18 de julho de 2017

Achados e perdidos - Março de 2004



John Frusciante expõe como era sua realidade no pior período de sua vida, fala sobre viver em um mundo espiritual onde se vive escutando vozes, afirma que existe vida após a morte, uma quarta dimensão, como é se livrar das drogas dançando, sobre o significado de músicas do Shadows Collide with People, fala também que não gosta de hip hop, entre outros assuntos.

Você deixou a banda em 1992 por causa de uma premonição. Pode nos explicar do que se tratava e se foi a mesma espécie de premonição que fez você voltar?
"Enquanto estávamos terminando as sessões de Blood Sugar Sex Magik, eu comecei a ouvir algumas vozes em minha mente que me diziam "Você não vai fazer isso durante a turnê, você tem que ir agora. Não desafie o destino, não force sua vida a tomar uma direção que você não tem necessidade de seguir". Muitas vezes, as escolhas mais importantes na vida são as coisas que você não precisa fazer, mas que contêm uma certa e sensacional relação com o futuro. Essas são escolhas que exigem coragem, porque tudo, desde um ponto de vista econômico ou o que você sempre quis fazer na sua vida, o empurra para estas decisões."

Na sua opinião, o que teria acontecido se você não ouvisse essas vozes?
"Na verdade eu as ignorei por um bom tempo e foi o maior erro da minha vida. Esperei por muito tempo antes de decidir sair da banda. Eu fui para a viagem mesmo não sabendo o que significava ser um músico em uma turnê com uma banda de rock. Em casa, eu tinha desenvolvido um estilo de vida muito criativo. Meu mundo era feito de Captain Beefheart, cores, pincéis, lápis de cor e por livros. Para relaxar, eu fumava maconha e bebia vinho. Minha vida era estar nesse semi-mundo imaginário que eu tinha construído. Quando você está em turnê, você tem que encarar uma realidade brutal e você deve aceitá-la. Você pode ser criativo, mas não 24 horas por dia e 7 dias por semana, como em casa. Na maioria das vezes você tem que relaxar e ouvir música. Em turnê, escrevo muitas canções, mas isso leva apenas algumas horas por semana. Se você escrever duas ou três canções por semana é muito, mas leva apenas algumas horas, como lidar com isso?"

Já houve um tempo com o Red Hot Chili Peppers, pelo menos no início, que você gostava de sair em turnê? Já houve um dia em que você se sentiu bem?
"Quando eu tinha 18/19 anos eu me sentia bem. Eu cresci lendo entrevistas de artistas, com eles falando que odiavam estar em turnê. Por exemplo, Frank Zappa não gostava de viajar. Então eu não estava esperando um jardim florido, mas era absolutamente mais fácil do que eu pensava. Mas, durante a era BSSM, além do fato de estar numa banda que estava começando a ter um início do sucesso, o que eu mais precisava era a chance de mudar o que eu tinha. E que eu só descobri quase ao acaso: eu era um compositor e um guitarrista. Eu precisava tomar uma direção, mas no final, quando deixei a banda, senti que minha vida tinha acabado, mesmo tendo apenas 22 anos. Pode parecer muito estúpido agora, mas depois senti que não podia escrever músicas ou tocar mais minha guitarra. Eu nunca pensaria em fazer isso novamente no futuro."

Durante esses anos de pausa, quando você usou drogas, você lançou verdades interessantes. Nem todo mundo tem esse tipo de visão em momentos como esse, e nem todos podem usá-las na vida real quando se está sóbrio e limpo novamente. Nesse tempo você aprendeu coisas importantes que influenciaram na sua vida atual?
"Isso é verdade. Eu não esqueci nada do que vivi naquela época. Afinal, quando deixei a banda e decidi me tornar um viciado em drogas, eu acredito que fiz a escolha certa. Era o que eu precisava naquele momento. Eu estava completamente dentro de mim, mas fazer aquilo era o que eu precisava para me isolar do ritmo frenético do mundo."

Ser um solitário que tocou em grandes palcos. Quando você se juntou ao Red Hot Chili Peppers, você se sentiu como se fosse sacrificar sua vida interior?
"Sim. Naquela época eu tinha uma boa vida interior, o que me levou a entender melhor muitas coisas. Agora posso simplesmente aceitar que as coisas são como são. Antes dessa experiência que eu tive, eu nunca teria dito uma coisa dessas."

O que teria mudado? O que provocou essas vozes em sua cabeça? Um ciclo que você poderia começar, mas só com heroína?
"Quando uma pessoa ouve algumas vozes em sua cabeça, isso significa que a sua esfera pessoal está quebrada."

Você quer dizer a sua bússola?
"Sim, ela mesma. A esfera que tem todos ao seu redor. Fico feliz que aconteceu naquela época, mas era um tempo confuso. Qual foi a pergunta?"

O que você tem que enfrentar constantemente que não conseguia que fez você procurar uma solução diante das drogas?
"Antes desse tempo... Houve coisas que eu não entendo. A sensação que flutuava na minha mente me disse o que tocar na minha guitarra. Me senti como se não houvesse ondas grandes no meu cérebro. No final, entendi que elas eram grandes ondas de pensamento subconsciente. Levei muito tempo, mas depois percebi o quanto a música influenciou nessas coisas. Entendi que toda vez que um filme tinha algo sobre a morte ou algo que a simbolizava, a mesma coisa estava acontecendo em minha mente. Se eu ouvisse uma música bonita, eu tocaria ela várias vezes, minha mente começou a fazer a mesma coisa na mesma ordem."

Era como se um acorde estivesse sendo tocado ou uma luz o estivesse iluminando? Você sentiu que tinha de se concentrar nessas coisas?
"Sim, assim que toquei minha guitarra e escrevi uma música. Essas foram as sensações e as chamo de "cores e formas na minha cabeça". Eu precisava delas para tocar. Ao mesmo tempo, eu pensava muito sobre coisas como o abuso sexual infantil, molestamento sexual sofrido por crianças. Percebi que os pensamentos eram um processo importante para mim, para que eu pudesse compreender essas questões confusas que eu me perguntava sobre a morte, o sexo, sobre por que a música faz as pessoas se sentirem dessa maneira e por que ela sempre teve um certo efeito sobre mim."

E isso foi bom para você, certo?
"Sim. Eram sensações que eu sempre tive enquanto crescia, mas não sei de onde elas vieram. Eu tinha dúvidas sobre as vozes que ouvia em minha mente e cada uma dessas perguntas recebeu uma resposta por mim mesmo, uma por uma."

Pelas vozes?
"Você pode chamar de anjo da guarda, se você quiser. Toda vez que entendo uma coisa, me sinto como se tivesse completado alguma coisa. Ao mesmo tempo, a minha mente perdeu um pouco do seu poder sobre as grandes ondas que eu estava falando."

No final não se revela como uma coisa positiva?
"Sim. Naquele momento pensei que se eu tivesse a perdido eu nunca mais teria sido capaz de tocar guitarra e escrever canções. Quando eu tinha 22 anos, minha cabeça estava vazia. Talvez tenha sido deixado apenas alguma sensibilidade. Me sentia muito vazio, sabe? Agora minha cabeça ainda está vazia, mas estou mais feliz do que antes. Eu escrevo muito mais músicas e eu estou mais concentrado."

Você está muito mais coerente também ou pelo menos suas letras estão. Mesmo que sua cabeça esteja “vazia”, as letras fazem muito mais sentido. O que os números que aparecem nos três títulos das músicas do álbum significam? Por exemplo: "00Ghost27", "Failure33Object" e "23 Go Into End"?
"Eu precisava de títulos para as faixas instrumentais e os escrevi no meu caderno. Pensei sobre os títulos que pessoas como Autechre e Aphex Twins usam, que escrevem várias músicas instrumentais com títulos sem sentido, que muitas vezes contem números e letras sem qualquer ligação entre elas. Eu escrevi no meu caderno os números que pareciam certos. O estranho é que depois que escrevi "Failure 33 Object", percebi que eu tinha 33 anos e Josh Klinghoffer (The Bicycle Thief), que me ajudou nas gravações, tinha na época 23 anos. Mas quando dei os títulos para as músicas eu não estava ciente disso. Então, acredito que muitas vezes quando faço coisas como essa é o meu subconsciente que me ordena."

Nossa tarefa é caracterizar fatos, os deixando ir por caminhos de costume, e depois os deixar voltar?
"Sim, esse momento é importante para eu ter a certeza do que eu posso fazer, porque sei que minha tarefa é organizar. Se você deixar o seu subconsciente te controlar, você encontrará uma tonelada de notas objetivas."

É seu dever agrupar essas peças e depois junta-las...
"Claro, porque o subconsciente não pode organizá-las, nem é preciso."

No Shadows Collide with People você fez um bom trabalho de organização.
"Isso é o que temos que fazer com o nosso "eu consciente". O passo mais importante que dei nos últimos cinco anos foi começar a tomar as rédeas. Eu tenho um monte de cadernos cheios que escrevi e só teriam sentido para mim, ninguém mais poderia ter entendido nada."

Durante a sua fase de vício em drogas, você teve uma namorada?
"Eu não me importava com o sexo. Eu tinha uma namorada, Toni, um ano antes de me tornar um viciado em drogas, mas a nossa relação cresceu gradualmente em amizade. Nós continuamos amigos. Ser engajado não faz sentido, pois não tem sexo."

Quando você parou de usar drogas, sentiu vontade de fazer sexo outra vez?
"Sim, eu tive. Eu passo por fases. Agora estou muito bem sem ele."

Por que isso te permite uma maior clareza?
"Eu sei que agora eu não poderia estar mais feliz do que estou. Sexo com frequência me distrai do meu trabalho. Eu não quero me encontrar em um relacionamento a menos que eu possa coordenar isso com o meu trabalho, sem deixar influenciar no meu lado musical."

É difícil escrever uma música quando se discute com sua namorada...
"Eu não podia permitir isso, não deve acontecer. Eu sinto muita responsabilidade em fazer o melhor trabalho, porque eu sou John Frusciante. Eu não posso tolerar que alguma coisa impeça a realização da minha vontade."

Na sua opinião, qual é sua missão? Por que você foi criado?
"Eu já tive esta revelação, mas agora não penso muito sobre isso. Eu me lembro que quando isso se revelou para mim, eu precisava ouvir um "nunca!" porque eu tinha uma opinião muito baixa de mim mesmo, acreditando que tinha que fazer algo criativo. Estou falando de quando eu tinha uns 27 anos".

Essa é a outra canção com o número do seu último álbum.
"Você está certo, 27 tem sido importante. Foi o ano mais difícil da minha vida e ao mesmo tempo, o começo. Minha vida começou outra vez e agora estou eu aqui de novo."

Você estava falando sobre sua missão...
"Naquela época, eu realmente precisava de algo que fizesse eu me sentir melhor, aquilo me convenceu que eu tinha uma razão para existir. Então eu tive essa revelação e desde aquele momento não fiz nada além de continuar o jogo de "pernas". Não há necessidade de estar consciente sobre seu último objetivo, dos resultados finais do trabalho que fiz em minha vida. O importante apenas é que eu possa escrever e gravar todas as músicas que eu quero. Eu tento impor a minha vida à um estado de mudança contínua e criatividade máxima. Tenho que ficar concentrado no que faço e não deixar que nada me distraia. Eu quero fazer tantas coisas quanto possível e da melhor qualidade. Sei que existem razões importantes para fazer isso, mas não consigo me lembrar, porque agora não penso mais sobre isso. Agora tenho satisfações suficientes. Quando eu tinha 27 anos, eu precisava ouvir que havia uma razão para estar vivo, agora não preciso me convencer disto mais. Eu já não ouço as vozes, porque estou fazendo o que elas querem."

As vozes são o seu subconsciente ou você acredita que há outros seres que se comunicam com você de fora?
"Ambas as coisas. Eu acredito na existência de outros seres. Eu não sei se é certo dizer "outros seres", porque cada um de nós, além de sermos o resultado de memórias e experiências - temos em nós mesmos outras personalidades, com uma existência individual em outra dimensão. Mas como esta dimensão não tem um tempo linear, elas não podem mostrar a sua individualidade. Elas podem mostrar apenas para alguém que vive em um tempo linear contínuo. É como se através de nós pudessem fazer algo eterno: uma gravação, uma pintura, um livro. Eles são como parte do que eu faço, porque eu sou parte disso. Eu prefiro acreditar que são uma parte maior do que eu, mas com isso não quero diminuir a minha importância. Vamos dizer que nós somos todos uma única coisa."

O engraçado é que uma canção como "Carvel" parece ser feita em outra dimensão, mas em outras canções você é muito radical. Em uma entrevista, você falou sobre a quantidade de gramas de gorduras contidas em uma bolacha cream cracker. É estranho ouvir você falar de gorduras ao mesmo tempo que fala sobre outras dimensões. Tudo é a mesma coisa para você?
"Sim, é a mesma coisa. Tudo o que acontece aqui é o reflexo do que acontece na quarta dimensão. Quando comecei a pensar sobre essas coisas, pensei que a música era apenas o reflexo de uma outra dimensão, mas isso não é verdade. Empresários, idiotas, jovens... tudo é o reflexo de algo que acontece em outros lugares. Mas não é uma dimensão onde tudo é bonito, agradável e colorido. Às vezes, pode ser feia e repugnante."

Vamos mudar um pouco de assunto. Como você faz para se manter em forma?
"Eu faço ginástica. Eu corro quase todos os dias, sigo uma dieta sadia, que é comer apenas alimentos orgânicos. Sem comida enlatada, pão e açúcar. Eu como muitas verduras, ovos, peixe, carne. É a melhor dieta que já tentei e isso me faz comer muito. O objetivo é ter órgãos eficientes. Se você for disciplinado, você desejará apenas coisas que são boas para você."

Hoje você parece muito zen. Existe alguma coisa que te tira do sério?
"É difícil responder, porque eu não fico com raiva muitas vezes. Eu não gosto de quem corre na direção que você está, mas não posso dizer que realmente me incomodo. Eu apenas olho assustado. Se você me perguntasse isso quando eu tinha 22 anos, eu teria que fazer uma longa lista. Uma das coisas que aprendi é que as pessoas são muito diferentes de certo modo, e elas devem ser assim. Você não pode fazer nada para mudá-las. Você poderia mudar o passado, mas isso é impossível. Então se alguém se comporta de um modo irracional, ambicioso ou de forma egoísta, é uma forma desagradável de agir. Para mim isso significa que algo aconteceu em sua infância, que o empurra para agir dessa forma, porque isso te faz sentir bem, mesmo se você ferir alguém ou excluir uma raça inteira da Terra. É o destino que te faz agir dessa forma, por causa do que você sofreu quando tinha quatro anos, talvez. Portanto é difícil eu ficar zangado com alguém, porque sei que ele sofreu algo ruim de pessoas que o maltrataram. É um ciclo. Eu gosto de como o mundo é feito. Como muitos maus exemplos que poderiam haver sobre esse tipo de coisa, eu nunca teria gravado nenhum dos meus álbuns se não tivesse sofrido algo ruim, se nós não tivemos problemas difíceis que não podemos corrigir, se não sentimos esses sentimentos que não entendemos de onde vem. Na música, tudo se torna bonito, eu adoro."

Música boa nasce depois de se sentir muita “dor”?
"Sim, mesmo que às vezes nasça da liberação temporária dela. Às vezes, você usa uma droga que está tudo certo para você e, nesse caso, é maravilhoso. Eu me sinto no céu, mesmo que eu esteja apenas fazendo música com um amigo meu. Mas você não pode tentar uma experiência como essa, de se sentir livre e independente do peso corpóreo sem ter experimentado dor física ou o que realmente significa."

Muitas de suas letras falam sobre isso. É como se você precisasse de coisas positivas e negativas juntas. É um dos temas do álbum.
"Eu tentei usar contradições ao unir idéias opostas, as forças das energia divergentes e o segmento da realidade que eu nunca poderia conciliar. Usei muitas mentiras para demonstrar a verdade através da música: tudo o que aparece como uma única coisa, realmente é também o seu oposto. Eu acredito que tudo que acontece tem o seu oposto em algum outro lugar que o compensa."

Você esteve trabalhando em seu disco solo após as sessões diárias com Red Hot Chili Peppers, exceto na quarta-feira, porque você ia dançar. Você ainda vai dançar, e que tipo de música você dança?
"Naquele tempo, a música era especialmente drum'n'bass e jungle. Muito techno rápido, enérgico, exagerado e intenso. Eu parei de ir dançar porque o clube que eu ia foi fechado. Na verdade ele mudou de rua e começaram a tocar hip-hop além de drum'n'bass. Mas eu não gosto de hip-hop. A forma de dança é completamente diferente, existem aqueles que fazem breakdance. Eu gosto de me perder ao invés disso, pulando por toda parte."

Geralmente bateristas que gostam de dançar, não guitarristas solo.
"Eu gosto muito de dançar. Eu comecei a me encontrar novamente graças à dança. Quando parei de usar drogas, a coisa mais difícil foi agir como uma pessoa normal, sem drogas. O corpo e a mente são usados por elas e quando você sai disso, você se sente chato, sem sentido, inútil. Durante nove meses, senti como eu não era digno de ser chamado de John Frusciante. Quando comecei a me sentir melhor, me encontrei em uma perspectiva melhor, porque agora eu sentia a responsabilidade de ser quem eu sou. Mas naquela época, se alguém me dissesse "eu gosto do seu álbum", não parecia que eu era o John Frusciante que tinha feito aquilo e eu levava o crédito por algo que não me era devido. Minha vida passada parecia ter sido vivida por outro alguém. Significa que eu estava espiritualmente vazio. Eu nem sequer deixava alguém me ajudar, porque eu não podia fazer nada."

Então você estava orgulhoso da primeira parte de sua vida, quando você era John Frusciante, enquanto que quando você era um drogado, você não estava mais orgulhoso?
"Quando parei com as drogas eu não sentia que eu era John Frusciante. Perto do final, a droga era de dependência, eu senti que eu não tinha manifestado qualquer coisa que a vida de John Frusciante deveria ter sido. Naquele momento, a única forma de expressão que eu tinha era dançar. Eu costumava ter uma ótima vida numa sala e eu não fazia nada, mas dançava o dia inteiro com as músicas que eu gostava: Black Sabbath, Cure e outros, e não a música de se dançar propriamente. Eu interpretava as músicas através da dança, eu traduzia a música ou letras de um modo visual. Não de uma forma banal, mas de uma maneira que fazia sentido para mim. Agora minhas reações ainda não são o que seria de se esperar, mas do tipo oposto: por exemplo, o que faz os outros tristes me faz feliz. Durante três meses eu não fiz nada além de dançar e no final me senti novamente me reagrupando aos espíritos e me tirando de algo."

Um ritual de evocação?
"Sim, eu usei para contornar tudo que estava em torno de mim, tão rápido que tudo à minha volta ficou embaçado. Eu me virei tão rápido como uma dançarina, mas sem virar a cabeça como elas fazem. Eu tive que fazer isso por um longo tempo sem me sentir doente. Desta forma, senti que eu estava acelerando minha relação com a sorte e vi que os espíritos que me ajudaram conseguiram trazer minha vida de volta. Nesses três meses, mesmo sem estar usando drogas pesadas, eu estava fumando maconha e bebendo, mas em algum momento eu decidi parar tudo e tentei o meu melhor para continuar vivo."

Eu pensei que você tinha ido à uma clínica de reabilitação para se livrar da heroína.
"Não, não por problemas físicos, porque após os três meses de dança contínua não tive qualquer vício. Fui à clínica para iniciar um novo capítulo da minha vida e porque eu não tinha dinheiro, eu não tinha outro lugar para ir. Algumas pessoas me fizeram ir ao hospital e foi bom para mim. No meu primeiro dia lá, me deram alguns comprimidos porque achavam que eu ainda era viciado, mas eu não era mais." 

Qual é o seu maior medo?
"Eu não temo nada."

Você certamente não tem medo da morte. Você usou drogas que estavam prestes a te matar muitas vezes.
"Eu não temo a morte. Como um resultado de tudo na vida, o que representa a morte não me assusta: o pensamento de que alguém poderia atirar em mim, a ideia de ser nada, de perder alguém que está perto de mim. De qualquer forma as coisas vão..."

Para aonde nós vamos quando morremos?
"Todo mundo vai para um lugar diferente. Existe uma relação entre a imagem de si mesmo, que você tem no momento em que você está morrendo, e o que você é após a morte. Se você se tornar a imagem de si mesmo, isso pode ser extremamente distorcido ao que poderia ser tudo: alguém com orelhas de elefante enormes, um monstro, um robô. Quanto ao local para onde vamos, isso depende de quanto progresso você fez na vida, do uso que fez do seu tempo para mudar, para crescer, para aprender. Alguém que vive a vida sem fazer qualquer esforço para saber se vai encontrar um lugar onde vai ter uma dura repreensão. Você começa uma dura repreensão, mesmo que a morte chegue quando você ainda está fugindo dela, em vez de enfrentá-la. Você pode acabar em um lugar muito ruim. Você tem que ser honesto com você mesmo e ser capaz de enfrentar a si mesmo. Eu acredito no que Leonardo Da Vinci disse: "Assim como um dia bem aproveitado proporciona um bom sono, uma vida bem vivida proporciona uma boa morte"."

Voltando às premonições, como você sabia que era o certo voltar para o Red Hot Chili Peppers?
"Quando voltei ao mundo real após estar no hospital, senti que todas as pessoas que saem das drogas sofrem. Todos os dias as coisas se tornam chatas. Eu estava lá novamente, mas eu costumava passar dias vendo filmes com o minha amiga Toni, três ou quatro horas por dia. Eu não tinha nada para fazer, eu estava procurando algo que me fizesse começar de novo. Por um momento pensei em tocar com Perry Farrell, então não fiz nada. Quando eu estava no hospital, já senti que tinha voltado ao Red Hot Chili Peppers. Anthony (Kiedis) foi uma vez me visitar e quando estávamos juntos senti sua energia. Estávamos muito bem juntos novamente, e essa é a razão pela qual eu tinha que ficar em uma banda. Nós não falamos sobre o passado, nos sincronizamos novamente. Nós vivemos vidas diferentes por um longo tempo, e agora estávamos no mesmo ponto. É como quando os planetas se alinham. Não foi uma decisão consciente, ela tinha que acontecer. Após o período de filmes, eu fiz algumas mudanças. Mudei para um apartamento pequeno onde eu poderia estar no meu próprio espaço, ouvir meus discos, tocar. Comecei a escrever novamente. Tudo começou quando voltei para o Red Hot Chili Peppers, porque eu tinha um motivo para tocar guitarra constantemente. Eu não ouvia música mais por prazer pessoal, mas para desenvolver e criar um estilo para o álbum que estávamos gravando. Eu tinha um objetivo novo e, como um efeito colateral, eu me encontrei escrevendo canções para mim. Estar com o Red Hot Chili Peppers sempre foi bom para minha criatividade."

Esta é a diferença entre o Red Hot Chili Peppers de agora para o Red Hot Chili Peppers de antes? O fato de vocês se darem bem agora?
"Sim, agora cada um de nós reconhece o outro. Na época do BSSM todos acreditavam que era o membro mais importante da banda, enquanto agora estamos conscientes de que individualmente não contamos. Sabemos que é importante criarmos juntos. Nós pensamos que o mundo é o que os outros fazem, não o que fazemos singularmente."

Não foi sempre assim. Houve um momento em que todos emanavam uma energia negativa. No palco a sua nudez era agressiva. Você estava ciente disso quando tirava suas roupas?
"Sim, isso começou a me incomodar muito quando eu desenvolvi uma certa sensibilidade artística. Eu senti que nossa aparência no palco estava errada. Durante a turnê do BSSM, eu sempre virava as costas para a plateia. Eu não me tornava parte dos movimentos atléticos que Anthony e Flea faziam. Eu achava aquilo muito feio, eles eram muito masculinos, o que se tornava algo grosso."

Flea disse em uma entrevista que você sempre fez o oposto do que eles fizeram. Se eles queriam tocar algo suave, você queria tocar algo "pesado/duro".
"É verdade, mas eu também fiz alguns jogos artísticos em minha mente com a música. Entendi que muitas vezes as coisas boas de se ouvir são aquelas que combinam com o sons pesado/duro e com os suaves, algo áspero, às vezes eles misturam algo suave e áspero e pesado também. Combinações anti-realistas. A maioria das pessoas não se atreveria a fazer isso. Se a banda tem um som forte e o guitarrista toca de uma maneira delicada, soa bizarro. Mas é isso que eu costumava fazer, então é o que ainda faço agora. A única diferença é que eles gostam muito do agora, porque eles sabem que eu não os odeio. Então se eles tocam pesado/duro, eu toco suave. Se eles tocam rápido com notas pequenas e curtas, eu tento as fazer fluir. Desta forma obtemos um equilíbrio artístico."

É verdade que seu guitarrista favorito é Jimmy Page?
"Eu poderia responder a essa pergunta de varias maneiras. Ele é o meu favorito entre os guitarristas rockstars. Para mim, ele não é melhor que Keith Levene, Matthew Ashman do Bow Wow Wow ou John McGeoch do Siouxsie & The Banshess. Jimmy Page trouxe ao rock uma guitarra ensurdecedora à um nível que ninguém será capaz de ultrapassar. Mas para mim os guitarristas mais influentes dos últimos 30 anos não são os únicos que se disponham a fazer solos, mas aqueles que dão consistência ao som. Hoje a minha maneira de tocar é mais influenciado por este tipo de guitarristas do que por Jimmy Page. Acho que essa maneira de tocar guitarra evoluiu apenas entre 1965-1975, em seguida tornou-se ridícula. Eu amava Jimmy Page! Quando eu eu tinha 7 anos, ele era a razão pela qual eu comecei a tocar. Minha maneira favorita para a prática era aprender todos os seus solos. Eu podia tocar "Since I've Been Loving You" do início ao fim."

Seu estilo é único, porém...
"É uma escolha consciente. A propósito, deliberadamente procurei um som não-Jimmy Page. Eu escuto músicas e guitarristas tão diferentes que no meu estilo há um pouco de tudo. É por isso que eu toco de uma maneira que não se assemelha a qualquer outra pessoa."

Muitas vezes parece até que não é você!
"Eu quero que seja dessa forma, caso contrário eu não me importaria em fazer minhas gravações. Eu sempre quero fazer algo diferente do que eu já tenha feito antes. Na minha opinião, este é o único caminho que vale a pena tocar. Eu só faço isso pelo prazer que me dá. Eu não gosto de fazer sempre as mesmas coisas. O único que se repete é aquele que não gosta de se aventurar e toca só porque é seu trabalho."

Você escreve todos os dias?
"Se a música quer vir para mim, eu estou sempre pronto para recebê-la, mas não trabalho para ela. Eu sempre fiz isso desde que eu era um garoto, assim aprendi muito bem a reconhecer quando é hora de escrever e quando estou impondo isso a mim mesmo."

Quando você sabe que tem músicas suficientes para um álbum?
"Há sempre algo inexplicável que contém as canções juntas. Tenho várias delas escritas ao mesmo tempo que ainda são demos: eu não trabalho com elas num estúdio, porque não tem aquela coisa certa, que combina uma com as outras. Desde que eu voltei para o Red Hot Chili Peppers, eu quero que meus álbuns solo soem como uma única gravação do começo ao fim. Os dois primeiros álbuns estavam um pouco dispersos, as músicas foram gravadas em momentos diferentes e não foram escritas para estarem juntas. Mas nos últimos anos, se tornaram muito importante ter uma idéia clara do conceito de amarrar uma música a outra."


Fonte: Mucchio Selvaggio (Itália) - 16 de março de 2004

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