3 de fevereiro de 2018

Debaixo da ponte - Janeiro de 2001

Depois de deixar a banda e se reincorporar a tempo para gravar Californication, o Red Hot Chili Pepper John Frusciante tenta reconstruir sua vida e sua carreira musical, com um disco que ele acabou de gravar, a desculpa perfeita para a sua atormentada biografia em os altos e baixos com os Peppers.

Do outro lado do fio de cobre, em Los Angeles, John Frusciante parece sorrir. Ninguém duvida de sua bondade, mas após os rumores constantes sobre sua instabilidade mental, sua depressão e sua propensão em de insolar durante meses em seu quarto, um monossílabo nos esperava. Mais sem problemas. Frusciante respondeu feliz e renovado, com o estômago cheio: ele tinha acabado de jantar. Vamos falar sobre o seu terceiro álbum solo To Record Only Water For Ten Days não é o que podemos chamar de um trabalho convencional, mas em comparação com seus álbuns anteriores, esse nos guarda certas surpresas. Em primeiro lugar, os sons que surgem a partir das estruturas da complexa personalidade de Frusciante, aparecem pela primeira vez em torno do conceito de sua música. "Sim, é isso que eu tentei fazer. Quando eu gravei meu primeiro disco tinha ainda que saber como seria a minha música. Existem tantos sentimentos que eu amo rondando em torno do universo e de tantos estilos musicais que eu gosto...".

A indigestão sonora de seus dois trabalhos anteriores é agora parte do passado. "Quando comecei a escrever as canções, há três anos, sabia exatamente que os sentimentos fariam parte da minha música, eu só não tinha a certeza de que era suficientemente bom compositor para dar forma a esses sentimentos."

"Para mim, Dave Navarro nasceu para estar no Jane's Addiction, no Red Hot Chili Peppers ele não tinha química"

Sentimentos completamente providos de permanentes caos existenciais ficam ao redor de cada construção de Frusciante, e atraem um pouco de energia positiva e tranquilidade emocional.

"Sim, estou muito feliz por estar vivo e eu amo a vida que eu levo agora. Estou muito orgulhoso de quem eu sou e quem eu era. Quando eu fiz meu primeiro disco eu estava caindo e eu creio que, especialmente o segundo álbum representa muito bem uma pessoa que está apaixonada pelo seu interior e não é capaz de se expressar plenamente."

Ainda mais surpreendente é que as referências são tomadas a partir de canções como "Remain" e "Invisible Moment" não vem exatamente de bandas especializadas na produção de energia positiva. "Joy Division, New Order, The Cure...?

"Sim, The Cure, Depeche Mode ... é a música que eu ouvi nos últimos três anos, o Depeche Mode é minha banda favorita de sempre (risos) é a música que me faz sentir melhor." 

E as surpresas continuam considerando que quatro faixas, deram lugar a uma maior variedade de instrumentos: voz, teclados, eletrônica... som, em última instância, maior. Um som eletrônico que tem muito mais culpa, muito mais presente do que no álbum Californication, em teoria, que representou uma evolução no Red Hot Chili Peppers para no uso de máquinas.

"Há apenas algumas coisas de eletrônica em Californication, porém tentamos tocar os nossos instrumentos como se faz na música eletrônica e dê a cada seção de seu próprio modo, como nos discos do Depeche Mode, onde a linha tem uma textura e coro outra completamente diferente, como nos discos do Tricky, que toca com atmosferas completamente diferentes." 

Falando do diabo, parece que os Peppers colaborou recentemente com ele. Tricky e Frusciante cantando juntos!

"Sim, mas nós adicionamos as partes para as partes da canção que ele já tinha, nós só gravamos uma música juntos desde o início até o fim. Era Flea e eu, nos fizemos a música para a canção "Wonder Woman" (de um série de TV dos anos setenta) e depois adicionamos voz e letras próprias. Tricky e eu cantamos junto. Foi uma experiência boa, Tricky é um grande músico e um grande compositor também uma pessoa muito talentosa, espero fazer mais coisas com ele no futuro."

 Mudando de ritmo. Qual é a verdade sobre a loucura associada à Frusciante? Qual é a conexão com Syd Barrett, com a espaço exterior, com os espíritos?

"Oh, é de onde a minha música vem, de quando eu era parte do espaço exterior. Minha música é uma representação de seres de outras dimensões que aparecem no meu corpo, me falam e me dão idéias." 

Algo que, sem dúvida, ajudou na sua dependência de drogas.

"Sim, mas não a única forma de me conectar com este mundo, existem outras maneiras, como meditação, yoga e purificação do corpo. Se cuidando, exercendo, você pode obter conexão com seres de outras dimensões, devemos manter a mente e corpo aberto e saudável. O prazer que sinto bebendo ervas, champanhe e valeriana, é melhor do que eu sentia antes tomando drogas, que é como pôr produtos químicos desnecessários no meu corpo." 

Parece que a vida de Frusciante recuperou o sentido desde o seu retorno ao Red Hot Chili Peppers. O relacionamento entre os membros do grupo parece ser hoje, exemplar.

"Deixei as drogas antes de retornar aos Peppers. Flea sempre tentou ser meu amigo, enquanto o meu era um viciado em drogas, então ele se cansou de estar comigo, porque eu estava me deteriorando. Flea me ama e não podia suportar me ver fazendo aquilo a mim mesmo por cinco anos. Quando me recuperei nos tornamos amigos e voltamos a sair juntos como antes. O próximo passo lógico era voltar para a banda. Anthony é alguém que também precisa estar limpa para funcionar como uma pessoa, ao mesmo tempo, começamos a sair juntos e ser amigos como nunca fomos antes." 

Talvez Californication descarte a simplicidade básica do rock que e fazer um disco mais direto e acessível, mas também mais visceral.

"Em certo sentido prefiro Californication e Blood Sugar Sex Magik, agora existe um amor entre nós três que nunca havia existido. Você acha que é mais rock? Eu não sei, não há razão para isso, nós não tivemos nenhuma idéia preconcebida de como ele deveria soar, só fomos para o estúdio e tocamos o desejavamos, improvisamos... "

Uma das questões que sem dúvida atraí mais os fãs do Peppers foi o abandono de Frusciante em um momento - "Blood Sugar Sex Magik" - parecia ser o mais doce de sua carreira. Eles tinham acabado se firmar em seu auge criativo, ainda a ser superando.

"Não era um bom momento, não conviviamos como pessoas, não é divertido estar em uma banda que não se gosta. Eu não toco para ganhar a vida, eu faço música porque eu amo e ela passou a ser com pessoas que não gostam de fazer música comigo. Se os Peppers começassem a não falar ou não gostar de brincar comigo novamente, eu iria embora. Mas isso não vai acontecer, porque já nós apreciamos muito e nos divertimos uns com os outros. No tempo de "Blood Sugar Sex Magik" todo mundo achava que era o melhor da banda e um grupo não pode sobreviver com tantos egos. Cada um tem que pensar que o outro é mais importante, pois de outra forma não se trabalha em grupo. Eu aprecio Anthony como cantor e compositor, eu acho que Flea é o melhor baixista do mundo e eles sentem o mesmo por mim."

E desde que Frusciante largou a banda, Flea e companhia tiveram tempo para gravar One Hot Minute. O álbum, com Jane's Addiction Dave Navarro dedilhando as seis cordas, teve muitos detratores como admiradores. Frusciante é um dos primeiros.

"Nunca ouvi falar, eu só ouvi os dois singles e não gostei. Eu os vi ao vivo uma vez e eu não gostei. Gostei do Anthony, ele foi o único que eu gostei, mas não da música." 

No entanto, não parecia saber qual seria um substituto melhor que Navarro para uma banda como o Red Hot Chili Peppers.

"Acho que nenhum músico se encaixa bem em mais de uma banda, é muito raro. Para mim, Dave Navarro nasceu para o estar no Jane's Addiction, então pensei que era o melhor, mas no Red Hot Chili Peppers ele não tinha nenhuma química." 

Por que Frusciante acreditou que Navarro desejou deixar a banda?

"Ele foi em outra direção como pessoa... Eu acho que ele nunca amou estar no grupo. Ele falou mal deles, quando ele entrou, riu deles... Eu sempre me senti ofendido pela maneira como ele falou dos Peppers, nunca pareceu estar com orgulho de estar na banda. "


Fonte: Mondo Sonoro.com - entrevista realizada por telefone no dia 19 de janeiro de 2001

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