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25 de março de 2020

John Frusciante conta como conheceu o Red Hot Chili Peppers


John Frusciante conta como conheceu o Red Hot Chili Peppers e qual foi a primeira vez que ele viu a banda ao vivo. O relato faz parte do livro no An Oral/Visual History lançado pela banda com a colaboração de Brendan Mullen em 2010.


"Eu vi o Red Hot Chili Peppers pela primeira vez no programa do Alan Thicke [Thicke of the Night], de onde eu tinha um vídeo deles. Meu amigo Gerald me fez uma coletânea de vídeos com muito The Residents, Sun Ra e outras coisas estranhas. O primeiro vídeo que eu vi não tinha nem o Hillel, mas depois o Gerald me fez uma coletânea em fita cassete do Captain Beefheart e mais algumas outras coisas que eu nunca tinha ouvido, como "Yertle the Turtle" do Freaky Styley. Eu gostei muito da guitarra nessa música.







A primeira vez que eu vi o Red Hot Chili Peppers ao vivo foi no Variety Arts Center, e foi realmente incrível. Eles tinham um som muito diferente - foi antes do Uplift Mofo sair. Eles tocavam esse som bem pesado. Eles ficavam bem psicodélicos usando pintura corporal luminosa e tudo mais. Hillel fazia uns feedbacks incríveis e coisas assim. Foi a experiência mais mágica que eu já tive na plateia de um show. Com a luz negra, parecia que a banda e o público eram uma coisa só. Depois disso eu comecei a vê-los o máximo que eu podia, todas as vezes que eles tocavam em LA ou por perto. E eu sempre senti como se eu fosse parte daquilo. O mesmo tipo de coisa de quando eu ouvi Cat Stevens aos quatro anos - a música estava dentro de mim, e não era como se eu me sentisse particularmente conectado com o público, mas simplesmente sentia como se tudo ali fosse uma coisa só. Não parecia que a música estava sendo tocada para uma plateia - era como se todo mundo que estivesse lá fosse a música."




Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (página 108)
Tradução: Pedro Tavares



14 de fevereiro de 2020

A turnê de Stadium Arcadium elucidada pelos Red Hot Chili Peppers


No livro An Oral/Visual History, os Red Hot Chili Peppers explicam o porquê da turnê de Stadium Arcadium não ter acontecido como o planejado e chegou a partir de certo ponto ser desgastante - trazendo consequências maléficas para os integrantes da banda.



"Parecia que a turnê de Stadium Arcadium tinha um ano e meio, os primeiros seis meses foram divertidos, com muito material para escolher. Tornou-se um tipo de cubo mágico de canções, para descobrir quais músicas escolher, entre as antigas e as vinte e cinco novas músicas. Era novidade e estávamos tocando realmente bem - pensei que estávamos no topo do nosso jogo. Tudo estava bem. Quer dizer, existia fome, confusão, insatisfação, o que quer que seja - esses momentos permitiram o surgimento de ressentimento para os mais velhos e novos. Tudo o que sei é que nos primeiros seis meses estávamos arrasando! Tocando muito bem! A energia era fenomenal. E então, tornou-se mais difícil manter esse entusiasmo pelo próximo ano. Flea odeia finais de turnê. Tudo o que ele se lembra é isso, eu acho, no final de um ano e meio em turnê todo desgraçado odeia turnês. Era o fim: éramos torradas queimadas egomaníacas."
- Anthony Kiedis



"Eu me sinto feliz no palco quanto mais fico “dentro de mim mesmo”. Em Stadium [Arcadium] eu pude fazer isso enquanto me conectava com todos. Muitos improvisos entre Flea e eu, muitos momentos de fechar os olhos e me deixar levar pela energia, coisas do tipo. Para mim essas foram as melhores vezes que tocamos juntos, em termos de improviso, e tornar cada show um verdadeiro evento artístico único. Como fazíamos muitos improvisos, tivemos shows ruins e bons. Mas essa era a energia com que trabalhávamos e você aproveita o show ruim - apesar que quando é ruim e seus amigos estão lá, você sente-se mal. Mas de qualquer forma vale a pena. Na maioria das vezes tivemos bons shows nos quais as pessoas podiam dizer o que estava acontecendo no momento - não era planejado ou qualquer coisa do tipo."
- John Frusciante



"Os primeiros seis meses foram explosivamente divertidos. Eu também comecei a fazer essa coisa - primeiro eu usava sapatilhas de ballet de sola fina, para me livrar da canelite - em turnês eu pulo muito e tenho canelite desde 1990 - então esse médico excêntrico me disse para me livrar dessas solas e os pés melhorariam. Funcionou. Nada de canelite. Mas eu comecei a fazer a parada de mão [no bumbo] na bateria de Chad, e me jogava para cima no meio do show, e me amarrei nisso, me jogar no ar, primeiro os pés e mergulhando feito um cisne. Depois de seis ou oito meses eu percebi que estava com dificuldade de andar. Fui ao médico, fiz raios-x e ele disse: “você tem os dois pés quebrados - poupe esses pés por um ano” e eu fiquei tipo “estarei em turnê por seis meses”. Não era somente o fato de doer, mas energeticamente é como fazer um furo num balão. Então eu tive que pensar um jeito de completar a turnê, acabei usando espuma cirúrgica toda noite e depois colocava gelo nos pés, mas basicamente eu ignorei meus pés. E minhas pernas nunca se recuperaram. Eu não posso andar ou correr nenhuma distância por que meu osso cicatrizou errado em meu pé. Então é como andar com uma junta embaixo do pé, como se um osso tocasse a superfície que piso. Eu vou achar uma solução."
- Anthony Kiedis



"Acaba tornando-se brutal. Tocar é ótimo, mas viajar - eu não quero soar chorão. Eu tenho um emprego incrível que amo. O fato é, não temos mais 25 anos. Temos família e ficamos longe de casa muito tempo. E isso é duro. Então saímos novamente por mais seis meses - até o final foi duro - Austrália foi difícil e Anthony tinha machucado o pé. Ele não podia fazer as coisas do jeito dele e isso o chateava. Flea estava adoecendo. A animação saia pela janela. Acabou se tornando um “trabalho”. John não estava curtindo muito, tocava bem mas adicionamos [o guitarrista] Josh [Klinghoffer] para tocar conosco."
- Chad Smith



"John estava desapontado por ter que tocar as mesmas músicas várias vezes. Garanto que fizemos o nosso melhor para garantir oportunidades de improviso toda noite. No começo nossos shows foram apenas em teatros e clubes. Conforme o tempo passava e nos acostumamos com estádios, nossa música passou a ficar mais apropriada para esses locais. Fizemos um show no Troubadour antes de começar a [turnê] de Stadium [Arcadium]. E eu fiquei chocado de ouvir que nossa música não era compatível com um clube! Era muito forte e alta para um espaço tão pequeno. Percebi que todo nosso estilo de tocar na banda - tudo nosso estilo de compor - gradualmente se transformou em algo adequado para locais realmente grandes."
- Anthony Kiedis



"Para a audiência, é uma música importante para ouvir ao vivo, entendemos isso, e tentamos achar amor e alma naquela música toda noite - e por George fazemos, toda vez. Mas ai teve aquela noite, que não estamos fluindo ou sentindo, e uma jam de abertura - que se tornou nossa assinatura. Então, outras músicas surgiram de sessões de jam, mas ainda estávamos tocando “Give It Away” mais uma vez, e em certo momento, eu acho que John estava tendo dificuldades para tirar o máximo proveito daquilo."
- Anthony Kiedis



"Quando começamos, eu achava que éramos uma banda que tocava em clubes, então eu escrevia músicas que soariam bem. Você toca o que está sentindo e é uma performance de merda. Você fica irritado, tipo por que eu tenho que fazer isso mais uma vez? E então colapsos acontecem, todos tivemos momentos que parecia que não era a melhor ideia fazer isso novamente."
- John Frusciante




Tradução: Eloá Otrenti - Frusciante Brasil
Fonte: An Oral/Visual History
Siga a Frusciante Brasil para ter acesso a informação e a pílulas dessas entrevistas.

21 de janeiro de 2020

Anthony Kiedis explana sobre a segunda saída de Frusciante dos Chili Peppers


Anthony Kiedis falou sobre a decisão de John Frusciante de deixar os Red Hot Chili Peppers pela segunda vez, no livro An Oral/Visual History, lançado pela banda em outubro de 2010.



"Quando o John chegou e disse 'Eu acho que quero fazer outra coisa agora', eu realmente me senti transbordado por uma onda de gratidão pelos anos e meses e dias e horas da criação colaborativa que eu tive com John - uma vida inteira que ele passou na banda. Normalmente se alguém vai sair, como o Flea as vezes sente vontade, eu digo, 'Ei filho da mãe, não saia, estamos fazendo algo que é bom.' Mas quando o John quis sair eu pensei 'Como eu vou lutar contra isso?' Eu nem sinto vontade de lutar - é o que ele quer, Deus o abençoe. Eu tenho sorte de ter tido uma experiência criativa tão caridosa com outro ser humano, e isso é algo a que eu dou muito valor.


Esse cara, e eu, Flea e Chad, quando nos reunimos, essa química é simplesmente insana e produtiva, e a coisa mais perfeita que eu já fiz como artista. Eu quero deixar claro que não houve um sentimento amargo ou algo tipo 'Por que esse cara está decidindo fazer outra coisa'. Realmente é uma grande sensação de agradecimento por termos feito todas as canções que fizemos."



Tradução: Pedro Tavares
Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (página 232)

4 de janeiro de 2020

Anthony Kiedis conta como Frusciante entrou no Red Hot Chili Peppers


Anthony Kiedis contou a história completa da entrada de John Frusciante no Red Hot Chili Peppers, que ocorreu em novembro de 1988, na sua autobiografia Scar Tissue e no An Oral/Visual History - livro da banda.



Scar Tissue

"Começamos imediatamente a ensaiar com D. H. e Blackbird. D. H. logo pareceu se encaixar, era divertido e adorava música. Blackbird teve mais dificuldade. Era um guitarrista talentoso, mas nunca havia estado em uma banda onde todos criavam juntos. Estava acostumado a receber uma fita de George Clinton, entrar num estúdio sozinho e trabalhar durante dias em suas partes.

Mais ou menos nessa época, D. H. apresentou Flea a um jovem fenômeno da guitarra chamado John Frusciante. John era um fanático dos Chili Peppers que assistia a nossos shows desde os 16 anos. Mas Bob Forrest estava atraindo John para tocar com seu grupo, o Thelonious Monster. John me contou que ia até a garagem de Bob para fazer um teste, e eu me ofereci para levá-lo de carro. Para mim, o teste era para o Red Hot Chili Peppers. Já na primeira música, vi que era o cara certo para nós. Então liguei para Blackbird e disse:




Desculpe, mas não podemos ficar com você na banda. Muito obrigado por tudo.
Seu filho da puta! – disse Blackbird.
Ora, Blackbird, não sou eu. É a situação.
Seu filho da puta! Vou queimar sua casa.
Blackbird, não queime minha casa. Foi uma decisão da banda. Não deu certo.
Está bem, eu aceito – ele disse.
Desde que você aceite que vou queimar sua casa.

Foi o fim de nossa conversa. Eu era um filho da puta e ele ia queimar minha casa.




Nem tudo foi perfeito assim que John entrou na banda, mas a química mudou imediatamente. Ele amava fazer parte do Red Hot Chili Peppers, algo que não sentíamos há muito tempo. Apesar de inexperiente, John estava dando tudo de si. D. H. e John eram amigos. Agora, tínhamos um grupo em que queríamos ir para o mesmo lugar. Era muito animador, mas ainda levaria um longo tempo para se consolidar."
- Anthony Kiedis - Scar Tissue


An Oral/Visual History

"Conheci John num quintal durante um churrasco. D.H Peligro o apresentou para nós. Ele dizia "vocês têm que ouvir esse garoto. Ele é um adolescente, um priodígio e ama loucamente os Red Hot Chili Peppers, além de saber tocar todas as suas músicas em vários instrumentos."

Eu pensei: Ora, isso é maravilhoso. Alguém capaz de tocar todo o nosso som e gostar de nós o suficiente para aprender a tudo isso. Nós conhecemos nesta festa e batemos um papo legal. Eu o achei um cara legal, mas ainda não tinha o visto tocar. Flea e ele haviam feito algumas jams em seu apartamento, só os dois. Eles gravaram um pouco daquilo pra mim e acho que fizeram assim por causa da situação com Blackbird. Flea disse: "é estranho, porquê nós já temos um guitarrista, mas esse garoto se parece mais conosco". Flea me mostrou o som que havia feio com John dizendo "aah, vamos fazer o que é preciso fazer". Nós não ainda não tínhamos demitido Blackbird, mas já estávamos andando com John um pouco.




John disse que tinha um teste com Thelonius Monster. Eu disse "Ok, eu te dou uma carona até lá". Eu leve John até garagem de Bob Forest. John chegou lá e arrasou no teste. Eu pensei: "Eu não posso deixar ele se juntar ao Thelonius Monster. Ele é o nosso guitarrista. Eu tenho que intervir nisto agora! Nós temos que pegar esse garoto para nós. Eu odeio fazer isso com com Bob, mas eu não poderia deixar John escapar."

De alguma forma, Bob sabia que John foi feito pra tocar no Red Hot Chili Peppers. Bob provavelmente estava puto e frustrado porque estávamos roubando o que poderia ser um grande guitarrista, mas, ao mesmo tempo, eu sentia que havia um entendimento oculto de: "eu entendo, ele é o cara certo para vocês". Bob é generoso, eis que sabia que Blackbird tinha que sair do Red Hot Chili Peppers.




Flea e eu tinha passados por muitas contratações e demissões desde Jack Sherman e agora era minha vez de fazê-la. Liguei para Blackbird, expliquei calmamente que as coisas não estavam dando certo com ele na banda, mas ele acabou levando pro lado pessoal. "Anthony, seus filho da puta! Eu vou queimar a sua casa"."
An Oral/Visual History - págs. 48-49




Fonte: Scar Tissue - Anthony Kiedis e Larry Sloman; e An Oral/Visual History.

17 de março de 2018

A amizade de Anthony Kiedis e Frusciante na turnê de Mother’s Milk





John Frusciante: "A maioria das pessoas estão acostumadas a mais ou menos permanecerem as mesmas. Eu perdia muitas amizades em razão disso. Eu não tinha muitos amigos até eu entrar na banda. Amigos não solícitos ou leais comigo até eu conhecer as pessoas que estavam ao redor da banda. Eu estava muito triste e sozinho, mas sempre estive feliz comigo mesmo. Eu sentia que minha vida estava indo para um lugar bacana. Eu me sentia bem com o que estava acontecendo."




Flea: "Quando John entrou na banda, ele e Anthony eram inseparáveis como dois filhotes, se vestindo igual e andando juntos. John era o companheiro do Anthony – seu parceiro em miniatura. Tudo que Anthony queria fazer, John fazia, até ele posteriormente perceber que precisava mostrar quem ele realmente era e se afastar de Anthony. Então, ele começou a seguir um caminho oposto ao de Anthony. John estava bebendo e se drogando e Anthony, que vivia uma fase de recém sobriedade não estava contente em ver."




Chad Smith: "John idolatrava Anthony. Eram companheiros de quarto na estrada. Eu via a imaturidade de John em vários pontos, mas musicalmente, ele era impecável. Antes de qualquer coisa, ela seguia Anthony como uma sombra. Tudo que eles faziam, faziam juntos."




Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen
Tradução: Lucas Carvalho

4 de março de 2018

One Hot Minute - e o presente dado por Dave Navarro a Frusciante




Chad Smith: "[Em 1997,] Eu não sabia que Anthony tinha visitado John no hospital, nem nada do tipo. Ele disse que John estava indo muito bem na reabilitação. Da ultima vez que eu tinha ouvido falar, eles não estavam falando um com o outro e Anthony disse: "Não, não. Nós passamos por cima disso". E estava surpreso. Haviam se passado 6 anos. Eu não sabia se John conseguia tocar ou se estava tocando guitarra. Eu lembrava dele totalmente estava enferrujado para tocar. Eu acho que Dave Navarro deu uma guitarra para John. Talvez quando ele estava no hospital e eu sei que John a devolveu pra ele. Uma Les Paul ou algo assim. Mesmo John sendo uma grande fã do Jane's Addiction, ele se recusou a escutar qualquer coisa do One Hot Minute. Ele disse que era como se alguém estivesse trasando com sua ex-namorada. Nós não fizemos nada disso. John não fez parte do disco e sequer o ouviu."




Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen
Tradução: Lucas Carvalho

15 de novembro de 2016

Johnny, faz um buraco no céu




Na época do Stadium Arcadium, nós fizemos músicas que eram capazes de se projetarem até a última fila. Eu sempre ouvia isso de amigos que iam ao show - as pessoas da última fila estavam dançando, sabe. Eu lembro de estar na última fila do Forum e estar totalmente desconectado do show. Não é como se nós estivéssemos tentando adivinhar o que o público iria querer - foi mais que isso tornou-se o ambiente em que o meu pensamento musical existia, porque eu estava tocando em arenas. Então eu acho que eu estava fazendo música sem saber que era realmente feita para ser tocada em arenas. O Stadium se deu bem com os locais dos shows naquele momento, e eu entendo que tem algo a ver com o nosso crescimento musical - ele estava viajando pelo caminho que era consistente com os lugares em que estávamos tocando e com as pessoas para quem estávamos tocando. QUANDO EU TINHA DEZESSETE ANOS EU NÃO IMAGINAVA OS CHILI PEPPERS TOCANDO EM NENHUM LUGAR ALÉM DE BOATES E ETC, eu achava que estaríamos perdendo alguma coisa sem isso, mas eventualmente eu não consegui mais nos imaginar tocando em nenhum outro lugar além de locais enormes.




Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (página 10)
Tradução: Pedro Tavares

10 de novembro de 2016

Quando Frusciante decidiu sair pela segunda vez dos Chili Peppers





 Quando o John chegou e disse "Eu acho que quero fazer outra coisa agora", eu realmente me senti transbordado por uma onda de gratidão pelos anos e meses e dias e horas da criação colaborativa que eu tive com John - uma vida inteira que ele passou na banda. Normalmente se alguém vai sair, como o Flea as vezes sente vontade, eu digo, "Ei filho da mãe, não saia, estamos fazendo algo que é bom." Mas quando o John quis sair eu pensei "Como eu vou lutar contra isso?" Eu nem sinto vontade de lutar - é o que ele quer, Deus o abençoe. EU TENHO SORTE DE TER TIDO UMA EXPERIÊNCIA CRIATIVA TÃO CARIDOSA COM OUTRO SER HUMANO, E ISSO É ALGO A QUE EU DOU O MAIOR VALOR.



 Esse cara, e eu, Flea e Chad, quando nos reunimos, essa química é simplesmente insana e produtiva, e a coisa mais perfeita que eu já fiz como artista. Eu quero deixar claro que não houve um sentimento amargo ou algo tipo "Por que esse cara está decidindo fazer outra coisa". Realmente é uma grande sensação de agradecimento por termos feito todas as canções que fizemos.
- Anthony Kiedis




Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (página 232)
Tradução: Pedro Tavares

9 de novembro de 2016

O começo do interesse pelos Chili Peppers


Eu vi o Red Hot Chili Peppers pela primeira vez no programa do Alan Thicke [Thicke of the Night], de onde eu tinha um vídeo deles. Meu amigo Gerald me fez uma coletânea de vídeos com muito The Residents, Sun Ra e outras coisas estranhas. O primeiro vídeo que eu vi não tinha nem o Hillel, mas depois o Gerald me fez uma coletânea em fita cassete do Captain Beefheart e mais algumas outras coisas que eu nunca tinha ouvido, como "Yertle the Turtle" do Freaky Styley. Eu gostei muito da guitarra nessa música.







A primeira vez que eu vi o Red Hot Chili Peppers ao vivo foi no Variety Arts Center, e foi realmente incrível. Eles tinham um som muito diferente - foi antes do Uplift Mofo sair. Eles tocavam esse som bem pesado. Eles ficavam bem psicodélicos usando pintura corporal luminosa e tudo mais. HILLEL FAZIA UNS FEEDBACKS INCRÍVEIS E COISAS ASSIM. FOI A EXPERIÊNCIA MAIS MÁGICA QUE EU JÁ TIVE NA PLATEIA DE UM SHOW. Com a luz negra, parecia que a banda e o público eram uma coisa só. Depois disso eu comecei a vê-los o máximo que eu podia, todas as vezes que eles tocavam em LA ou por perto. E eu sempre senti como se eu fosse parte daquilo. O mesmo tipo de coisa de quando eu ouvi Cat Stevens aos quatro anos - a música estava dentro de mim, e não era como se eu me sentisse particularmente conectado com o público, mas simplesmente sentia como se tudo ali fosse uma coisa só. Não parecia que a música estava sendo tocada para uma plateia - era como se todo mundo que estivesse lá fosse a música.




Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (página 108)
Tradução: Pedro Tavares

8 de novembro de 2016

O período que John Frusciante estava fora dos Chili Peppers pela primeira vez





J: Assim que eu saí da banda - e quando o Jane's Addiction parou - eu me via muitas vezes ao redor de Perry Farrell em situações de festas. Perry disse, "Eu entendo de onde você vem, porque eu fiz a mesma coisa com o Jane's Addiction. Você não pode fazer uma coisa simplesmente porque você teve sucesso naquilo. Você tem que dar o próximo passo e fazer daquilo parte de você mesmo". Eu não consigo lembrar exatamente o que ele disse. Eu ainda não sei como explicar, mas eu ainda acho que eu estava certo. Eu acho que o Perry achava a mesma coisa na época, e espero que ele ainda ache.




 Eu tinha muita empatia com Perry por ele ter um comportamento de resistência ao sucesso, o que eu acho ser importante que as pessoas façam. Tipo quando EU VEJO ESSAS BANDAS DE HOJE E ELAS ESTÃO SIMPLESMENTE CORRENDO ATRÁS DO SUCESSO E ELAS FARÃO QUALQUER COISA POR ISSO, É MUITO DESINTERESSANTE, MUITO CHATO, MUITO TRANSPARENTE. Eu vi o Perry resistindo ao sucesso, não cuspindo na cara, mas também não pulando em direção a ele porque SE VOCÊ FOR PULAR NOS BRAÇOS DO SUCESSO, ELES VÃO TE ESMAGAR. A maneira como ele lidava com aquilo - mesmo que ele se arrependa hoje - era muito inspirador para mim. Eu nunca teria conseguido fazer tudo que fiz para chegar onde estou agora nesse momento da minha vida, onde estou praticamente resolvido pro resto da vida. Da minha própria maneira eu também resisti ao sucesso, e fico feliz em ter feito isso. A curto prazo isso dificultou minha vida, e deixou muitas pessoas bem confusas, mas a longo prazo eu me sinto muito bem sobre isso.




 Johnny Depp e Gibby Haynes fizeram um filme na minha casa. Eu tinha decidido ser um viciado em drogas. Eu já estava usando drogas recreacionalmente - já fazia isso há cerca de um ano, mas houve um momento em que eu estava tão deprimido após sair da banda e eu tinha tanta coisa na cabeça, coisas que eu não conseguiria resolver com as coisas que eu tinha pensado sozinho sobre minha própria vida e a natureza humana. Enquanto eu as resolvia, elas eram bem excitantes, mas depois de resolvidas, o mundo simplesmente parecia ser esse lugar horrível. Minha percepção das coisas se inverteram - tudo que antes era lindo agora era feio.




 Eu costumava ir no meu telhado que era a uns 60 metros do chão porque era numa colina e em cima de uns suportes. O meu uniforme de ir para o telhado era de guerrear contra os fantasmas - óculos que Perry me deu e minha máscara de ski com todas as partes do meu corpo cobertas. Nenhum buraco. Calças de moletom colocadas pra dentro das meias. Não se podia me tocar em nenhuma parte. Aquilo fazia muito sentido na época!



 RICK RUBIN (Produtor): Eu visitei o John quando ele estava na pior várias vezes, era chocante - todos pensavam que ele claramente iria morrer logo. Ele estava nesse caminho. Completamente sem nenhum remorso de estar num caminho que era fatal. Nenhum pensamento em se limpar - ele queria ser um viciado em drogas. Ele acabou quase se matando várias vezes e queimando a própria casa.

KIM WHITE (Promoção EMI): John não morava de fato em lugar nenhum, todos os seus cheques iam para a casa do Flea. Um dia a filha do Flea, Clara, começou a desenhar no verso de um cheque de $600,000 em royalties com um giz de cera. Um outro estava nos matos do quintal, levado pelo vento! O Flea disse, "Eu digo a ele que eles estão aqui mas ele nunca quer vir buscar".



J: Eu estava pintando o tempo todo, minha vida era pintar e fazer essas gravações caseiras em quatro pistas que se tornariam o meu segundo disco solo. Depois de ter saído da banda eu simplesmente não me importava muito mais com a minha música. Pintar me fazia feliz. Talvez eu não quisesse me ver tão claramente porque na minha música você pode escutar exatamente o que se passava dentro de mim.




BOB FORREST (Amigo e músico): John estava na pior. Ele falou que a Receita estava segurando o dinheiro dele. E então, eu lhe dei uns $40, e ele falou "Não", e eu disse que tudo bem, e depois falei, "John, eu te devo milhares de dólares". E ele disse, "$12,500 na verdade!"



J: Psicose de cocaína, era como chamávamos. Exemplos disso - "O que eles estão sussurrando sobre mim por trás dessa parede?" "Alguém quer me matar". Esses eram os mais comuns. Eu nunca tive nada disso. Eu tive os piores. Depois que eu liguei pro Perry Farrell a umas 7:00 da manhã dizendo "Como você tira essas cobras dos olhos?". Ele falou, "Quê?". Eu disse, "Tem umas cobras nos meus olhos - como eu me livro delas?". Perry me falou que eu estava desequilibrado - muito yin, e não muito yang ou algo assim. Eu não conseguia ter mais nenhum prazer em estar vivo. Ao usar heroína e cocaína o tempo todo, eu me sentia eu mesmo de novo. TODOS ESTAVAM TENTANDO ME CONVENCER A PARAR. EU DIZIA, "ME DÊ UM BOM MOTIVO". NINGUÉM CONSEGUIA. Perry, quem eu respeitava muito, foi o único. Uma noite ele dirigiu até a minha casa no meio de uma das suas famosas farras de crack que duravam dias. Ele sentou no carro dele e explicou, "Você precisa usar drogas e não usar drogas. Depois de você usar por um tempo é bem mais difícil de parar - tipo, se você parar agora, você deve ser capaz de conseguir em alguns dias, mas se você parar daqui a quatro anos ou algo assim, vai demorar muito mais, mas por enquanto, vamos levá-lo no hospital". Nós paramos no estacionamento. Eu tinha cerca de 30 gramas de heroína persa e mais ou menos o mesmo de cocaína. Perry disse que ia jogar tudo pros mendigos em Venice ou sei lá - é, duvido. Eu só continuei usando o máximo que pude antes de entrar no hospital. Então, entramos no pronto-socorro e o Perry disse pra duas enfermeiras, "Escutem, eu vou ser bem honesto com vocês. Ele está sob efeito de muitas drogas no momento, então porque você não espera um pouco antes de lhe dar qualquer medicamento?". O que acontece assim que Perry vai embora e me dão um leito? Outra enfermeira me traz um monte de comprimidos e diz, "Tome esses." Eu falei, "Eu preciso?", e ela responde, "Sim." Eu disse "Eu acabei de usar muitas drogas" - e ela falou, "Tome os remédios". ENTÃO EU TOMEI E ACORDEI COM UM CATÉTER NO MEU PAU NUMA SALA BRANCA SEM MÉDICOS OU ENFERMEIRAS AO MEU REDOR. EU TIVE UMA OVERDOSE - MORRI POR UM SEGUNDO. Eles estavam preocupados em serem processados. Eles me colocaram em quarentena. Eu estava sob o efeito de tantos medicamentos que eu não lembro do que aconteceu até eu ter saído do hospital há uns quatro dias. Assim que eles me tiraram da quarentena eu pedi pra alguns amigos me buscarem. Ninguém tentou me fazer mudar de ideia. Isso foi o que eu precisava fazer naquele período. Demorou alguns anos sem ser um viciado em drogas para eu me sentir uma pessoa normal.




Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (páginas 64, 65 e 66)
Tradução: Pedro Tavares

7 de novembro de 2016

A infância e a adolescência de John Frusciante


kkk

Eu descobri o punk quando eu tinha uns nove anos. Eu gostava de Devo, dos Ramones, de B-52's, e depois eu consegui um álbum do The Germs em 79 quando foi lançado. Daí em diante, eu gradualmente comecei a focar num punk mais radical, das primeiras bandas de skatecore da costa oeste. Até aí, Devo era a minha banda favorita, mas isso mudou para The Germs, X, Black Flag, Circle Jerks, Wasted Youth, Adolescents e mais e mais. Eu escutava o programa de rádio de Rodney [Bingenheimer] todos os sábados e domingos na KROQ-FM - eu gravava o programa e sentava na cama escutando tudo de novo depois que acabava. Às vezes o Rodney tocava até demos em fita cassete! Isso inspirava mais jovens a acharem que eles também podiam fazer aquilo. O HARDCORE DA COSTA OESTE ERA MÚSICA FEITA POR ADOLESCENTES E PARA ADOLESCENTES - ESSE ERA O SENTIDO DAQUILO.



Antes de eu me mudar para Mar Vista, nós morávamos em Santa Monica e eu ia para o Marina Skate Park todo fim de semana. Eu tinha cabelo curto e eu o deixava espetado. Eu escutava as pessoas mais velhas falando alguma coisa sobre essa banda ou aquela. Dos nove até os onze, eu andava de skate. Era assim que eu descobria músicas novas. Se eu pudesse fazer o que quisesse, eu teria ficado ali o dia todo, todos os dias, logo depois da escola, mas minha mãe não deixava. Eu andava até à loja Mrs. Gooch em Mar Vista porque eu tinha amigos mais velhos que trabalhavam lá, de vinte e três anos ou que seja. Eu conheci meu primeiro amigo punk lá. Quando eu comecei a gostar de punk, alguns amigos não quiseram mais ser meus amigos. Definitivamente tinham algumas crianças que não gostavam de mim. Eu não podia ir para shows quando eu gostava de punk - minha mãe não deixava. Ficar pulando dentro da rodinha de porrada e enlouquecer e dançar - parecia ser algo muito bonito para mim, mas não para ela. Esse cara chamado Craig que trabalhava na Mrs. Gooch e seu melhor amigo tinha um irmão mais novo, da minha idade, que também gostava de punk. Nossa primeira conversa foi, "Então, cara, eu ouvi dizer que você gosta de [The Black] Flag?" e eu respondi, "Completamente."




Eu enchi alguns jarros de moedas para poder comprar discos de vinil - na época você conseguia comprá-los por $3,99. Eu estava nessa loja de discos em Santa Monica comprando um disco do Ramones quando eu conheci essa garota, provavelmente com uns dezoito anos, e ela me falou que conhecia Darby Crash e que ela gostava de The Doors - e que Darby e Jim Morrison eram grandes poetas. Ela falou que eu devia comprar um disco do The Doors, então na outra vez eu comprei essa compilação muito boa, um álbum de maiores sucessos, eu acho. PUNK AGORA PARECIA ALGO COMO DARBY E JIM MORRISON COM IGGY E BOWIE NO MEIO. Eu também tinha livros em casa. Meu pai gostava muito de filosofia, um assunto que estava sempre sendo discutido em casa, então, felizmente, eu tinha ele ou alguns amigos com quem eu podia falar sobre isso. Minhas novas descobertas - Eno, Byrne, tinham uma inclinação intelectual a tudo que eles faziam e assim, estudar a natureza da mente tornou-se cada vez mais importante.




Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (página 118)
Tradução: Pedro Tavares

2 de novembro de 2016

A formação musical de John Frusciante




A música sempre significou mais pra mim do que para as outras pessoas. Para os outros, era algo a se usar no braço, mas ela me completava de uma maneira que não pode ser realmente explicada. EU ESCUTAVA MÚSICAS DENTRO DA MINHA CABEÇA MESMO SEM AINDA SABER TOCAR UM INSTRUMENTO. Eu escutava canções que eu nunca tinha escutado antes e elas eram muito boas, e eu tinha uns oito anos, andando pela rua escutando essa música maravilhosa na minha cabeça. Eu pensava, "Uau, se eu soubesse cantar o que eu escuto na minha cabeça ou como tocar num instrumento, eu poderia fazer esses sons. Eu poderia fazer músicas muito boas!". Eu comecei a andar de skate e pensei em ser skatista. Eu lembro de estar na escola escrevendo que eu queria ser um ator. Mas todas as vezes que eu fazia isso, uma voz vinha na minha cabeça dizendo algo tipo, "Bem, você adoraria fazer essas coisas, mas você não vai fazê-las - você vai ser um rockstar."




Minha primeira memória de escutar uma música e realmente senti-la com meus próprios sentimentos e não os da minha mãe ou do meu pai foi na casa de um vizinho - as luzes estavam apagadas na sala de estar dele e era um disco de Cat Stevens que estava tocando. Eu só tinha quatro anos, mas eu pude sentir que aquela música se conectava comigo, minha alma e a minha vida de uma maneira muito direta e profunda. Eu sempre tinha escutado como se fosse algo soando fora de mim - dessa vez era como se a música estivesse tocando na minha cabeça, dentro de mim.




No dia que eu comecei a tocar guitarra eu escrevi trinta canções punk uma atrás da outra - a música já estava lá dentro. Eu só precisava aprender a tocar um instrumento. O punk não era intimidante como Jimmy Page ou quem fosse. Qualquer um podia fazer. Assim que eu comecei a escutar esse tipo de música, eu peguei um violão - eu nem me importava se não era uma guitarra. No começo eu queria tocar guitarra - mas meus pais não quiseram me comprar uma. Eles não achavam que eu iria gostar. EU PRECISAVA TANTO FAZER AQUILO QUE EU NEM ME IMPORTAVA EM SER FORÇADO A TOCAR PUNK ROCK NUM VIOLÃO.




Meus gostos se encaminharam para sons mais artísticos - Eno, David Byrne, Talking Heads, Laurie Anderson, e King Crimson. Rock progressivo e rock artístico. Eu gostava de Bowie e de Yes, e eu escutava muito Frank Zappa, o dia todo, todo dia, estudando a música dele e tocando acompanhando os seus discos. Quando eu tinha quinze ou dezesseis anos eu sabia uns bons noventa minutos de repertório de canções bem complicadas do Zappa. A maioria sendo dos seus trabalhos solos dos anos 70. Algo tipo "The Black Page". Eu sabia tocar as músicas dele muito bem na guitarra. Era uma maneira de eu ganhar confiança, porque eu achava que se eu conseguia tocar isso, eu poderia fazer o que eu quisesse.




Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (página 118)
Tradução: Pedro Tavares

31 de outubro de 2016

A escolha pela música em detrimento ao ensino médio

 Quando eu tinha uns quinze ou dezesseis anos, eu sabia que a música que eu estava compondo era boa. Eu simplesmente sabia que eu iria fazer aquilo para viver. Mesmo que meu pai não acreditasse em mim tanto quanto eu, ele enxergou que eu acreditava em mim mesmo quando eu lhe falei que eu tinha certeza que iria ser músico. Eu pedi pra fazer um teste de proficiência para que eu não tivesse que ir para o ensino médio. Ele concordou, e quando eu passei, eu quis sair de casa.

 MEU PAI CONCORDOU EM PAGAR MEU ALUGUEL E ME DAR DINHEIRO PARA ALIMENTAÇÃO TODO MÊS MAS SÓ SE EU TOMASSE AULAS DE MÚSICA NA UCLA, OU SMC, OU VALLEY COLLEGE OU SEI LÁ. Eu fui pra cada uma dessas escolas por alguns dias, mas eu não estava interessado em como eles estavam tentando moldar meu cérebro. Meu amigo se inscreveu no Musicians Institute e eu percebi que lá você podia só passar o cartão e eles não faziam lista de presença nas aulas de manhã. Contanto que você passasse o cartão, você recebia a presença. Eu supus que eu já sabia muito dos assuntos e que eu podia me virar indo só para algumas aulas de vez em quando e fazendo a prova trimestral. Eu consegui passar no primeiro teste assim. Eu poderia ter passado no segundo - mas na época eu já estava começando a me dar mal. Eu entrei no nível mais alto que a escola oferecia, e provavelmente teria sido mais fácil se eu tivesse fingido ser horrível quando fiz a audição. Assim eu teria ficado em matérias mais fáceis, com provas mais fáceis. Mas na verdade, eu me exibi e me destaquei. No segundo ou terceiro teste eu não consegui passar. Eu estava indo para poucas aulas só pra ver o que eles estavam fazendo, mas após alguns meses eu nem estava mais indo. Essa escola estava ajudando a minha música a sair um pouco mais para o mundo, e me ajudando a estar perto das pessoas. O principal motivo de eu ir aquela escola era pra fazer jams. Salas de ensaio grátis, as baterias já estavam lá, e você podia trabalhar numa canção, mas eles também tinham uma aula de performance onde você tocava para os alunos.




 Robert Hayes foi o primeiro músico com quem eu realmente me conectei, o primeiro que estava no mesmo nível que eu na minha idade. Nós costumávamos tocar músicas do Hendrix, dos Chili Peppers e do Fishbone. Robert e eu fazíamos muitas jams, ambos gostávamos de jazz, qualquer coisa com uma boa musicalidade, mas também gostávamos de um hardcore mais pesado. Éramos considerados estranhos no MI, não só por gostar de punk - não havia mais ninguém ali que gostasse ao menos de Jimi Hendrix. Os jovens achavam que Hendrix era muito simples - que era coisa velha. Robert e eu éramos os únicos estudantes que pensavam da maneira como pensávamos. Eu admito que gostávamos de escutar alguém tocando rápido, mas não as custas da alma, do espírito emocional daquilo - a essência de Hendrix, nós pensávamos, mas isso estava muito distante do pensamento dos nossos colegas. As crianças eram treinadas como robôs mecânicos sem cérebro para julgar uma música pela velocidade que alguém a tocava, por quantas técnicas eles faziam ao mesmo tempo.




Quando eu escuto guitarristas rápidos, o que eles fazem em termos de ritmo e acento não é muito complexo em relação à estrutura que a natureza oferece. Os possíveis lugares em que as notas podem ir. E quando eles tocam rápido, eles costumam tocar notas que são próximas uma das outras. Você escuta a maioria dos guitarristas rápidos dos anos 80, e as notas são próximas e não há muito pensamento em onde colocá-las - é só encaixar o máximo de notas no menor espaço possível, sendo na maioria das vezes usadas as escalas e vários exercícios. O que eles fazem não tem valor musical em termos de opções rítmicas e tonais disponíveis. Aprender teoria e a ler bem música são muito importantes no MI. Eles tem aulas feitas especificamente para ensinar a tocar rápido, mas eles também tem aulas de harmonia, se você não se importasse em aprender e fazer símbolos musicias e termos teóricos. Se era isso que você queria se concentrar em fazer - então era um ótimo lugar para se estar. Eu tinha passado tanto tempo praticando no meu quarto, que eu estava mais interessado em caminhar pela Hollywood Boulevard cheirando cocaína, saindo com as pessoas.




Ei, eu era um desses jovens da Hollywood Boulevard que ficavam se olhando nas janelas, levando a guitarra por aí fora do case. Esse era eu! Eu saía andando pelas ruas praticando guitarra o tempo todo. Eu passava muito pouco tempo ao redor de pessoas. Eu tinha apenas alguns amigos que eu gostava e que não pareciam sentir inveja de mim da maneira que as crianças sentiam quando eu era jovem. Eu não ligava se eu iria ser um rockstar rico e famoso, ou se eu seria um músico de estúdio anônimo. Tudo que eu sabia era que eu era bom na guitarra. EU NÃO IRIA CONSEGUIR UM EMPREGO NORMAL, EU NÃO IRIA PROCURAR TRABALHO EM LUGAR NENHUM. EU TINHA CONFIANÇA QUE IRIA ME DAR BEM FAZENDO MÚSICA.



Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (páginas 126 e 127)
Tradução: Pedro Tavares
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