27 de maio de 2017

UF ENTREVISTA: NICOLE TURLEY

Entrevista realizada com Nicole Turley pelo Universo Frusciante em junho de 2014 - após um ano de negociações e troca de emails. Até então, Nicole ainda era casada com John Frusciante e pertencia de forma muito especial ao seu universo. O namoro entre eles em 2008, a união foi oficializada em 31 de julho de 2011 e teve fim no começo de 2015 - de maneira oficial em outubro de 2016





UF ENTREVISTA: NICOLE TURLEY - Junho de 2014:

Nicole Turley nasceu há 33 anos em Garden Grove, uma cidade com menos de 200 mil habitantes no Estado da California, quase na divisa com o México, e desde muito cedo se interessou por arte. Começou a dançar quando criança e, como qualquer dançarina, se aproximou da música. E foi isso que a levou a ser multi-instrumentista, mas, principalmente, a ser baterista, pois como ela mesmo nos diz, "tocar bateria e baixo é dançar com as suas mãos, em vez de seus pés". Nicole começou a tocar bateria com 22 anos, após aproximadamente 18 na dança, e montou bandas com amigas e amigos, entre elas Seventh Sea, Blood Everywhere, Licorice Piglet, Black Umbrella e WEAVE!, mas seu trabalho foi realmente conhecido em maior escala com a Swahili Blonde (lê-se Siuarríli) em 2009. Nicole também comanda um selo de discos, a Neurotic Yell Records, que possui um elenco de bandas de amigos que ela acha que merecem ser ouvidos. Além de tudo isso, Nicole é esposa de John Frusciante desde o dia 31 de julho de 2011. Ela nos conta como é a vida de casados de duas pessoas com a música e a arte no coração, além de um passeio maravilhoso por sua carreira e influências. Confira a entrevista abaixo:


Universo Frusciante: Desde o primeiro lançamento da Swahili Blonde, Man Meat, a música da banda tem evoluído a cada álbum. Com o novo álbum, Deities in Decline, que progresso você acha que a banda teve?
Nicole: Bem, eu trabalho nos álbuns sozinha - escrevendo as músicas, gravando, mixando, produzindo, etc. A parte da banda acontece quando estamos aprendendo o álbum para tocar ao vivo. Cada álbum tem sentimentos diferentes, temas e inspirações por trás deles. Então, eu acho que não os vejo muito como progressos feitos, mas sim cada novo álbum como uma outra história para contar.

Vimos uma maior influência pós-punk nas demos do novo álbum no Bandcamp da Swahili Blonde, principalmente em "Discover Aurora", assim como já vimos também em "The Golden Corale", em 2011. Havia uma ideia inicial ao escrever o álbum? Você tem um conceito musical diferente para cada álbum ou as músicas tem suas próprias identidades?
Isso é engraçado, porque achei que as demos das novas músicas soaram muito mais pop do que as músicas anteriores da Swahili Blonde. É sempre interessante ver como as pessoas tem tantas ideias diferentes ao ouvirem a mesma música, ou vendo a mesma obra de arte. De qualquer forma, sim, os álbuns da Swahili Blonde sempre tem um tema e cenários visuais por trás deles. Man Meat foi muito baseado na África, em paisagens desérticas, animais que habitam esses lugares, a beleza e o mistério por trás de culturas primitivas, tribos e seus rituais - tudo muito pagão, como uma versão Africana do filme The Wicker Man. Psycho Tropical Ballet Pink tinha uma sensação muito "debaixo d'água" para mim - eu sempre via um visual de uma colorida e animada discoteca debaixo d'água - como uma cena cheia e brilhante do filme The Water Babies. Eu ainda estou descobrindo que sensação terei com Deities in Decline.

O que você tem que "adaptar" em músicas da Swahili Blonde para tocá-las ao vivo? 
Temos que adaptar um pouco. Quando éramos uma banda de 7-8 integrantes, as versões ao vivo das músicas soavam muito diferente dos álbuns - mas eu gosto muito disso. Eu gosto de ver uma banda ao vivo sendo uma experiência sonora completamente diferente de ouvir o disco em casa. O último show que fizemos, que foi em fevereiro de 2012, eu acho, estávamos sem Alan, Quinn, e Adam, então ao invés de tentar preencher os espaços deles (que são espaços difíceis de se preencher), eu tentei uma pequena experiência onde tocamos com faixas gravadas de bateria, drum machines e guitarra, com baixo, violino e vocais ao vivo. Demorou um pouco para encontrarmos o groove certo para essa situação, mas quando encontramos, todos na banda ficaram muito satisfeitos com o resultado.

O que te encanta sobre a música experimental? Você acha que a música pop mainstream precisa de mais experimentações ao invés de ter sempre a mesma fórmula visando o sucesso? 
Eu gosto quando as pessoas se sentem desinibidas e livres em qualquer forma criativa. Gosto da intenção de descobrir dentro do processo criativo. Então, muitas pessoas hoje em dia são orientadas para os resultados. Como uma banda que já está pensado no seu contrato de gravação antes de fazerem seu primeiro show. Eu vi um show incrível de Peter Gabriel no The Hollywood Bowl há um ou dois anos atrás, e ele disse algo sobre isso, sobre como o processo é sempre muito mais interessante do que o resultado. Eu concordo. Eu gostaria que as pessoas se concentrassem mais na jornada e não ficassem tão preocupadas logo de cara com o destino.

O som da Swahili Blonde é bem sinestésico, visual e dançante. Antes de ser uma multi-instrumentista, você fez balé e trabalhou como fotógrafa. Você consegue ver algumas técnicas dessas outras formas de arte no processo criativo da sua música? 
Sim, com certeza. Eu sou uma pessoa muito visual, então sempre vejo fotos de coisas inanimadas em minha cabeça (tipo cenas) com as músicas que eu estou trabalhando. Às vezes parece que eu estou descrevendo ou criando uma trilha sonora para o que eu vejo, o que é muito legal. E a dança também entra nisso. Eu realmente sinto que a única razão por eu ter sido capaz de aprender a tocar bateria e baixo tão rapidamente foi por causa da minha experiência com dança. Meu corpo e mente entendem o ritmo de uma forma profundamente enraizada desde que eu era muito nova. Para mim, tocar bateria e tocar baixo é o mesmo que dançar com as mãos, ao invés de seus pés.

Como é o processo de composição da Swahili Blonde? Você escreve, toca e mixa? As músicas ainda são iniciadas pelo baixo? 
Sim, eu escrevo, gravo, mixo, produzo e, agora, masterizo todas as músicas sozinha. Escrevo todas as músicas primeiro no baixo. Quando vou gravar, começo com uma faixa de drum machine, em seguida, toco baixo sobre ela, em seguida, adiciono bateria e percussão, coloco teclados, e qualquer outra coisa que eu ouço. Eu sou uma firme crente em gravar toda e qualquer ideia, não importa o que elas sejam (não existe má ideia!). Para editar, é melhor ter mais material do que o necessário do que ter pouca coisa. 



John teve participação em Deities in Decline em alguma música ou no processo de mixagem, como aconteceu no Man Meat e no Psycho Tropical Ballet Pink
John tocou guitarra no Man Meat e no Psycho Tropical Ballet Pink, mas fui eu que os mixei. Ele tocou guitarra em quatro músicas que eu tenho para o Deities in Decline (essas versões não estão disponíveis para streaming). Não tenho certeza se ele vai tocar em outra para o LP. Terei que ver a direção que a música tomará.

O que te levou a fundar a Neurotic Yell? Você sempre desejou compartilhar a música que você acha que merece ser ouvida? Quais são os projetos futuros do selo?
Comecei a Neurotic Yell por causa da frustração ao lidar com gravadoras. Eu sabia que a minha música sairia em menor escala (não mainstream), então fiz algumas pesquisas e descobri que lançar sua música nesse nível não é tão difícil, então iniciei o projeto. Eu nunca esperei que algo que eu lançasse fosse, digamos, popular, por exemplo, mas era importante para mim que a música que meus amigos e eu estávamos fazendo tivesse uma plataforma para ser ouvida e estivesse disponível para pessoas que pensassem parecido e que fossem interessados ​​em ouvir. E para que a música fosse lançada exatamente como o artista queria que fosse. Na Neurotic Yell as bandas são responsáveis ​​pela gravação, mixagem, produção e masterização da sua própria música, além de criarem suas artes de capa juntos. Então, eles trabalham em suas masterizações e artes de capa para mim e eu os produzo, sem mudar nada. É a música deles, é a visão deles, ninguém sabe disso melhor do que eles, então o álbum deve ser exatamente como eles querem que seja. Sou realmente uma advogada para essa causa.

Kimono Kult: Laena Geronimo, Dante White Aliano, Teri Gender Bender, Omar Rodriguez-Lopez, Nicole Turley e John Frusciante
Sobre os lançamentos para este ano, bem, houve o Kimono Kult EP em março. Eu tenho uma nova banda com a minha querida amiga Jennifer Fraser (também conhecida como Holiday J) chamada Amoureux. Nosso primeiro EP será lançado no dia 29 de julho. E como muito tempo passou, eu decidi começar de novo com o Deities in Decline, então ele vai sair no começo de 2015. Mas, enquanto isso, vou liberar um EP da Swahili Blonde gratuitamente em agosto ou setembro. E mais para o fim do ano vamos ver o que estará acontecendo e planejaremos o ano que vem com outros lançamentos.

Quais são as diferenças e semelhanças entre as bandas do elenco da Neurotic Yell como VAGENDA, Raw Geronimo, Sexual Castles, etc? O que uma banda precisa ter para fazer parte do grupo? 
Eu limito os lançamentos no selo para os meus amigos, principalmente porque eu os conheço bem, por isso a comunicação é suave, equilibrado e fácil para a maioria. Eu administro o selo sozinha (sem auxiliares ou algo do tipo), então uma comunicação clara, simples e amigável é definitivamente uma necessidade.

Você produziu muitos álbuns desde o início do seu selo. Que mudanças e influências você teve ao longo dos anos para não repetir ideias? 
Como produtora musical, quando trabalho com outros artistas, eu acredito firmemente em prestar atenção à magia e a nuance de cada um especificamente e depois faço aquelas qualidades brilharem de uma forma que ressoa com eles, ao invés de tentar transformá-los em algo que não são. Muitos produtores fazem isso hoje em dia - fazer o som de uma banda soar como eles acham que deve soar. É uma forma meio egoísta de se trabalhar dentro da música, porque você faz tudo para você e não para a banda. Nunca me preocupo sobre repetir ideias, porque se você está trabalhando em um nível puro, estas ideias e inspirações, de qualquer maneira, não vem de nós. Eles vem de um lugar mais alto e são canalizadas através de nós. A melhor relação possível que podemos ter com a criatividade é sendo um canal.

Como você vê a importância dos selos na música atual, com menos venda de CDs? O vinil ainda é uma boa opção? E como a Neurotic Yell trata os downloads? 
Com o selo, eu me concentro mesmo em qualidade e não quantidade. Não estou interessada em quantos álbuns vendemos, ou se os lançamentos do selo estão se popularizando​, sendo compartilhados, baixados, etc, gratuitamente. O importante para mim é que o artista esteja feliz com o que está lançando e que haja uma "casa" que as pessoas possam ir para ouvir esta música.


Recentemente vimos a morte do baterista Alan Myers, da banda Devo. O site da Neurotic Yell postou um tributo a ele. Como baterista, você foi influenciada por ele? 
Sim, demais. Alan era uma pessoa muito inspiradora, como amigo e como músico.

Você disse uma vez que gostaria de dar aulas de bateria, mas que não tinha tempo. Hoje você tem tempo livre para fazer esse tipo de coisa? 
Isso é engraçado, porque eu perguntei ao meu amigo Miles Crawford (um baterista incrível) se ele poderia me dar aulas de bateria. Quero muito aprender algumas músicas do Siouxsie and the Banshees. Budgie é um dos meus bateristas favoritos de todos os tempos. Para resumir a história, acho que preciso é ter mais aulas de bateria antes de dá-las.

Você tem hobbies? Gosta de karaokê?
Eu amo karaokê! Por sinal, Arianna Basco (companheira de Swahili Blonde) me deu um aparelho de karaokê de Natal. Foi o presente perfeito. Ela me conhece muito bem!



Você participou do clipe da música "Imitation of Life" do REM? Se sim, como foi? 
Uau! Não acredito que você sabe disso! Eu fiz esse vídeo quando eu tinha 19 ou 20 anos. Foi uma experiência legal estar em um vídeoclipe quando me mudei para Los Angeles, mas eu não tenho o tipo de personalidade certa para ir a audições para coisas assim. Sou muito introvertida, silenciosa e tímida. Então essa foi a minha primeira e última audição de elenco.

Como você conheceu John? 
Nos conhecemos na casa de um amigo em comum que tínhamos.

Em 2010, vimos um vídeo com você, John, Linda Ramone e JD King na Itália. Você gosta de viajar com os amigos? 
Sim, eu amo viajar. Essa foi uma viagem divertida.



Você recentemente se casou. Em 2010, você disse em uma entrevista que pretendia se casar com a música "A Marriage Made in Heaven" (um casamento feito no céu) do Tindersticks como trilha sonora. Isso aconteceu? 
Haha! Me esqueci disso. Infelizmente, não. Não teve Tindersticks. Mas eu amo essa música.

Como é ser casada com um músico, quando você também é uma musicista? Além, obviamente, de criarem boa música juntos, vocês pensam em ter filhos algum dia? 
Algumas pessoas já comentaram isso comigo antes - tipo "Oh, deve ser um desafio você e seu marido terem a mesma profissão...". Para mim, só seria difícil se houvesse uma competitividade ou ciúme envolvido na relação. Nós definitivamente não temos isso. Somos muito solidários um com o outro, apesar de termos um respeito e uma compreensão sobre o nosso próprio espaço autônomo como artistas. Acho que é muito importante respeitar o artista, mas também amar a pessoa.

O que você pode nos contar sobre sua colaboração no Letur-Lefr? Você gosta do nome do álbum? E você e John, sendo produtores musicais, compartilham ideias de trabalho? O que você gosta em seus álbuns de progressive synth-pop? 
No Letur-Lefr, John me pediu para cantar uma música que ele estava trabalhando, e assim eu fiz, feliz. Foi uma experiência divertida. Achei o nome do EP muito doce. Às vezes mostramos um ao outro o que estamos trabalhando, mas não é realmente uma troca de ideias. Nós dois temos uma bússola criativa muito forte e definitiva que nos guia, então as músicas são feitas principalmente no momento em que a compartilhamos um com o outro. Eu gosto de tudo nos seus álbuns de synth-pop. Eles são inteligentes, altamente criativos, emocionais, etéreos e conduzidos por batidas. São ótimos.

John tocando com a Swahili Blonde - 2011
A última vez que John Frusciante tocou ao vivo foi no show de estréia da Swahili Blonde, em 2011. Para a curiosidade dos fãs, ele pensa ou fala sobre fazer uma turnê solo no futuro, ou tocar ao vivo com a banda de novo? 
Bem, você nunca sabe o que vai acontecer no futuro, mas que eu saiba ele não tem planos de turnê ou de tocar em palcos agora.

Você conhece alguma banda brasileira? Tem influências de algo do Brasil? 
Infelizmente não conheço nenhuma banda brasileira. Você pode me indicar alguma?

[Nota do editor: Bem, respondendo publicamente à querida Nicole, eu, Marcarini, tenho uma banda para recomendar! Não é nenhuma banda brasileira clássica e sim uma banda nova de Goiânia/GO que gosto demais do som e da proposta. A banda se chama Cambriana e, tanto para você, Nicole, quanto para os leitores do site, aqui está minha indicação, podem confiar que é boa! O clipe abaixo é de "The Sad Facts"]



Você pretende vir ao Brasil para fazer shows? E por prazer?
Eu adoraria ir ao Brasil nas férias. Parece ser muito bonito.

Você tem alguma mensagem para os fãs brasileiros? 
Muito obrigado pelo interesse e apoio à Neurotic Yell, à Swahili Blonde, e pela paixão pela música. Já ouvi de muitas pessoas sobre a paixão que os sul-americanos (especialmente no Brasil) tem pela música, ninguém consegue superar. Continuem com essa grande energia! :)



Entrevista realizada por Felipe Marcarini pelo Universo Frusciante - publicada em 09 de junho de 2014.

Nenhum comentário:

Postar um comentário