8 de novembro de 2016

Pelado na chuva - An Oral/Visual History


J: Assim que eu saí da banda - e quando o Jane's Addiction parou - eu me via muitas vezes ao redor de Perry Farrell em situações de festas. Perry disse, "Eu entendo de onde você vem, porque eu fiz a mesma coisa com o Jane's Addiction. Você não pode fazer uma coisa simplesmente porque você teve sucesso naquilo. Você tem que dar o próximo passo e fazer daquilo parte de você mesmo". Eu não consigo lembrar exatamente o que ele disse. Eu ainda não sei como explicar, mas eu ainda acho que eu estava certo. Eu acho que o Perry achava a mesma coisa na época, e espero que ele ainda ache.

 Eu tinha muita empatia com Perry por ele ter um comportamento de resistência ao sucesso, o que eu acho ser importante que as pessoas façam. Tipo quando EU VEJO ESSAS BANDAS DE HOJE E ELAS ESTÃO SIMPLESMENTE CORRENDO ATRÁS DO SUCESSO E ELAS FARÃO QUALQUER COISA POR ISSO, É MUITO DESINTERESSANTE, MUITO CHATO, MUITO TRANSPARENTE. Eu vi o Perry resistindo ao sucesso, não cuspindo na cara, mas também não pulando em direção a ele porque SE VOCÊ FOR PULAR NOS BRAÇOS DO SUCESSO, ELES VÃO TE ESMAGAR. A maneira como ele lidava com aquilo - mesmo que ele se arrependa hoje - era muito inspirador para mim. Eu nunca teria conseguido fazer tudo que fiz para chegar onde estou agora nesse momento da minha vida, onde estou praticamente resolvido pro resto da vida. Da minha própria maneira eu também resisti ao sucesso, e fico feliz em ter feito isso. A curto prazo isso dificultou minha vida, e deixou muitas pessoas bem confusas, mas a longo prazo eu me sinto muito bem sobre isso.

 Johnny Depp e Gibby Haynes fizeram um filme na minha casa. Eu tinha decidido ser um viciado em drogas. Eu já estava usando drogas recreacionalmente - já fazia isso há cerca de um ano, mas houve um momento em que eu estava tão deprimido após sair da banda e eu tinha tanta coisa na cabeça, coisas que eu não conseguiria resolver com as coisas que eu tinha pensado sozinho sobre minha própria vida e a natureza humana. Enquanto eu as resolvia, elas eram bem excitantes, mas depois de resolvidas, o mundo simplesmente parecia ser esse lugar horrível. Minha percepção das coisas se inverteram - tudo que antes era lindo agora era feio.
Eu costumava ir no meu telhado que era a uns 60 metros do chão porque era numa colina e em cima de uns suportes. O meu uniforme de ir para o telhado era de guerrear contra os fantasmas - óculos que Perry me deu e minha máscara de ski com todas as partes do meu corpo cobertas. Nenhum buraco. Calças de moletom colocadas pra dentro das meias. Não se podia me tocar em nenhuma parte. Aquilo fazia muito sentido na época!

RICK RUBIN (Produtor): Eu visitei o John quando ele estava na pior várias vezes, era chocante - todos pensavam que ele claramente iria morrer logo. Ele estava nesse caminho. Completamente sem nenhum remorso de estar num caminho que era fatal. Nenhum pensamento em se limpar - ele queria ser um viciado em drogas. Ele acabou quase se matando várias vezes e queimando a própria casa.

KIM WHITE (Promoção EMI): John não morava de fato em lugar nenhum, todos os seus cheques iam para a casa do Flea. Um dia a filha do Flea, Clara, começou a desenhar no verso de um cheque de $600,000 em royalties com um giz de cera. Um outro estava nos matos do quintal, levado pelo vento! O Flea disse, "Eu digo a ele que eles estão aqui mas ele nunca quer vir buscar".

J: Eu estava pintando o tempo todo, minha vida era pintar e fazer essas gravações caseiras em quatro pistas que se tornariam o meu segundo disco solo. Depois de ter saído da banda eu simplesmente não me importava muito mais com a minha música. Pintar me fazia feliz. Talvez eu não quisesse me ver tão claramente porque na minha música você pode escutar exatamente o que se passava dentro de mim.

BOB FORREST (Amigo e músico): John estava na pior. Ele falou que a Receita estava segurando o dinheiro dele. E então, eu lhe dei uns $40, e ele falou "Não", e eu disse que tudo bem, e depois falei, "John, eu te devo milhares de dólares". E ele disse, "$12,500 na verdade!"

J: Psicose de cocaína, era como chamávamos. Exemplos disso - "O que eles estão sussurrando sobre mim por trás dessa parede?" "Alguém quer me matar". Esses eram os mais comuns. Eu nunca tive nada disso. Eu tive os piores. Depois que eu liguei pro Perry Farrell a umas 7:00 da manhã dizendo "Como você tira essas cobras dos olhos?". Ele falou, "Quê?". Eu disse, "Tem umas cobras nos meus olhos - como eu me livro delas?". Perry me falou que eu estava desequilibrado - muito yin, e não muito yang ou algo assim. Eu não conseguia ter mais nenhum prazer em estar vivo. Ao usar heroína e cocaína o tempo todo, eu me sentia eu mesmo de novo. TODOS ESTAVAM TENTANDO ME CONVENCER A PARAR. EU DIZIA, "ME DÊ UM BOM MOTIVO". NINGUÉM CONSEGUIA. Perry, quem eu respeitava muito, foi o único. Uma noite ele dirigiu até a minha casa no meio de uma das suas famosas farras de crack que duravam dias. Ele sentou no carro dele e explicou, "Você precisa usar drogas e não usar drogas. Depois de você usar por um tempo é bem mais difícil de parar - tipo, se você parar agora, você deve ser capaz de conseguir em alguns dias, mas se você parar daqui a quatro anos ou algo assim, vai demorar muito mais, mas por enquanto, vamos levá-lo no hospital". Nós paramos no estacionamento. Eu tinha cerca de 30 gramas de heroína persa e mais ou menos o mesmo de cocaína. Perry disse que ia jogar tudo pros mendigos em Venice ou sei lá - é, duvido. Eu só continuei usando o máximo que pude antes de entrar no hospital. Então, entramos no pronto-socorro e o Perry disse pra duas enfermeiras, "Escutem, eu vou ser bem honesto com vocês. Ele está sob efeito de muitas drogas no momento, então porque você não espera um pouco antes de lhe dar qualquer medicamento?". O que acontece assim que Perry vai embora e me dão um leito? Outra enfermeira me traz um monte de comprimidos e diz, "Tome esses." Eu falei, "Eu preciso?", e ela responde, "Sim." Eu disse "Eu acabei de usar muitas drogas" - e ela falou, "Tome os remédios". ENTÃO EU TOMEI E ACORDEI COM UM CATÉTER NO MEU PAU NUMA SALA BRANCA SEM MÉDICOS OU ENFERMEIRAS AO MEU REDOR. EU TIVE UMA OVERDOSE - MORRI POR UM SEGUNDO. Eles estavam preocupados em serem processados. Eles me colocaram em quarentena. Eu estava sob o efeito de tantos medicamentos que eu não lembro do que aconteceu até eu ter saído do hospital há uns quatro dias. Assim que eles me tiraram da quarentena eu pedi pra alguns amigos me buscarem. Ninguém tentou me fazer mudar de ideia. Isso foi o que eu precisava fazer naquele período. Demorou alguns anos sem ser um viciado em drogas para eu me sentir uma pessoa normal.

Fonte: An Oral/Visual History - Red Hot Chili Peppers with Brendan Mullen (páginas 64, 65 e 66)
Tradução: Pedro Tavares

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