mother’s Milk em 1989. Eu percebi que se continuasse do mesmo jeito, eu nunca estaria feliz com nada do que fizesse, então eu preciso me livrar das ideias do que eu acredito ser bom e tentar ser eu mesmo, descobrir o que isso significa – e parar de tentar ser o que eu acho que as pessoas querem que eu seja ou o que eu acho que os Chili devem ser. Eu preciso tentar descobrir: “Quem sou eu?”

Não tente impressionar

Geralmente quando eu me livro dessas ideias de tentar ser “bom” ou tentar impressionar as pessoas, algo que não posso explicar surge da minha alma quando toco – e as pessoas começaram a gostar muito mais do meu estilo nesse momento; eu comecei a significar algo para as pessoas. Foi uma decisão difícil porque eu parei de me importar: Eu vou ser apenas eu mesmo, não importa o que aconteça, eu vou parar de tentar impressionar. E foi exatamente isso que fez as pessoas começarem a gostar do que eu estava fazendo.

Se mantenha simples e seus colegas banda vão brilhar

Quando eu comecei a tirar todas essas ideias imaturas da minha cabeça e comecei a simplificar tudo e tocar com o coração ao invés de tentar deixar as pessoas impressionadas, o Flea começou a soar muito melhor. Eu percebi isso indo ao ensaio e utilizando um feedback ou segurando uma nota por um tempo, ao invés de tocar. Eu percebi que isso fazia o Flea soar de forma incrível! Eu vi como isso afetou a química na banda e também fez os outros soarem melhor porque eu estava dando a eles o quadro para pintarem, ao invés de passar por cima e pintar eu mesmo. Eu pensei “Eu vou deixar eles fazerem tudo e apenas oferecer uma atmosfera para fazer isso” e eu vi que isso teve um bom resultado em todos.

O verdadeiro talento de um guitarrista está na sua relação com a banda

As pessoas costumam pensar que o talento de um guitarrista vem da habilidade de chamar a atenção. E há ótimos guitarristas que também são bons em chamar a atenção. Mas para mim, a parte fundamental que eles possuem, – que outras pessoas que não chama a atenção, como Bernard Summer do Joy Division ou o Syd Barret, ou Johnny Thunders ou Matthew Ashman do Bow Wow Wow, ou John McGeoth do Siouxsie and The Banshees – o que eles tem em comum com Eddie Van Halen e Randy Rhoads, e Jimi Hendrix é que eles sabiam como ser um integrante de uma banda e fazer todos os outros soarem melhor.Eles sabiam trabalhar em equipe.

“Sim, Eddie Van Halen tinha um estilo glamuroso, mas ele era um ótimo guitarrista e ele fez com que a bateria soasse ótima. Ele fez o baixo ficar ótimo. Ele fez o vocalista ficar ótimo. Para mim não importa realmente quanta técnica você possui, o verdadeiro talento de ser um guitarrista é fazer o resto da banda soar bem. E para algumas pessoas, isso é sobre quem você é como pessoa. Para outras isso significa tocar de forma impecável também. Já para outras pessoas isso significa não fazer nenhum solo, um tipo bem simples de solo. Eu sinto que é através disso que eu mensuro o talento de um guitarrista: em como ele contribui com o resto da banda para criar um bom som juntos. Uma banda de rock não é sobre quatro pessoas em sua bolha individual;  uma banda de rock são três ou quatro ou cinco pessoas que criam música juntas. E o talento de cada um pode ser julgado por como ele está soando – e não pelo que ele está fazendo individualmente, ou pelo que parece ser ou se é difícil ou não fisicamente. Eu percebi isso quando tinha 19 anos, vinte anos e nunca mudou.

Melhore sua dinâmica

Utilizando sotaques ou não, eu acredito ser essa a coisa mais importante em termos de soar expressivo como guitarrista. Isso é algo do qual você não tem controle quando começar a tocar e você pensa “O que faz essas pessoas nesses discos soarem tão melhor que eu se eu estou tocando a mesma coisa?” São os sotaques e tudo o mais no meio disso. Minha rotina de ensaio tem tudo a ver com tocar em escalas de formas diferentes, alternando com sotaques. Eu estou sempre extremamente ciente disso – Estou muito focado na ideia geral do volume que sai quando tocamos notas de forma mais intensa e mais rápida, ou mais suave e devagar.

Desligue sua mente e sinta a química

Quando você desliga sua mente (enquanto toca) é quando percebe coisas engraçadas acontecendo – como por exemplo quando o Flea e eu tocamos o mesmo riff ao mesmo tempo sem que tivéssemos tocado antes nenhuma vez. É muito melhor desligar sua mente e só ouvir e sentir qualquer sentimento que os outros estão te proporcionando. É muito importante escutar os outros, mas você também deve estar estar gostando do que sai do seu instrumento. E isso é outra coisa que eu gosto sobre o feedback; você não sabe o que vai acontecer depois. Você ouve o que sai do alto falante e toca com aquilo.

“Às vezes alguns guitarristas, especialmente quando estão preocupados se o que vai sair deles é algo bom ou não, se apressam antes das notas saírem. E eu sei que é algo natural de acontecer, do jeito que nossa mente é presa no momento presente. Mas se você não consegue se desligar e ouvir o que aconteceu e responder à isso, não importa o quanto você precise se atrasar para isso, eu ainda sinto que esse é o melhor e mais produtivo ângulo de se ouvir. Porque se você se preocupa com o que vai acontecer antes de acontecer, você pode perder o barco todo, mas se você prestar atenção no que acabou de acontecer e como isso interfere no todo, isso se torna um processo regenerativo.

Do mesmo jeito que o feedback é algo que, ao mesmo tempo em que está vindo de você, também volta para você, eu sinto que é do mesmo jeito com qualquer instrumento: toque algumas notas e espere cinco segundos antes de tocar mais. Sinta como isso afeta os outros instrumentos e depois toque qualquer coisa que vier de você sem pensar duas vezes. Essa foi uma das várias maneiras em que meu pensamento mudou, quando eu senti que havia encontrado meu estilo: antes disso, eu ficava preso naquele momento antes de começar a tocar. E depois disso eu me encontrei mais habituado no momento após ter tocado algo.

John Frusciante lista os quatro novos guitarristas que moldaram seu estilo

Enquanto que no seu período afastado do Red Hot Chili Peppers, John Frusciante escutava mais música eletrônica, nas gravações de Unlimited Love ele começou a buscar novas abordagens de guitarristas de rock. Por fim, ele estava gravitando num estilo que ele chama de “música moderna e psicodélica da Califórnia”.

“Eles pegam uma parte do progressivo e levam a uma direção diferente” ele diz, “É muito prazeroso para mim ouvir pessoas tocando rock sem tentar criar um hit ou algo popular.

Eles meio que jogam essa ideia pela janela e só querem fazer música que seja divertida. E eu sinto esse espírito divertido na música.”

A partir disso, John compartilha suas opiniões sobre quatro dos seus guitarristas contemporâneos favoritos, todos os quais levam a guitarra a perspectivas novas e excitantes.

TY SEGALL

“Ty Segall é um grande músico. Um dos meus álbuns favoritos dele, o Twins, é simplesmente ele tocando tudo. Manipulator é outro dos meus favoritos. Eu amo o seu estilo porque ele se envolve e coloca sua energia e magnetismo nisso. Ele é muito bom em fazer o instrumento e a amplificação responderem aos seus sentimentos – você nunca sabe como vai soar depois. Seu estilo tem aquele tom de indiferença que só é alcançado pelas pessoas intensas de alma que, quando não estão nem aí, você consegue ouvir convicção e sinceridade. Através dessa indiferença dele, o que acontece é que ele se importa muito.

JOHN DWYER – Osees

“John Dwyer é um grande líder e conceitualista. Todos os álbuns deles são tão únicos – alguns dos meus favoritos são Protean Threat, Orc e Smote Reverser. Eu adoro a direção em que ele está levando a música – eles continuam mudando e amadurecendo de formas inesperadas. Existe um senso de humor na música deles – o que é uma emoção rara – mas também há uma sensação de conforto e frieza. É lindo quando a música junta contradições como essa.

Ele é bem criativo na guitarra, ele usa o espaço vertical e horizontal de forma incrível e sua guitarra contribui para o cenário geral da banda, o que significa que ele consegue se expressar muito tocando pouco. Parece que ele se importa mais com a afirmação geral da banda do que em se destacar. E ele é outra dessas pessoas em que a energia é como um trem expresso no instrumento.”

CORY HANSON – Wand

“Eu fico tão feliz que Cory Hanson exista. O que ele faz é exatamente o que eu quero ouvir do instrumento. Ele tem uma abordagem artística em conjunto com emoção – é um equilíbrio perfeito. E ele é um ótimo vocalista e compositor também. Ele realmente se coloca de forma emotiva e embarca em viagens criativas em diversar direções. Meus álbuns preferidos deles são provavelmente Perfume, Plum e Golem. Os solos são tão criativos e cativantes – ele sabe como fazer o instrumento falar mesmo que o tom seja alto ou baixo.Eu amo quando a música entrega vulnerabilidade que faz você sentir que tem ali um amigo. Ele é uma dessas pessoas que pode ser tão poderosa criando música acústica quanto eletrônica.”

ZACH IRONS – Irontom

“Zach Irons é muito criativo e pouco ortodóxo. Ele está sempre encontrando novas maneiras de abordagem: técnicas com as mãos que eu nunca vi antes e formas de usar efeitos únicos. Ele está tão profundamente enraizado na essência do rock que ele está encontrando novas maneiras de manter esse sentimento ao mesmto tempo em muda completamente o uso do instrumento.Ultimamente, ele vem recriando seu estilo, eu só sei disso porque somos amigos – a primeira vez que tocamos juntos ele tinha 17 anos, era ele, seu pai (o baterista original do RHCP) Jack Irons, o  Flea e eu. Nós tocamos todo o álbum Presence do Led Zeppelin – foi muito divertido. Desde então somos próximos. Nós nos entendemos e nos apoiamos de uma forma única. Ele nasceu no dia do aniversário do Hillel Slovak (guitarrista original do RHCP), o que é algo doido.”

Tradução: Amanda Colombo - RHCP Brasil

29 de março de 2022

Banda lança teaser de "These Are The Ways" que terá atuação do quarteto


O Red Hot Chili Peppers irá liberar às 01:00 (GMT -3) da sexta-feira (01/04) "These Are The Ways" junto ao videoclipe da música - com a direção de Malia James - que ganhou um teaser no final da tarde de hoje. O trecho publicado pela banda mostra uma perseguição policial a Anthony Kiedis e a uma atriz que interpretará uma mulher grávida com quem o cantor tem um relacionamento no enredo. Na prévia do vídeo, John Frusciante pode ser visto descendo uma escada aos flashs de câmeras, Flea está com a sua esposa Melody e Chad Smith aparece sentado a mesa com sua família - além da presença de outros atores na trama.



28 de março de 2022

"These Are The Ways" será lançada na madrugada de sexta-feira (01/04)


O Red Hot Chili Peppers irá libera às 01:00 (GMT -3) da sexta-feira (01/04) "These Are The Ways" junto ao videoclipe da música - às 21:00 do dia 31 de março em Los Angeles no Horário do Pacífico (PT). Na imagem postada pela banda, atribui a direção a Malia James e faz acreditar que o vídeo terá Anthony Kiedis como o ator principal e a trama envolverá romance, discussão com uma parceira atriz e ação policial - com a banda tocando a música em outros takes.





21 de março de 2022

Red Hot Chili Peppers ganhará uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood


O Red Hot Chili Peppers irá receber uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood no próximo dia 31 de março, às 15:30 pelo horário de Brasília (GMT -3). Além dos membros da banda, participarão da cerimônia George Clinton, Bob Forrest, Woody Harrelson e a apresentadora Nicole Mihalka, presidente do conselho da Câmara de Comércio de Hollywood.


Fonte: Variety

4 de março de 2022

Red Hot Chili Peppers lançam "Poster Child" com videoclipe psicodélico


"Poster Child", o segundo single de Unlimited Love do Red Hot Chili Peppers, foi lançada hoje pela banda. A música conta com um videoclipe psicodélico produzido pela dupla Julien Calemard, Thami Nabil e animado com a ajuda de Hedi Nabil - e publicado até então apenas no Facebook da banda. Na letra da canção, Anthony Kiedis cita diversas grupos, músicos, artistas e políticos, e a banda foca em um funk descontraído com John Frusciante usando um pedal de wah-wah por quase toda a linha principal de guitarra.





 

2 de março de 2022

"Precisamos falar sobre John" - Março de 2022


CLASSIC ROCK: "PRECISAMOS FALAR SOBRE JOHN" - A VERDADE SOBRE A REUNIÃO MAIS SURPREENDENTE DESTE ANO! 


Com o guitarrista "entra e sai" John Frusciante e o produtor "toque de midas" Rick Rubin de volta para seu novo album, os Red Hot Chili Peppers acreditam que eles redescobriram a sua veia mais quente. 

Era quase o final de 2019 quando a conversa aconteceu. O baixista do Red Hot Chili Peppers Flea estava em casa com seu ex-companheiro de banda John Frusciante, o prodígio-filho guitarrista que havia deixado a banda a 10 anos atrás pela segunda vez. A saída de Frusciante foi dolorosa, claro, mas realmente necessária para os dois e ambos haviam mantido algum contato esporádico.


“Estávamos apenas falando merda, conversando, comendo”, Flea conta sobre aquela noite. “Nós nunca realmente conversamos sobre a separação. Em um determinado momento, minha esposa e a namorada dele estavam em outro quarto e nós estávamos sozinhos então eu disse: ‘John, às vezes eu sinto muita falta de tocar com você’. E eu comecei a chorar quando eu disse isso...”.

“...Então ele olhou para mim e eu vi as lágrimas nos olhos dele,” ele continua. “E ele disse: ‘Eu também sinto falta’. Teve apenas este momento, mas, neste momento eu me lembro de ter pensado ‘Cara... quem sabe...”.

Aquele momento foi o ponto da virada. Pelo final do ano, Frusciante – o guitarrista que tocou nos discos de maior sucesso dos Chili Peppers – era um membro da banda pela terceira vez, substituindo seu substituto, Josh Klinghoffer.


O retorno de Frusciante é mais do que a última reviravolta em um, as vezes, inflamável drama musical que já tem quase 40 anos. É a restauração de uma fórmula química finamente balanceada que alimenta uma das bandas de rock mais bem sucedida, inovadora e às vezes mal-entendida. Os Red Hot Chili Peppers fez grandes álbuns sem John Frusciante na banda mas, fizeram seus melhores álbuns com ele.
“Se um membro da família perdido a tempos volta e diz: ‘Hey, eu quero voltar à família”, você fica sem opções.” diz o frontman Anthony Kiedis. “Você não pode dizer não”.

Estamos no início de 2022 e o reconstituído Red Hot Chili Peppers estão se preparando para lançar seu vigésimo álbum, Unlimited Love. É um título bem Chili Peppers, parcialmente por que exala exatamente o tipo de vibe que eles sempre cultivaram e, parcialmente por que parece ser uma referência ao Love Unlimited, antigos backing vocals da “alma titânica” Barry White nos anos 1970.

“Não é”, Kiedis diz naturalmente sobre a última. Ele diz ser parte da letra de uma música nova “She’s a Lover”, que o produtor de Unlimited Love e antigo colaborador Rick Rubin escolheu. “Eu tentei lutar contra isso – ‘Eu meio que gosto destes outros títulos que eu tenho’, ele diz, “Mas foi escolhido pela voto da maioria. Tudo bem, eu tenho fé no grupo”.


Unlimited Love é um grande álbum de uma banda cuja grandeza contínua nem sempre é bem apreciada. Claro, os Chili Peppers tem sido massivamente populares pelos últimos 30 anos: Blood Sugar Sex Magik de 1991 e Californication de 1999 venderam 15 milhões de cópias cada e músicas como "Give it Away", "Scar Tissue" e a meia culpa junkie de Kiedis "Under the Bridge" estão entranhadas no DNS do rock moderno. Mas para alguns, existe uma parte dos Chili Peppers que terão meias esportivas penduradas em seus pintos ou, estarem escrevendo no deserto pintados com tinta prata.

Na realidade, os Red Hot Chili Peppers ficaram melhores e certamente, mais interessantes com a idade. O modo punk alimentado pela corrente funk dos seus primeiros álbuns era excitante e uma quebra das regras (nenhuma outra banda soava como eles quando começaram em 1983 mas, um série delas o fez até o final daquela década). Mas a música que eles fizeram neste milênio tem sido complexa e única, abrangendo várias linhas entre rock, funk, pop, psicodelia e diversos outros estilos e sons. Nenhum dos Chili Peppers é preguiçoso musicalmente, mas com o Frusciante eles tiveram o um dos melhores e mais inovador guitarrista dos últimos 30 anos.

“Eu nunca encontrei ninguém como John”, diz o baterista e residente “roqueiro clássico” Chad Smith que, como o Frusciante, se juntou aos Chilis para gravar o álbum Mother’s Milk de 1989. “Ele é uma pessoa dedicada. Está cem por cento em qualquer coisa que esteja fazendo. É contagiante. Faz você querer fazer o seu melhor também”.



O que Flea não sabia quando ele e Frusciante tiveram seu pequeno momento juntos na casa do baixista é que ele não era o único imaginando como seria se tocassem junto novamente. A banda havia iniciado a composição de músicas para o novo álbum com Josh Klinghoffer mas, Kiedis sentiu que algo não estava certo. “Senti que havíamos perdido um pouco daquele 'olho do tigre' quando chegamos na urgência de fazer músicas e alinhar nossos corações”, ele diz. “Havíamos perdido alguns degraus”.

Na próxima vez em que Kiedis e Flea se encontraram, Kiedis estava pensando se era o momento de entrar em contato com o Frusciante.



“Flea, eu preciso te contar algo, e isto tem estado na minha mente”, ele disse ao baixista. 

“Não, não, eu tenho que te dizer algo que está na minha cabeça”, disse Flea. “É sobre o John...”.

[...]

Quando eu perguntei para o Frusciante por que ele saiu pela segunda vez ele hesita antes de responder. A resposta dele, quando veio, é honesta porém diplomática. Mas então durante a noite eu recebi um e-mail perguntando se ele poderia esclarecer alguns pontos.



Sua resposta seguinte foi longa e detalhada porém bem clara e, antes de qualquer coisa, ainda mais reveladora do que a resposta original. Nele, ele fala sobre como ele “se desestabilizou mentalmente durante os últimos anos de tour que fizemos”, parcialmente como um resultado, ele explica, do esforço em mixar o Stadium Arcadium. “Quando entramos em turnê, tínhamos acabado de masterizar no dia anterior e eu podia realmente ter descansado um pouco”.

Em outro ponto ele escreve sobre o interesse equivalente dele sobre o ocultismo. “Conforme a turnê seguiu, eu me aprofundei no ocultismo, o que se tornou uma maneira de escapar do modo de pensar da vida em turnê O ocultismo tende a exacerbar tudo o que você é e eu era uma bagunça não balanceada”.

Quando a turnê terminou, ele diz, ele entendeu que precisava “simplificar minha relação com a vida e a música. Meu ego se tornou algo muito grande além do o que eu expressava como um guitarrista”. Então ele passou a fazer e tocar música eletrônica, para um gerar um “novo começo”.

  

A impressão é de um homem que estava sentindo a pressão da responsabilidade – para com seus amigos de banda, com os fãs mas, principalmente, consigo mesmo. “Claro, haviam problemas interpessoais dentro do grupo”, ele conclui, “mas estes poderiam ter sido facilmente resolvidos, se não fosse pelo fato de eu estar completamente cansado e desbalanceado”.

O resto da banda não se mostrou surpresa quando ele informou que gostaria de sair.



“John estava muito certo de que não queria mais fazer isso”, conta Kiedis. “Então, quando ele contou para Flea e para mim, não houve aquele momento em que nós diríamos ‘ahh... para com isso, a gente consegue resolver isso’. Nós estávamos mais para ‘Nós entendemos, é óbvio que não é onde você quer estar’. Eu diria ‘alívio foi provavelmente a melhor palavra descritiva para todos nós, incluindo John”.

Apesar da luta árdua que eles enfrentaram para preencher a vaga do Frusciante nos primeiros momentos, os Chilis tinham um substituto pronto em Josh Klinghoffer. Quase duas décadas mais novo que o resto da banda, havia trabalhado como técnico de guitarra de John e tocou como um músico de apoio no Stadium Arcadium assim como, apareceu em vários álbuns solo lançados pelo Frusciante durante sua segunda passagem pela banda.



Os dois álbuns feitos com Josh Klinghoffer – I’m With You e The Getaway – mantiveram a veia criativa em alta. Mas quando começaram a trabalhar nos materiais para seu décimo primeiro álbum, algo parecia errado. As partes não estavam encaixando como deveriam. Foi quando Flea disse a Kiedis que ele havia conversado com Frusciante e, que ele achava que o guitarrista estava pronto para ser um Red Hot Chili Pepper mais uma vez.

“Eu tenho que te dizer algo que está na minha cabeça e é sobre John...”. A conversa entre ele e Kiedis que ocorreu no quase no final de 2019 foi o ponto de virada que traria os Chili Peppers para o lugar onde estão agora.

“Era apenas um momento bizarro no tempo onde John, que havia se divorciado dos Red Hot Chili Peppers por tanto tempo, isolado em algum lugar no seu próprio mundo estava tendo o mesmo pensamento que Flea e eu estávamos tendo, no mesmo momento” disse Kiedis.

  

“Não era algo completamente fácil – existia uma variedade de emoções envolvidas e uma montes de “bagagem histórica” para processar. Frusciante havia passado a última década fazendo música eletrônica. ‘Tudo o que eu queria era fazer música em máquinas onde eu pudesse fazer a coisa toda sozinho sem ter que passar por discussões com alguém’ ele diz. Ele ainda tocava guitarra, mas ele não havia escrito nenhuma música rock de verdade em anos e se perguntava se ainda conseguiria fazê-lo (acontece que ele podia: a primeira música que ele trouxe era o poderoso primeiro single de Unlimited Love, Black Summer).”

“Havia ainda a questão do Klinghoffer. Flea o convidou para sua casa para uma reunião da banda onde foi informado que Frusciante estava voltando. “Eu bati meu carro na garagem, eu estava tão assustado sobre isso” Flea conta sobre a reunião. “Veja, Josh é uma pessoa incrível. Ele foi útil para mim pessoalmente, como uma pessoa em quem eu podia contar quando estava sofrendo e chorando na estrada. Ele foi ótimo, ele contribuiu, ele é uma pessoa incrível. Mas nós tínhamos uma linguagem com John que havíamos desenvolvido quando éramos muito mais jovens”.

Klinghoffer depois revelou que sua demissão foi “como a morte” apesar de parecer que não há nenhuma mágoa remanescente. Kiedis tem falado com ele desde a sua saída e Klinghoffer toca com Chad Smith na banda solo do Eddie Vedder. Ele também toca com o Pearl Jam (“Uma banda que ele amava mais que tudo” de acordo com Kiedis) como guitarrista de turnê.



Ainda assim em última análise, era algo que não precisava se pensar muito à respeito e as coisas se moveram rápido. Frusciante levou algumas semanas para pensar se ele realmente gostaria de fazer isso, decidiu que queria, e então lá estava ele (apesar de existirem algumas condições que ele não divulgará). Ele conta que eles se reencontraram musicalmente tocando/improvisando com as músicas antigas dos Chili Peppers de antes da entrada dele e de Chad na banda. Eles também conta que fizeram covers de alguns blues antigos de Freddie King e John Mayall, e músicas clássicas dos The Kinks, the Beach Boys, até dos Bee Gees. “Eu não achava que seria bom, após dez anos sem tocarmos juntos, ir direto escrevendo a frio”, diz Frusciante.

A pandemia se provou frutífera, permitindo a banda mais tempo e privacidade que o normal para trabalhar em Unlimited Love com o produtor Rick Rubin, que ele mesmo estava retornando ao time RHCP depois de ter ficado de fora em The Getaway. Como todos os seus melhores álbuns, o resultado é reconhecível como um álbum dos Chili Peppers sem soar como nenhum outro álbum dos Chili Peppers feito antes. Até mesmo – especialmente – os que fizeram com Frusciante.

  

"John é o melhor músico com quem eu já toquei”, diz Flea. “Em tudo desde os pequenos detalhes até a visão global. Seu relacionamento com a música é tão puro e possui tanta integridade e conhecimento e trabalho e prática. Toda nota que ele toca nasce deste imenso coração. É tão lindo”.

Você fala isso para ele?

“Nem fodendo” Flea bufa. “Eu não falo isso para ele!”.



Então aqui estamos de novo. O complexo e perpétuo sistema que é o Red Hot Chili Peppers está em movimento mais uma vez. Como em 1999, sentimos completos mais uma vez. Mas claro, existe um elefante no quarto. Frusciante deixou a banda duas vezes antes. Parece um pouco de grosseria de levantar o assunto, mas, precisa ser perguntado: eles estão preocupados se ele poderia fazer isso uma terceira vez?

Não, diz Kiedis, honestamente não é algo que passou pela minha cabeça. Não, diz Flea, eles estão vivendo o momento, as coisas estão ótimas, por que eles considerariam isso? Mais uma vez, Frusciante toma seu tempo para responder à pergunta, depois novos e-mails e novas respostas pensativas.



“Não existe uma maneira de enxergar o futuro”, ele diz, antes de explicar que ninguém pediu nenhum tipo de garantia em nenhum das vezes em que ele retornou. Claro, ele comenta, se as coisas se tornarem “tóxicas e pouco saudáveis e que não exista uma maneira concebível de resolvê-las” então ele provavelmente sairia – ninguém quer fazer os outros fazerem algo que não queriam. Então ele chega no ponto sobre o relacionamento, não só entre os Chilis e Frusciante, mas, também sobre os Chilis e entre cada um deles.

“A beleza de tocar com esta banda é que nós realmente amamos nos ouvir”, diz Frusciante. “Eu amo ouvir a maneira como eles me fazem soar. Nós temos um efeito químico entre nós. Trazemos para fora coisas de cada um de nós que não podemos trazer sozinhos. A maneira como eu toco guitarra com eles é um estilo que eu não consigo tocar quando estou sozinho. A chance de fazer outro álbum como este significou tudo para mim. Estamos apenas todos felizes por isto estar ocorrendo agora. Nossos corações estão nisto e então nos parece correto”.



O RETORNO DE RICK RUBIN

“O sentimento na sala quando Flea, John e Chad tocam juntos é transcendental” conta Rick Rubin, o produtor de Unlimited Love, para a Classic Rock sobre a banda com quem trabalhou, dentro e fora (maior parte das vezes dentro), desde 1991. “Então, quando Anthony canta eles se tornam os Chili Peppers. As altas musicais que eles são capazes de canalizar em uma base regular é, em outras palavras, um caso genuíno de ingredientes batendo em algo muito maior que a soma das suas partes. E as partes são as melhores que conseguimos”.

John Frusciante não é a única pessoa que retornou aos Chili Peppers para Unlimited Love. A outra é Rubin, que cedeu a produção para Danger Mouse no álbum anterior de 2016, The Getaway, muito pelo pedido do então guitarrista Josh Klinghoffer.

“Rick é um membro da família”, diz Anthony Kiedis. “Eu não sabia o quanto eu sentiria falta dele até o dia em que decidimos fazer um álbum sem ele. Como uma força energética, como uma força dinâmica e como uma força misteriosa, sua ausência foi sentida”.



Rubin era bem sucedido antes de se ligar aos Chilis, tendo trabalhando com pessoas como Run DMC, Slayer, The Cult e, mais notavelmente, os Beastie Boys, que venderam mais de 10 milhões de cópias do seu primeiro album Licensed to Ill. Mas Blood Sugar Sex Magik foi um experiência mutuamente benéfica, chutando a carreira dos Chili Peppers para a estratosfera e estabelecendo Rubin como um dos gurus sônicos da era moderna.

“Ninguém é capaz de ouvir da mesma maneira que ele consegue ouvir”, diz Kiedis. “Ele sentou lá e deixou a gente tocar toda aquela música, e ele ouviu e ele sorriu e ele deus umas voltas. Era tipo: ‘Okay, estamos de volta. Agora nós temos a força de Rick Rubin no nosso time’”.


Tradução: Claudio Sampaio
Fonte: Classic Rock - Março de 2022

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