8 de abril de 2017

Uma tarde com John Frusciante - Meados de 2001


Entrevista com John Frusciante feita por Nacho Recio no Chateau Marmont Hotel, em Hollywood, em 2001.


Sendo ainda um adolescente, John se muda de New York para Hollywood para ficar perto de sua banda amada, os Red Hot Chili Peppers. Sua vida havia começado...

"Eu costumava ver os Chili Peppers em 1986, 1987, quando eu tinha 16 ou 17 anos."

John conhece os Chili Peppers.

"Eu conheci Flea através de um amigo meu, D.H. Flea pensava em me introduzir no RHCP para substituir Hillel. Contrataram Blackbyrd McKnight. Foi uma decisão do grupo contratá-lo, sendo que Flea era a única pessoa da banda que sabia como eu tocava, e ele não tentou convencê-los sobre mim porque ele também gostava de ter Blackbyrd. Mas ainda assim, acho que ele sempre pensava em mim.

Enquanto isso, o Thelonious Monster precisava de um guitarrista. Na hora Flea me chamou e disse que Bob estava querendo um guitarrista. E ele disse á Bob: “Você será o primeiro a dizer se John é bom.”

Pertenci ao Thelonious Monster por apenas algumas horas, antes dos Chili Peppers decidirem tirar Blackbyrd e me admitirem na banda."

Enfim, seu sonho se torna realidade. John começa a tocar com o Red Hot Chili Peppers.

"Quando entrei no Red Hot Chili Peppers, Anthony e Flea poderiam ter me dito: “Escuta, nós somos nós, e você será apenas um guitarrista.”. Então nunca poderíamos fazer um álbum como Blood Sugar ou Californication se tivessem me dito isto. Em vez disso, me disseram: “Você é igual a nós, ainda que nós estejamos tocando a 5 anos e você acabou de entrar na banda, suas idéias não são menos importantes que as nossas.”. Conseqüentemente, temos uma relação que cresce musicalmente."

Depois da criação de Mother’s Milk (1989) e Blood Sugar Sex Magik (1991), John deixa o Red Hot Chili Peppers. A fama havia arruinado a magia da banda. Ele embarca em seu primeiro álbum solo, Niandra Lades And Usually Just A T-Shirt (1994).

"Minha namorada Toni estava fazendo um filme que escreveu quando estava numa turnê comigo na época do Blood Sugar Sex Magik. Líamos muito sobre Marcel Duchamp, e ela teria uma idéia de um filme baseado no que havia inspirado suas idéias. A capa do álbum é capturada do filme.

O CD era mais largo do que podia ser naquela época, então tive que deixar de colocar algumas coisas nele, por exemplo, a música Smile From Streets You Hold, que originalmente era do Niandra Lades. Outras foram duas músicas que fiz com River Phoenix, e outra foi Ants.

Os títulos para esse álbum eram muito arbitrários, eu não tinha títulos, então eu escrevi muito rápido. E nessa época eu estava tão desconectado com a música, e quando as pessoas me falam sobre os títulos, parecem tão distantes da música que representam, porque na hora de escrever os títulos, eu não tinha escrito a música para salvar minha vida.

As músicas de Usually Just A T-Shirt, a razão de não terem títulos foi que eu não podia pensar em títulos parar as musicas porque nesse momento eu me encontrava no mesmo ânimo artístico de quando escrevi as canções, ou porque pintava em vez de fazer música.

Parei de tocar passando a maioria do tempo pintando ou desenhando, mas sempre nessa atmosfera artística que me rodeava."

Smile From Streets You Hold (1997) seria seu segundo álbum solo. Neste trabalho começa a se perceber o uso abusivo de drogas por John.

"Muitas de minhas fitas se perderam quando deixei a casa que vivia, porque o dono da casa ameaçou de levar a polícia lá, assim saí e deixei minhas merdas lá. Um amigo meu foi recolher tudo pra mim. Mas todas as minhas fitas, masters e materiais estavam num armário, e ele não se deu conta de que estavam lá e eu que não lembrei de dizer pra ele pegar aquilo. Assim, a maioria das minhas gravações da adolescência se perdeu ou foram queimadas. Mas tem 3 musicas como A Fall Thru The Ground, muito boas, o melhor que eu fiz com 17 anos."

Durante esse período de tempo, John não se limitou a fazer apenas seus álbuns solos. Se destacam suas participações em discos de outras bandas e filmes.

"Esse filme foi feito antes de eu pensar em lançar minhas musicas. (“Stuff”, um filme de Johnny Depp filmado na antiga casa de John) Naquela época, eu costumava tocar minhas musicas para o pessoal e quando me perguntavam se eu iria lançá-las, eu dizia que não.

Eu morava numa casa em que eu havia pintado toda a parede e o chão. Havia muita atividade naquela casa, atividade fantasma, ocorriam coisas inexplicáveis. (Colaborou com “Ants” em um filme de Perry Farrel) Estava gravando no meu gravador de quatro pistas o que seria meu primeiro álbum solo, quando fui ver Porno For Pyros. Eu, mais uns amigos loucos fomos lá e Kurt Cobain estava abrindo o show com um violão, então fui até Perry e falei: “Tenho músicas que combinam com seu filme.”, porque eu já tinha visto um trailer. “Você precisa de mais músicas pro seu filme?”, e ele disse: “Bem, vamos editá-la quarta feira em algum lugar do St. Mônica Boulevard e acho que termos espaço pra sua música.”. Fui lá no dia com minha música numa fita e combinava perfeitamente com o filme, então Perry me chamou e me perguntou: “Ela tem um nome?” E eu disse que não e ele me sugeriu Ants, e eu disse que poderia ser.

Bob queria que eu tocasse com o Thelonious Monster. Não tivemos tempo para ensaiar e não é bom sair em uma turnê tendo ensaiado duas ou três vezes. E minha namorada queria de todo jeito ir junto, porque estava farta de me ver louco com minha musica, fumando maconha, usando speedballs, então eu fui.

Os ônibus das turnês ia completamente cheio e as pessoas eram divertidíssimas...Eu costumava me sentar na parte de trás com um integrante do Fishbone e víamos filmes pornôs com anôes, caras transando com bananas...Oh meu Deus!



John beira a morte em 1996, devido ao consumo de drogas. Seu corpo tinha apenas 12% do sangue que deveria ter. Uma época obscura da vida de John. Porém musicalmente perfeita.

"O primeiro show solo que fiz foi no Viper Room, durou só um minuto, foi a noite em que River Phoenix morreu. Toquei a música Life Is A Bath, era a primeira vez que fazia um show sozinho, toquei a música Life Is A Bath e vomitei sobre o meu amigo Gibby Haynes, senti aquela coisa toda subindo quando eu estava no palco, soltei o violão e me virei pro Gibby que estava sentado no chão do palco e vomitei em cima dele, ele riu muito.

Não tinha dinheiro da última vez que deixei as drogas. Suponho que havia um tipo de acordo com um hospital, pagando uma parte dos custos, trabalhavam juntos, para que um músico que não tinha dinheiro pudesse ir a um hospital que normalmente custa uns vinte mil dólares. Não tinha dinheiro assim que fui mandado a ir ao hospital.

Nunca estive 100% certo de querer abandonar as drogas. Nunca quis, nunca ouve algum motivo. O que quero dizer é que na primeira vez que tentei deixar as drogas foi perto do Natal de 1995 e eu nunca... ...Durante todo o tempo que estive sob assistência hospitalar de trinta dias... ...Tive certeza de que eu realmente queria ter deixado as drogas. Quando estive no hospital, eu saía de lá, voltava a me internar novamente, pra depois sair de novo e então retornar mais uma vez, e, durante todo este tempo não me impus em nenhum tipo de regras, e eu fazia o que eu queria a todo momento. Quando eu estava no hospital eu me dei conta que uma vez que lá eu passava metade do tempo, parei pra pensar em como seria a vida se eu abandonasse as drogas, se começaria a ser rigoroso comigo mesmo, se pararia de fumar maconha, de beber, basicamente tentar viver um ano completamente limpo e ver o que acontece.

Este foi o trato que fiz comigo mesmo e funcionou muito bem, me dei conta que um certo tipo de energia cresce e você obtém um certo bem-estar quando não está sempre querendo aplicar coisas em seu corpo para fazer você sentir o que você queria neste momento, o que acontece é que você não obtém a sensação imediata como quando se usa crack e no momento que você quer usá-lo, mas uma semana depois você começa a conhecer amigos que você não tinha há anos, alguém sorri pra você, quando nada havia te feito sorrir em um ano inteiro, sinceramente, e de repente nesta semana você faz quinze pessoas sorrirem, e essas coisas começar a passar e você começa a se sentir muito bem ao não usar drogas. Suponho que largar as drogas estava em meu destino, no momento em que você percebe, porque nas outras vezes que você tenta deixá-las, jamais passava na sua cabeça que haveria alguma vantagem nisto."

Em 1997 John deixa completamente as drogas, não bebe nem fuma. Era uma nova etapa de sua vida, se sente muito mais ligado com as pessoas que o apreciam como músico. Aqueles tempos obscuros acabaram para ele.

"Eu não era capaz de fazer as pessoas felizes com a minha música fora dos palcos, se eu tocava alguma música para alguém – não como agora que consigo alegrar muitos dos meus amigos se nos sentirmos à vontade, escutando minhas músicas por trinta, quarenta e cinco minutos, ou cinco minutos, que seja – mas agora consigo fazê-los sentir à vontade tocando minhas músicas em minha sala. Antes eu não usava a música para alegrar as pessoas, eu as fazia mais para transmiti-los que eu estava fazendo alguma coisa.
Quando você não faz nada por anos diante das pessoas, você sente a necessidade de fazer algo em consideração a eles."

Durante sua reabilitação, John não perdeu contato com os Chili Peppers. Seu retorno ao grupo era iminente. Finalmente, depois de seis anos, os quatro amigos voltavam a tocar juntos. “Californication” (1999) seria seu novo trabalho.

"Ao lançar Californication, tentamos ganhar novos fãs, já que o álbum anterior, uns anos antes, não fez muito sucesso. Com Californication, os primeiros meses da turnê foram para testar como ia o álbum, com alguns shows promocionais em colégios e na Europa, eram evidentes, contudo."



Em fevereiro de 2001, John lança seu terceiro álbum solo, To Record Only Water For Ten Days. Um disco que observamos um John muito mais disciplinado na hora de fazer música.

"O vídeo de Going Inside levou um dia para ser feito e o de Moments Have You foi feito na noite anterior, e isso foi tudo...Vicent Gallo utilizou o material restante desses vídeos para fazer vídeos de todas as musicas do álbum.

Na maioria dos lugares, as pessoas me faziam me sentir tão bem, as pessoas eram tão acolhedoras...Os shows de New York, Toronto e de Los Angeles foram muito divertidos, não podia esperar melhor recepção do publico que estava ali, me fez tão orgulhoso de estar vivo, e tão orgulhoso de ter passado por todos esses últimos anos dedicando todo meu tempo a me tornar um melhor musico do que eu era...Me sinto tão bem quando subo no palco e consigo fazer as pessoas felizes."

Na vida de Frusciante não he tempo para descanso. Tricky e Perry Farrel são alguns dos músicos que John tem colaborado ultimamente.
"Me encontrei com Tricky em um clube de New York, sendo um grande fã de sua música, principalmente do álbum Nearly God. Eu tinha muita vontade de conhecê-lo, quando se deu conta de que era eu, ele me disse que eu era o melhor guitarrista no mundo e que tinha dito aos amigos dele que eu era o melhor do mundo, e me disse que adoraria trabalhar comigo e eu falei que eu tambem adoraria, assim fomos e gravamos, e ele dizia: “Faço isso por prazer, normalmente faço por negócio, com isto sinto que é por prazer.”, então obviamente que fazia por negócio. Não trabalho com as pessoas por negócio. Minha experiência me disse que se pode fazer certa tipo de musica quando se colabora com alguém e os trata como se todos fossem iguais.

Eu estava no estúdio com Tricky e eu e Flea fazíamos algo bom, e ele nos dizia: “Parem! Eu tenho material melhor que isso!”, e nós dizíamos pra ele: “Mas nós podemos converter em algo bom...Não vai ser tão bom quanto temos agora, mas podemos melhorar.”, e ele continuava dizendo: “Escuta, eu sei o que eu quero!”.
Eu acho que eu, Flea e Tricky poderíamos ter feito algo muito melhor do que fizemos.

Aproximadamente um mês antes de eu voltar ao RHCP, desta ultima vez, Perry, Steven e mais alguns caras gravamos o que seria o novo álbum de Perry, fui lá e toquei para o álbum, e outra vez me senti do mesmo jeito de quando toquei para Tricky. Tinha menos confiança como musico ali, o que me doía muito, quando estava com Perry tocando o melhor que eu podia, vinha um cara do meu lado no exato momento em que você se sente criativo, o cara vinha e dizia: “Ah beleza, você precisa de alguma coisa? Eu pego!”.
Em um certo momento, se acrescentou muito mais a guitarra de Tom Morello nas musicas e eu não era capaz de ouvir a minha guitarra no disco.

Perry é outro tipo de pessoa que diz pra todo mundo o que eles tem que fazer, e então eu não conseguia que surgisse a magia porque ele sempre estava mandando. Não quero estar numa banda em que alguém sempre te ordene o que fazer.

Se vou tocar com alguém quero fazer com alguém que faça o que quiser e que eu faça o que quiser e não que me mandem."

Um novo álbum do Red Hot Chili Peppers será lançado em 2002. Nele estará o inconfundível selo de John Frusciante.

"Estamos muito contentes do material que temos. Será meu álbum favorito, sem dúvida. Minha técnica melhorou se compararmos o ultimo trabalho com o de agora, me baseio mais nos acordes. Muitas das novas musicas tem acordes complexos, não se vê tão claro onde vai dar.

Sinto que há mais energia nesse álbum do que em Californication, há um pouco mais de Rock e está mais baseado na musica dos anos 50, que eu tenho me inspirado muito nos últimos meses. Estou muito contente de encontrar novas formas de expressar sentimentos.

Eu gosto que cada nota signifique algo, não quando é o grupo de nota que nos diz algo. É minha responsabilidade tocar coisas em que cada nota signifique algo.

A música deveria ser uma expressão de liberdade e não de fascismo."


Postado originalmente no Universo Frusciante, com a tradução feita pelos membros da comunidade do extinto Orkut em 2010.

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