23 de janeiro de 2018

ENTREVISTA: TONI OSWALD (2005)


Um editor de uma famosa revista musical brasileira (que pediu anonimato) enviou por email para o Universo Frusciante uma incrível entrevista feita em 2005 com Toni Oswald, artista e ex-namorada de John Frusciante durante os anos noventa, período mais difícil da vida dos dois, a entrevista não foi publicada na revista e ficou guardada por anos.

Toni fala sobre seu ótimo trabalho experimental The Diary of Ic Explura, projeto que já contou com a participação de John Frusciante e Josh Klinghoffer, além de seu período junto com John durante a saída dos Chili Peppers e após, sua participação no Niandra Lades and Usually Just a T-Shirt, entre outros assuntos com opiniões muito parecidas com as de John, afinal os dois sempre foram grandes amigos até os dias atuais.




Como a ideia do The Diary of Ic Explura (O Diário de Ic Explura) nasceu? Quais os planos que você tem para a banda e quais são os próximos passos da banda?
Ic Explura inicialmente era o nome de um alter ego que John Frusciante inventou para mim. The Diary of Ic Explura nasceu como uma ideia onde eu iria escrever um álbum inteiro de cartas de amor para Lou Reed (risos) sério! Mas então, uma estória inteira começou a se desenvolver no meu cérebro que ia além de só Lou Reed. Tornou-se uma estória sobre o meu alter ego, Ic Explura, e sua busca por verdade, amor, música e transformação através do tempo e espaço, e a personagem do Transformer (Transformador) é uma aglomeração de Lou Reed, John (na época eu estava com ele), e pedaços de personagens que eu tinha visto em meus sonhos. Inicialmente eu comecei as músicas só com as notas que eu tinha enquanto eu construía a estória na minha cabeça. Eu pedi ao Josh para me ajudar a começar as músicas, já que algumas das coisas que eu estava escutando, eu não conseguia tocar tecnicamente no piano, na bateria e algumas coisas na guitarra. Então, nós começamos no início da estória, com Ic indo para o espaço sideral e levamos daí até o fim da primeira parte da estória, onde a garota Ic está deslizando para o seu primeiro encontro com o Transformer! Então Josh saiu em turnê e nós demos uma pausa, e nesse tempo eu queria continuar trabalhando, então eu levei sete meses criando e desenvolvendo o livro A Loveletter to the Transformer (Uma Carta de Amor para O Transformador), que é um livro manuscrito da estória contada através de cartas de amor, conversas, poesias, tinta, lápis, giz de cera, cabelo, realmente qualquer coisa que eu tivesse, para expressar os sentimentos da estória.

Agora, eu estou prestes a começar a parte 2 (a estória de amor) e a parte 3 (O Vale das Lágrimas) para que eles sejam lançados juntos; o livro e as músicas. Eu planejo lançar as músicas como uma trilogia de CD's, e cada CD será uma colaboração musical com uma pessoa diferente. Eu quero dar a cada seção um sentimento completamente diferente, então uma pessoa diferente a cada vez consegue fazer isso sem nem tentar. Após eu terminar as músicas e lançar tudo, eu quero fazer algumas performances ao vivo.

Quais sons você tem escutado recentemente? Quais são as principais influências de Ic Explura?
Bem, recentemente eu estive escutando Bob Dylan. Eu estou obcecada, na verdade (risos), principalmente com o álbum Desire! Eu tenho um amor obsessivo pelo violino e a rabeca, e isso já diz muita coisa, sem contar que a canção “Sara” é a minha canção de amor favorita de todas... aí sim é uma carta de amor! Eu também estive escutando o box OHM: Early Gurus of Electronic Music, que é bem a ver com Ic. Ic Explura é influenciado por Lou Reed, Brian Eno, Kate Bush, David Bowie, Chopin, música cigana, sons encontrados ao nosso redor e o espaço sideral, eu acho.

Como você conheceu Josh Klinghoffer?
Eu conheci Josh através de Bob Forest. Nos tornamos amigos em 1999 quando ele começou a me dar aulas de violão e nós dividíamos um amor pela cultura inglesa.

Alguma chance de uma colaboração de John Frusciante no primeiro álbum da sua banda? Vocês são amigos?
Bem, como eu disse antes, a ideia são três álbuns cada um com um colaborador diferente. Eu tenho algumas pessoas em mente com quem eu quero trabalhar, então veremos quem está disponível e quem quer, mas eu amaria trabalhar com John se isso se tornasse uma possibilidade e algo que ele quisesse fazer e o inspirasse. Mas não temos planos para isso. Sim, John e eu ainda somos amigos. Nós somos muito como irmão e irmã!





Niandra LaDes and Usually Just a T-Shirt é agora uma menina com onze anos de idade. Um álbum inteiramente concebido em um mundo que não é onde os carros estão tornando-se mais velozes e as pessoas estão apaixonadas por corpos e almas de plástico. Para você, Niandra LaDes and Usually Just a T-Shirt é um produto de que tipo de existência? Me fale sobre as suas experiências durante a criação dessa música.
Bem, durante aquela época nós não pensávamos muito nas coisas, na verdade. Nós só fazíamos, sabe... o que quer que o clima precisasse, nós tentávamos ser e viver aquilo. Quando eu gravei aqueles vocais, era só eu falando algumas palavras enquanto cantava. Era bem espontâneo sem qualquer tipo de preciosidade envolvida. Para mim, Niandra LaDes and Usually Just a T-Shirt é pura magia, isso é tudo que eu posso dizer sobre ele na verdade, porque qualquer outra coisa seria idiotice e minhas palavras estúpidas não tem lugar num mundo onde não existem palavras.

Onde você estava, Toni, quando gravou os vocais para as duas faixas onde você aparece? Fisicamente falando, onde você estava? Você cantou alguma coisa que estava escutando ou foi pura liberdade, moldando sua voz e seu sentimento através da maneira que as canções estavam indo?
Fisicamente falando, eu estava sentada no chão da sala (risos). Foi algo espontâneo, ali mesmo, sem nenhum planejamento. John me pediu para cantar então eu cantei (risos).

Você pode me falar como era a rotina de Toni Oswald e John Frusciante durante a época do Niandra? Você pode descrever um dia comum desse tempo?
Bem, um dia comum seria acordar com café e vários pegas no bong (risos) com nossos colegas de quarto Bill e Mariah, então nós escutávamos música e encontrávamos nosso caminho através do dia, o que quer que fosse. Gostávamos de desenhar e assistir filmes dos irmãos Marx! Geralmente nós gostávamos de ficar curtindo.

A arte se torna pura quando o artista vive as coisas que ele produz, quando o artista é a própria criação. Como você era muito próxima de John Frusciante nesse período, o que você pode falar sobre a relação entre John e suas próprias canções? Qual parte dele estava dentro delas? E onde você estava nessas canções?
Eu não posso falar nada sobre John e suas canções. Essa é a relação dele, não minha. Eu diria que John está no seu melhor em suas músicas. Eu acho que todos estamos; a ideia para mim, na vida, é se alinhar com o cosmos e quando se está criando, se está tocando nisso, deslizando pelo fluxo de todas as coisas. Você tem que estar completamente dentro do momento para criar algo de valor e então, nesses momentos, todos os caminhos são perfeitos e se é realmente o que se é, sem pretensão ou medo, apenas energia. Todo o resto desaparece e você é apenas um canal de alguma expressão dessa coisa chamada vida. E numa observação menos pretensiosa, a arte nos permite, de algum jeito, redimir o que é bagunçado dentro de nós, compreender tudo aquilo, de alguma maneira. Pelo menos, é assim que eu me sinto sobre isso.

Recentemente seu nome foi mencionado na biografia de Anthony Kiedis, "Scar Tissue", quando o assunto é o fim da era Blood Sugar Sex Magik. Como uma observadora de perto, você pode me falar algo sobre a atmosfera durante a última turnê que John Frusciante fez com os Chili Peppers antes de sair da banda? Você esteve com ele durante a turnê, certo?
Eu estava com ele, sim. A única coisa que eu posso dizer é que ele estava infeliz naquela situação. Qualquer outra coisa é muito pessoal, na verdade.

Toni e John no Japão em 1992 (última turnê de John antes de sair do RHCP pela primeira vez)

Você pode me falar sobre o filme? Algum plano de lançamento? Porque você demorou tanto para lançar o vídeo?
O filme que eu fiz se chama Desert in Shape (Deserto em Formas). Foi inspirado e escrito enquanto eu estava em turnê com John na Europa com os Peppers. Eu estava lendo muito de Marcel Duchamp e Luis Bunuel, e tendo uns sonhos estranhos sobre a minha infância. No verão após John sair da banda, nós o fizemos com meu amigo Greg Gibbs, que é tradicionalmente um pintor, tanto quanto cinegrafista. Eu provavelmente irei vendê-lo no website meu e de John, eu acho. Eu não o fiz com a intenção de lançá-lo, era só algo que eu tinha que fazer, e como eles usaram uma fotografia do John do filme, para o Niandra, ele meio que se tornou essa coisa cult. Foi filmado em Super8 e o filme esteve numa gaveta por anos e então quando lançaram o IMovie para Mac eu pensei, “eu devia editar o Desert...” (risos), mas não aconteceu até um cineasta amigo meu, Aza Jacobs, se oferecer para ajudar a editá-lo no equipamento do AFI (American Film Institute) em que eu finalmente o terminei, que foi há alguns anos.

Frusciante considera seus dias de heroína e reclusão como dias de aprendizado. Eu posso entender esse ponto de vista perfeitamente. Estar distante e dentro de si mesmo pode ser uma experiência enorme e positiva, usando drogas ou religião ou qualquer ferramenta de introspecção. Eu não sei se você quer falar sobre isso (estou tentando evitar questões obscuras), mas como você enxerga esse período e como você entende o seu próprio processo de crescimento (não físico)?
Bem, eu sinto muitos dos mesmos sentimentos do John sobre isso. Nós conversamos muito sobre isso juntos. Eu realmente aprendi muitas coisas durante esse período e as vezes aprender pode ser uma jornada muito difícil e dolorosa, sabe. Mas sempre se pode achar valor em qualquer experiência, dependendo da perspectiva que você decide tomar, e na época eu tinha a sensação de estar mergulhando para buscar a pérola mais negra, o que era extremamente doloroso, mas não sem seus momentos de verdadeira alegria e verdadeiro deslumbramento. Eu acho que para realmente entender a luz, deve-se também entender a escuridão, embora eu não defenda o uso de drogas com essa natureza, já que eu sei agora que se pode aprender sobre isso em várias maneiras diferentes se está realmente desejando buscar isso.

O que você acha do álbum Smile From the Streets You Hold? Vocês ainda estavam juntos em 1996/1997? Como uma garota (namorada?), mesmo respeitando suas próprias decisões como você, enxergava a entrada de John naquela espiral descendente?
As canções do Smile foram gravadas em vários períodos diferentes, então eu estava por perto durante a maioria das gravações, com exceção das faixas de quando ele era adolescente, mas nosso relacionamento como casal estava acabando em 1997 quando o Smile estava sendo lançado. Eu saí das drogas primeiro e estava morando em outro lugar quando foi lançado. Eu acho que existem canções incríveis no Smile, a propósito algumas das minhas favoritas, mas não existe nenhuma real estrutura já que John meio que simplesmente as jogou ali juntas. Eu sei que ele adoraria eventualmente editá-lo, reestruturá-lo e lançá-lo. Eu amo essa ideia.

Quanto à espiral descendente, ela já tinha chegado muito antes e foi absolutamente devastadora em todas as maneiras. A única coisa que eu podia fazer na época era segui-lo.  Eu o amava demais e muito desesperadamente para ir embora. O milagre é que nós sobrevivemos àquilo e que permanecemos bem próximos.

Você curte alguma música brasileira? Chico Science, Mutantes, eles estão todos na sua página do MySpace! O que você sabe sobre eles e sobre a música feita aqui no Brasil? Do que você gosta? Você conhece Jorge Ben e Tim Maia?
Esses caras são deuses. Eu não sei nada sobre música brasileira. Eu gosto de Mutantes e algumas canções dos anos 60, mas além disso eu não tenho a mínima ideia!

Mais um agradecimento, obrigado pela sua doçura! Espero que não tenha tomado muito seu tempo. Espero que tenha sido divertido responder.
Obrigada! Beijos.
Toni.

Tradução: Pedro Tavares
Entrevista publicada pelo Universo Frusciante - em 04 de julho de 2016.

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