31 de outubro de 2016

Trampolim - An Oral/Visual History

 Quando eu tinha uns quinze ou dezesseis anos, eu sabia que a música que eu estava compondo era boa. Eu simplesmente sabia que eu iria fazer aquilo para viver. Mesmo que meu pai não acreditasse em mim tanto quanto eu, ele enxergou que eu acreditava em mim mesmo quando eu lhe falei que eu tinha certeza que iria ser músico. Eu pedi pra fazer um teste de proficiência para que eu não tivesse que ir para o ensino médio. Ele concordou, e quando eu passei, eu quis sair de casa.

 MEU PAI CONCORDOU EM PAGAR MEU ALUGUEL E ME DAR DINHEIRO PARA ALIMENTAÇÃO TODO MÊS MAS SÓ SE EU TOMASSE AULAS DE MÚSICA NA UCLA, OU SMC, OU VALLEY COLLEGE OU SEI LÁ. Eu fui pra cada uma dessas escolas por alguns dias, mas eu não estava interessado em como eles estavam tentando moldar meu cérebro. Meu amigo se inscreveu no Musicians Institute e eu percebi que lá você podia só passar o cartão e eles não faziam lista de presença nas aulas de manhã. Contanto que você passasse o cartão, você recebia a presença. Eu supus que eu já sabia muito dos assuntos e que eu podia me virar indo só para algumas aulas de vez em quando e fazendo a prova trimestral. Eu consegui passar no primeiro teste assim. Eu poderia ter passado no segundo - mas na época eu já estava começando a me dar mal. Eu entrei no nível mais alto que a escola oferecia, e provavelmente teria sido mais fácil se eu tivesse fingido ser horrível quando fiz a audição. Assim eu teria ficado em matérias mais fáceis, com provas mais fáceis. Mas na verdade, eu me exibi e me destaquei. No segundo ou terceiro teste eu não consegui passar. Eu estava indo para poucas aulas só pra ver o que eles estavam fazendo, mas após alguns meses eu nem estava mais indo. Essa escola estava ajudando a minha música a sair um pouco mais para o mundo, e me ajudando a estar perto das pessoas. O principal motivo de eu ir aquela escola era pra fazer jams. Salas de ensaio grátis, as baterias já estavam lá, e você podia trabalhar numa canção, mas eles também tinham uma aula de performance onde você tocava para os alunos.

 Robert Hayes foi o primeiro músico com quem eu realmente me conectei, o primeiro que estava no mesmo nível que eu na minha idade. Nós costumávamos tocar músicas do Hendrix, dos Chili Peppers e do Fishbone. Robert e eu fazíamos muitas jams, ambos gostávamos de jazz, qualquer coisa com uma boa musicalidade, mas também gostávamos de um hardcore mais pesado. Éramos considerados estranhos no MI, não só por gostar de punk - não havia mais ninguém ali que gostasse ao menos de Jimi Hendrix. Os jovens achavam que Hendrix era muito simples - que era coisa velha. Robert e eu éramos os únicos estudantes que pensavam da maneira como pensávamos. Eu admito que gostávamos de escutar alguém tocando rápido, mas não as custas da alma, do espírito emocional daquilo - a essência de Hendrix, nós pensávamos, mas isso estava muito distante do pensamento dos nossos colegas. As crianças eram treinadas como robôs mecânicos sem cérebro para julgar uma música pela velocidade que alguém a tocava, por quantas técnicas eles faziam ao mesmo tempo.

Quando eu escuto guitarristas rápidos, o que eles fazem em termos de ritmo e acento não é muito complexo em relação à estrutura que a natureza oferece. Os possíveis lugares em que as notas podem ir. E quando eles tocam rápido, eles costumam tocar notas que são próximas uma das outras. Você escuta a maioria dos guitarristas rápidos dos anos 80, e as notas são próximas e não há muito pensamento em onde colocá-las - é só encaixar o máximo de notas no menor espaço possível, sendo na maioria das vezes usadas as escalas e vários exercícios. O que eles fazem não tem valor musical em termos de opções rítmicas e tonais disponíveis. Aprender teoria e a ler bem música são muito importantes no MI. Eles tem aulas feitas especificamente para ensinar a tocar rápido, mas eles também tem aulas de harmonia, se você não se importasse em aprender e fazer símbolos musicias e termos teóricos. Se era isso que você queria se concentrar em fazer - então era um ótimo lugar para se estar. Eu tinha passado tanto tempo praticando no meu quarto, que eu estava mais interessado em caminhar pela Hollywood Boulevard cheirando cocaína, saindo com as pessoas.

Ei, eu era um desses jovens da Hollywood Boulevard que ficavam se olhando nas janelas, levando a guitarra por aí fora do case. Esse era eu! Eu saía andando pelas ruas praticando guitarra o tempo todo. Eu passava muito pouco tempo ao redor de pessoas. Eu tinha apenas alguns amigos que eu gostava e que não pareciam sentir inveja de mim da maneira que as crianças sentiam quando eu era jovem. Eu não ligava se eu iria ser um rockstar rico e famoso, ou se eu seria um músico de estúdio anônimo. Tudo que eu sabia era que eu era bom na guitarra. EU NÃO IRIA CONSEGUIR UM EMPREGO NORMAL, EU NÃO IRIA PROCURAR TRABALHO EM LUGAR NENHUM. EU TINHA CONFIANÇA QUE IRIA ME DAR BEM FAZENDO MÚSICA.

Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (páginas 126 e 127)
Tradução: Pedro Tavares

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