4 de janeiro de 2017

Otários Sabichões - Fevereiro de 1990


Os Red Hot Chili Peppers estarão gravando na Grã Bretanha a parte B de seu único e incrível single "Higher Ground". JACK BARRON os encontrou em um buraco de tatuagens em Amsterdã e aproveitou sua obsessão com Mother's Milk.

O quarto de porão em Amsterdã está pulsando com suor, picadas e risos. Nas paredes, fotografias de homens e mulheres ilustrados, suas peles multicoloridas contorcendo-se com histórias, e eles olham para nós.

O que predomina nesta tarde no estúdio de Hanky ​​Panky é o barulho. Com pistolas de tatuagem as agulhas constantemente punção tinta na pele, parece que 1.000 hamsters estão sendo assados vivos.

No canto esquerdo fica o dono do lugar, Hank Schiffmacher, com a testa franzida em concentração. Um urso grisalho, o Da Vinci do mundo da tatuagem, Hank usa sua arma nas costas de Anthony. O cantor dos Red Hot Chili Peppers permanece tão impassível quanto um penhasco. Ele esteve aqui antes, sabe do fator de dor envolvido. Hank tem trabalhado na imagem maciça de um índio nativo-americano nas costas do vocalista durante um período de vários anos.

No canto direito, ostentando uma barba pontiaguda e um moicano cor-de-rosa que o faz parecer o filho bastardo de um faraó egípcio, espreita o baixista - estrela de cinema, Flea. A primeira tatuagem que ele fez foi a cabeça de Jimi Hendrix. Hoje ele sorri com uma cobra que está sendo gravada para sempre em seu braço. Embora por trás da alegria encontra-se uma realidade trágica.

Desde a última visita da banda ao estúdio de Hanky ​​Panky, o guitarrista Hillel Slovak morreu de uma overdose de heroína e o baterista Jack Irons deixou a banda. Seus respectivos substitutos - John Frusciante e Chad Smith - estão andando pelo estúdio e debatendo sobre que tatuagens eles estão querendo fazer.

Chad, uma montanha de músculos de Detroit que treinou com percussionistas do Funkadelic, decidiu por um elaborado escorpião com um antigo rosto japonês. John, 19 anos, de Los Angeles, em sua primeira visita fora dos Estados Unidos, não pode decidir. "Awwww, cara, eu aguardei por anos para vir ao Hanky, agora eu sinto como se eu estivesse deixando tudo ir a baixo."

Por um minuto, parece que John está prestes a entrar em erupção com lágrimas de frustração.

"Ficamos frustrados? Claro, às vezes”, analisa Anthony, que afirma ter um pênis de índio. "Mas a música nos levanta, e a única coisa que se pode dizer sobre a nossa música é que ela é uma expressão completa, honesta e direta das experiências de nossas vidas."

NÓS ESTAMOS em Voorburgwal na esquina do bairro de luz vermelha de Amsterdã. No início do dia, os Chili Peppers tinham tocado um curto set na Praça Dam como parte de um festival de artes. Eles foram espremidos entre freiras e cantores de ópera. Os Red Hot Chili Peppers são grandes novidades para a Holanda e para os holandeses - ao contrário dos britânicos - eles sugaram um pouco da musica da banda de Hollywood como bebês sugam a um peito, que é apto porque seu último álbum se chama Mother's Milk.

Como com seus três LPs anteriores, a banda - sob a égide do produtor, Michael Beinhorn - continuou seu idiossincrático jeito de implodir os picos do trash-punk e  funk. ainda tropeçou na psicodélica. As pessoas estão os conhecendo agora, eles estão para fazer uma grande marca no mapa sônico da América como os Guns N 'Roses.

"Eu acho que se enfrentamos um problema, é que nós confundimos as pessoas", continua Anthony. "As pessoas estão tão acostumadas a uma banda tocando um gênero de música que quando ouve uma banda como o Red Hot Chili Peppers, que expressa tantas facetas diferentes de sua personalidade, sem realmente se importar com o que as pessoas pensam então algumas mentes não sabem como aceitá-lo."

"Eu não considero uma cisma tanto quanto multidimensional. O Red Hot Chili Peppers, nascido e criado na América, foi inspirado por uma série de tipos de música. Não somos constrangidos ou ligados à noção de que temos que ter certo modo com nossas canções.”

Anthony parece bastante subjugado hoje, não é o tipo de sujeito que uma vez atravessou a passagem de pedestres em Londres - Abbey Road - vestindo apenas uma meia no pinto e sorrindo para um anuncio publicitário.

A última vez que o vi - em Los Angeles - ele agiu como se estivesse pegando fogo e não havia água à vista. A banda naquela época estava espanada. A morte de Hillel relacionada a drogas e a queda emocional que isso causou - como gravado na faixa 'Knock Me Down' - obviamente teve um profundo impacto nos Chili Peppers.

"Quando Hillel morreu, a mudança de atitude na banda foi enorme", explica Anthony. "Eu senti como se um pouco de minha alma tivesse sido acinzentada. Ele foi uma grande parte da minha vida, um amigo íntimo e um incrível guitarrista, realmente era como se alguém estivesse cortando metade do seu coração e dizendo para continuar. Foi muito esclarecedor também.”

"Triste como foi, eu aprendi muito com a morte dele. Em Toda a vida nos lideramos com uma série de perdas e ganhos. Ao perder Hillel, ganhei um maior respeito por minha própria vida e também pela relação de amor que compartilho com meus amigos.”

"Você vê, tinha um grande problema com Hillel: ele se tornou tão isolado e perdido através do uso de drogas que ele tinha perdido contato com o que era realmente importante para ele - o amor de seus amigos. Ele nunca quis admitir que tivesse um problema que não podia controlar."

"A natureza da dependência química é comparável à natureza do câncer, é uma doença e você não pode tratar a si mesmo. Você precisa de ajuda, embora não necessariamente de ajuda médica. Fechar-se pode ser mortal.  Foi assim para ele. E isso fez uma grande mudança na minha vida. Eu não uso drogas, incluindo álcool. Eu não tenho usado por mais de um ano. Isso não quer dizer que lamento as experiências que tive com as drogas, porque elas podem ser muito boas."

"Como um jovem crescendo,  o uso do ácido pela primeira vez pode ser um instrumento na forma como você vai levar o resto de sua vida. Mas cheguei ao ponto em que já não funcionava para mim. Então eu fiz a mudança em todo o meu estilo de vida, o que foi difícil depois de 12 anos ficando alto todos os dias’’

 "Eu acho que a mudança se presta a um foco mais extremo sobre o que toda a banda é sobre e minha música. Sentimos a necessidade de ficar juntos, permanecer fortes, e terminar o que começamos todos aqueles anos atrás com esta banda.”

E O QUE eles começaram? Uma pista é dada algumas horas mais tarde em um bar. Os Chili Peppers tocam um curto set improvisado com instrumentos emprestados. As circunstâncias podem não ser perfeitas, mas o resultado permanece o mesmo que chicoteiam através de 'Stone Free’de Hendrix. Aqui está uma banda simultaneamente tão abrasiva quanto a equipe de metais mais intensa que você já viu. Mas também como rítmico - fora que o grupo está mais calmo - você ficaria feliz em ouvir.

Os Chili Peppers são atletas do groove, não é de admirar que se dão tão bem com George Clinton. Em particular, o novo guitarrista John - "Uma injeção funky  de sangue novo" com três chapéus empoleirados em sua cabeça –  e cheio de talento.

Rocking Freakapotamus é uma descrição para o Chili Peppers. Assim eles iam chamar o álbum no início. Sua mistura de humor, virtuosismo e vitalidade são tanto pesados quanto absurdos. Eles realmente só poderiam ter sido originados de Hollywood, estrelas até os seus protetores de saco.

É a velha ética punk, mas sem a jaqueta de couro e gola, ou antes, a ética jazz, mas sem o elitismo e banalidade intelectual: colocar a individualidade antes da massa. Os Chili Peppers são deslumbrantes, mas preferem apoiar uns aos outros como uma unidade, que é o que seu ícone de todos os tempos, o jogador de basquete Magic Johnson dos LA Lakers faz.

"Eu só gostaria de dizer... que porra é The Pet Shop Boys", grita Flea antes de pausar para soltar um longo mijo no canal. Se os Chili Peppers tem uma glândula hiperativa de adrenalina é Flea. Mais tarde no palco, transforma-se em um beatbox humano, emendando melodias de Funkadelic em seu overdrive para o prazer dos holandêses. Mas mesmo ele agora é mais calmo e reflexivo do que antes.

Parte disso é devido a ter uma  filha, parte dele está assumindo a responsabilidade de se tornar um ator. Você pode vê-lo como um provocador diabólico no ombro de Michael J Fox em De Volta Para o Futuro 2 que a ainda uma parte 3 a ser feita.

"Que porra é The Pet Shop Boys?" - pergunta Flea. "Bem, eles sugam demais para fazer qualquer coisa. Eu os odeio, eles são indicativos do que está acontecendo na indústria da música pop. No Top 40 há tão pouca música que tem qualquer significado ou tem qualquer impacto emocional. A música é uma expressão direta do coração, ou deve ser, e os The Pet Shop Boys estão apenas fazendo uma merda de pop para o bem do dinheiro. E eu acho que é realmente triste."

Flea, por que você chamou o último álbum de 'Mother's Milk'?

"Primeiro de tudo, eu tive um bebê no ano passado e eu tenho bebido muito leite materno da minha esposa. É ótimo, o mais doce e quente, é uma bela coisa para beber diretamente do peito de uma mulher que você ama, é um sentimento muito justo. Mas o principal conceito é de que o leite materno é muito bom para você. Ele mantém você forte e faz você saudável e quanto mais você chupar mais você recebe. 

E a nossa musica é tudo isso. Acreditamos que com o novo álbum damos música às pessoas para mantê-las fortes e saudáveis. Basicamente é muito bom para você.  Gostar do leite da mãe não é perverso, é dar de toda a vida. Você começa sua vida nele, se você tiver sorte.

Quanto às nossas próprias vidas, como uma banda eu acho que nós mudamos - dois novos membros estão começando. Mas o que eu acho que aconteceu é que agora estamos colocando muito mais ênfase no futuro. Eu sempre fui uma pessoa muito irresponsável, não me preocupando com o que as pessoas pensam. 

Eu não me importo com o meu dinheiro, roupas ou meu corpo, mas agora eu tenho uma filha e desde que Hillel morreu eu coloquei mais ênfase na importância de viver cada momento da melhor maneira possível. Eu quero ver minha filha, Clara, crescer e agitar tudo como uma grande e f***  aberração. Isso é como as coisas mudaram e eu acho que é legal. 

O Red Hot Chili Peppers é a última conexão da alma de Hollywood. Nos próximos anos eles serão venerados. Agora mesmo assim se você quiser ignorá-los, então, como eles dizem, "vai se f****, cara."


Tradução: Ygor Almeida
Fonte: Revista NME - 10 de Fevereiro - 1990

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